1O
presente trabalho foi produzido para o Seminário Comemorativo dos 100
anos do 5º Congresso Brazileiro de Geografia (1916-2016), no contexto da
Mesa Redonda Perspectivas de Estudos sobre a História da Geografia nas Instituições de Pesquisa e de Consolidação da Ciência Geográfica.
Na ocasião festiva, presencialmente, ressaltei a importância do evento
por seu caráter e significado, o que torno a repetir neste artigo.
Tratarei aqui de diferentes temas para a difusão de conhecimento sobre a
pesquisa (auto)biográfica, focalizando a relação entre memória e
história, para produzir um paradigma de história institucional, que
reconheça e valorize a trajetória de vida institucional das pessoas.
2A
decisão de rememorar a história, está associada a pesquisa, o que vem
fazendo o organizador do Seminário, professor André Nunes e seu grupo de
pesquisadores. Eles descobriram pessoas, produções esquecidas e
revelando a obra daqueles dois importantes geógrafos. Este seminário
comemorativo, celebra as descobertas históricas e vislumbra ações
futuras. O citado grupo se dedica ao estudo de pessoas que estiveram no
seio de instituições, no centro da cena e da produção geográfica, e,
paradoxalmente, são ilustres desconhecidas para geógrafos brasileiros da
atualidade. Encontrar universitários se dedicando ao estudo biográfico e
a produção de conhecimentos históricos para aumentar o repositório de
dados sobre o campo geográfico no Brasil, é muito louvável. São
geógrafos fazendo história, produzindo pesquisa histórica e desvelando a
formação do campo geográfico no Brasil.
3Foi a tarefa recebida para este evento que me provocou a reencontrar minha tese, intitulada UFBA na memória: 1946-2006
(Marques, 2010) que conta a história da Universidade Federal da Bahia
(UFBA), do nascimento aos sessenta anos. Utilizei os marcos históricos
oferecidos por narradores que viveram a instituição em três diferentes
períodos históricos. A história institucional emergiu da pesquisa
qualitativa e entrevistas narrativas, (Bauer e Gaskell, 2002) ela foi
analisada na perspectiva benjaminiana, o narrador implicado, que conta a
sua trajetória de vida, no contexto social, político, econômico,
cultural. Produzi história da educação e encontrei a UFBA, instituição
singular e modelo nacional.
4Fazer
a história institucional é encontrar a memória, acervos e pessoas, que
darão vida à informação e que difundirão o conhecimento produzido. Para a
história institucional selecionei os lugares e pessoas de memória,
pesquisei arquivos em diferentes unidades, reuni diferentes fontes de
pesquisa para reconhecer o projeto e a ação da Universidade ao longo de
sessenta anos. Conclui que a história e a memória das instituições
emergem a partir do entrecruzamento das lembranças pessoais,
institucionais e de documentos históricos validadores.
5A
Universidade Federal da Bahia, comemora em 2016, setenta anos de
existência. Durante a campanha comemorativa, divulgou-se pessoas que
estudaram e trabalharam/trabalham na Universidade e que alcançaram
projeção em diferentes espaços da sociedade, principalmente na mídia.
Fiquei motivada a fazer esta abordagem, defendendo o lugar de memória
das pessoas na instituição, não pelo seu grau de fama, mas, por serem
parte dela.
6Atualmente,
se fosse dar sequência à pesquisa institucional começada com a tese,
continuaria optando por trabalhar com as pessoas e suas histórias. A
diferença residiria no referencial teórico metodológico que se ampliou
com a utilização da pesquisa (auto)biográfica, narrativas de trajetórias
de vida e narrativas de si. O método (auto)biográfico é muito
apropriado para a pesquisa e construção da história institucional,
porque oferece protocolos para a escuta de pessoas sobre seus
conhecimentos e fazeres. Propicia a identificação do conhecimento tácito
e aviva a memória coletiva. Ele permite destacar a singularidade do
sujeito sem fazer generalizações e focando nas particularidades e
subjetividades. O relato de vida, imerso em contexto geográfico,
histórico, político, organizacional, tem a tarefa de auxiliar o
entendimento de um contexto histórico social ou institucional. A
pesquisa (auto)biográfica e o método (auto)biográfico geram conhecimento
e inovação, conforme as extensas listas de produções da área
registradas em diferentes grupos de pesquisa nacionais e internacionais.
7Na
sociedade globalizada a inovação, a criação e difusão de conhecimento
estão em pauta. Para haver inovação, as instituições precisam da
memória, liberdade de crítica, de criação e abertura para o
compartilhamento. É possível tanto aprender com o passado quanto
construir o futuro da instituição, da empresa, da organização. Neste
sentido, vamos defender neste artigo a seguinte tese: A pesquisa (auto) biográfica é um recurso teórico-metodológico que serve à recuperação da memória e história das instituições.
Serão tratados aspectos conceituais para reconhecer as dimensões do
trabalho com as memórias institucionais, sociais, individuais. A
pesquisa bibliográfica ofereceu as bases para a construção deste artigo,
que visa apresentar e difundir mais um caminho para se fazer a história
da Geografia e instituições de pesquisa, passando pelas pessoas.
8Instituições
como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, (1838) ou o
Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, (1894), enquanto centros de
memória, fazem difusão das ciências, publicam, oportunizam pesquisas
históricas e também precisam manter viva sua história. Os centros de
memórias das instituições e empresas dão visibilidade e acesso aos
dados, preservam, guardam, informações. Um acervo sem uso não gera
conhecimento e recuperar as memórias das pessoas e suas narrativas e
vivências institucionais oxigena as instituições.
9O
que pode aprender a instituição de pesquisa a partir de histórias e
narrativas de vida? Primeiramente, aprender a olhar para o passado, para
analisar o presente e projetar o futuro socialmente referenciado. Se
deve partir para reconhecer os ideários fundacionais da instituição;
recuperar objetivos, missão; encontrar o lugar das pessoas, identificar
demandas de trabalho, sociais, políticas, econômicas levantar elementos
para a construção de um projeto coletivo. No estudo de instituições de
pesquisa é relevante considerar três grandes dimensões: a técnica, a
organizacional e a social, que revelam o trânsito, o diálogo e
interações entre pessoas em âmbito interno e externo.
10Articular
campos diferentes para produzir conhecimento multirreferenciado e
inovador é tarefa dos centros de memória e das instituições de pesquisas
que protegem e disponibilizam informações. Os dados inertes ganham vida
quando há um propósito, conforme Jacques Le Goff (1994: 477): “a
memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura
salvar o passado para servir ao presente e o futuro. Devemos trabalhar
de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a
servidão dos homens”. Esta citação expressa minha compreensão sobre a
memória e história. A memória é interpretação do vivido, com lacunas,
ocultações, silêncios. Revela a singularidade do sujeito, aliando
passado presente, fazendo história e remetendo a experiência para o
futuro, enquanto conhecimento adquirido.
11Os
relatos de vida sobre processos de trabalho, de convivência, podem ter
diferentes objetivos e resultados. No caso da referida tese, as
narrativas dos reitores não visaram apresentar a pessoa na esfera
pública, segundo seu prisma. Enfatizou-se o que eles foram capazes de
fazer o que, como se avaliaram? Estas dimensões, entrecruzadas revelam
indicadores, objetivos e subjetividades, dentro de cada história. Para
diferentes finalidades, desde evidenciar a memória coletiva, a
institucional, a inovação, ou, para recuperar a memória institucional,
há que se considerar o tempo, em seus modos presente, passado e futuro,
na perspectiva de Henry Bergson (1990: 113):
É próprio do tempo decorrer; o
tempo já decorrido é passado, e chamamos presente o instante em que ele
decorre (...) o momento em que falo já está distante de mim. (...) É
preciso, portanto que o estado psicológico que chamo “meu presente” seja
ao mesmo tempo uma percepção do passado imediato e uma determinação do
futuro imediato.
12Promover
o levantamento histórico pela via das narrativas (auto)biográficas pelo
método (auto)biográfico, e seus recursos teórico-metodológicos para se
fazer história das instituições de pesquisa, é uma perspectiva
inovadora. Nas autobiografias, nas narrativas e histórias de vida,
recupera-se o dado e a informação, transformando-os em conhecimento. Nas
universidades, por exemplo, o gênero (auto)biográfico, está presente no
cotidiano formativo e para progressão na carreira docente, alcançada
por meio da produção de memoriais acadêmicos. É uma escrita de si, que
permite revelar a história do narrador, reconhecer sua atuação na
sociedade, no seu tempo. Nas instituições de pesquisa as pessoas que as
sustentam, em termos de produção científica, são aquelas que o método
(auto)biográfico pode auxiliar a emergir.
13A
conceituação é uma tarefa primordial do pesquisador. Quando se adentra a
um campo de conhecimento, é preciso limitar, focalizar o que será
estudado, analisado. Encontrei em Walter Benjamin (2007: 515) a imagem
desse esforço:
Para o dialético, o que importa é
ter o vento da história universal em suas velas. Pensar significa para
ele: içar velas. O que é decisivo é como elas são posicionadas. As
palavras são suas velas. O que é decisivo, é como elas são posicionadas.
O modo como são dispostas transforma-as em conceitos.
14Trabalhar
na perspectiva teórico-metodológica do gênero narrativo ou das
narrativas de si nos remete a um campo multidisciplinar, onde estão as
organizações/instituições. Nelas estão as relações de produção e as
interpessoais. É preciso diferenciar, informação de conhecimento,
reconhecer as referências conceituais, apontadas em Burnham e Souza
(2011: 251):
[A informação] pode ser
considerada, em alguns momentos como dados que possuem relevância e
propósito, e ainda, a matéria prima para a produção do conhecimento
(...) este último é um conjunto de informações que caracteriza
determinado saber sobre um tema. O conhecimento, é agrupado em dois
tipos: tácito e explícito (...).
15Vou
afirmar ao longo desta seção, que a narrativa de si, permite, tanto
recuperar informações, saberes como identificar os conhecimentos tácitos
e explícitos. O tácito que emerge de contextos e formas de interação
social específica, sendo de difícil codificação. Compreendo as pessoas
como dínamos nas instituições, organizações e empreendimentos, os
sujeitos imersos na memória coletiva possuidores de saberes explícitos e
tácitos, que criam, inovam. O conhecimento explícito é codificável, uma
vez transformado em informação, circula, para ser difundido,
comercializado. Lage (2011: 303) analisou estes conhecimentos e afirmou,
que o conhecimento tácito é “um conhecimento que possuímos, mas
dificilmente somos capazes de articular estabelece-se em contraponto ao
conhecimento explícito, formal, sistemático e facilmente comunicável”.
16Considero
que a memória acorda a história e o valor social da instituição, que se
encontra na sua história. A dimensão da memória é multidisciplinar, nos
relatos autobiográficos não interessa dar relevo aos eventos
psicológicos particulares, o pesquisador deve buscar nos relatos, as
continuidades e rupturas, avanços, retrocessos. As histórias de vida que
tecem a história institucional, quando registradas acompanhando
parâmetros teórico-metodológicos, tornam-se fontes históricas. O
desenvolvimento humano no seu movimento dialético toma o passado para
ajudar a construir o futuro.
17A
história oral embora não seja objeto deste trabalho, não pode ser
desconsiderada quando a questão é fazer indicações de recursos
teórico-metodológicos para pesquisa voltada para história de
instituições. Com seus procedimentos técnicos e teorização, a modalidade
de registro histórico ocupa-se das memórias das pessoas. Além de
trabalhar com as histórias de vida, utiliza documentação escrita,
transcrição do depoimento/entrevista/discurso e outros documentos que
auxiliem à investigação histórica, como fotografia, áudio, vídeo. O uso
deste método permite ouvir experiências e reuni-las com dados outros
para formar um entendimento de uma história comum. Conforme Magalhães e
Santhiago (2015: 46), a história oral pode ser compreendida “como um
poderoso método para acessar as múltiplas expressões de subjetividades
localizadas em um tecido social”.
18As
práticas de pesquisa na história oral são semelhantes às do método
(auto)biográfico. Em ambos, a modalidade de entrevista é estruturadora
da investigação ou reconstrução histórica pretendida. Na entrevista não
dirigida, o entrevistado pode falar de si como lhe aprouver, na
modalidade da entrevista temática, o entrevistado falará de suas
experiências mediante um tema disparador e comporta subjetivações. O
método (auto)biográfico assumido neste trabalho, propicia a constituição
de subjetividades, vez que, envolve história de vida de um narrador que
busca contar fragmento de sua vida, buscando os sentidos da narrativa
autobiográfica.
19Em
torno das lembranças do entrevistado, articulam-se as questões que o
pesquisador analisa em conformidade com sua problematização e objetivos.
Registrar a narrativa de alguém, sobre determinado fazer, ocupação ou
sobre a instituição, é complexo. Uma ação ainda mais complexa é dar
tratamento aos dados advindos da narrativa. No discurso estão as
impressões sobre pessoas, as denúncias, questões polêmicas que aparecem e
não podem ser descartadas. O pesquisador deve considerar todas as
particularidades e analisar tudo com muito cuidado para não ferir
suscetibilidades e utilizar o que se adeque ao seu objeto. A
subjetividade no âmbito da narrativa não é menor e deixou de ser um
problema para ser uma virtude. Para Magalhães e Santhiago (2015: 46):
Por muito tempo, a subjetividade
– compreendida de maneira simplista como o mundo interno de um
indivíduo – foi vista como uma das principais fraquezas da história
oral. Afirmava-se que, por captar as perspectivas dos sujeitos, ela
seria volátil, falha, tendenciosa, provisória, limitada. Porém, conforme
a reflexão teórica a se respeito se sofisticou, a história oral passou a
cavar seu ponto forte exatamente naquilo que seria uma fragilidade.
Assumiu-se que, ladeando as mentalidades e sensibilidades, ela levaria
para o centro da cena a experiência e a subjetividade humanas. Em vez de
extirpar a subjetividade de nossos materiais, deveríamos compreendê-la
como algo inerente ao processo de pesquisa, rico em suas
particularidades e potencialidades.
20A
história oral e seus postulados, que legitimam a voz do entrevistado, é
um dos importantes recursos para a produção da pesquisa sobre
trajetórias de vida. O historiador entra em contato com as emoções do
narrador, com suas hesitações, reconstruções de um passado, que somente a
leitura dos documentos não permitiria. A história oral, está voltada
para o que o narrador testemunhou, do que participou, protagonizou. São
experiências tornadas narrativas de si e de terceiros. Se em determinada
altura da coleta for importante incluir outros tipos de dados que não
só a narrativa, tais como documentos, rituais, o método comporta.
21Na
reconstituição do passado pela lente do narrador, revela sua perspectiva
histórica e seus conhecimentos, ou, a falta deles. No método (auto)
biográfico, esta é uma riqueza e não um problema, ele reconhece as
tensões pessoais e as macroestruturais que emergem da subjetividade.
Conforme Magalhães e Santhiago (2015: 36), “as lembranças são
construções sobre os fatos vividos, e não o próprio fato. (...) uma
pessoa, inclusive, pode elaborar relatos diferentes a respeito de sua
vida ou de um determinado acontecimento, de acordo com o momento e as
circunstâncias da rememoração, no presente”.
22Ao
analisar a memória dos que narram, se deve considerar as relações de
poder, o lugar, o território onde habitam/trabalham. O pesquisador deve
escolher narradores que sejam qualificados e significativos para o
enfoque e/ou problemática histórica em estudo.
23Para
Bakhtin (1992: 168), o discurso do sujeito que narra sobre si está
povoado de outras vozes incorporadas. O narrador não está sozinho no
mundo, razão pela qual o discurso é contextualizado, polifônico e revela
a intertextualidade contida na memória. A narrativa de si passa pela
narrativa dos outros sobre nós, principalmente, quando se trata das
histórias dos anos iniciais da infância. A entrevista, primordialmente, o
memorial são fontes de estudos no método (auto) biográfico e do gênero
autobiográfico.
24A
narrativa autobiográfica obedece a um gênero discursivo pelo qual o
narrador se orienta ao organizar o pensamento para relatar sobre sua
vida, segundo uma polilógica nos termos da fenomenologia própria e
apropriada, de Dante Galeffi (2001). Esta proposição
filosófica-atitudinal, envolve a análise de uma questão por diferentes
lógicas, gerando autonomia que incide na autoria, afinal, o narrador é o
historiador da sua história, da vivida e da contada. Nesta perspectiva,
é possível dizer que a atitude do narrador é autoral, alguém que fala
de si, de modo próprio e apropriado, a partir de diferentes lugares,
territórios de saber e poder. A polilógica que reconhece a existência
maciça de códigos sociais e historicamente demarcados, em cada um dos
nossos atos comunicativos. No processo de narrar, existe a possibilidade
de compreendermos a nós mesmos, de sermos nós mesmos. Para sustentar
esta proposição, recorro a Merleau-Ponty (apud Galeffi, 2001: 303):
A verdadeira filosofia é
reaprender a ver o mundo, e nesse sentido uma história narrada pode
significar o mundo com tanta “profundidade” quanto um tratado de
filosofia. Nós tomamos em nossas mãos o nosso destino, tornamo-nos
responsáveis, pela reflexão, por nossa história, mas também graças a uma
decisão em que empenhamos nossa vida, e nos dois casos trata-se de um
ato violento que se verifica exercendo-se.
25Se
focalizarmos a narrativa apenas como gênero discursivo, sem
aprofundamento multidisciplinar, ainda é possível dizer da sua enorme
complexidade. A experiência narrativa é inerente ao processo de
socialização da espécie. Para narrar é necessário encontrar a ordem do
discurso, os nexos, continuidade, coerência entre o vivido e o contado,
eleger marcadores históricos individuais ou coletivos. Ao tempo em que
conta, o narrador é protagonista, se justifica e se projeta para o
futuro. Essa memória lembrada e narrada é individual e está imersa no
contexto comunitário. Para Halbwachs (1990), as recordações são
estruturadas em grupo, como por exemplo, as da infância, do contexto
familiar, escolar, vizinhança, mais tarde grupos de estudo, trabalho,
dentre outros.
26Memória
é trabalho de reativação permanente dos repositórios de imagens,
experiências e emoções. Deste modo, não considero apropriada utilização
do termo resgate para se referir ao ato de recordar a história ou uma
prática da tradição que foi esquecida. Não resgatamos a história porque,
ao rememorar não ela não revive o momento passado. O fato lembrado,
reconstrói-se, reelabora-se. O narrador tanto pode sublimar determinados
aspectos no ato de rememoração como pode superestimar. Deste modo, é
possível afirmar que autobiografia é a auto-organização das
experiências, dando-lhes sentido. Ao contar, aparecem reflexões, novas
atitudes do narrador diante dos acontecimentos rememorados. Memória,
indivíduo e grupos sociais, são inseparáveis e guardam afetividades e
idiossincrasias que incidirão no ato de narrar.
27As
memórias são de origem pessoal, privada e ganham uma roupagem nova na
hora de ser revelada ao público, passando por filtros, seleções. O
narrador determina o que transitará do passado para o presente a memória
é seletiva diante do lembrar e o esquecer. É próprio da humanidade
esquecer, lembrar e recriar o passado, as lembranças pessoais são fontes
de recuperação de si e de processos históricos e culturais. Para os
quilombolas e povos ágrafos, por exemplo, as recordações dos mais velhos
são primordiais para o contexto sociocultural, porque eles conhecem a
história, os processos de produção específicos, formas de cura e
cultivo. A narrativa revela a mentalidade de uma época, os hábitos e
tradições e será sempre filtrada, recriada por aquele que conta.
28Jorge Luiz Borges (1944), no conto Funes o memorioso,
mostrou que o fato de não esquecer produz dramáticas consequências e de
como a memória pode se transformar em um pesado fardo a carregar. A
questão não é acumular memórias como fazia Funes, mas selecioná-las,
diferenciando-as, analisando-as, cotejando-as com o presente. Existe uma
relação direta entre lembrar e esquecer. Fisiologicamente falando
precisamos esquecer para lembrar e para acessar o novo. Ao longo da vida
se descarta muito mais lembranças do que se guarda. Mecanismos
psicológicos selecionam o que lembrar e levar para o futuro. Na luta
contra o esquecimento, travada pelos povos ágrafos a repetição de
práticas e ritos são fundamentais para a sustentação das instituições,
dos valores e tradições.
29Da
relação entre cultura e memória surgem os filtros que definem o que será
descartado ou continuará sendo vivenciado pelo indivíduo e pelo
coletivo. A memória foi quem trouxe a humanidade até este tempo e, em
todas as eras foi imperativo recordar o passado, registrando-o de algum
modo e produzindo a memória social. A memória individual é povoada pelas
memórias coletivas e pelos fatos eleitos como memoráveis, coletiva e
individualmente. Este estudo, aborda as possibilidades de produção da
história institucional apoiada na pesquisa (auto)biográfica, histórias
individuais, coletadas por meio de narrativas de si, aspirando a
construção de uma memória compartilhada.
30Conceitualmente
a memória é definida como a capacidade de armazenar dados no sistema
nervoso e com eles produzir efeitos em si e no coletivo, características
que permitem as permanências, rupturas, tradições, celebrações. A
seleção das lembranças e esquecimentos, inevitavelmente acontecerá, quer
seja feita pelo indivíduo ou pelo coletivo. Para este estudo ressalto o
papel de sua utilização para a consolidação de
instituições/organizações, lembrar dos indivíduos e suas memórias pode
ter efeitos surpreendentes, que vão da elevação da autoestima ao aumento
de produção/produtividade. As grandes empresas nacionais possuem
centros de memória e políticas de gestão para a valorização pela
memória.
31As
pesquisas que o grupo de pesquisa de André Nunes de Sousa realiza sobre
os geógrafos baianos, terá desdobramentos futuros da maior relevância,
pois as atuais gerações não os conhecem. O esquecimento a que os dois
foram relegados é indício vigoroso das hegemonias e ideologias do campo
geográfico. Neste contexto, não nos esqueçamos de Foucault (1985), que
nos alertou da presença do poder em todas as esferas da vida em
sociedade e que a disputa entre o lembrar e o esquecer é real. Vez por
outra, alguém nos diz, “o Brasil é um país sem memória”. Recentemente
descobri que esta expressão é usada em vários países latino-americanos. A
origem colonial comum, talvez explique a amnésia coletiva, a memória
guardada na metrópole, com leis inventadas ao bel prazer do senhor de
terras, que era o juiz de suas causas e usava a pólvora para arquivar os
descontentes. Esquecer tem sido a recomendação dos que estão no poder,
pois assim podem controlar e comandar a massa, que não lembra, ou, não
quer lembrar.
32Na
memória, aparentemente tão subjetiva e individual, existe a disputa de
poder no coletivo. São as relações de força entre grupos hegemônicos que
determinarão o que será lembrado ou esquecido. Coletiva ou
individualmente, existe uma disputa de poder para definir o regime de
lembrança e esquecimento nas instituições. A forma de conceber o
passado, de interpretar determinadas lembranças e atribuir significados,
afeta tanto o indivíduo como a instituição. Mas, é no presente, que a
memória evocada se precipita e serve à aprendizagem, interpretação,
projeção do futuro.
33As
memórias são construções sociais, de determinados grupos que determinam o
que lembrar e o esquecer e onde depositar as memórias. Existem, lugares de memória, assim definidos por Pierre Nora (apud Le Goff, 1994: 473):
Lugares topográficos, como os
arquivos, as bibliotecas e os museus; lugares monumentais como os
cemitérios ou as arquiteturas; lugares simbólicos como as comemorações,
as peregrinações, os aniversários ou os emblemas; lugares funcionais
como os manuais, as autobiografias ou as associações: estes memoriais
têm a sua história. Mas não podemos esquecer os verdadeiros lugares da
história, aqueles onde se deve procurar, não a sua elaboração, não a
produção, mas os criadores e os denominadores da memória coletiva:
Estados, meios sociais e políticos, comunidades de experiências
históricas ou de gerações, levadas a constituir os seus arquivos em
função dos usos diferentes que fazem a memória.
34Nos
lugares topográficos ou simbólicos estão os produtores da memória
coletiva. A memória institucional é permeada por atividades complexas e a
decisão quanto ao tipo de método a ser utilizado, dependerá das
práticas da organização, suas características e finalidades. Por
exemplo, nas instituições de ensino superior, existe uma prática
corrente que é a apresentação de memoriais em concursos e progressões
funcionais. Pesquisadores têm se dedicado à pesquisa autobiográfica
realizando análise dos memoriais. A trajetória da pessoa dentro da
instituição é um rico material ao qual estudiosos de todo mundo estão
voltando sua atenção. Conforme Câmara e Passeggi (2013: 31):
Admitimos que em cada memorial
encontraremos uma articulação dialética entre o indivíduo e a
instituição (...). Dessa interação decorrem as potencialidades dessa
escrita como fonte de pesquisa, tanto para a história das práticas de
formação e de inserção profissional de intelectuais no seio do ensino
superior brasileiro e de seu papel na construção dessa história quanto
para os estudos linguísticos em torno do gênero autobiográfico, no que
concerne às relações entre as práticas de escrita e a cultura
universitária no Brasil, assim como para as operações de linguagem
implicadas no ato de biografização.
35A
produção sobre o gênero autobiográfico tem crescido muito e observa-se
um intenso compartilhamento dos resultados de pesquisas no ambiente
educacional. A produção de conhecimento gerado a partir das narrativas
de si, por meio de memoriais ou entrevistas, exploradas tanto pelo
método da história oral quanto pelo (auto)biográfico, objetiva a
preservação da história e da memória institucional, em todos os casos.
36Os
pesquisadores sobre o ambiente institucional reconhecem a memória como
um dos elementos centrais para o funcionamento das mesmas. A trajetória
de vida da instituição caminha lado a lado com aqueles que a sustentam. É
preciso que estas reconheçam a memória institucional como reflexo das
trajetórias de ambos. O membro da organização, o trabalhador, não se
perceberá parte, se isto não for explicitado. Este entendimento sobre o
lugar do trabalhador, do membro da organização deve ser explicitado,
ocupando lugar entre os valores e da missão. Pois, como já foi dito, são
as relações de poder que determinarão o que será lembrado ou esquecido,
que definirão o regime de lembrança e/ou de esquecimento.
37A
pesquisa (auto)biográfica está no contexto da investigação qualitativa e
é produzida tendo como um dos principais elementos as narrativas de si.
O enfoque biográfico-narrativo, tem os seus fundamentos epistemológicos
e desenvolvimento metodológico. Apresentei na seção anterior algumas
das relações do método (auto)biográfico com conceitos e outras
possibilidades de enfoques de pesquisa. Ele permite a construção do
conhecimento, seja em âmbito educacional ou no contexto
institucional/organizacional. As explicações para justificar a expansão
do método e das abordagens (auto)biográficas podem ter relações com a
globalização que tem gerado a necessidade crescente do indivíduo ser
reconhecido como singular. O que confere singularidade ao sujeito é o
modo de viver, como atua nas organizações, o que faz de sua vida. É isto
que o método (auto)biográfico valoriza e tem se revelado uma importante
ferramenta para a investigação das mudanças comportamentais, sociais e
para o reconhecimento das inquietudes pessoais e institucionais.
38O
método (auto)biográfico vem ganhando visibilidade e está ficando cada
vez mais claro que ele é multidisciplinar, polilógico e
multirreferencial. A construção e reconstrução das histórias pessoais, a
experiência vivida, dentro de uma determinada realidade, são suas
demarcações para ser tornar acontecimento de pesquisa. A investigação
(auto)biográfica dá relevância ao discurso da pessoa que analisa suas
próprias condições, suas limitações e narra sua trajetória de vida,
tanto para atender ao investigador narrativo, quanto para a auto
compreensão de sua trajetória de vida. As fontes de pesquisa são as
narrativas e estas podem envolver relatos de vida, memoriais,
fotografias, vídeos, coleções, história oral, documentos. Este manancial
de possibilidades do método revela suas múltiplas entradas e o modo
integrado de investigar a história da pessoa e as possibilidades dela
ganhar com o processo, isto porque, ao elaborar suas lembranças
propicia, por exemplo, o autoconhecimento. Neste tipo de pesquisa, o
pesquisador trabalha com materiais concretos e com as subjetividades e
emoções.
39Estes
elementos que coexistem na narrativa podem fornecer dados que permitam
generalizações sobre as trajetórias considerando suas ações, o fato e o
tempo histórico. A metodologia da pesquisa autobiográfica considera o
indivíduo e as histórias contadas com começo, meio e fim, um discurso
ordenado. O pesquisador buscará a relevância do discurso individual e o
converterá em conhecimento social. A narrativa tanto revela a
experiência quanto expressa sentimentos e subjetividades antes renegadas
pela ciência.
40Antônio
Bolívar (2012) analisou as premissas epistemológicas do conhecimento
biográfico e identificou problemas metodológicos. Afirmou que um deles é
a relação entre o narrador/biógrafo com as estruturas sociais e
profissionais donde está inscrita a sua narrativa. Para o autor, a
história de vida está imersa na vida em sociedade em microcosmos que
devem ser contextualizados, para não limitar o pesquisador à visão de
quem narra. Depois da análise de seu trabalho, tive respostas para
antigas perguntas. Se o relato é singular, como generalizá-lo? Este é um
falso problema, não é isto que interessa à pesquisa (auto)biográfica,
ela procura reconhecer e valorizar o que é particular, que permita ao
indivíduo fazer uma narrativa de si própria e apropriada. O fato de se
chegar a um resultado não generalizável afetaria a condição científica
da pesquisa? Não, absolutamente, é também um falso problema, o método em
tela é qualitativo, a pesquisa é qualitativa, portanto, julga-se a
questão da investigação por outros critérios e não compromete a
confiabilidade do fazer investigativo (auto)biográfico.
41O
investigador deve cuidar do seu lastro teórico, das evidências da
credibilidade e coerência interna da sua narrativa relatando, analisando
os resultados da investigação. A produção dos relatos deve permitir a
identificação de aspectos que permitam estabelecer relações com a
história social, institucional, aumento o raio de ação da reflexão, é
por aí que ela ganha força interpretativa. É necessário um grupo de
entrevistados para conseguir identificar as macro e micro demarcações
dos acontecimentos históricos que são eixos narrativos. A corrente
teórica, a área do conhecimento a qual o pesquisador estela vinculado
determina interpretações e procedimentos de análise próprios. Se o
pesquisador é oriundo da área de Letras, pode ser que seu interesse seja
análise e compreensão do texto gênero narrativo (auto)biográfico, se
for um historiador, quer encontrar fatos históricos que se repitam, ou
que se diferenciem.
42Um
investigador biográfico busca coerência e coesão na narrativa do sujeito
investigado e procura proceder assim no seu relato de pesquisa. Ele
precisa traduzir suas reflexões em palavras construindo sua linha
argumentativa e/ou ação interventiva. Deve estabelecer relação
passado-presente, para articular histórias individuais, societárias,
institucionais e encontrar um problema, razões para desenvolver o
estudo. O método (auto)biográfico, com seus objetivos, por meio de
entrevistas, memoriais, narrativas, ou outras fontes, intenciona
contribuir para a construção de uma narração histórica, integrando
presente, passado e futuro, sobre o tema estudado. Por meio do trabalho
deste segmento de pesquisa, um tempo passado, vivido, narrado é retomado
para ganhar novo sentido, para ser reinterpretado.
43A
metodologia de pesquisa (auto)biográfica, não se limita a coletar
histórias de vida narradas de forma ordenada. Ela se propõe a
reconhecer, e valorizar, o lugar de quem fala porque viveu a experiência
e tem conhecimentos a revelar, não é uma simples narrativa, é memória. O
investigador também participa da elaboração dessas memórias quando faz
suas escolhas, ou sinaliza temas, abordagens, o diálogo caracteriza o
processo investigativo (auto)biográfico. As vidas e trajetórias
profissionais ganham relevância quando, em diálogo, pesquisador e
entrevistado encontram o sentido dos processos narrados e rompem o
silêncio, revelando percursos, problemas e aprendizagens.
44Outro
ponto importante da metodologia é sua contribuição para combater
dicotomias existentes na análise biográfica convencional, como a que
separa os personagens dos âmbitos sociais nos quais se inserem. Conforme
Kaufmann (2004: 44):
O indivíduo é, ele próprio,
matéria social, um fragmento da sociedade da sua época, quotidianamente
fabricado pelo contexto em que participa, incluindo nos seus recônditos
mais pessoais(...). O indivíduo é feito de matéria social, ele não é uma
pura consciência (e ainda menos puramente racional) à margem da
história e separada de seu contexto.
45A
utilização do método (auto)biográfico, não pode deixar de considerar os
aspectos ressaltados na citação acima, há que se separar a identidade
individual da coletiva, mas, não se deve esquecer de que ser/falar de si
mesmo, sozinho, é impossível. Outra crítica feita ao método em foco, é a
falta de objetividade na análise, o que é um equívoco porque o método
possui especificidades heurísticas. Para o autor, a investigação em
ciências humanas ganhou uma aparência mais aberta e dinâmica com o
método.
46A pesquisa biográfica possui projeto epistemológico e perspectivas metodológicas próprias, para Delory-Momberger (2012: 71-73):
O objeto da pesquisa biográfica é
o de explorar os processos de gênese e de vir-a-ser dos indivíduos num
espaço social, mostrar como eles dão forma a suas experiências, como
fazem significar as situações e acontecimentos de sua existência (...).
Nesta interface do individual e do social que só existem um pelo outro, e
que estão num processo incessante de produção recíproca, o espaço da
pesquisa biográfica consistiria então em dar conta da relação singular
que o indivíduo mantém por sua atividade biográfica com o mundo
histórico e social e no estudo das formas construídas que ele dá à sua
experiência. (...) [A] pesquisa biográfica teria, assim, por tarefa
compreender como “o caminhante constrói a paisagem”, mas, da mesma forma
também – visto que é a mesma coisa – como “a paisagem constrói o
caminhante”, em outras palavras, como o indivíduo no decurso de suas
experiências no tempo, ao mesmo tempo que produz em si mesmo e fora de
si mesmo o espaço social, que se constitui a si mesmo como indivíduo
singular.
47A
autora ressalta que, como todos protocolos metodológicos este método
também tem potência e limitações. É inegável a expansão do campo teórico
e metodológico da (auto)biografia, principalmente nas instituições
educacionais, porém, ainda há necessidade de continuar explorando seus
limites e possibilidades, como fonte de pesquisa e dispositivo
formativo.
48O
método de (auto)biográfico, utiliza fontes de duas ordens: as primárias,
que são as narrativas (auto)biográficas, entrevistas; e as secundárias
reúnem documentos, fotos, jornais, dentre outros. A narrativa de si e a
atividade biográfica, estão em alta e se reconhece que, “a narração, em
seu aspecto sensível, não é de modo algum o produto exclusivo da voz. Na
verdadeira narração, a mão intervém decisivamente, com seus gestos
(...) que sustentam de cem maneiras o fluxo do que é dito ” (Benjamin,
1985: 220). Nesta obra, o filósofo chamou a atenção para o fim da arte
de narrar. Nas narrativas, existe a fala de quem viveu a experiência,
que é capaz de fazer crítica do passado e se autoriza na construção de
um futuro em permanentemente instável e caótico.
49Existem
inúmeras abordagens e usos para as biografias, quero destacar a
geo(bio)grafia, conceito criado pelos autores Portugal e Souza (2013)
que considera as falas que emanam de um lugar no espaço, tornando este
dado significativo. Não é apenas uma geolocalização do discurso
biográfico, como explicitam Portugal e Souza (2013: 209):
À medida que o sujeito se
apropria e se relaciona com o espaço, torna esse espaço um lugar e
confere sentido à narrativa, através da manifestação dos sentimentos
–identidade e pertencimento – que delineiam o elo entre o sujeito e o
seu lugar de origem, de vivências de narração.
50Para
Portugal e Souza (2013) a pesquisa sobre histórias de vida, neste caso,
com professores de Geografia, ancora-se nos princípios do método
biográfico e a consideram relevante para a educação, para a sociedade e
mundo do trabalho. Eu utilizo e defendo método (auto)biográfico,
grafando a palavra separada por parênteses, cuja construção não é minha,
mas interpreto que as separatrizes visam realçar as ações
concomitantes: o pesquisador que trabalha com uma narrativa biográfica, a
recebeu de alguém que se autobiografou. O pesquisador recorta, analisa e
faz uma nova narrativa em que estará a pessoa biografada e ele próprio.
As técnicas a serem utilizadas na investigação dependerão dos objetivos
do pesquisador, há muita flexibilidade.
51Defendi
o uso das narrativas, obtidas pela escrita de si, por meio de
entrevistas, de abordagem livre ou dirigida, contemplando os objetivos
do pesquisador. Durante a exposição no evento e no presente texto,
defendi a utilização destes recursos teórico-metodológicos no estudo de
pessoas nas instituições de pesquisa. Ressaltei que a pesquisa
(auto)biográfica, realizada com o auxílio do método (auto)biográfico,
tem inúmeras aplicações e vantagens finalidades várias. Aqui estão os
títulos de três trabalhos apresentados no II Congresso Internacional
sobre Pesquisa (Auto)biográfica (Curitiba, 2013) que podem permitir um
vislumbre da abertura polilógica do método e das pesquisas no campo
(auto)biográfico: Amnésia de identidades, o cinema brasileiro e as narrativas de povo (Amorim, 2006); Nas escrituras do sujeito-professor: confissões de si; Escritas de si: resistência e defesa. (Eckert-Hoff, 2006). Complexidade e narrativas da tradição: a arte de fazer rir da calungueira Maria Iêda de Medeiros, Dadi (Cavalcanti e Pereira, 2006).
52O
enfoque biográfico-narrativo como recurso teórico-metodológico também
foi por mim defendido, ele configura um modo próprio de investigar e
atende aos princípios gerais da pesquisa qualitativa, ele é pesquisa e
autoria ao mesmo tempo, pois narrador e entrevistado interagem. O
desenho da investigação segundo Bolívar (2012: 81) segue quatro
orientações metodológicas: 1) o pesquisador escolhe o tema e o potencial
narrador, o projeto tem que ser negociado e aceito; 2) são realizadas
entrevistas registradas, em áudio ou outra mídia, que serão transcritas
na íntegra; 3) avaliação e investigação sobre as narrativas obtidas nas
entrevistas; 4- produção de um relatório de pesquisa. Para proceder esta
análise, o investigador deve realizar um processo complexo e reflexivo
que permita a utilização das narrativas, respondendo aos objetivos da
pesquisa.
53Procurei
deixar explícita a complexidade da memória e da história institucional.
A memória é dual, individual e coletiva, é guardada por um indivíduo,
que teve experiências coletivas, no seu grupo social, que deixaram suas
impressões e geraram mudanças. A memória coletiva é formada pelos fatos
históricos, pelas lembranças e tradições, guardada como memória oficial,
definida pelos que estão no poder. Os lugares da memória guardam o
passado coletivo, enquanto lugares topográficos ou simbólicos e de
poder. Foram apresentadas alternativas metodológicas para a história das
instituições de pesquisa, com centralidade nas pessoas. O conhecimento
científico positivista, modelado para ser validado mediante
generalização, se choca com o paradigma autobiográfico, que dá
centralidade ao sujeito, ao singular, às suas narrativas de si, para
gerar inovação pela subjetividade.
54Esta
síntese polilógica, sobre pesquisa produzida com o método (auto)
biográfico me ofereceu a oportunidade de conseguir investigar seus
desdobramentos para a instituição. Segundo Lage (2011) só é possível
criar novo conhecimento organizacional se o conhecimento tácito e
pessoal for acessado. A chave para a construção do conhecimento novo e a
inovação é o compromisso do indivíduo, que emerge com mais facilidade
quando ele é reconhecido, valorizado institucionalmente. Estes
princípios têm regido a gestão do conhecimento em empresas de sucesso e
tem conseguido muita difusão. No caso, estamos tratando de instituições
de pesquisa, ainda assim, é possível reconhecer seu potencial para a
criação e inovação, se aplicado.
55Eu
vivenciei um fenômeno de lembrança e esquecimento, que me causou
espanto. Foi o que me aconteceu quando descobri, por meio de André Nunes
de Sousa, a obra de Bernardino José de Souza e de sua profunda ligação
com a construção no campo geográfico. Ele fez um trabalho fundacional e,
paradoxalmente, pelo movimento dos micro e macro poderes, acabou
esquecido. A história pessoal do geógrafo secular não está apartada da
sua vida acadêmica política e social; falar dele é lembrar o contexto
secular, as bases da Geografia do Século XX. Estar nesta Casa de
História e Geografia, plena de memórias, documentos, histórias foi uma
oportunidade de ouro e agradeço a rica experiência que tive com os meus
colegas de mesa redonda: Pedro de Almeida Vasconcelos (UFBA); Sergio
Nunes Pereira (UFF); Wendel Henrique Baumgartner (UFBA) e o Coordenador
do evento, André Nunes de Sousa (IFBA) que apresentou seu grupo de
pesquisa. Se fosse para aplicar o método, convidaria todos eles para
serem meus narradores sobre as abordagens brilhantes que fizeram, de uma
riqueza incomensurável, indescritível.
56Para
este evento fomos instados a formular resposta para a questão: que
recursos teórico-metodológicos utilizar para fazer a história das
instituições e contribuir para novas formulações? Em resposta, poderia
ter apresentado a pesquisa histórica como recurso teórico-metodológico
no estudo das instituições, não haveria novidade. O método
(auto)biográfico, incorporou os protocolos da pesquisa histórica, da
história oral, de análise textual e é um radical livre para gerar novos
processos de investigar a pessoa, o grupo, a instituição, a organização.
O método é versátil na reunião de técnicas para desenvolver a pesquisa.
Todos nós respondemos à pergunta por um caminho e atuamos para a
difusão do conhecimento e a valorização de espaços de divulgação
científica como este.
57Em
direção à conclusão, reconheço uma multiplicidade de referenciais
teóricos para promover, restaurar a história de uma instituição. Escolhi
a via da memória e da história de pessoas que fazem a instituição.
Busquei reunir elementos para defender que a pesquisa (auto)biográfica é um recurso teórico-metodológico que serve à recuperação da memória e história das instituições.
Pelos argumentos e referenciais teóricos levantados é possível dizer
que este modelo de investigação valoriza os membros da instituição, vez
que, sua narrativa é tomada como referência para análise ou intervenção.
Este fato nos remete à possibilidade de descobrir conhecimentos
tácitos, práticas coletivas e somar dados, pessoas para a inovação
institucional ou para criação de novos produtos.
58Entendo
que as memórias pessoais vivificam arquivos, repositórios e centros de
documentação, auxiliam na identificação de missões e afirmação de
objetivos institucionais, alimentam a estima por seu local e tipo de
trabalho. Portanto, reitero a tese: é possível usar o método (auto)
biográfico para recuperar a história e memória das instituições. No caso
da pesquisa histórica, que decidi não abordar, sem que por isto seja
menos importante. Vide o trabalho do André Nunes, que mostrou sua
potência. No caso da pesquisa (auto)biográfica, há sinais de trabalhos
envolvendo a narrativa na área da Geografia. Não estou apresentando a
novidade absoluta para o campo geográfico. Vim fazer a difusão do
conhecimento do método e tipo de pesquisa que consideram as pessoas de
uma instituição.
59O
que podem oferecer os recursos teórico-metodológicos, defendidos aqui,
para a história das instituições? Quais os efeitos do método
(auto)biográfico? Respondo que ele possui características próprias e
trata das trajetórias de vida pessoais ou profissionais. Ele valoriza o
ritmo das vidas que se entrelaçam com a instituição, com a profissão e
busca meios e modos de revelar isto. A diferença entre a pesquisa
positivista e a (auto)biográfica é grande, esta última dá centralidade
ao sujeito, reconhece as subjetividades e admite o diálogo com do
pesquisador com o entrevistado. Já a primeira, quer saber onde estão as
provas da verdade, do fato.
60Os
recursos metodológicos da pesquisa (auto)biográfica, são novos
dispositivos para acolher as experiências subjetivas que têm lugar no
mundo contemporâneo. Ela serve à recuperação da memória e história das
instituições porque suas intenções visam revelar as ações dos homens
sobre o território, nas organizações, na natureza. Os eixos que orientam
a pesquisa na instituição deverão corresponder aos interesses dos
envolvidos e só então serão definidas as demais etapas do processo de
pesquisa. Os espaços de pesquisa são todos, desde que haja o narrador. A
narrativa autobiográfica embasada no método (auto)biográfico, enfatiza
as histórias de vida, situações, episódios significativos, conforme a
avaliação do narrador.
61Existem
memórias ocultas de grupos que sofreram opressões, que foram impedidos
de repassar livremente suas memórias às novas gerações. Elas só têm
lugar de expressão se evocadas pelo método (auto)biográfico, com seus
recursos metodológicos, cria as condições para as memórias emergirem e
serem devidamente registradas. As narrativas relatam experiências, a
realidade em determinado tempo histórico, tensões, conflitos e tudo isto
sairá como discurso do narrador. Elas têm potencial educativo,
primeiramente para o narrador, que ao elaborar o discurso, focaliza a si
próprio. Elas informam sobre dados, personagens e imagens, fazem
descrições minuciosas e podem servir de preparação para grandes
problemas e enfrentamentos. Recuperar experiências pelas narrativas
sempre foi pesquisa voltada para os mais velhos, para os grupos ágrafos,
pessoas analfabetas, mas o contexto agora é outro. Agora, a mentalidade
acadêmica está em processo de mudança. A memória é reconhecida pelo seu
papel social e como antídoto contra o esquecimento, que impede as
transformações sociais e pessoais mais profundas e as inovações.
62Este
estudo procurou evidenciar o papel da memória, que, uma vez recuperada
pelas pessoas da instituição, tem potência de preservação e de criação. A
ação de narrar para educar, para transformar é uma possibilidade humana
desde os tempos imemoriais. Pelos referenciais teóricos levantados é
possível dizer que este modelo de investigação permite valorizar os
membros da instituição, vez que, sua narrativa é tomada como referência
para análise ou intervenção. Na cultura do esquecimento, da globalização
que homogeneíza, a narrativa de si o faz o singular. Voltar a atenção
ao indivíduo, valorizando sua história, memória e subjetividade, pode
fazer toda diferença.