1Por ocasião do Seminário Comemorativo do Centenário do 5o
Congresso Brasileiro de Geografia, realizado no Instituto Geográfico e
Histórico da Bahia, em 2016, retomamos o estudo dos certames geográficos
analisado em outra oportunidade (Cardoso, 2011). Ao recuperar o tema,
procuramos incorporar novos dados com interpretações originais ao texto,
com intuito de contribuir à História do Pensamento Geográfico na
primeira metade do século XX, bem como ao estudo da Geografia e da
História do Brasil.
2Criada
em 1883 por iniciativa do senador Manuel Francisco Correia, a Sociedade
de Geografia do Rio de Janeiro (daqui por diante, SGRJ) tomava como
modelo as agremiações congêneres europeias. Tais sociedades proliferaram
igualmente no Novo Mundo e tinham como principal objetivo divulgar o
conhecimento científico por meio do intercâmbio de publicações, da
participação em congressos e da troca de correspondência com
instituições semelhantes estrangeiras, principalmente europeias. Tudo
isso se fazia, no entanto, dentro de uma perspectiva nacional.
Buscava-se apoiar iniciativas de exploração do território pátrio, bem
como promover eventos destinados à difusão do conhecimento sobre o país,
como os Congressos Brasileiros de Geografia (daqui por diante, CBG).
3Entre
os anos de 1909 e 1954, foram promovidos 11 certames geográficos pela
SGRJ, muitas vezes com participação decisiva de instituições culturais
locais. Para efeito de comparação analítica, optamos por agrupar esses
congressos em dois intervalos de tempo. O primeiro a ser considerado
estende-se entre 1910 e 1926 durante a República Velha. O segundo
momento compreende os eventos realizados em 1940 e 1944 (em pleno Estado
Novo, que lhes assegurou patrocínio), e em 1954, realizado no segundo
governo de Getúlio Vargas.
Congressos Brasileiros de Geografia (1909-1954)
Fonte: Anais dos
Congressos Brasileiros de Geografia e Revista da Sociedade de Geografia
do Rio de Janeiro / Sociedade Brasileira de Geografia.
4Na
tabela, em relação ao primeiro intervalo indicado, verifica-se que o 1º e
o 5º congressos, que tiveram lugar, respectivamente, no Rio de Janeiro e
em Salvador, alcançaram maior índice de adesões, seguidos em ordem
decrescente dos de Belo Horizonte (1919), Curitiba (1911), São Paulo
(1910), Vitória (1926), Recife (1915) e João Pessoa (1922). A mesma
situação se apresenta no que se refere ao número de contribuições
publicadas, sendo que a memória dos eventos de São Paulo, Curitiba, Belo
Horizonte e João Pessoa não foi registrada sob a forma de anais. A
ideia de realizar um congresso brasileiro de geografia partira do sócio
José Arthur Boiteux em 1908, que sugeriu que a SGRJ promovesse uma
reunião geográfica a fim de comemorar os 87 anos da independência
nacional. O projeto foi encampado pela instituição recebendo apoio de
diversos estados. Na programação previsse a realização de excursões às
casas em que viveu o Patriarca da Independência, José Bonifácio de
Andrada e Silva, na ilha de Paquetá, e em Niterói, onde faleceu. Além
disso, paralelamente ao encontro pretendia-se a realização de uma
exposição cartográfica, que só viria a abaixo da expectativa gerada.
Poucos governos estaduais mandaram seus mapas, com exceção de Santa
Catarina, Minas Gerais e São Paulo, este último representado pela
Comissão Geográfica e Geológica, que enviou uma coleção de relatórios e
folhas topográficas.
- 1 No âmbito acadêmico, os trabalhos do 1º CBG foram estruturados em 12 comissões. Para cada uma delas (...)
5De
qualquer forma, em que pesem algumas frustrações, o 1º Congresso
conseguiu atingir, efetivamente, uma dimensão nacional. Fizeram-se
representar, ao todo, 14 estados, totalizando 68 entidades brasileiras,
com maior presença do Sudeste e Sul do país e destaque para Rio de
Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. As atividades do
1º CBG iniciaram-se no Palácio Monroe, com a presença do presidente da
República, Nilo Peçanha, e outras autoridades, num total de 140
personalidades.1
6As
contribuições apresentadas ao evento demonstram que alguns temas se
sobressaíam: a questão da revisão da nomenclatura dos acidentes
geográficos, a reforma do ensino e o problema da elaboração dos mapas
cartográficos. Salientava-se a necessidade de mais informações sobre o hinterland brasileiro,
ao passo que se reafirmava o caráter utilitário e pragmático dos
estudos geográficos, dentro da ideia da utilização da ciência para o
progresso e para a integração nacional. Ao que tudo indica, o certame
obteve grande repercussão, tanto que se planejou a realização periódica
de outros, como o convocado para o ano de 1910 na cidade de São Paulo
que, no entanto, obteria o mesmo sucesso do encontro anterior.
7É
possível atribuir tal fracasso, em parte, à complexidade da preparação
de empreendimentos acadêmicos de tal porte fora da capital da República,
embora a direção da SGRJ se empenhasse em levá-los a cabo.
Acrescente-se a isso as longas distâncias a serem vencidas pelos
participantes e a precariedade das comunicações na época. Uma pista
sobre essas dificuldades pode ser percebida no relatório do 4º CBG,
promovido em 1915, no Recife. A escassez de verbas, a precariedade dos
contatos com a SGRJ, e a alegada incerteza provocada pelo início da I
Guerra Mundial foram alguns dos contratempos que, agravados por disputas
políticas locais, levaram o general Dantas Barreto – então governador
de Pernambuco – a chamar para si a responsabilidade de organizar a
reunião científica, cujas sessões se realizaram no Ginásio Pernambucano
(Anais do 4º CBG, 1915: 61).
- 2 Os trabalhos do 4º CBG dividiram-se em 12 comissões científicas: geografia física e política; geogr (...)
8O
certo é que Dantas Barreto se valeu do prestígio do cargo que ocupava e
conseguiu convocar 209 participantes, oriundos majoritariamente de
Pernambuco e estados vizinhos. A julgar pelo que foi registrado nos
Anais do evento (1915: 22-25), houve uma frustração quanto à divulgação
do mesmo na Capital Federal, que resultaria em baixíssima participação
de membros locais da SGRJ. Tal predomínio interferiu decisivamente na
consecução do programa, distribuído em 12 comissões científicas,
consoante as diversas ramificações do que era estendido então por
Geografia.2 A
pauta dos trabalhos concentrou-se, sobretudo, na problemática das secas
que afetavam o Nordeste do país e em assuntos que vinham sendo abordados
desde o primeiro encontro patrocinado pela Sociedade em 1909, a exemplo
da revisão da nomenclatura das cidades e acidentes geográficos, a
adoção do esperanto como língua universal e a reforma do ensino da
geografia nas escolas (Anais do 4º CBG, 1915: 54), bem como a
necessidade da erradicação do analfabetismo no país. Nesse sentido, o
general Dantas Barreto expunha um raciocínio cartesiano: “na propaganda
dos conhecimentos geográficos, não esqueçamos que é preciso, como
condição preliminar, que o povo saiba ler” (Anais do 4º CBG, 1915: 53).
9Por outro lado, causa
surpresa a ausência de debates sobre um dos temas que, naquela altura,
mais suscitava polêmica entre os estudiosos da história e da geografia
dos estados brasileiros: a fixação dos limites interestaduais.
Pesquisando as atas das reuniões preparatórias do congresso, contudo,
descobre-se que o silêncio fora provocado pelo próprio general Dantas
Barreto, que proibira tal discussão com a justificativa de que “a atual
divisão político-administrativa do Brasil é fruto de circunstâncias
históricas de sua formação e nem mesmo por via de uma revisão
constitucional poderá ser alterada sem gravíssimas consequências que
devemos evitar a todo o transe, escudados no mesmo amor pátrio e no
mesmo anelo do Brasil gigante” (Pereira, 1915: 37-38).
10Em
1916, na cidade de Salvador, sob a presidência de Teodoro Sampaio,
aconteceu o 5º CBG, mais tarde considerado um dos mais importantes do
período que se estende de 1909 a 1926 (Souza, 1941: 16). Reuniu um total
de 1.057 participantes. Paralelamente ao congresso, promoveu-se uma
exposição de 104 documentos, entre cartas, mapas e fotografias, e
inaugurou-se uma galeria com os 19 vultos nacionais e estrangeiros que
mais teriam contribuído para o desenvolvimento da geografia no Brasil. À
guisa de informação, cabe mencionar que a coleção era composta dos
seguintes nomes: Peter Lund, Louis Agassiz, Frederic Hartt, Orville
Derby, almirante Ernest Mouchez, Henri Coudreau, Élisée Réclus, von
Martius, Teodoro Sampaio, Euclides da Cunha, Cândido Rondon, Couto de
Magalhães, João Barbosa Rodrigues, Cândido Mendes de Almeida, João
Severiano da Fonseca, Antônio Rebouças, Alfredo Moreira Pinto e barão
Homem de Mello (Anais do 5º CBG, 1916a: 12-13).
- 3 O encontro foi organizado em 12 seções, a saber: geografia matemática (geoplanetologia, noções topo (...)
11Os
Anais do evento compreendem dois volumes. O primeiro contém o relatório
de atividades, regulamento e regimento do congresso, a relação de
memórias apresentadas, além das resoluções e das moções. O segundo
concentra os trabalhos das comissões científicas, tais como atas,
pareceres, monografias. Mais uma vez, os trabalhos do certame se
distribuíram por 12 seções científicas.3
Todavia, em relação aos congressos anteriores, efetuaram-se algumas
mudanças. Além de separar a seção de geografia física da de geografia
política, incorporou-se ao programa a de antropogeografia ou geografia
humana; a seção de geografia biológica tomou a denominação de
biogeografia, enquanto que a chamada geografia militante tratava das
explorações geográficas (Anais do 5º CBG, 1916a: 17). Criou-se também
uma seção de monografias dedicadas a temáticas locais que, por sinal,
iria concentrar a maior parte dos trabalhos expostos – o que não é de
estranhar, uma vez que 75% dos congressistas inscritos eram naturais do
estado da Bahia.
12Outra
novidade a ser assinalada foi a introdução, no programa, de um segmento
dedicado à geografia médica, área que buscava articular a climatologia
com a medicina. Cientistas reconhecidos, Antônio do Prado Valladares
(1916: 433), professor da Faculdade de Medicina da Bahia, Otávio Torres
(1916: 443) e Alfredo Augusto da Matta (1916: 513) discutiram a relação
entre clima e doença, além de propostas para a organização de uma carta
nosográfica das regiões do território brasileiro e do incentivo ao
estabelecimento de associações destinadas ao estudo das doenças
tropicais.
13Entre
os estudos antropogeográficos, vale a pena assinalar as monografias
assinadas por Egas Moniz Barreto de Aragão e por Manuel Raimundo
Querino. O primeiro apontava o uso equivocado do conceito de raça
latina, para se referir aos povos cujos idiomas derivam do latim, noção
que se disseminara com a Primeira Grande Guerra. Assegurava que o Brasil
não possuía um tipo étnico definido. Sendo assim, “em vez de julgar
lamentável a sua etnogênese, o povo brasileiro, deve, pelo contrário,
orgulhar-se de ser uma officina gentiumm e de sentir correr-lhe
nas veias o sangue de todas as raças das terras, encerrando assim na
sua alma a própria alma da humanidade” (Aragão, 1916: 554).
14Já
Manuel Querino, considerado hoje o primeiro estudioso afrodescendente a
destacar a participação do negro na cultura brasileira, apresentou um
alentado ensaio sobre costumes, hábitos e práticas introduzidas pelos
escravos, enriquecido de material iconográfico de várias tribos
africanas (Nunes, 2007). Na opinião de Querino (1916: 628), “o africano
foi um grande elemento ou o maior fator da prosperidade econômica do
país: era o braço e nada se perdia do que ele pudesse produzir. O seu
trabalho incessante, não raro, sob o rigor dos açoites, tornou-se a
fonte da fortuna pública e particular”.
15Como
era de se esperar, o contexto da guerra estimulou reflexões a respeito
da utilidade estratégica do conhecimento geográfico, em consonância com o
fenômeno de reafirmação dos sentimentos cívicos e do interesse pelas
questões nacionais, identificado pelo historiador francês Maurice
Agulhon (1996: 12) como “patriotismo à moda de 1914”. Assim,
recomendava-se que o estudo da geografia fosse orientado pelo ideal
cívico e seu ensino, incentivado nos “cursos civis e militares”, de
maneira que cada soldado ou marinheiro “se torne um perfeito conhecedor
da geografia física do Brasil e dos países limítrofes” (Querino, 1916:
726). O congressista Luiz José da Costa Filho (1916: 722) afiançava que
os exércitos beligerantes conheciam “não só de cor e salteado a
geografia da Europa, mas, por igual, a geografia das outras partes do
globo terrestre”. Corroborando essa premissa, Luiz Lobo advertia que
cabia à geografia militar devassar estrategicamente o território
brasileiro, tão extenso e tão desconhecido, com a mesma tática empregada
no território dos inimigos (Lobo, 1916).
16Diversas
moções foram aprovadas no 5º Congresso, sobressaindo-se a que indicou a
necessidade de elaborar as cartas geográficas do país ao milionésimo,
de acordo com as convenções estipuladas nas reuniões do Comitê
Internacional formado em prol da iniciativa, realizadas em Londres
(1909) e Paris (1913). Registrou-se ainda um voto de louvor ao Clube de
Engenharia pela edição de uma espécie de manual para o preparo de mapas,
elaborado pelo engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin (1916: 151).
Sugeriu-se, finalmente, a publicação de um “Dicionário geográfico dos
estados”, por ocasião das comemorações do centenário da independência.
- 4 Os trabalhos daquela jornada foram divididos em oito seções: geografia matemática; geografia física (...)
17Não
há registro de publicação de Anais referentes ao 6º e ao 7º congressos,
realizados, respectivamente, nas cidades de Belo Horizonte, em 1919, e
Paraíba do Norte (depois João Pessoa) em 1922. Há, no entanto, algumas
pistas do primeiro, deixadas pelo secretário do Instituto Arqueológico,
Histórico e Geográfico Pernambucano, Mário Melo.4
Os trabalhos dessa jornada foram divididos em seções científicas que
englobavam as subdivisões dos estudos geográficos, mas incluíam também
novos temas de interesse nacional, como as comemorações do Centenário da
Independência, em 1922. Paralelamente elaborou-se uma exposição de
livros, mapas e outros objetos, separados por estados. Diferentemente
dos anteriores, o evento de 1919 levantou o véu que encobria diversos
litígios envolvendo a definição de limites entre alguns estados da
federação (Melo, 1919: 388).
18De
acordo com os apontamentos de Mário Melo (1919: 388), com o objetivo de
preparar o programa da jornada de Belo Horizonte a SGRJ promoveu, no Rio
de Janeiro, um encontro preliminar, com representantes dos estados de
Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Bahia e Ceará. Nessa ocasião, tratou-se
extraoficialmente daquela problemática, buscando dirimir antigas
disputas e firmar acordos demarcatórios baseados nos acidentes
geográficos. Tudo leva a crer que a reunião articulava-se a um projeto
mais amplo, de redefinição político-administrativa do território
nacional, cujo encaminhamento vinha sendo discutido na Sociedade a
partir de estudos ali apresentados por Ezequiel Augusto Ubatuba na
década anterior. Nesse trabalho, o advogado Ubatuba (1922: 21) concluía
que as desproporções entre as áreas das unidades da Federação – herança
das capitanias do período colonial – constituíam um entrave para o
desenvolvimento econômico do país. Para equacionar o problema, idealizou
uma reforma político-administrativa que, entre outros pontos, dividia o
território brasileiro de maneira mais equânime, em sua opinião,
compreendendo 35 estados, além do Distrito Federal.
19De
qualquer forma, segundo Mário Melo (1919: 388), durante a reunião
preparatória foram fixados acordos entre os representantes de Pernambuco
e estados fronteiriços, exceto a Bahia. Os pernambucanos reivindicavam a
integração de certas ilhas do rio São Francisco ao seu território, o
que os baianos consideravam apropriação indevida. Diante do impasse, não
se chegou a um acordo: “como ao congresso de geografia cabia apenas
sancionar os acordos de limites chegados a bom termo pelos
representantes dos estados, nada foi possível fazer” (Melo, 1919: 395).
20Aliás,
a questão da redivisão territorial inseria-se no movimento de cariz
nacionalista que envolveu a Liga da Defesa Nacional, o Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro (daqui por diante, IHGB) e a SGRJ. Sob
o lema “O Brasil Unido”, a campanha pretendia solucionar as vinte e
nove questões de limites interestaduais herdadas do regime imperial até o
ano emblemático de 1922, quando se comemoraria o Centenário da
Independência do Brasil. A jornada de Belo Horizonte trouxe à baila a
candente questão que afetava a convivência entre os estados. Devido aos
constantes conflitos entre São Paulo e Paraná, Ceará e Piauí, Sergipe e
Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, organizou-se a Conferência de
Limites Interestaduais no Rio de Janeiro, em 1920, sob o patrocínio do
presidente Epitácio Pessoa. Como resultado, sete acordos foram firmados
no Palácio do Catete, a exemplo, da fixação da linha divisória entre
Paraná e São Paulo.
- 5 Os trabalhos dessa jornada foram divididos em oito seções temáticas.: geografia matemática (geoplan (...)
21Ao
que parece, as questões de limites interestaduais se estenderam, uma
vez que a demanda dos pernambucanos teria continuidade no 8º Congresso
Brasileiro de Geografia. O certame foi realizado em 1926, na cidade de
Vitória, sob a presidência do general Cândido Mariano da Silva Rondon e a
chancela do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (Barreto
et al, 1926: 31). Apesar da jornada compreender oito seções temáticas
(Anais do 8º CBG, 1926: 31)5,
a pauta de discussão convergiu para a demarcação das divisas entre os
seguintes estados: Paraíba e Ceará; Pernambuco e Paraíba; Pernambuco e
Ceará; Paraíba e Rio Grande do Norte. Novos confrontos se sucederam, e
os delegados do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, mais
conhecido como Leão do Norte, se recusaram a tratar das questões que
afetavam o seu estado, sob a seguinte alegação:
Os congressos de geografia não
foram criados para tratar de limites. Ao contrário, havia cláusulas
proibitivas de discussões sobre limites, porque o assunto concorria
sempre para separar amigo e, na Bahia, houve um incidente pouco
agradável entre sergipanos e baianos, só porque na descrição de um
município baiano um congressista incluiu nos limites, como pertencente à
boa terra, uma nesga dita contestada por Sergipe. Os congressos de
geografia foram criados para animar o estudo de nossa pátria e aproximar
periodicamente os que ao mesmo se dedicam. (Anais do 8º CBG, 1926: 87)
22Os
participantes do encontro de Vitória pareciam partilhar da ideia de que o
melhor caminho para fortalecer a federação e estreitar os laços
interestaduais consistia em eliminar aqueles litígios, evitando a ameaça
de uma “guerra civil”. Porém, assinalavam alguns obstáculos que
impediam a efetivação de acordos oficiais: a ausência de estudos
topográficos, o espírito marcadamente regionalista da população, a
oposição de vários políticos e a falta de continuidade administrativa
nas gestões de prefeituras e de governos estaduais (Anais do 8º CBG,
1926: 318). Cabe mencionar que as discussões sobre limites
interestaduais só iriam se arrefecer em 1937, com a promulgação da
Constituição do Estado Novo, que dissolvia, de certa forma, as disputas
estaduais no ideal de fortalecimento da União.
- 6 Backheuser organizou com Delgado de Carvalho o Curso Livre Superior em Geografia, que teve lugar na (...)
23É
possível observar algumas permanências, nas moções e sugestões
aprovadas na plenária do 8º Congresso Brasileiro de Geografia. Como de
costume postulava-se a erradicação do analfabetismo. No entanto, nesta
ocasião, a campanha era reforçada pela participação de congressistas
envolvidos em movimentos de renovação das práticas didáticas em
geografia e da reorganização geral do ensino no país, como no caso de
Everardo Backheuser. Este engenheiro, que se tornara membro dos mais
ativos da SGRJ nas décadas de 1920 e 1930, foi uma das figuras
destacadas no evento.6
24Quanto
às recomendações finais do evento, entre outras manifestações, as
comissões científicas declararam-se favoráveis à uniformização correção
de nomes de acidentes geográficos e de localidades, de acordo com a
língua indígena ou com a tradição popular. Aconselharam, também, a
criação de uma cadeira para o ensino da língua tupi nas futuras
faculdades de letras, bem como a implementação da disciplina estudos
americanos, que englobaria o estudo da etnografia, da antropologia, da
história, do folclore e das migrações indígenas. Vale observar, nesse
sentido, a retomada da temática indígena nos congresso de geografia.
Posta em grande evidência no primeiro evento (Nunes Pereira, 2010:
41-42), o tema havia caído em esquecimento nos posteriores, pelo que se
pode constatar no material relativo ao 4º e 5º congressos.
25Constata-se
que os encontros realizados na República Velha contaram com
financiamento de órgãos públicos e com participação dos institutos
histórico-geográficos e de seus respectivos governos estaduais, levando
ao aparecimento de grande número de contribuições que privilegiavam
temáticas locais (fora o primeiro certame, realizado na então Capital
Federal). Inicialmente, a Sociedade de Geografia do Rio do Janeiro
ocupou o protagonismo na promoção de tais eventos, contudo os agentes
locais tomaram para si a organização dos eventos, em especial nas
jornadas ocorridas no Nordeste.
26Ao
que parece, a jornada de Vitória, em 1926, recuperou o protagonismo da
SGRJ devido ao regionalismo pouco expressivo do estado do Espírito
Santo. Isso pode ser averiguado através da participação de duas figuras
significativas de seus quadros sociais. Por um lado, o general Cândido
Rondon considerado um “herói nacional” e, de outro, Everardo Backheuser,
que sistematizou os estudos geopolíticos no Brasil, bem como
envolveu-se no debate sobre a divisão territorial, a localização da
capital federal e a centralização administrativa, defendendo a
consolidação da unidade territorial a partir de um poder central. Os
congressos realizados entre 1909 e 1926 evidenciaram o problema do
sistema federalista fixado pela Constituição de 1891. Os debates
travados demonstraram como os interesses das oligarquias estaduais
sobrepujavam o poder da União, constituindo um entrave à formação de uma
identidade nacional e à consolidação da integridade territorial.
- 7 Estabeleceu-se, assim, uma espécie de via de mão dupla com os órgãos federais, que reconheciam a co (...)
27A
complexidade das ações implementadas pelas políticas públicas
direcionadas para integração do território nacional durante a era Vargas
ensejou aquilo que denominamos cultura geográfica. Na esteira das
reflexões de Ângela de Castro Gomes (2007), é possível inferir que, ao
lado da sua dimensão temporal, própria de uma ‘cultura histórica’, uma
sociedade também se empenha em definir o espaço físico que ocupa. Isso
leva ao surgimento de uma ‘cultura geográfica’, capaz de estabelecer
vínculos entre os indivíduos e o território pátrio. A categoria cultura
geográfica aqui proposta articula-se, por um lado, com a cultura
política do Estado Novo e por outro lado, aproxima-se do que poderia ser
entendido como o campo da geografia dos anos 1930 e 1940. É viável
supor que as políticas públicas desenvolvidas na era Vargas levaram a um
conjunto de ações sistemáticas, originando uma cultura geográfica que
visava responder a determinadas demandas. É evidente que, para
desenvolver essa cultura geográfica, não se fez tábula rasa do passado.
Procurou-se suporte nas experiências e estudos anteriores, empreendidos
pela “prestigiosa Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro que de longa
data vem liderando no país as iniciativas e as realizações geográficas”
(CNG, 1939).7
28De
acordo com a historiadora Ângela de Castro Gomes (2007: 49), nos regimes
autoritários a construção de uma cultura política vincula-se fortemente
à implementação de políticas públicas, que investem de maneira
eficiente e consciente na busca de sua legitimidade. No caso do Estado
Novo, de acordo com a autora, o conjunto de medidas voltadas para a
recuperação do “passado nacional brasileiro” revela uma dimensão
específica de política pública em duplo sentido: no primeiro momento,
buscou-se articular determinados setores do aparato de governo com
atores sociais relevantes para a sociedade, a exemplo de artistas,
cientistas e intelectuais; no segundo momento, delimitou-se o lugar de
representação da nacionalidade por meio da leitura e da valorização
deste mesmo passado.
29Nesse
sentido, em 1940, como mencionado, a SGRJ retomou a prática de promover
eventos periódicos de Geografia, interrompidos em 1926. De acordo com
as resoluções 42 e 48, respectivamente de 7 de julho e 30 de outubro de
1939, do CNG, “a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, num entendimento cívico,
deliberaram reiniciar a série dos Congressos Brasileiros de Geografia,
realizando-os trienalmente” (CNG, 1939).
- 8 Bernardino José de Sousa, bacharel em direito pela Faculdade da Bahia, destacou-se como deputado es (...)
- 9 Com o objetivo de cuidar da organização do evento, cuja presidência de honra foi destinada a Getúli (...)
30No
contexto do que denominamos cultura geográfica do Estado Novo, a
Sociedade promoveu duas jornadas científicas, em Florianópolis (1940) e
no Distrito Federal (1944). Sintomaticamente, o 9º CBG seria precedido
de intensa propaganda. O ministro Bernardino José de Sousa,8
presidente da comissão organizadora, percorreu diversas capitais
fazendo palestras e pronunciamentos, com objetivo de atrair
especialistas e políticos para a reunião.9
A opção pelo estado de Santa Catarina como sede do evento não foi
aleatória. A escolha respondia a demandas bastante específicas, fruto da
instabilidade política internacional, já que naquele estado se
concentravam numerosos núcleos de imigrantes europeus, com predominância
expressiva de indivíduos de origem alemã, alvos da propaganda nazista.
Além disso, pretendia-se também homenagear o idealizador desses
encontros, o citado José Arthur Boiteux, em sua terra natal.
31A
sessão solene de inauguração do 9º Congresso ocorreu na Assembleia
Legislativa, em 7 de setembro de 1940. O interventor federal Nereu Ramos
proferiu a palestra de abertura (Ramos, 1941: 92), seguida dos
pronunciamentos de Ivo de Aquino Fonseca, secretário de Estado do
Interior, da Justiça e da Saúde (Aquino, 1941: 92), e do ministro José
Severiano da Fonseca Hermes. Este justificou sua indicação para
representar a comissão organizadora, em substituição ao Ministro José
Carlos de Macedo Soares, presidente do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (daqui por diante, IBGE), que se encontrava envolvido com
o projeto do recenseamento a ser realizado naquele ano pelo órgão.
- 10 As monografias inscritas deveriam passar pelo crivo de comissões científicas, incumbidas de emitir (...)
32Tal
como Bernardino de Sousa anunciara, a grande novidade que marcou o
programa de 1940 e foi repetida em 1944 consistia na formulação de teses
oficiais para dissertação. Ou seja, os organizadores preparavam
previamente as proposições dos congressistas, distribuídas por seções
que contemplavam áreas do conhecimento geográfico.10
33As
jornadas de 1940 e 1944 reuniram figuras representativas do cenário
intelectual brasileiro. Ao lado de conhecidas personalidades do panorama
político-cultural do Estado Novo, figuravam funcionários do
recém-criado IBGE, além de professores e dos primeiros egressos dos
cursos das faculdades de filosofia, a exemplo de Alberto Ribeiro Lamego,
José Setzer Gutman, Luiz de Castro Faria, Alvino Bertoldo Braune,
Francisco Iglesias, Gregório Bondar, Odilon Nogueira Matos, Gilberto
Freyre, Alice Piffer Canabrava, Carlos Delgado de Carvalho, Orlando
Valverde, Jorge Zarur, Valter Spalding, Renato Teixeira Mendes, Osni
Medeiros Régis, Pierre Monbeig, entre outros. Além disso, houve
instituições que se fizeram representar por meio de trabalhos de caráter
oficial, como o Ministério das Relações Exteriores, o Serviço de
Proteção aos Índios, o Clube de Engenharia e a Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
34De
modo geral, como era de se prever, as teses oficiais confluíam para o
desenvolvimento da cultura geográfica do Estado Novo, tanto na escolha
dos temas para estudo quanto na busca de subsídios para orientar a
formulação de políticas públicas. A esse respeito, no programa do
congresso de 1940 a seção de geografia humana apresentava o item “Estudo
funcional de um centro urbano”, e solicitava-se aos autores de
monografias que identificassem as condições geográficas e topográficas
que influíam na formação de uma cidade, bem como o seu “histórico
geograficamente interpretado”. Na mesma seção, outro exemplo expressivo é
a redação de um “inquérito antropogeográfico sobre um tipo de
imigrante”, em que se estimulava a redação de monografias que
abordassem, entre outros aspectos, “a origem, a categoria social, a
atitude do imigrante em relação ao trabalho, aos ‘conceitos médios’
sobre propriedade, família, religião, educação e as questões
internacionais, e se o tipo era assimilável ou não” (Anais do 9º CBG,
1941: 31).
35Os
referidos anais compreendem cinco alentados volumes, contabilizando um
total de 3.934 páginas. O primeiro volume reportava-se à parte
preparatória: regulamento, resoluções, instruções para comunicações,
lista de adesões, teses oficialmente recomendadas, atas das sessões e
programa. Os demais concentram os 227 trabalhos aprovados para
publicação e os respectivos pareceres das comissões técnicas.
36A
maior incidência de trabalhos recaiu sobre as seções de geografia humana
e de geografia econômica, seguindo-se contribuições voltadas para a
temática regional e monografias dedicadas ao estudo da geografia física.
Afora a indicação recorrente da necessidade de elaborar uma carta
topográfica brasileira, assunto que vinha sendo discutido desde 1909, as
demais moções aprovadas pelas comissões técnicas espelham o contexto
político e cultural que o país atravessava. Foram aprovados indicativos
recomendando a criação de um curso de corografia brasileira no Instituto
Nacional de Cinema Educativo; o preparo de um dicionário geográfico
brasileiro, pelo CNG; a organização de roteiros e de planos de excursões
de caráter científico-geográfico aos estados brasileiros, para serem
publicados na Revista Brasileira de Geografia; a introdução das seções
de geografia das calamidades e de geografia urbana nos próximos
congressos; o estabelecimento de órgãos geográficos de âmbito estadual,
tal como os que já existiam em Minas Gerais e em São Paulo. Finalmente,
advertia-se aos congressistas que se dedicassem exclusivamente aos
estudos de aspectos geográficos, deixando de lado as questões de
natureza política. Deliberou-se ainda que os congressos brasileiros de
geografia passariam a ter periodicidade trienal, devendo o próximo
realizar-se em 1943, dessa feita no extremo norte do país, em Belém do
Pará.
37Contudo,
nem todas as decisões foram unânimes. Há registro de discussões
acaloradas, tal como a que se seguiu à proposta do professor Jorge
Zarur, integrante da comissão de metodologia geográfica, regras e
nomenclatura. Ele postulou a separação dos cursos de geografia e
história nas faculdades de filosofia, e a criação de uma disciplina
específica para tratar da metodologia do ensino da geografia. A moção
teve acolhida favorável do plenário, porém o professor Pierre Monbeig,
presidente da comissão de geografia humana, recomendou que não se
deliberasse precipitadamente sobre o assunto. Colocada em votação pelo
presidente da comissão organizadora, o ministro Bernardino de Sousa, e
apesar das manifestações de protesto de muitos congressistas, a sugestão
foi orientada para reexame, a pretexto de ”atender ao apelo do sr.
Prof. Pierre Monbeig, em homenagem à sua cultura e à colaboração que
traz para os nossos trabalhos (Anais do 9º CBG, 1941: 132).
38Além
da programação científica, foram planejadas atividades que buscavam
reforçar a política cultural de cariz nacionalista, desenvolvida no
Estado Novo: visitas ao Instituto Histórico e Geográfico de Santa
Catarina, à Academia Catarinense de Letras e a estabelecimentos de
ensino; exibições públicas de filmes produzidos pelo Instituto Nacional
de Cinema Educativo; apresentação de demonstrações de educação física no
estádio de Santa Catarina; uma excursão cientifica ao Vale de Itajaí,
liderada pelo professor Pierre Monbeig; e uma homenagem ao catarinense
José Arthur Boiteux, responsável pela introdução dos congressos de
geografia no Brasil.
39A
comissão organizadora também patrocinou um ciclo de conferências, ao que
tudo indica nas dependências do Clube 12 de Agosto. A primeira,
pronunciada por Osvaldo Cabral, constava de relato histórico da evolução
do estado de Santa Catarina. A segunda teve por objetivo apresentar uma
comunicação técnica, acompanhada de exibição cinematográfica, acerca
dos levantamentos aerofotogramétricos desenvolvidos pelo Sindicato
Condor. A terceira, do professor Delgado de Carvalho, ofereceu um quadro
da evolução da geografia humana, detendo-se no exame da contribuição de
geógrafos europeus e norte-americanos. O ciclo seria encerrado pelo
tenente-coronel Temístocles Sousa Brasil, com a palestra “Uma página da
geografia”, dedicada a estudantes do ensino primário, seguida da
apresentação de “filmes geográficos” (Anais do 9º CBG v.1, 1941: 134).
40Conforme a periodização instituída nas resoluções 42 e 48 do CNG, o 10o
Congresso deveria se realizar em 1943, na capital do estado do Pará.
Todavia, devido à entrada do Brasil na II Guerra Mundial o evento seria
adiado e transferido para o Rio de Janeiro. Convocado para se realizar
em 1944, além dos órgãos do sistema geográfico oficial, recebeu as
adesões do Ministério da Educação e Saúde e da Prefeitura do Distrito
Federal. Em relação ao encontro de Florianópolis, do ponto de vista de
estrutura e funcionamento, o 10o Congresso apresentou como
novidade a introdução da seção de geografia das calamidades e a volta da
geografia médica (Anais do 10º CBG, 1949, v.1: 34-35). A comissão
organizadora central delimitava os assuntos relevantes para estudo. Por
exemplo, na área de geografia médica, preocupavam-se com a distribuição
geográfica da malária; em relação à geografia das calamidades,
recomendava-se que os trabalhos se debruçassem sobre as pragas de
gafanhotos e as enchentes dos rios em centros urbanos. As instruções
para apresentação de trabalhos seguiam o mesmo modelo da jornada de
1940, ou seja, o programa fora previamente determinado com a formulação
de 18 teses oficiais para dissertação, distribuídas pelas dez seções em
que se dividiam as atividades. Manteve-se, também, a prática da
avaliação prévia do mérito das comunicações, por comissões científicas.
41Como
era de se prever, Getúlio Vargas ocuparia a presidência de honra do
encontro, secundado por autoridades do Estado Novo, a exemplo de Gustavo
Capanema, e por sócios beneméritos da SGRJ, tais como Cândido Rondon,
Bernardino José de Sousa, João Severiano da Fonseca Hermes, Fernando
Antônio Raja Gabaglia, Brás Dias de Aguiar, Édison Junqueira Passos e
Emílio Fernandes de Sousa Doca. A comissão organizadora foi liderada
pelo ex-chanceler José Carlos de Macedo Soares, presidente do IBGE e do
IHGB. Em 11 de setembro de 1944 realizou-se a sessão plenária
preparatória nas dependências do IHBG, no prédio do Silogeu Brasileiro
(Raja Gabaglia, 1949a:112), ao passo que a cerimônia de instalação
aconteceu no Palácio Tiradentes, com a presença do representante do
presidente da República, o ministro Alexandre Marcondes Filho. Nessa
solenidade, o professor Fernando Raja Gabaglia (1949b: 122) – velho
filiado da Sociedade – reafirmou a importância dos estudos da geografia
política para o Estado Novo, “uma vez que os nexos entre as condições
geográficas naturais e a estruturação política de um estado são
inegáveis (...) despida de quaisquer considerações subjetivistas, a
noção de estado decorre do território, pois o estado é uma
‘individualização geográfica’”.
42Compareceram à jornada 2.496 congressistas, inclusive estrangeiros, como os delegados da 2a
Reunião Pan-americana de Consulta sobre a Geografia e Cartografia, e do
doutor André C. Simonpietri, secretário da comissão de Cartografia do
Instituto Pan-americano de Geografia e História, em viagem pelos países
latino-americanos com os objetivos de levantar informações cartográficas
e promover o intercâmbio de técnicos (Castro, 1949: 170). Há que
mencionar, ainda, a participação de representantes das embaixadas dos
EUA, Portugal e França, do Conselho Nacional de Proteção aos Índios, da
Faculdade Nacional de Filosofia, do Colégio Pedro II, do Clube de
Engenharia, do IHGB, do Instituto de História e de Geografia Militar, do
Conselho Nacional de Geografia (daqui por diante, CNG), da Prefeitura
do Distrito Federal, dos estados e dos territórios brasileiros.
43Foram expostas 167 monografias no 10o
Congresso. Lamentavelmente, esse material não foi publicado na íntegra,
limitando-se os anais a apenas dois volumes, o que nos impede de fazer
um quadro, tal como realizado acerca do 9o Congresso. De
qualquer forma, no primeiro volume, impresso em 1949, encontram-se os
textos relativos ao regulamento, ao programa de teses oficiais, às
moções, às conferências, às excursões, bem como a edição de 37 teses
resumidas e adaptadas. O segundo volume apareceu em 1952 e contém os
trabalhos aprovados para a publicação das seguintes comissões: geografia
histórica (15), geografia matemática (4), geografia física (5) e
biogeografia (2).
44A
leitura desse material, embora contemple apenas quatro seções do evento,
demonstra que os organizadores se esmeraram para reforçar a cultura
geográfica do Estado Novo, de forma semelhante ao ocorreu no congresso
de 1940. A questão imigratória, por exemplo, mereceu a atenção de
diversos estudiosos, tal como o capitão Osmar Romão da Silva, cuja
comunicação abordou a assimilação dos imigrantes entre os anos de 1934 e
de 1944. A primeira data correspondia ao momento de profunda
desassimilação decorrente da influência nazista. Para o militar, a
situação só se alterou com a lei de nacionalização do ensino, promulgada
em 1935, seguida da proibição de propaganda política estrangeira e
utilização do idioma alemão em lugares públicos (Silva, 1949: 173).
45Também
preocupado com controle dos imigrantes, deputado e professor Xavier de
Oliveira defendeu a ideia de uma redivisão administrativa do território
brasileiro, por meio da criação de 16 novas “unidades mediterrâneas”,
com características semelhantes às de colônia agrícola e militar. As
unidades teriam sua população constituída por até 25% de europeus,
ficando vedada a entrada de “elementos da raça amarela” (Oliveira, 1949:
487). Oliveira sugeria a adoção de um sistema de cooperativa, que
estabelecia o direito ao uso da terra após cinco anos, para o brasileiro
nato e para o estrangeiro que se casasse com brasileira ou tivesse
filhos nascidos no país. E recomendava, ainda, sucessivas partilhas do
espaço nacional, “de tal jeito que consideremos a redivisão política
periódica do território nacional um postulado a ser inscrito em nosso
próprio estatuto fundamental. E deve ser feita baseada, em, apenas, três
considerações: (1) a extensão territorial de cada estado; (2) a
densidade demográfica de cada região; (3) o índice de progresso
econômico e social a que houver atingido” (Oliveira, 1949: 486).
46Apesar
das restrições impostas pela SGRJ, no que tange às moções e
recomendações houve indicativos que despertaram boas polêmicas. A
começar pelo velho problema dos limites interestaduais. O representante
do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, o já
mencionado Mário Melo, considerou o assunto inoportuno, uma vez que
Carta Constitucional de 1937 havia extinguido quaisquer questões de
limites (Anais do 10º CBG, 1949:186). O embaixador Macedo Soares, porém,
na qualidade de presidente da jornada científica, considerou válido o
debate para a “retificação de pontos imprecisos ou duvidosos” (Id, ibid:
184). A posição do ex-diplomata encorajou outros participantes a
tratarem daquela problemática, a exemplo de Azevedo Costa, Joaquim
Ramalho e Benedito Quintino dos Santos (Id, ibid: 88-189).
47Por
outro lado, certos congressistas voltaram suas atenções para
delimitação do campo da disciplina, censurando comunicações que, no seu
entender, não tratavam de temas de natureza geográfica, como fez Fábio
de Macedo Soares Guimarães, secretário da comissão de geografia humana.
Ele reconheceu a contribuição positiva de monografias de cunho econômico
e social, voltadas para subsidiar a administração pública, porém
advertiu: “francamente escapam à competência de um congresso de
geografia” (Id, ibid: 203).
48A
provocação de Macedo Soares foi respondida por Luís de Oliveira Belo,
que manifestou a sua dificuldade em distinguir uma tese geográfica de
teses de outras áreas do conhecimento, dúvida que acreditava
compartilhar com a maior parte dos congressistas. Criou-se uma situação
de mal-estar, uma vez que todos os trabalhos apresentados correspondiam
às teses oficiais, preparadas pelos organizadores do evento, além de
terem passado pela aprovação das comissões científicas (Anais do 10º CB,
1949: 203). Outras intervenções também suscitaram animados debates. Na 3a
sessão plenária, o ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema,
pronunciou uma conferência sobre o papel da geografia na formação da
juventude brasileira. Em sua opinião, os cursos de geografia e história
ministrados pelas faculdades de filosofia, de acordo com a legislação
aprovada em 1939, destinavam-se ao preparo “primeiro do cientista em
Geografia e História; segundo (...) de professores para a escola
secundária” (Id, ibid: 215).
49Na
esteira das ideias de Capanema, o ministro João Severiano da Fonseca
Hermes e o engenheiro Valdemar Lefèvre sugeriram a regulamentação da
profissão de geógrafo e a criação de uma faculdade de geografia e
cartografia (Aais do 10º CBG, 1949: 263-266). O indicativo foi aprovado
com parecer emitido por Alírio de Matos, professor da Escola
Politécnica, aconselhando o estabelecimento de escolas especializadas
para a formação de topógrafos, agrimensores e engenheiros geodesistas,
além de cursos de geografia nas faculdades de filosofia.
50O
debate tomou outro rumo quando Jorge Zarur, contrariando a opinião do
ministro Capanema, argumentou que não estava na alçada das faculdades de
filosofia diplomar cientistas, mas sim professores de ensino
secundário. O professor Fernando Raja Gabaglia, por sua vez, advertiu
que a moção aprovada pretendia apenas incentivar o estabelecimento de um
curso técnico de geografia. Via com dificuldade a criação de uma escola
superior voltada exclusivamente para o preparo de geógrafos, mas
atentava para a necessidade de incorporar disciplinas pedagógicas nos
currículos dos cursos de matemática, geografia e história. Não
satisfeito com o encaminhamento da discussão, em outra oportunidade
durante o Congresso, Jorge Zarur retomaria as propostas de Capanema,
concluindo:
Nos últimos dez anos as
universidades se têm esforçado em formar professores de geografia,
geógrafos no verdadeiro sentido da palavra são poucos e quase todos
autodidatas. Tenho esperança de que, no futuro, teremos também o técnico
de geografia, o geógrafo profissional, como eu vi nas várias regiões
americanas por onde passei, pesquisando e não somente ensinando
geografia, mas indo ao campo para realizar pesquisas, construindo a
ciência geografia e dando-nos um conhecimento maior do mundo em que
vivemos. (Zarur, 1949: 386)
51Além
das comunicações, na programação científica houve seis conferências
especiais. As três primeiras foram realizadas no auditório do Ministério
da Educação. O professor Jorge Zarur inaugurou o ciclo, com a
conferência “Geografia: ciência moderna a serviço do homem”, seguido do
comandante Braz Dias de Aguiar, com o relato dos trabalhos de
levantamento dos rios da região amazônica, desenvolvidos pela Comissão
Demarcadora de Limites. Por fim, falou o professor Everardo Backheuser,
que sublinhou alguns dos aspectos singulares da geografia carioca.
52Denominadas
de “Tardes brasileiras”, as conferências restantes tiveram lugar no
IHGB e se caracterizaram pela valorização das grandezas naturais do
território brasileiro, de acordo com o nacionalismo do Estado Novo.
Deste modo, foram privilegiadas a “Região Nordestina”, pelo professor
Sylvio Fróes Abreu; a “Região Centro-Oeste”, pelo coronel Lísias Augusto
Rodrigues e a “Amazônia brasileira”, pelo professor Artur César
Ferreira Reis.
53Além
de abrir a discussão a respeito do ofício de geógrafo e da sua formação
profissional, a plenária do evento aprovou moções que sugeriam a
permuta entre professores da disciplina de vários estados do Brasil,
para o “efetivo conhecimento prático do território, finalidade
considerada duplamente cultural e patriótica” (Anais do 10º CBG, 1949:
475); a criação de gabinetes de geografia nas escolas secundárias; a
introdução da seção de geografia urbana no programa dos próximos
congressos, em consonância com os resultados das pesquisas efetuadas por
técnicos do CNG sobre a revisão de nomenclaturas das cidades
brasileiras. Esta moção, aliás, levaria a outra recomendação,
aconselhando o estudo da disciplina por urbanistas e arquitetos
dedicados aos planos de remodelação das cidades.
- 11 Foram laureadas com medalhas de prata as teses “A cartografia antiga e os fundamentos pré-histórico (...)
54No
encerramento dos trabalhos o evento conferiu o Prêmio José Boiteux,
agraciando com medalhas de ouro, prata e bronze as comunicações
aprovadas com louvor.11
Concedeu-se a medalha de ouro à monografia “O homem e a restinga”, de
autoria do professor Alberto Lamego Filho, estudo inspirado em Euclides
da Cunha que tratou da colonização e da ocupação do estado do Rio de
Janeiro (Anais do 10º CBG, 1949: 474). Além disso, por sugestão de
Fernando Antônio Raja Gabaglia decidiu-se pela realização do 11º CBG na
cidade do Belém do Pará, em 1946. Cogitou-se, ainda, a organização do
certame seguinte na cidade de Salvador, em 1949, como parte das
comemorações do 4o Centenário da fundação da cidade.
55Contudo,
a deposição de Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945 não favoreceu
aquelas pretensões, pelo menos temporariamente. Em 1954, a Sociedade
retomou a promoção de um novo congresso, oportunamente no segundo
governo de Getúlio Vargas, sob a chancela do IBGE. Desde 1951,
aventou-se a organização de um novo certame no Rio de Grande do Sul para
o ano seguinte. Como já estavam programados os XVII Congresso
Internacional de Geografia e a Reunião de Consulta Pan-Americana de
Geografia do Instituto Pan-Americano de Geografia e História nos Estados
Unidos, os organizadores optaram pelo adiamento do certame de 1952.
Aliás, as notícias sobre o novo evento eram anunciadas em periódicos de
grande veiculação do porte do Jornal do Comércio.
- 12 Vale ressaltar que não localizamos os anais do congresso de 1954, há o registro do evento em vários (...)
56A matéria ofereceu uma retrospectiva dos dez congressos brasileiros de geografia, mas omitia o motivo da interrupção.12
Por outro lado, reforçou a reunião como um espaço para reflexão sobre
os problemas brasileiros da época. No caso do estado do Rio de Grande do
Sul, ressaltou a importância geoestratégica da Bacia do Prata. Nesse
sentido, o almirante Dodsworth Martins, presidente da (agora denominada)
Sociedade Brasileira de Geografia, realçou que deveria ser dada
“destacada ênfase aos temas técnicos e científicos que concluam sobre o
aproveitamento ao maior desenvolvimento de novas fontes econômicas,
visando, com isso, cooperar na batalha da produção, preconizada pelo
presidente Getúlio Vargas” (Jornal do Comércio, 20 de junho 1951).
Corroborando com o discurso de Dodsworth Martins, o general Djalma Polli
Coelho, presidente do IBGE, recomendou que no programa do congresso
devia constar as teses sugeridas. No seu entendimento, temas “que versem
assuntos locais e estudos e problemas geográficos marcantes da
atualidade, tais como o plano SALTE, a transferência da capital da
República, o estudo dos grandes vales e o polígono das secas. Esses
assuntos, declarou por fim, deveriam ser recomendados aos geógrafos
brasileiros” (Jornal do Comércio, 20 de junho 1951).
57Além
disso, previu-se o envio de circulares-convite para as instituições
científicas e culturais para o evento. Na ocasião, o secretário do IHGB,
Virgílio Correa Filho, confirmou a participação da entidade através do
pagamento de uma taxa de dois mil cruzeiros para adesão, nas suas
palavras “(...) além da adesão do Instituto como entidade, que não
poderá permanecer indiferente a certames culturais de tal ordem também
providenciou a sua própria categoria de Protetor” (Ofício de 29/01/1954
do IHGB para a Comissão Organizadora).
- 13 A jornada foi dividida em onze sessões temáticas, a saber: geografia histórica e história da geogra (...)
58O
certame realizado em Porto Alegre, entre os dias 05 e 14 de maio,
seguiu a formalidade dos eventos anteriores. Sob a presidência do
desembargador Florêncio de Abreu, presidente do IBGE, o evento foi
inaugurado no Teatro São Pedro. Nessa oportunidade, as reuniões de
trabalho foram realizadas na Faculdade Católica de Filosofia. Contou com
a participação de geógrafos, de professores de geografia, de técnicos
do CNG, além dos representantes das instituições culturais e científicas
de diversos estados, a exemplo do Serviço Geográfico do Exército, do
Instituto de Geografia e História Militar, do Instituto Pan-Americano de
Geografia e História, da Inter-american Geodetic Survey, da Comissão do
Vale do São Francisco, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará,
entre outras, bem como os egressos dos cursos de Geografia das
Faculdades de Filosofia.13
59Além
de ressaltar as características de natureza histórica e geográfica do
estado do Rio Grande do Sul, em especial a contribuição dos
bandeirantes, dos lagunenses e dos açorianos na formação territorial,
Florêncio de Abreu homenageou os sul-rio-grandenses como o governador do
estado, o general Ernesto Dornelles; o prefeito de Porto Alegre, o
engenheiro Ildo Meneghetti e o general Dodsworth Martins, então
proclamados presidentes de honra do certame, ao lado do então presidente
da República Getúlio Vargas. É de se estranhar a falta de destaque à
figura de Vargas como um ilustre natural do estado, uma vez que ele foi
um dos maiores incentivadores dos congressos de geografia de 1940 e
1944. De todo modo, para o evento de 1954, Vargas autorizou a abertura
de um crédito especial de quatrocentos mil cruzeiros (Jornal do Brasil,
21 de fevereiro de 1954), assim como dispensou o ponto dos funcionários
que comparecessem ao certame (Correio da Manhã, 11 de abril de 1954).
Seja como for, também foram homenageados como beneméritos o general
Cândido Rondon, os professores Delgado de Carvalho, Afonso Guerra Lima,
Aroldo de Azevedo e Lindolfo Xavier. Ao discursar sobre a geografia
brasileira Florêncio de Abreu, constatou que:
Nos dias de hoje, quando os
métodos empregados respondem de fato aos reclamos da ciência, quando no
trato da Geografia e das pesquisas de campo intervêm recursos jamais
sonhados pelos grandes pioneiros de outrora, a atividade do geógrafo,
apoiada em ciências auxiliares que lograram amplo desenvolvimento,
assume uma feição nitidamente renovadora. Com a proscrição dos velhos
métodos de pesquisa, valorizou-se em consequência o próprio ensino da
matéria nos currículos oficiais e particulares, de tal sorte que a
Geografia é hoje uma especialização abrangente, a que se dedicam
poderosas inteligências e grandes culturas, no afã nobilíssimo de
desvendarem os arcanos da terra e da natureza à posse do homem, à sua
fixação ao solo e à sua felicidade coletiva. (Revista Brasileira de
Geografia, 1954: 280)
60Além
das 48 teses apresentadas, o programa constou ainda da organização das
mesas-redondas: “Geografia e os problemas dos transportes e
comunicações”, por Walter Haltinger; “A geografia e o problema da
energia do Brasil”, por Antônio J. Matos e “Conservação dos recursos
naturais”, por Jorge Zarur. Destacaram-se as conferências de Delgado de
Carvalho sobre “Geografia política e geopolítica”; do ex-governador e
membro da comissão de localização da nova capital da República, Jerônimo
Coimbra Bueno, que discorreu sobre os problemas da escolha da nova
capital, além do professor Aziz Ab’saber da Faculdade de Filosofia da
Universidade de São Paulo, que palestrou sobre as características
geográficas de Porto Alegre e por último, o almirante Jorge Dodsworth,
que apresentou “O destino do planeta Terra”.
61Em
paralelo, ocorreu uma exposição geográfica-cartográfica, que reuniu
documentos enviados por diversas instituições, em especial do CNG, bem
como realizaram-se excursões para as minas de São Jerônimo no Vale do
Jacuí e para a cidade de Caxias do Sul. O “Relatório” publicado na
Revista Brasileira de Geografia destacou a proposta do
professor Aroldo de Azevedo voltada para a criação de um departamento
geográfico no estado do Rio Grande do Sul. Ao longo do certame foram
realizadas ainda quatro sessões plenárias voltadas para leitura e
aprovação das teses pelas comissões técnicas. Consta, ainda, passeios
culturais ao Country Club de Porto Alegre, ao Centro de Tradições 35 e
ao Instituto Histórico do Rio Grande do Sul. Aparentemente, o certame de
1954 não obteve o mesmo brilho de suas últimas duas edições apesar do
aparato organizacional assegurado pelo IBGE, visto que não há referência
ao número total de participantes e aos anais desse congresso no
“Relatório”.
62Vale
a pena destacar que os congressos promovidos pela Sociedade de
Geografia, sob os auspícios do IHGB, em 1940, 1944 e 1954 constituem um
bom exemplo do funcionamento do sistema geográfico oficial instituído a
partir de 1938. Evidenciam a predominância de um saber geográfico de
caráter pragmático e utilitário, direcionado para o reconhecimento do
espaço nacional e para subsidiar a ação do governo, consoante a cultura
geográfica do Estado Novo. Porém isso não significa que sua contribuição
ao conhecimento geográfico deva ser minimizada. É importante assinalar
que, como atestam as discussões travadas, sobretudo na reunião de 1944, o
campo da geografia no Brasil se encontrava em franca delimitação. Não
por acaso pleiteava-se sua separação da história nos cursos das
faculdades de filosofia. Além disso, despontava a preocupação em definir
um perfil para o geógrafo profissional, cuja formação se presumia
diferente daquela destinada aos docentes de ensino médio.
- 14 Coube a vice-presidência ao ministro João Severiano da Fonseca Hermes, para os postos de segundo e (...)
63Os
certames realizados durante a Era Vargas reforçaram a visibilidade da
SGRJ/SBG. Essa nova fase se manifestou através da incorporação de novos
associados, na maior parte, funcionários do IBGE e de professores que
atuavam nas recém criadas faculdades de filosofia, além de militares e
de políticos, categorias que frequentavam a instituição desde a sua
criação em 1883. Assim, no final de 1944, uma nova diretoria foi eleita
para o biênio seguinte, encabeçada pelo ex-chanceler José Carlos de
Macedo Soares. Vale a ressaltar que Macedo Soares ocupou a presidência
da Sociedade Brasileira de Geografia (daqui por diante, SBG) entre 1945 e
1951, além do IHGB e do IBGE. Presidindo quase simultaneamente
diferentes instituições, Macedo Soares promoveu o encontro de
especialistas, estudiosos e professores. Com os quadros administrativos
revigorados, a instituição passou por uma reforma estatutária que
alterou seu nome, retirando a referência à cidade-capital a fim de
reiterar seu objetivo de estabelecer filiais pelo território nacional.14
64Entre
1909 e 1954, a SBG promoveu onze edições dos certames geográficos. A
atuação da instituição foi caracterizada por alguns como heroica, uma
vez que “as iniciativas dependiam dos sucessos de seus membros em chamar
a atenção da sociedade para os temas que procuravam discutir”
(Evangelista, 2014: 141), atingindo assim diversas áreas do território
brasileiro. Porém, uma nova fase despontava com o surgimento dos
congressos geográficos patrocinados pela Associação Brasileira de
Geógrafos (AGB) com a participação de professores dos cursos
universitários e funcionários do IBGE. Vale recordar que no mesmo ano de
1954, na cidade de Ribeirão Preto, teve lugar o primeiro evento
organizado por esta entidade profissional, criada em 1934. A partir daí,
iniciava-se uma demarcação formal entre a geografia produzida pelos
professores dos cursos universitários e dos antigos promotores de
certames geográficos, que passariam a ser classificados pejorativamente
como diletantes e autodidatas. Nesse sentido, Aroldo de Azevedo,
catedrático da Universidade de São Paulo, enfatizou na ocasião a
importância de um evento exclusivo para geógrafos profissionais, pois
esse espaço responderia a demandas específcas da disciplina acadêmica e
sua comunidade científica, garantindo a estas “voz ativa” e legitimidade
nos assuntos referentes à Geografia. Em suas palavras:
Por que realizar um Congresso de
Geógrafos, se já têm sido realizados tantos Congressos de Geografia, o
último dos quais o XI, reuniu-se em Porto Alegre, em maio do corrente
ano? A resposta a esta pergunta é muito simples: em um Congresso de
Geografia, tomam parte ativa todos quantos nele se inscrevem. Bastando
que se interessem pelo seu sucesso, independentemente de sua
especialização; geólogos ou economistas, matemáticos ou juristas,
militares ou geógrafos profissionais, cirurgiões ou historiadores,
sociólogos ou botânicos, odontologistas ou etnógrafos, químicos ou
arquitetos, sumidades em qualquer ramo do saber humano ou simples
curiosos, — todos, indistintamente, na medida de seus conhecimentos ou
de sua audácia, podem oferecer sua contribuição, quer através de tese,
quer através de seu voto em plenário. O resultado, como é de se esperar,
nem sempre é muito lisonjeiro e a Geografia deixa de receber, via de
regra, o ambicionado número de contribuições realmente valiosas e
verdadeiramente geográficas. (Azevedo apud Antunes, 2008:250)
65Fechava-se
um ciclo histórico da produção do conhecimento geográfico no Brasil, no
qual os congressos aqui analisados cumpriram importante papel.