- 1 Artigo derivado da Dissertação de Mestrado homônima, orientada pela Professora Dra. Rita de Cássia (...)
1A
Arte impõe-se como um cosmo de possibilidades etéreas e
transcendentais, um universo de manifestação das pulsões e das paixões
humanas, capaz de transpor as limitações imperiosas da sua condição
objetiva imediata de existência e de alçar as condições terrenas e
mundanas da humanidade ao nível do sublime. Encarnando as emoções, percepções e ideias em meios e materiais tangíveis – as obras de arte –, a Literatura reveste-se, enquanto manifestação legítima de um campo artístico, de uma licença poética e dá vazão a uma recôndita e profunda sensibilidade.
2A
Ciência, por outro lado, valendo-se de uma linguagem denotativa e
alicerçada em um caráter primordial de objetividade informativa,
reproduz-se no âmbito de um universo de conhecimentos sistemáticos e
metódicos, voltados, em suma, para o esforço de ampliação da compreensão
humana acerca do cosmo em que vive. O universo científico é autônomo e
independente, múltiplo e variegado, capaz de se autorreproduzir e de
constantemente se reinventar, modificando os seus sustentáculos e
atualizando as suas bases fundantes.
3Esses
dois universos, aparentemente longínquos e imiscíveis, se entrecruzam
de modo profícuo, estabelecendo uma união de elementos tão opostos
quanto complementares, cujas relações abrem um interessante campo
investigativo em que os sentimentos manifestos pela Arte dão guarida
e/ou nutrem as concepções racionais mobilizadas e ordenadas pelo campo
científico – e vice-versa. Isso porque na relação Arte-Ciência – ou mais
particularmente, para este estudo, na relação Geografia-Literatura –,
os artistas-literatos imbuem suas obras de uma identidade que denuncia a
conexão obrigatória com a realidade, uma vez que tais obras possuem uma
autoria sujeitudinal e são timbradas por uma escala espacial e temporal
específica.
4Destarte,
por mais fantasiosas e ficcionais que sejam as narrativas literárias,
ou por mais que revelem dilemas e questões universais da saga humana
pela superfície terrestre, elas sempre trazem embutidas em si um
registro genético: enquanto seres sociais e discursivos, os literatos
comungam, com outros indivíduos – seus pares –, as mesmas diretrizes
gerais de determinadas ideologias ou concepções de mundo,
manifestando e expressando, com base nelas, descrições e/ou
julgamentos, tácitos ou explícitos, da realidade sobre a qual estão
assentados; assim, a própria percepção da realidade é realizada segundo
um arcabouço prévio, o qual assume um sentido significativo para a
compreensão e interpretação dos enredos, personagens e ambientes
literários.
5O que se tem posto é, pois, que o discurso
implica na consideração das condições histórico-sociais e filiações
ideológicas dos sujeitos discursivos – nesse caso, sujeitos-escritores. A
produção discursiva encontra-se marcada por conflitos e embates que lhe
são estruturais, pois as ideologias que interpelam os sujeitos no
interior de uma sociedade são diversas, manifestando distintas tomadas de posição e configuração de diferentes concepções ou visões de mundo.
Dentre as muitas formas que pode assumir, a Literatura apresenta-se
como um interessante aporte discursivo, uma vez que, por meio desta
instância artístico-cultural, o “coro dos contentes” também encontra
brechas para o desafinamento dos atores sociais inconformados, revestida
que está de uma aura que lhe confere o estatuto de importante
campo estratégico para o “descortinamento” das forças e tensões
pertinentes às estruturas sociais.
6No limite, este estudo busca perscrutar, nos discursos literários,
as concepções de mundo inscritas, explícita ou tacitamente, nas obras,
patenteando sua origem sócio-histórica e sua inserção em um contexto de
debates ideológicos, nos quais os literatos constituem uma parcela
significativa da intelligentsia nacional. Para o tempo histórico em foco – a primeira Era Vargas (1930-1945) –, a intelligentsia
constituía-se no fórum privilegiado de circulação das posições e
oposições, das ideias e suas antíteses, referentes aos calorosos debates
sobre os conteúdos essenciais e mais amplos da formação territorial e
nacional brasileira – incluídos aí a questão acerca da modernização dos sertões nacionais.
7Desse modo, as interpretações de como são ou deveriam ser
os aspectos e elementos constituidores da realidade mais imediata,
vivenciada, contribuem para a formação dos literatos enquanto sujeitos
e, em última instância, os inscrevem em um lugar socioideológico e
histórico marcado, deixando entrever, em suas obras, as substâncias mais
ou menos profundas das crenças e dos valores coletivos dos quais são
“porta-vozes” – transformando tais escritores, como afirma Goldmann
(1979), em indivíduos expressivos, isto é, indivíduos que
conseguem expressar e/ou melhor discorrer, a partir de seus escritos,
sobre uma visão de mundo compartilhada por um determinado grupo social.
- 2 Segundo Moraes (2005), os pensamentos geográficos referem-se a discursos – emersos em diversas inst (...)
8Ante
essas considerações, a Arte comunga com a Ciência a possibilidade de
leitura da realidade: no plano artístico, no entanto, a realidade pode
ser forjada em matizes verossímeis ou idealizadas, mas sempre
referenciada na linguagem concreta do que se conhece, admitidas as
indicações histórico-geográficas. Portanto, ainda que não sejam – ou
pretendam ser – retratos absolutamente fidedignos à realidade, as obras
literárias possuem uma inserção obrigatória em uma dada esfera
socioespacial e, por conta dessa inserção, os discursos literários
tendem a expressar pensamentos geográficos2, sedimentando concepções e difundindo valores – ideologias geográficas –, os quais engendram uma espécie de “senso comum”, uma mentalidade coletiva acerca do espaço.
9Reclamando uma hermenêutica das visões de mundo
entranhadas em seus enredos, os discursos literários permitem apreender
e conjecturar o entendimento dos intelectuais-literatos em relação à
realidade – em seus aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais e
espaciais – da qual são sujeitos sociais. No âmbito desse escopo
diagnóstico e programático, as litteris (letras) dos literatos e as ideias dos pensadores sociais brasileiros se uniram em torno da interpretação da alma brasílica,
das causas e modelos da formação territorial e nacional brasileiras,
revelando certa vantagem comparativa das obras artístico-literárias em
relação aos ensaios e publicações científicas: na promoção de uma
leitura (aliada, a partir do referencial ideológico do autor, de uma
interpretação valorativa) do factual e do concreto, a arte literária
pode difundir ideologias e valores de modo bem mais amplo, obtendo maior
êxito na formação das almas de um vasto público leitor; assim,
por seu caráter “mais leve”, a Literatura guarnece-se de um timbre
notório na divulgação e legitimação de concepções de mundo, dando aos
literatos uma posição de autêntica e distinta representatividade no seio
da intelligentsia nacional.
10Considerando a relação entre as ideologias e a eficácia política pleiteada pelos discursos, torna-se possível, a partir da poiese,
resgatar o pensamento ideológico que o literato busca dar vazão,
inserindo-o no contexto dos embates e forças ideológicas maiores,
presentes na complexidade social de seu tempo. A extração dos embates
imbricados nos discursos é atrativa no sentido de perscrutar, a partir
de análises e interpretações retrospectivas, quais proposições
encontraram legitimidade/eficácia política, relegando às demais a sua
dissolução (o relativo esquecimento) ao longo da História, uma vez que o “oficialismo” histórico apresenta uma nítida empatia pelos ditos “vencedores”.
- 3 A pesquisa enfoca os autores canônicos do momento histórico-literário em foco – a Segunda Geração M (...)
11A partir desses pressupostos, assenta-se que o objetivo central deste estudo é analisar como a ideia de Sertão é construída discursivamente ao longo das obras mais representativas dos Romances Regionalistas da Geração de 19303,
construindo um painel do modo de abordagem valorativa do Sertão
relacionado aos projetos estatais-nacionais coetâneos acerca da formação
e modernização do território.
- 4 Para uma visão panorâmica, no âmbito do Pensamento Social Brasileiro, das interpretações da dualida (...)
12Mirando
o deslindamento e/ou descrição do “Brasil real”, a história nacional,
sobretudo no período de 1870 até meados do século XX, viu florescer
obras de nítidos e candentes tons ensaístas, preocupadas em responder
questões como: “O que é o Brasil?”, “Qual a essência brasileira?”, “Como se estrutura o território e o povo brasileiros?”;
intelectuais de expressiva autoridade – tais como: Cassiano Ricardo,
Nelson Werneck Sodré, Capistrano de Abreu, Oliveira Vianna, Nestor
Duarte, Raymundo Faoro, Elísio de Carvalho e Sérgio Buarque de Holanda –
buscaram refletir e responder a estas e outras questões. Em suas
obras, aliadas às obras dos cientistas do Instituto Oswaldo Cruz e aos
relatos de viagens dos militares da Missão Rondon, emergiu um panorama
de partição arquetípica do Brasil segundo a dualidade Sertão/Litoral4.
13Essa dualidade alimentou um espírito interpretativo amplamente incorporado, configurando-se como um modelo quase obrigatório no zeitgeist do campo científico – ou mesmo das estruturas socioculturais lato sensu – à época. Assim, sob os sedutores discursos dos intérpretes do Brasil, em que pesa a emblemática obra de Euclides da Cunha, Os Sertões
(1909) – ela mesma localizada fronteiriçamente entre as instâncias da
Literatura e das descrições científicas –, a arte literária sorveu o
paradigma dicotômico bipartido, também se embrenhando nos esforços de
revelação do Brasil, voltando-se para a sua hinterlândia (ou, em outros
termos, para os seus sertões plurais) e dando novo fôlego e
novas bases para os ditos romances regionalistas. Em todo caso, o que o
momento histórico conclamava era a (re)descoberta da Nação, pintando um
heterogeneamente valorado quadro de atribuição à partição sertaneja a
condição de fronteira entre o civilizado/ moderno e o atrasado/arcaico.
14Nesse
contexto, os “vazios” disponíveis e incontestavelmente brasileiros
constituíram-se em essências do sentimento patriótico, transformando a
história nacional em um contínuo processo de expansão territorial.
Assim, fundou-se a imagem do Brasil enquanto pátria geográfica:
nação feita de espaços “vazios” e inextinguíveis, com ideais perpétuos
de conquista e usufruto do espaço – ou seja, com um movimento que,
partindo dos seus próprios centros político-econômicos, precisa ser
diuturnamente feito.
15No
âmbito das interpretações e narrativas do Brasil enquanto nação feita
primordialmente de espaço, as proposições dos pensadores sociais e dos
literatos ganharam grande vulto, buscando o Brasil dentro de seus
limites internos por meio de textos que versavam sobre a sociogênese
nacional a partir da partição entre as porções territoriais de Sertão e
Litoral, descritas em seus conteúdos humanos e fisiográficos. Avaliada e
diagnosticada, a paisagem brasílica tornou-se, pois, alvo de uma
retórica programática e prospectiva, abarrotada de orientações sobre
exclusões e inclusões dos elementos existentes nessas porções, sob o
objetivo de imiscuir as características positivas de ambos – e anular ou
neutralizar as características julgadas desagradáveis – para a
constituição da nação desejada, ou, conforme Souza (1997, p.17), “para
fazer do Brasil grande um grande Brasil.”.
- 5 Souza sintetiza a dualidade das possibilidades de entendimento da porção sertaneja enquanto espaço (...)
16Enquanto julgadora autorizada, a intelligentsia nacional edificou representações de como o Brasil era e de como deveria ser,
engendrando textos sociográficos e literários ideologicamente marcados –
nem de longe inocentes –, projetando transformações que apontavam para
um Brasil novo, congregando a riqueza da terra com a redenção de um
grande povo unificado. Nesse escopo do jogo dualístico da bipartição
territorial, espécie de rito interpretativo, a retórica quase sempre
vociferava em prol da superação, em alguma medida, dos sertões: devendo
ser arrasados por completo ou parcialmente (mantendo o caráter da
legitimidade/autenticidade cultural), o mote básico era o da
transubstanciação destes sertões em não-sertão, impetrada por uma
“cruzada civilizatória e modernizadora”, originada nos centros do poder
hegemônico e rumando em direção à hinterlândia caracterizada como Sertão5. Esse “avanço civilizatório” processar-se-ia sempre a partir do contraponto sertanejo – o Litoral
–, o qual também fora valorado ambiguamente, “surgindo ora como parte
civilizada que deve se estender ao interior, ora como porção degradada e
inautêntica que deve se renacionalizar, absorvendo a pura brasilidade
da hinterlândia.” (SOUZA, 1997, p.161).
17Ademais,
o resultado da “marcha civilizatória e modernizadora” não é a
“anexação” permanente dos sertões aos domínios da soberania hegemônica,
mas sim a (re)criação perpétua dos espaços sertanejos no âmbito da
formação territorial e social brasileiras: sempre sob os signos da
necessidade de sintonia aos centros político-econômicos
hegemônicos do capitalismo mundial, as supostas condições do “atraso” do
Brasil na concertação das nações alimentou constantemente um imaginário
do território a conquistar, motivando uma vitalícia “marcha
modernizadora”. Nesse processo, tornou-se recorrente o reconhecimento de
porções territoriais apartadas e desintegradas aos núcleos hegemônicos
do poder, reproduzindo incessantemente os sertões e, como
corolário, as preocupações quanto à necessidade de alteração (superação)
das suas condições sertanejas no âmbito da consolidação da brasilidade –
é nessa perpetuação dos espaços de “lógicas atrasadas”, assim
qualificadas quando comparadas à lógica hegemônica, que reside um dos
cernes da formação territorial brasileira.
18O constante desafio de “acertar o passo” aos centros hegemônicos – cujo lema assentava-se nas imperiosas necessidades de civilizar-se ou modernizar-se – perturbaram (e ainda perturbam) constantemente o heterogêneo seio da intelligentsia
brasileira, a qual utilizou o campo literário como um dos suportes mais
significativos e emblemáticos para dar vazão às suas angústias e aos
seus (des)contentamentos.
19Desse modo, o Sertão
figurou como protagonista em grande parte do Pensamento Social
Brasileiro, sendo interessante destacar que, nesta pesquisa, essa noção
não expressa propriamente ou de modo apriorístico uma realidade
fático-material, distinta por seus elementos naturais ou por uma
determinada especificidade da paisagem humanizada, ainda que exista um
imaginário acerca do qualificativo que se imputa a uma localidade como
sertaneja: tal noção não se refere, pois, a um local (materialidade terrestre localizável, passível de ser delimitada e cartografada), mas a uma condição
(um qualificativo básico imposto, implicando na valoração de
determinadas condições locacionais), em geral a ser superada, conduzindo
a contínuos processos de domínio territorial em diversos momentos
históricos, calcados, sobretudo, num ideal expansionista e dialógico,
uma vez que o Sertão só se expressa a partir do não-sertão (MORAES, 2009).
20Portanto,
o Sertão é concomitantemente o ambiente das secas e da Caatinga,
semiárido, desértico e marrom, e o ambiente agreste ou florestado,
verde, povoado e produtivo: é essa abrangência que, considerando as
obras em foco nesta pesquisa, permite caracterizar e unificar
minimamente os ambientes literários de Rachel de Queiroz, Graciliano
Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado na qualidade de sertões, porque,
embora heterogêneos, estão todos ligados à condição de não responderem
às lógicas hegemônicas – sequer enquanto periferias – da política, da
cultura, da sociedade e da economia capitalista, em desacordo que estão
com tais diretrizes ao serem estruturados em torno de poderes
personificados, violências naturais e sociais, arbitrariedades políticas
e fragilidades político-econômicas.
21Recorridas
em determinados momentos históricos, as imagens sertanejas ressaltam os
desígnios de superar lógicas socioculturais e político-econômicas
“obsoletas”, territorialmente fixadas, sob os auspícios de integração de
tais espaços aos ditames e aos domínios do “civilizado” e do “moderno”.
Assim, foi sob essa lógica que, durante a primeira Era Vargas
(1930-1945), a atual Região Nordeste foi tida emblematicamente como
“região-problema”, sob as bandeiras do “atraso” e da “obsolescência”;
nesse panorama, o regionalismo/sertanismo literário nordestino parece
ter contribuído significativamente, mesmo sem intenção explícita – até
mesmo por ser, enquanto Arte, fruto muito mais de fruições do que de
programáticas teleológicas –, para a ratificação do estatuto regional
como território-Sertão, endossando os interesses estatais de fundação da
imagética do retardamento e da necessidade de sua superação para levar a
cabo os projetos de formação de um mínimo mercado nacional integrado.
22No
primeiro governo varguista, sobretudo durante o Estado Novo (1937-1945),
instalou-se uma parceria entre os intelectuais e o Estado, de modo que
tal aliança buscava impetrar objetivos comuns para o engrandecimento
pátrio no cenário mundial, sem que, contudo, essa associação pudesse ser
vista redutoramente como um servilismo político-ideológico da intelligentsia
em relação ao poder central estatal. Não propriamente pioneira, a
linhagem descritiva e propositiva que se estabeleceu à época apresentava
uma variação em relação aos anteriores modelos interpretativos do
Brasil: para além de auditor privilegiado, o Estado fora elencado como
protagonista dos ensaios interpretativos da sociografia, depositando em
suas atuações, em grande medida sob um viés centralizador e autoritário,
a esperança de ordenamento e construção do país.
23Desse
modo, a forte atuação estatal seria a responsável por dirimir as
diferenças da partição paradigmática do espaço brasileiro herdado,
espraiando a soberania hegemônica e convertendo as autonomias
desnacionalizadoras em subserviência a um controle estatal forte e
homogeneizador. Nesse processo, as diferenças – sustentáculos das
identidades regionais – seriam reduzidas a exotismos inofensivos e
pitorescos, revestindo as ações do poder público, ratificadas e
incentivadas pelos intelectuais, de um caráter intencional e planejado,
garantindo uma completude (ainda que provisória) da “marcha
civilizatória e modernizadora” pela efetiva territorialização e
legitimação do Estado central.
24A
partir dos desideratos de (re)descoberta e (re)construção do Brasil nas
bases histórico-geográficas do primeiro governo Vargas (1930-1945),
pôde-se buscar perscrutar a ressonância dos projetos estatais nas vozes
dos intelectuais-literatos canônicos daquele momento histórico-literário
– Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado
–, obtendo-se, em síntese, as considerações a seguir elencadas.
25De Rachel de Queiroz a presente pesquisa privilegia a análise da obra O Quinze (1930). Aguiar
Filho (1965) considera que o conjunto de todas as ficções da autora
revela como maior constante a preocupação social, valorizando
abertamente a crônica social que, a partir deste romance, dá o tom e
figura-se como o fulcro de toda a sua obra ficcional, valendo-se da
linguagem direta e da percepção objetiva da realidade.
26Em suma, o principal drama da narrativa de Rachel é encarnado pela seca,
fator de um determinismo da natureza impiedosa e inclemente, expressão
objetiva dos infortúnios sociais para aqueles que não tinham melhores
condições de sobrevivência nos períodos prolongados de estiagem, sendo
forçados a migrarem. A paisagem sertaneja da seca é marcada pelo seu
aspecto tórrido, estéril, em que a aridez monocromática – caracterizada
pelo cinza da terra calcinada – é também o agouro da fome.
27O
rigor e a severidade transformavam a seca em um componente natural
praticamente inelutável, um “adversário desleal” para a população rural
pobre, de recursos limitados, de modo a gerar três consequências
praticamente certas: (i) a resignação derrotista para com as agruras e
os infortúnios do clima; (ii) o provável cenário da fome, transformando
todos os viventes em meros sobreviventes e; (iii) a morte,
personagem constante e parceira invariável no regionalismo literário
nordestino, tornando-se um elemento banal, um drama frequentemente
representado, mas nem por isso menos doloroso ou inédito.
28Ante essas considerações, as imagens e características do Sertão em Rachel de Queiroz estão sintetizadas no quadro a seguir:
Quadro 1 – Síntese das características e imagens do Sertão em Rachel de Queiroz
|
Literato
|
Obras analisadas
|
Características dos sertões
|
Imagens-síntese do Sertão
|
|
Rachel de Queiroz (1910-2003)
|
O Quinze (1930)
|
- seca;
-fome/miséria;
- morte;
- resignação;
- êxodo/retirantes.
|
- Sertão das secas;
- região atrasada.
|
Org.: O Autor.
29Todo
esse panorama revelava, pois, o atual Nordeste como uma
“região-problema”, de natureza impiedosa e, em certo grau, determinista
dos desditosos destinos dos trabalhadores rurais, os quais, sem maiores
condições de se manterem ante as intempéries climáticas, se
transformavam em retirantes,
uma mão de obra barata em busca de trabalho nas capitais nordestinas ou
no Norte ou Sul do país: uma “indústria da seca”, simbolizada pela
geração de trabalhadores desamparados e de um intenso fluxo de migrantes
para os centros político-econômicos do Brasil, especialmente o Rio de
Janeiro e São Paulo.
30Esse
“viciado” enredo real, em que pesa a falta de condições de
sobrevivência, encarnada pela seca, alimentou o forjamento do imaginário
do atual Nordeste enquanto polo de problemas sociais e de “atraso”. Sob
esses signos, a região foi desnudada para os leitores dos centros
hegemônicos, o que seria aproveitado pelo regime político do Estado
varguista para legitimar propostas de, no âmbito dos desígnios de
articulação dos espaços regionais em uma concertação das diferenças em
prol da unidade nacional (notadamente, da unidade do mercado doméstico),
incorporar a região no escopo do “oficialismo” político, social e
econômico do Brasil. No fundo, o que se deu foi o endosse da ideia de
“região-problema”, que necessitava intervenções do poder estatal para
diminuir as desigualdades e, no que interessa a esta pesquisa,
transubstanciar aquele imenso Sertão – como a região foi genericamente
interpretada – em não-sertão.
31O
Nordeste como “região-problema” ainda seria (como ainda hoje é) uma
imagem candente das necessidades – como argumentam seus líderes
políticos tradicionais – de investimento financeiro local/regional por
parte do Estado, numa visão em que a região é genericamente encarada
como um grande sertão, a despeito da heterogeneidade que
abriga, o qual precisa ser incorporado constantemente pela onda do
colonialismo interno ensejado pelo poder central.
32Em
Graciliano Ramos, a angústia é a disposição espiritual sempre marcante,
de modo que o mundo ficcional do literato é um universo sem amor e
alegria, animado por personagens egoístas, cruéis e insensíveis, em
geral desgraçados e malfadados pelo Destino; este, indefectível e
aparentemente imutável, se impõe para humilhar e destroçar tais figuras.
33Segundo
Lins (1945), as criaturas moventes de seus enredos são atormentadas por
sua existência e consciência, uma vez que não encontram qualquer
sentido para suas vidas e não se mostram aptas para quaisquer ações
solidárias e cooperativas, sendo-lhes reservada apenas a condição da
cáustica solidão; elas carregam em si, sob o pesado fardo da
inevitabilidade de fatos desagradáveis e sem o suporte da fé, um grande
poder de negação, beirando a um niilismo moral, a um desejo recôndito e
talvez inconsciente de aniquilamento e destruição. O ambiente literário
que envolve tais personagens parece uma projeção do estado de suas
almas: possui qualquer coisa de deserto ou de casa fechada e fria. O
ânimo é quase sempre desesperador, na certeza da incerteza, na única
crença inquebrantável de que nenhuma ajuda, salvação ou redenção virá em
auxílio desses personagens, entregues ao próprio destino, de caráter
verdugo.
34Nesse escopo e espírito literários, São Bernardo
(1934) aparece como uma obra literária de grande valor, convincente
análise do sentido atávico da posse e do sentimento de propriedade;
neste universo, o ter suplanta em muito a supremacia do ser,
e a “luta pela vida” desconsidera quaisquer escrúpulos de ordem moral
ou afetiva, atualizando um sentido naturalista de “sobrevivência do mais
forte”, encarnada pelo protagonista Paulo Honório, centro orbital do
qual partem todas as tramas e personagens romanescas. Como pano de
fundo, o coronelismo, a sociedade patriarcal nordestina e, sutilmente, a
tensão política pós-anos 1930 no Brasil surgem para projetar, no
ambiente externo, os dramas e angústias do interior, do cenário
psicológico do protagonista.
35Tem-se,
pois, o reverso, ou, mais propriamente, a desconsideração da moral,
impondo o colapso dos valores humanos em que há a supressão das
individualidades, uma “animalização” ou reificação do ser humano: os
personagens são reduzidos às suas condições animalescas, de bichos ou viventes, despossuídos, somente com a vida para lutar e defender.
36Diante
desse quadro, comum a todos os romances do literato, tem-se um
arraigado sistema antissentimental, em que a característica mais
marcante não é o humour, mas o sarcasmo, resultado da revolta
de uma sensibilidade vibrátil e tensa; tal sensibilidade, maltratada,
macerada e sufocada, projetou no romancista um demiurgo de um universo
literário impiedoso, centrado em cáusticas observações e severas
repreensões. (LINS, 1945). O seu mundo romanesco é sempre povoado por
“vidas secas”, configurando-se como um mundo sem amor, regido por sua
concepção de vida, limitada, de um lado, pelos instintos humanos e, por
outro, pelo Destino fatalista.
37Toda
essa objetividade e sisudez refletem-se na composição poética de
Graciliano, marcada por um surpreendente estilo de concisão e rígido
ascetismo das narrações e diálogos, cultivando uma prosa moderna no
vocabulário e nas construções sintáticas, sem brechas para adjetivações
desnecessárias.
38Desse modo, têm-se, sinteticamente, as seguintes imagens do Sertão em Graciliano Ramos:
Quadro 2 – Síntese das características e imagens do Sertão em Graciliano Ramos
|
Literato
|
Obras analisadas
|
Características dos sertões
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Imagens-síntese do Sertão
|
|
Graciliano Ramos de Oliveira (1892-1953)
|
São Bernardo (1934)
Vidas Secas (1938)
|
- seca/rusticidade;
- coronelismo/ patriarcalismo;
- violência/opressão/ morte;
- zoomorfização/ reificação humana;
- inutilidade das atitudes/ resignação;
- miséria/exploração;
- retirantes/nomadismo.
|
- Sertão das secas, da exploração e miséria;
- região atrasada;
- espaço ordinário da angústia humana.
|
Org.: O Autor.
39Nas duas obras analisadas neste estudo – São Bernardo (1934) e Vidas Secas
(1938) –, o romancista leva ao limite o clima de tensão entre o homem e
o meio natural, e entre o homem e o meio social, engendrando conflitos
veementes, capazes de moldar personalidades e transfigurar as qualidades
dos homens. A violência é imperiosa, os finais são trágicos e
irreversíveis, e a morte é uma constante, como atestam o suicídio de
Madalena em São Bernardo e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas Secas.
Com personagens oprimidos e moldados pelo meio – no caso dos
protagonistas Paulo Honório e Fabiano, moldados pelo Sertão –, as
estruturas que vigoram só permitem a resignação ante a força das
inevitabilidades do Destino, baldando qualquer esforço, caracterizado
sob o estatuto da absoluta inutilidade.
40Seguindo os trilhos abertos por Rachel de Queiroz, o literato também expõe o flagelo dos retirantes,
mas sob um universo literário mais rico do que o da romancista, pois
tratado a partir de um vicioso ciclo em que a maior vilã não é a seca,
mas sim a miséria – obviamente potencializada pelas condições ambientais
extremas, tanto na figura das secas quanto na das enchentes –, que
subjuga os humanos, concorrendo para sua animalização. Elemento
emblemático da atual Região Nordeste, a seca em Graciliano
atinge limites poético-literários sem precedentes, “contaminando” todo o
enredo: para além da linguagem, também ela seca e rústica, a condição
climática influencia na corrosão das almas dos personagens, modulando e
lapidando os seus espíritos. Assim, em Vidas Secas, toda a
verve e genialidade literária do escritor se explicitam, compondo
quadros ao mesmo tempo trágicos e belos. O resultado ou efeito é a
consumação de uma prosa regionalista ímpar.
41Por
conseguinte, o sertão de Graciliano Ramos cristaliza a imagem da seca;
porém, mais importante do que esta imagem é a insígnia implantada dos
espaços sertanejos como áreas de domínio de homens rústicos, sertanejos
brutalizados e animalizados pelo ambiente e, sobretudo, pela miséria e
exploração. Por outro lado, a seca e a “incivilidade” do sertanejo só
corroboram o discurso oficial hegemônico do poder estatal nacional em
transformar os sertões nacionais – em destaque para a “região-problema”,
alcunha genérica do atual Nordeste – no dito não-sertão, espaço
integrado à lógica do capital.
42Contudo, em Graciliano Ramos tem-se, por outro lado, um literato da angústia e que beira ao niilismo, re-ligando
todos os homens à condição de “condenados pelo Destino”; por essa
ligação transcendente e universalista, da força da Arte do escritor
emerge uma autêntica e humanitária retórica, em que o “homem rústico”
dos sertões em nada difere do “homem civilizado” dos territórios
integrados à lógica político-econômica hegemônica, e ainda mais longe e
mais fundo, não muito diferentes mesmo dos demais animais ou criaturas
viventes. Nesse contexto, a imagem negativa dos sertões se dissolve e,
embora não se crie propriamente uma imagem positiva deles, os espaços
sertanejos são encarados sob uma avaliação mais neutra e equilibrada,
essencialmente nem bons ou ruins, melhores ou piores, autênticos ou
artificiais: apenas espaços humanos, diferentes de outros
hegemonicamente mais poderosos. Essa faceta, mais escondida, é a
representação da obra poética e transcendente de Graciliano Ramos.
43A terra nordestina foi, em seus quadros sociais, culturais, econômicos e políticos, o leitmotiv
da obra artístico-literária de José Lins do Rego, romancista que
buscava, nas memórias telúricas, as suas raízes perdidas no tempo,
tencionando reconstruir um mundo em contínua fuga e mudança. Por
isso, segundo Castello (1960), o literato foi uma legítima expressão
modernista em sua faceta nordestina, ligada diretamente às sugestões e
ideias de Gilberto Freyre, o que não anulara, de modo algum, a sua
disposição espiritual para criações novas: dentre todos os modernistas
do regionalismo nordestino, José Lins foi o que mais se preocupou com
uma posição crítica em face das atitudes e opiniões daqueles que, na
porção sul do país, particularmente em São Paulo, conceberam a Semana de
Arte Moderna e cristalizaram o movimento modernista ao longo da década
de 1920.
44Destarte,
neto de senhores de engenho, as experiências da infância e da
adolescência concorreram fundamentalmente para a composição de sua obra,
forjada, anos mais tarde, a partir de impulsos espontâneos e
irresistíveis, que, concomitantemente a uma atitude crítica
regionalista, permitiram a ele fixar o esplendor e a decadência dos
engenhos de açúcar: substituídos pela usina, os engenhos foram
despojados de sua posição privilegiada, transformando toda a estrutura
social e econômica da paisagem açucareira nordestina, latifundiária e
patriarcalista. (CASTELLO, 1960).
- 6 Cabe ressaltar, todavia, que muitos dos senhores de engenho, com vias a não perder o “cetro do coma (...)
45Em última instância, toda a criação fecunda do “ciclo da cana-de-açúcar” – composto pelas obras Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), O Moleque Ricardo (1935), Usina (1936) e Fogo Morto
(1943), todas em análise neste estudo – pautou-se na apresentação dessa
decadência dos engenhos açucareiros nordestinos, expondo a transmutação
do panorama regional a partir da decadência do patriarcalismo rural
nordestino, fundamentado na figura dos senhores de engenho, para uma
“instituição” da ordem hegemônica, as usinas de álcool e açúcar,
centradas em relações capitalistas de produção e reprodução do capital –
de modo que esse vetor da dita modernização regional
significou a transubstanciação daqueles sertões para a condição de
não-sertão. O surgimento das usinas afetou desde o homem do eito e o
trabalhador “alugado” até a pseudoaristocracia dos tradicionais senhores
de engenho6, alterando profundamente as estruturas econômicas, políticas, culturais e sociais regionais.
46Quando mencionado o vocábulo “sertão” em suas obras, José Lins do Rego trata-os como paragens localizadas a priori,
caracterizadas por sua fisiografia marcada pelo clima semiárido –
acepção que, histórica e popularmente, “grudou-se” ao termo sertão.
Nesse contexto, representou-se o espaço sertanejo como um espaço
simbólico-material fundado em outra ordem: se para a lógica hegemônica
os sertões representam um qualificativo daquilo que lhe escapa ao
domínio, para os infratores e pobres pode designar uma esperança de
outra vida, em que a condição de pobreza ou de foragido perde sua
validade e vigor. A partir desse pressuposto, a miséria sertaneja é
entrevista sob a candente insígnia da seca, estabelecendo dois
processos traumáticos de migração: (i) o processo quase natural de
migração dos sertanejos para as terras do massapé da Zona da Mata
nordestina, submetendo-se ao regime de trabalho e de proteção dos
senhores de engenho e; (ii) a migração para os centros
político-econômicos da lógica hegemônica, alternativa já explorada em
Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos.
47Outro
ponto de contato e aproximação da obra de José Lins do Rego àquela
apresentada por seu amigo Graciliano Ramos é a crença no fatalismo
inevitável, recriando um panorama em que a expectativa é de uma
inelutável tragédia, pré-determinada por um mí(s)tico Destino, sempre
sórdido e ameaçador, e revelando em José Lins do Rego muito mais do que
um depoente dos processos de transformação e modernização na esfera
socioeconômica, mas também um romancista de notória manifestação da
profundidade humana, desenvolvendo uma ampla compreensão do homem
telúrico nordestino. Nesse escopo, as superstições, as crenças em
criaturas folclóricas e a religiosidade aparecem como traços
proeminentes do regionalismo nordestino, bem como a crença na Fortuna,
regente das vidas individuais, impedindo qualquer outro sentimento que
não a resignação.
48Ante tais considerações, têm-se, sinteticamente, as seguintes imagens do Sertão no literato:
Quadro 3 – Síntese das características e imagens do Sertão em José Lins do Rego
|
Literato
|
Obras analisadas
|
Características dos sertões
|
Imagens-síntese do Sertão
|
|
José Lins do Rego Cavalcanti (1901-1957)
|
Menino de Engenho (1932)
Doidinho (1933)
Bangüê (1934)
O Moleque Ricardo (1935)
Usina (1936)
Fogo Morto (1943)
|
- passagem do domínio dos banguês para o domínio das usinas;
- patriarcalismo rural/coronelismo;
- (pseudo) aristocracia rural;
- mandonismos/ politicagens/ patrimonialismo;
- violência/opressão;
- miséria/fome/doenças;
- perversão sexual/ impudicícia;
- superstição/folclore;
- misticismo/ religiosidade/ sincretismo religioso;
- fatalismo/resignação;
- semiárido: refúgio/seca;
- cangaço/banditismo.
|
- Sertão do atraso, de falência da moralidade e de ordem pré-racional;
- relativa superioridade à ordem hegemônica, autoritária, opressora e de falacioso progresso social.
|
Org.: O Autor.
49O
sertão de José Lins do Rego – semanticamente ampliado para corresponder
à noção defendida nesta pesquisa – é valorado de modo complexo,
impossível de ser simplificado entre pares dicotômicos como “bom” ou
“mau”, “positivo” ou “negativo”: abordado a partir da nostalgia e das
memórias do literato, a zona açucareira nordestina recebe a pecha da
“obsolescência” e do “atraso”, uma vez que a alma genuína do romancista
não poderia trair a sua sensibilidade e não delatar as misérias e os
problemas que antevia na zona rural, adotando a postura crítica do
modernismo, aplicado ao seu regionalismo literário.
50Na projeção dos sertões do romancista, pesa o emblema do “atraso” a partir de diversas características, tais como: (i) a impudicícia
da prostituição e da antecipação sexual – também destacada nos enredos
romanescos de Jorge Amado –, extirpadora da inocência pueril e emblema
de uma amputação imoral da ingenuidade da infância; desse modo, é a
ordem do não-sertão, por meio da instituição escolar, que exerce o papel
de redenção e correção dos vícios da infância, contraídos nos engenhos.
(ii) A crença profunda nas superstições e fatalismos, dando vazão ao misticismo e ao conformismo e resignação,
elementos denotares de uma ordem pré-racional, ainda que o literato
mostre por vezes, a exemplo de Graciliano Ramos, um fatalismo
inevitável: é o caso, por exemplo, do fracasso de Carlos de Melo no
comando do engenho Santa Rosa, apesar de ser investido ou dotado da
suposta superioridade da racionalidade, ao apresentar-se como bacharel.
(iii) O ambiente patriarcal e pseudoaristocrático dos senhores de
engenho, cicatrizado por um povo faminto, doente e com baixíssimo nível
de vida, sendo tais condições vis de vida de grande parte da população
mantidas pelo domínio político, interessado em conservar o
patrimonialismo e o atendimento aos interesses pessoais de uma classe
minoritária, política e economicamente poderosa.
51Todo esse quadro fundamentou o cenário para o florescimento e a nutrição do banditismo,
tido como uma representação da resistência da alma sertaneja, capaz de
desafiar o próprio Estado; mas, por outro lado, também tido como
fenômeno de perpetuação da violência e do medo na região, banalizando a morte – já, de certo modo, banalizada pela miséria e pela seca – e impedindo que a paz, a ordem e a civilidade se estabelecessem.
52Todavia, apesar de todas essas características perniciosas, não é como se o oposto do sertão exposto – o Litoral
(ou o não-sertão) – fosse encarado como o modelo de perfeição, a ser
copiado e incorporado pela hinterlândia: a esse respeito, o escritor
destila a sua censura à modernização produtiva ao enfatizar que a nova
estrutura produtiva regional, fundada no predomínio da lógica industrial
a partir das usinas de álcool e açúcar, apresenta-se tão ou mais
exploradora do que o regime patriarcal de “suseranos” e “vassalos” dos
engenhos.
53Ante
isso, mesmo sob a condição sertaneja de “atraso” dos ambientes
privilegiados pelos romances de José Lins do Rego, o literato imputa uma
relativa superioridade da bagaceira quando contraposta à urbe,
antevendo com desconfiança o ambiente moderno dos espaços pautados na
lógica hegemônica. Se, por um viés, a retórica do “atraso” sertanejo
serviria para legitimar a “onda modernizadora”, incentivada pelo Estado
nacional, na hinterlândia compreendida como Sertão, a postura crítica
contumaz ao modelo da partição litorânea (aquela alinhada às lógicas
hegemônicas) serviria para refrear o ímpeto de atuação dos agentes
estatais e sociais preponderantes, entendendo-os como falácias do
progresso, uma vez que mascaravam as formas de exploração, mantendo a
estrutura da miséria, da violência e do autoritarismo; esse era o caso,
por exemplo, das críticas à truculência da polícia, espécie de “cangaço
oficial”, e do patrimonialismo e personalismo político dissimulado no
escopo das instituições oficiais.
54Portanto,
a visão regionalista do literato é duplamente crítica: censura a
“obsolescência” sertaneja, causa e consequência da miséria e do regime
político autoritário, mas também – e talvez ainda mais – o modelo
mimético fracassado do não-sertão, cuja modernidade não se enraizava no
caráter da terra, incorporando acriticamente valores exógenos e não
contribuindo efetivamente para o desenvolvimento socioeconômico
almejado. Dessa dupla visão do discurso artístico-literário, porém, a
retórica estatal aproveitou-se parcialmente para ratificar a imagem do
atual Nordeste como um problema, conclamando a uma sonora “intervenção
nos trópicos”, no sentido de modernizar as estruturas sertanejas
obsoletas.
55A
produção artístico-literária de Jorge Amado é tonificada a partir do
amálgama entre traços memorialistas e criações de acentuado teor
artístico, fixando sua temática em dois pontos principais: o tema rural
do cacau no Sul da Bahia, quadro privilegiado da infância do escritor e
ocupação marcante na vida de seu pai e; a cidade de Salvador, com seus
tipos sociais, sobretudo os mais populares.
56O “ciclo do cacau” – composto pelas obras Cacau (1933), Terras do sem-fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus
(1944), todas em análise neste estudo – concretiza, em suma, a
narrativa da épica regional do sul baiano: em uma primeira etapa,
edifica-se o exórdio da história regional com os “desbravadores da
terra”, os coronéis, responsáveis pelo estabelecimento da lavoura
cacaueira como base produtiva e marco da identidade regional; na etapa
seguinte, quando o mundo coronelista já não comprazia com os ditames da
ordem e da lógica hegemônica, marcado por um domínio político,
econômico, sociocultural e mesmo jurídico “atrasado”, de ordem
sertaneja, objetivou-se a sua superação. Nesta etapa, deu-se, pois, a
mudança das estruturas produtivas, modificando a paisagem e, sobretudo,
os atores sociais primazes, pois o poder hegemônico passou a ser
apreendido pelos exportadores em detrimento dos coronéis, a despeito da
conservação da base produtiva regional: o cacau. Desse modo, esta
trilogia destaca o universo do patriarcalismo e do coronelismo
nordestino, no qual se movem coronéis, lavradores, capatazes, senhores
de família, prostituas dos cabarés, comerciantes e exportadores.
57Nesse
universo coronelista, de marcante impunidade e violência – e em que
pesavam, como elementos indispensáveis do enredo, os estratagemas de
logro proposital (caxixes), os jagunços, as fogueiras criminosas, as
mortes de trabalhadores e as tocaias –, a relação entre a política e a
justiça era deveras estreita, caracterizada por jogos de interesses e
flagrante parcialidade. No âmbito dessas considerações, a imagem fundada
da zona cacaueira assenta-se em diversos e variados elementos, tais
como: (i) a prevalência dos conflitos; (ii) a tensão permanente entre a
violência e a riqueza, de modo que esta alimentou a fama regional,
gerando um grande fluxo de migrantes regionais e de outras partes do
país, atraídos sobretudo para Ilhéus, alcunhada de Rainha do Sul;
(iii) a relação entre a coragem pessoal, a jagunçagem, a obediência e a
“animalização” dos homens daqueles sertões; (iv) a exploração do
trabalho – veementemente criticada pelo literato por suas convicções
políticas – a partir, por exemplo, do sistema de escravidão por dívida;
(v) a faceta institucional e partidária da política, transmitindo uma
aura de confiança esperançosa na ideologia comunista para o futuro
desenvolvimento humano; (vi) o sincretismo religioso entre a tradição
católica e crenças e cultos de origem africana e; (vii) a iniciação ou
manutenção da sexualidade pervertida com os animais, atestando o
desrespeito às morais ditas civilizatórias.
58Todas
essas imagens, considerando as ambiências romanescas de Jorge Amado
enquanto Sertão, denotavam, em última instância, o “atraso” expressivo
da região em comparação aos centros político-econômicos hegemônicos,
onde os conflitos eram resolvidos de acordo com os estatutos mais
“modernos” e “civilizados” da ordem judicial.
59Perante
este ambiente literário de Jorge Amado, o espírito erigido entre os
trabalhadores era fundado em um clima de torpeza e convicção da
injustiça divina: destinados a uma vida infeliz e insignificante, o
fatalismo parecia poder apenas ser contornado por alternativas
igualmente ou mais desditosas do que o árduo e explorador regime de
trabalho no campo: (a) a prostituição nas cidades, sobretudo para as
mulheres, sendo um tipo social bastante evidente nas caracterizações
humanas de Jorge Amado; (b) o caminho aberto pela miséria ao
banditismo/cangaço e; (c) o êxodo dos trabalhadores rumos aos centros
hegemônicos – especialmente Rio de Janeiro ou São Paulo – ou a opção
regional, Ilhéus, fazendo coro a outras retóricas literárias que
exploravam esse fenômeno.
60Em
todo caso, a zona cacaueira de Jorge Amado, por estar apartada da lógica
política e socioeconômica hegemônica, pode ser considerada – a partir
do viés defendido nesta pesquisa – como Sertão, ainda que não seja
caracterizada pela seca ou pela Caatinga, balizas que, assim como em
José Lins do Rego, circunscrevem-se ao vocábulo “sertão” do literato
baiano.
61Destarte, as imagens e características do Sertão em Jorge Amado estão sintetizadas no quadro a seguir:
Quadro 4 – Síntese das características e imagens do Sertão em Jorge Amado
|
Literato
|
Obras analisadas
|
Características dos sertões
|
Imagens-síntese do Sertão
|
|
Jorge Leal Amado Faria (1912-2001)
|
Cacau (1933)
Terras do sem-fim (1943)
São Jorge dos Ilhéus (1944)
|
- passagem do domínio dos coronéis para o domínio dos exportadores;
- exploração trabalhista/reificação do trabalhador;
- patriarcalismo/coronelismo;
- impunidade aos poderosos/ parcialidade política e jurídica;
- convulsão e tensão política;
- violência/mortes/tocaias;
- banditismo;
- animalização dos pobres/ obediência servil;
- sexualidade pervertida/ prostituição;
- resignação/fatalismo;
- propaganda da “terra prometida”/ riqueza/opulência;
- semiárido: refúgio/fuga/desterro;
- sincretismo religioso/misticismo/ crenças afrodescendentes;
- êxodo/retirantes.
|
- Sertão do atraso e do desafino com a moralidade civilizatória;
- contraposição ao Litoral, de
falacioso progresso e artificial, marcado pelo caráter autoritário, pela
politicagem e pela exploração/ desigualdade socioeconômica;
- a transição e capitalização regional como manutenção dos sertões, consoante a lógica comunista.
|
Org.: O Autor.
62Portanto,
o emblema do “atraso” da zona cacaueira também pesa na descrição
regionalista de Jorge Amado, assim como o fizera José Lins do Rego para a
zona açucareira. Na obra desses literatos, há notáveis
aproximações que decantam características denunciadoras da
“obsolescência” dos ambientes privilegiados em suas tramas romanescas: a
violência, o coronelismo, a perversidade sexual e a prostituição são
máculas sociais e políticas que irrevogavelmente traçam o perfil
regional em sua condição sertaneja, em falta de sintonia com a
moralidade e os códigos éticos hegemônicos.
63Se
todas essas características denunciavam, à época, a condição sertaneja
do Sul da Bahia, isso não indica, contudo, que a sua antítese, o
não-sertão – o Litoral – significaria a redenção ou “salvação”
daqueles sertões: aproximando-se novamente do literato paraibano, Jorge
Amado delatou a falaciosa aura progressista, civilizatória e moderna que
a partição litorânea advogava para si, estabelecendo uma autoimagem de
arquétipo bem-sucedido a ser copiado pela hinterlândia “atrasada”;
contrapondo-se a essa visão faustosa dos espaços de domínio das ordens
hegemônicas, o romancista desenvolveu uma verve literária de candente
denúncia dos patrimonialismos políticos, das parcialidades jurídicas e
do nefasto sistema de exploração socioeconômica e do trabalho.
64Autor
de uma resignação menos metafísica/transcendental, e mais mundana, aos
fatalismos do Destino do que seus pares regionalistas, os personagens do
literato baiano são mais conscientes das causas sociais, políticas e
econômicas das situações desiguais a que estavam submetidos. Essa
característica provavelmente reflete o perfil mais político-partidário
do escritor, espontaneamente refletido em suas obras literárias e base
para conjecturar que a região sulista baiana, mesmo após as
transformações da estrutura produtiva, manteve-se, para Jorge Amado, sob
o estatuto de Sertão: quando assumida a lógica do socialismo/comunismo
do qual o literato fazia coro, o processo produtivo do capitalismo
financeiro instaurado enquanto lógica hegemônica ainda conclamava a
superação, de modo a alterar profundamente a ordem sociocultural,
econômica e política. Assim, se para o Estado, tencionado na integração
do mercado nacional, a modernização produtiva e as suas consequências
eram emblemas da transubstanciação daqueles espaços sertanejos em
não-sertão, sob a ótica do socialismo/comunismo, o presente da narrativa
romanesca, assentado na transição e na cristalização dos exportadores
como “donos da terra”, não passava da instauração de uma nova etapa a
ser superada por outra etapa, sustentando a qualificação regional como
Sertão.
65Dessa maneira, em Jorge Amado – como em Graciliano Ramos e José Lins do Rego –, a leitura das obras, sob a ótica do Estado, foi parcial: foram anuladas ou, no mínimo, minimizadas as críticas candentes acerca do status quo
estrutural e pérfido mantido com a chegada da ordem institucional
estatal, sobressaindo-se a imagem do “atraso”, do personalismo e da
parcialidade no domínio da política, economia e sociedade coronelista. A
retórica artístico-literária era, em suma, ao menos como fora
parcialmente interpretada, mais um nível de legitimação do imaginário
nacional que reclamava a atuação estatal de transubstanciação dos
sertões em não-sertão.
66As
características e imagens sertanejas apoiam, em alguma medida, a
associação dos sertões nordestinos, nas suas variadas paisagens, ao
emblemático perfil de distinção das paragens sertanejas enquanto
“espaços infernais” – ou, em outras palavras, da livre e direta
associação do heterogêneo território nordestino à pecha de
“região-problema”. Nesse caso, o “atraso” e a “obsolescência” são
elencados enquanto características típicas regionais em favor do
endosso da necessidade de auxílio e intervenção estatal, conclamando
projetos de apreensão e integração regional à “cartografia oficial” da
soberania do Estado-nação. Seja por meio da violência natural – em que
pesa a imagem generalizada da seca – ou por meio da violência social – em que pesam as características da miséria social, da exploração e da imoralidade
–, os literatos do regionalismo nordestino da Segunda Geração
Modernista contribuíram, em sua sanha de interpretação e denúncia do
“Brasil real”, para ratificar a ideia do atual Nordeste como região atrasada, imagem-síntese amplamente cristalizada no imaginário político, social e geográfico nacional.
67Todavia,
se na retórica de Rachel de Queiroz a violência e o atraso ficam muito
focados no quadro natural da semiaridez, a verve artístico-literária,
nos demais literatos, vai se ampliar para delatar de modo mais enfático o
quadro social do retardamento, caracterizando a região em sua condição
de “purgatório” – segundo a qual o “atraso” não era fruto de uma
comparação aos centros hegemônicos do país, uma vez que todo o
território nacional, ou mesmo global, estava imerso em nítida
desigualdade e desumanização, denunciando as falácias do progresso
civilizatório ou da racionalidade modernizadora. Assim, o que se tem é,
em Graciliano Ramos, a ligação, pelo estatuto da ordinária angústia
humana, dos espaços sertanejos aos demais, seguidores de outras lógicas;
ou ainda a delação da desigualdade, miséria e exploração enquanto
timbres também inerentes à lógica hegemônica, capazes de entrever certa
superioridade do “atraso sertanejo” ante a lógica “oficial” e
preponderante (José Lins do Rego) ou de compreender e subverter o
suposto progresso e modelo a ser copiado em uma nova roupagem sertaneja
de reclame à superação, em favor de lógicas mais humanitárias (Jorge
Amado).
68As
marcas da denúncia do “Brasil real”, pérfido também em seu centro de
poder, foram apagadas ou minimizadas pela retórica estatal, uma vez que o
Estado estava apenas interessado nas imagens do “atraso” regional,
legitimadoras de sua intervenção geográfica a partir de projetos de
modernização na formação territorial brasileira. Destarte, nota-se que,
mais do que “porta-vozes” privilegiados e de amplo público-leitor, os
literatos da Geração de 1930 aqui enfocados não forjaram retóricas que
se alinharam, simples e francamente, aos projetos intervencionistas do
Estado, mas, ao contrário, foi o Estado que se apropriou dos discursos
literários sob uma aparente perspectiva parcial, exercendo, por meio
dessa apropriação, um recrudescimento do imaginário, construído e
referenciado no Litoral, do retardamento e da degradação da
hinterlândia, máculas a serem corrigidas no intuito de engrandecimento
pátrio.
69Transformados
em canônicos, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e
Jorge Amado tiveram os seus discursos alçados à condição de eficácia política,
de modo que, mesmo que incorporados flagrantemente de modo parcial,
participaram significativamente na legitimação da necessidade de
superação dos sertões nacionais por meio da ampla repercussão de suas
retóricas no imaginário geográfico e na “alma nacional”, denunciadoras
das características perniciosas dos sertões que divulgaram. Porém,
faz-se necessário confirmar o alinhamento entre as retóricas literária e
estatal-nacional com novas pesquisas no âmbito da recepção dos discursos:
assim, poderá se precisar com maior clareza em que medida os discursos
literários circulantes “na boca do povo” foram efetivamente incorporados
nos projetos e ações estatais e, por outro lado, em que medida serviram
para que os projetos fossem aceitos e legitimados pela população.
70A
substância essencial das investidas territorialmente transformadoras
parece assentar-se na capacidade de renovação do Sertão ao longo da
história nacional: os decantados sertões da Era Vargas, divulgados pelas
prosas regionalistas do modernismo literário, ressurgem – seja como
realidade efetiva ou como “ameaça” –, ao longo da “interminável”
hinterlândia brasileira, sob novas aparências, a partir, por exemplo, da
ovação da monumentalidade da modernidade urbana, marca da posição
contrária ao aspecto sertanejo.
71Esse
“ressurgimento” não passa de uma atualização de processos bem mais
antigos, em curso ao longo da história da formação territorial
brasileira, que tendem a se manter, por meio de formas mutantes – mas
conservando o conteúdo do autoritarismo e desigualdade –, a não ser que
ousemos aprender com as manifestações mais puras e autênticas da Arte a
questão das escolhas: sob uma ótica ontológica, o que se é resulta daquilo que se escolhe ser,
e, embora não se escolha tudo – devido, sobretudo, às condições
objetivas existentes –, faz-se necessário evitar fatalismos e assumir a
responsabilidade de que se escolhe muita coisa, sendo possível até
mesmo, não olvidando a relação de forças envolvidas, o enfrentamento e/o
negação dessas condições objetivas; essa crença também se projeta no
plano nacional, acreditando que enquanto povo escolhemos muita coisa
sobre nós mesmos, sobre nossos destinos coletivos, projetando mudanças
ou ao menos vislumbrando alternativas para este resiliente conteúdo do
autoritarismo e desigualdade, persistente em nossas formações
territorial e nacional.