“Quando
o sportman tem a infelicidade de não dispor, no dia, de alguns cobres
para a ‘vacca’ do táxi, ou de um amigo que lhe faça a gentileza desse
transporte menos lento, tem que ir ali no bonde, com todas as baldeações
do estylo, a roer as unhas ou a gastar os nervos impacientes noutro
qualquer serviço capaz de entretel-o e desfogal-o”. Correio da Manhã, 15 de abril de 1918.
- 1 O Botafogo ficou em segundo lugar, com 5.798 votos, e o Flamengo ficou em terceiro, com 2.678. CONC (...)
1Assim
um cronista anônimo de um matutino carioca descreveu o sofrimento dos
torcedores do Fluminense Football Club para chegarem ao campo do
Andarahy Athletic Club, na Rua Prefeito Serzedelo, bairro do Andaraí, na
parte inicial dos subúrbios da Zona Norte do Rio de Janeiro. O
Fluminense era um dos clubes que agregava ao seu entorno pessoas de
notabilidade política e considerável poder econômico da cidade do Rio de
Janeiro. Seus sócios levantaram barreiras, tanto econômicas quanto
sociais, visando impedir o acesso ao clube de membros das camadas mais
baixas da sociedade. No entanto, o “Tricolor”, como ainda hoje é
conhecido, tinha inúmeros simpatizantes, os torcedores, membros da
classe trabalhadora que compravam ingressos e frequentavam ou o estádio
do clube ou o dos adversários nos dias dos jogos. O clube era
considerado o mais popular da cidade. Em 1916, após concurso realizado
pelo jornal Correio da Manhã, obteve 15.907, quase três vezes mais que o segundo colocado, o Botafogo.1
- 2 BRASIL. “Sociedades Civis: Andarahy Athletico Club – Estatutos”. Diário Official dos Estados Unidos (...)
- 3 As informações sobre horários, linhas, duração das viagens e preços de passagens de bondes e trens (...)
2Já
o Andarahy era um clube bastante diferente do Fluminense. Fundado em
1909, estava vinculado à Fábrica Cruzeiro, instalada no mesmo bairro do
clube. Os funcionários da fábrica tinham desconto nas mensalidades para
se associarem ao Andarahy.2
A chancela da fábrica dava a este pequeno clube a possibilidade de
participar daquela que era a principal liga esportiva da cidade naquele
ano, a Liga Metropolitana de Desportes Terrestres (LMDT). Seu acanhado
estádio ficava distante do campo do Fluminense, mas era bem servido de
transportes públicos. Havia uma estação de trens na Estrada de Ferro
Central do Brasil, a Derby Club, próxima ao campo, sendo essa a melhor
opção para os torcedores que se dirigiam dos subúrbios das zonas Norte
para o estádio. Para os torcedores moradores da Zona Sul e Centro, a
única opção era o transporte de ferro-carril, os bondes. Os bondes da
Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico, controlada pela The Rio de Janeiro
Tramway, Light and Power Co. Ltd, levariam os torcedores da Zona Sul em
direção ao centro da cidade.3
Após o deslocamento até o centro da cidade, os torcedores caminhariam
até a Rua da Uruguaiana para a tal “baldeação de estylo”. Dali, um bonde
da linha Andarahy Grande, concessão da antiga Cia. Ferro Carril
Villa-Izabel, também controlada pela “Light”, transportaria os
torcedores por 5 km em direção ao campo do Andarahy Athletic Club, aonde
precisariam comprar os ingressos para a partida, fonte de renda para os
clubes e para a LMDT. O torcedor gastava mais dinheiro para voltar para
casa, fazia mais baldeações em veículos lotados e deixava uma parte do
salário nos cofres dos clubes, das ligas e das empresas de transporte
público.
3O
presente artigo pretende analisar o funcionamento dos clubes e da
principal liga de futebol na cidade do Rio de Janeiro no início do
século XX. Pretende-se mostrar a relação do desenvolvimento dos meios de
transporte com a possibilidade de melhores deslocamentos dos torcedores
pela cidade e a hierarquização dos clubes dentro da sociedade carioca
através da análise das barreiras sociais e econômicas dos estatutos das
agremiações e da mais importante liga de futebol carioca. Com a
reviravolta que os meios de transporte promoviam, a circulação mais
eficaz e veloz de trens, bondes e automóveis criavam deslocamentos entre
as regiões centrais e a periferia. Se,
como afirma Ronald Raminelli, tal fenômeno gerou uma nova concepção de
cidade e “os historiadores detectaram uma tendência à especialização ou
compartimentalização do espaço, junto a uma enorme desconcentração da
comunidade urbana” (RAMINELLI, 2000, p.191), um olhar mais atento a
objetos que, talvez, acabam escapando da visão da maioria dos
historiadores, pode fazer aflorar novas percepções sobre o processo de
integração entre diferentes regiões da cidade.
4Este
foi o quadro que estimulou indivíduos, torcedores, jogadores, técnicos,
árbitros e dirigentes a se deslocarem pela cidade, criando um movimento
frenético nos trens e bondes, principalmente nos fins de semana, quando
se disputavam os jogos e quando as empresas de transporte público
tinham menos movimento. Procuramos nos utilizar de fontes das mais
variadas na tentativa de reconstituir a dinâmica desse processo, tais
como periódicos da época, atas e relatórios dos clubes, legislação do
período, dados demográficos dos censos oficiais, o Almanak Laemmert e
dados relativos à economia da época, como tabelas de preços dos mais
variados produtos e salários de operários. Alguns cuidados foram
fundamentais na análise dos documentos.
5Como
muitos dos dados são de natureza econômica, houve atenção especial para
que os mesmos fossem tratados com o intuito de reconstituir o período
estudado através de “uma percepção mais ampla da economia, situada em
perspectiva teórica permeável às manifestações sociais, políticas,
culturais” (MOURA & FERLINI, 2006, p.11). A História não pode se
reduzir somente à descrição e à interpretação econômica, “se ela possui
uma especificidade com relação às outras ciências sociais, é
precisamente por não ter nenhuma, e por pretender explorar o tempo em
todas as suas dimensões” (LE GOFF & NORA, 1995, p. 61).
- 4 A população da Capital Federal era de 522.621 habitantes. Cf. BRASIL. Recenseamento geral da Republ (...)
- 5 Em 1920, a população do Rio de Janeiro chegava a 1.147.599 habitantes. Cf. BRASIL. Recenseamento do (...)
6Na virada do século XIX para o XX, o Rio de Janeiro apresentou um crescimento populacional muitíssimo elevado. A cidade, que em 1872 contava com 266.831 habitantes, quase dobrou sua população em menos de 20 anos,4 para chegar a mais de um milhão de habitantes em 1920.5
A cidade vinha contando com investimentos nos setor de transportes
urbanos visando o desafogo das regiões centrais e a expansão do tecido
urbano carioca.
7A
primeira região a ser cortada por trens, ainda no Império, foi a que
ligava o centro da cidade a Santa Cruz, na Zona Oeste da cidade. Santa
Cruz era formada por terrenos particulares, propriedades da elite
agrária cafeeira, já decadente na segunda metade do século XIX. A
região foi loteada e urbanizada à medida que novas estações foram
construídas, obedecendo à lógica da especulação imobiliária (DAMAZIO,
1996, p.22) e criando alternativas mais baratas às moradias do Centro. Em
1892, a Zona Sul da cidade, região aonde se concentrava boa parte da
elite carioca, foi a primeira a receber bondes elétricos ligando o
Centro ao Largo do Machado e posteriormente interligando os bairros de
Laranjeiras, Botafogo, Jardim Botânico, Gávea, Copacabana e Ipanema,
através dos investimentos da Companhia Ferro Carril Jardim Botânico.
Posteriormente, outras zonas da cidade passaram a ser ligadas por bondes
elétricos, agilizando as viagens da população.
- 6 BRASIL. Recenseamento do Rio de Janeiro (Districto Federal) realizado em 20 de setembro de 1906. Ri (...)
8Além
do preço mais em conta das moradias e do desenvolvimento das linhas
férreas suburbanas, outros elementos foram fator de atração de população
em direção aos subúrbios. A cidade do Rio de Janeiro apresentava um
grande número de estabelecimentos fabris. Em 1906, as mais de 600
indústrias da cidade empregavam quase 120 mil trabalhadores,
aproximadamente 15% da população. O plano de reformas executado pelo
plenipotenciário prefeito da Capital Federal, Pereira Passos, nomeado
pelo presidente Rodrigues Alves, a partir de 1902, fez com que o Centro e
a Zona Sul passassem por uma violenta intervenção, com demolição de
cortiços, alargamento de avenidas, aterramentos e reformas de praças,
encarecendo as moradias daquela região. Desse modo, a zona suburbana
tornava-se uma alternativa. Bairros mais afastados do centro porém bem
servidos pelos transportes urbanos, como Engenho Novo, Engenho Velho,
São Cristóvão, Campo Grande e Irajá, tiveram um crescimento populacional
na casa dos 100% entre 1890 e 1906, número muito acima da média de
crescimento da cidade, na casa dos 42%. A freguesia do Andaraí, por
exemplo, passou de 48.556 para 84.171 habitantes, e o Irajá apresentou
taxas ainda mais elevadas de crescimento populacional (na casa dos
300%), passando de 27.406 habitantes em 1906 para 99.586 em 1920. 6
9Dentro
desse contexto de crescimento da cidade é que os primeiros clubes de
futebol, as primeiras ligas de clubes e os primeiros campeonatos
passaram a ser organizados. Os primeiros clubes de futebol a se
organizarem no Rio de Janeiro tinham seu quadro associativo formado por
elementos oriundos da elite carioca. Estes sócios criavam disposições em
seus estatutos impossíveis de serem cumpridas pelas camadas menos
abastadas - tais como a proibição de sócios analfabetos, ou de sócios
que exercessem profissões braçais - na tentativa de criar espécies de
ilhas sociológicas, isoladas do convívio de elementos das camadas mais
populares.
- 7 Jornal do Commercio, 16 de outubro de 1902.
10Ao
que parece, os primeiros jogos de futebol organizados na cidade foram
disputados justamente por sócios desse tipo de agremiação e ainda não se
enquadravam na lógica dos esportes comercializáveis. Os primeiros
clubes chegaram a organizar partidas sem a cobrança de ingressos, como
no caso do jogo do Fluminense contra o Rio Football Club, no campo do
Paysandu, em 1902: “É franca a entrada”.7
A intenção desses clubes era promoverem-se enquanto portadores de
símbolos da modernidade, da civilização e dos costumes habituais das
sociedades européias, como o futebol.
11Os
grandes jornais e revistas passaram a divulgar de maneira exaustiva as
atividades dos clubes de futebol e seus jogadores, em sua grande
maioria, elementos da classe média ou da elite do Rio de Janeiro
(SANTOS, 2010), reservando a tais elementos os fatores de civilidade que
lhes imputavam a qualidade de portadores da nova ordem moderna.
Inclusive, torna-se impraticável analisar a popularização do futebol, ou
mesmos dos esportes, tanto no Brasil quanto no mundo, sem vinculá-los
ao desenvolvimento dos meios de comunicação — em nosso caso, jornais e
revistas cariocas.
- 8 BRASIL. “Sociedades Civis: Fluminense Football Club”. Diário Official dos Estados Unidos do Brasil, (...)
- 9 BRASIL. “Sociedades Civis: Fluminense Football Club”. Diário Official dos Estados Unidos do Brasil, (...)
12Até
o início da década de 1920, os três principais clubes de futebol
estavam localizados na Zona Sul da cidade, muito próximos uns aos
outros. O Fluminense foi a primeira agremiação carioca a se intitular
como um clube de futebol. Fundado em 1902, teve apoio da família Guinle,
uma das mais importantes do Rio de Janeiro, sendo os irmãos Carlos,
Guilherme e, principalmente, Arnaldo, decisivos na história não só do
clube, mas também do futebol e do esporte no país de uma maneira geral.
Presidente do clube entre 1916 e 1930, Arnaldo Guinle viabilizou a
reforma da sede, a construção das piscinas e do estádio — à época, o
maior do Brasil — para abrigar os dois primeiros torneios internacionais
de futebol no país, os campeonatos sul-americanos de 1919 e 1922. As
taxas que o Fluminense cobrava aos seus associados, ou aos pretendentes a
associados, na verdade transformavam-se em barreiras praticamente
intransponíveis para membros das camadas mais populares. Em 1920, os
sócios pagavam 15$000 de mensalidades, taxa muito mais cara do que os
clubes pequenos daquele período. Para aqueles que desejavam ser sócios
do Fluminense, cobrava-se ainda uma taxa inicial, a “jóia”, de 100$000,
para que o aspirante tivesse sua proposta analisada em assembléia de
sócios — podendo ou não ser aprovada. Em caso de recusa, o clube não
devolvia o dinheiro da jóia 8.
Dois anos depois, a fim de pagar os empréstimos que havia feito para a
construção de seu estádio, o clube aumentava as mensalidades para 20$000
e a jóia para 200$000 9.
13Usando
os dados compilados pela historiadora Maria Eulália L. Lobo em relação
aos salários de algumas das grandes fábricas do período, podemos
perceber como as tarifas do Fluminense se tornavam impraticáveis para a
maioria dos elementos da classe trabalhadora. Para o ano de 1922, Lobo
apresentou os salários de três grandes fábricas cariocas: a Companhia
Progresso Industrial do Brasil, a Companhia de Fiação e Tecidos Pau
Grande e a Companhia Cervejaria Brahma. Os salários dos operários da
primeira fábrica variavam entre 103$500 e 158$713, enquanto os
vencimentos dos operários da segunda iam de 136$800 a 144$360. Os
salários do operariado da Brahma eram os mais elevados. O
salário mais baixo, no setor de expedição, era de 375$000, e os
operários que trabalhavam no setor de engarrafamento recebiam 536$000
(LOBO, 1976, p.664-685).
- 10 Preços dos alimentos retirados da lista publicada no Diário Oficial. “Decreto 13.167 – de 29 de ago (...)
14Além
dos custos com as mensalidades, outro item a pesar na conta das classes
menos abastadas seria o deslocamento a ser feito para que pudessem
usufruir do clube. Os trabalhadores da Cia. Progresso, por exemplo, em
sua maioria moradores do bairro de Bangu, onde a fábrica se localizava,
tinham que pagar mais de 1$300 de trem até o centro da cidade e mais
$300 para chegar ao clube em um dos bondes que ligava a região central à
Zona Sul. Levar a família para aproveitar o clube aos finais de semana
poderia custar a esse trabalhador uma pequena fortuna. Cada um dos
integrantes da família pagaria cerca de 3$000 apenas para se deslocar
até o clube, dinheiro suficiente para comprar um quilo de arroz de
primeira ($900) e mais um quilo de carne seca (2$000) 10.
- 11 BRASIL. Recenseamento do Brasil realizado em 1º de setembro de 1920. Rio de Janeiro: Typographia da (...)
15No
entanto, o Fluminense oferecia instalações de alto nível, embora os
custos com a manutenção da sede e das instalações esportivas do eram
bastante elevados. Para sustentá-los, havia necessidade de receitas
igualmente elevadas, principalmente com a cobrança de mensalidades e com
a venda de ingressos para os jogos de futebol. Se o número de pessoas
capazes de pagar a jóia e as mensalidades era diminuto e o clube ainda
impunha um máximo de 2.500 sócios no clube, a venda de ingressos a
preços bem mais modestos era uma das maneiras de se obter os rendimentos
necessários para cobrir parte das despesas. Com o crescimento do gosto
pelo futebol por parte da população carioca, o Fluminense passou a
investir na ampliação de seu estádio. Localizado no bairro das
Laranjeiras, na Freguesia da Glória, era uma das mais populosas da
cidade, contando em 1920 com 68.330 habitantes 11.
- 12 Os relatórios anuais do Fluminense encontram-se na Biblioteca Arnaldo Guinle, dentro do clube, com (...)
- 13 Gazeta de Notícias, 2 de maio de 1909, p. 5.
16Os
relatórios anuais do clube mostram que o futebol era uma das únicas
atividades rentáveis, enquanto os outros esportes davam prejuízos 12.
Para poder contar com arrecadações com a venda de ingressos cada vez
mais elevadas, havia a necessidade de investimentos em estádios cada vez
maiores e mais confortáveis. Em 1909, o campo do Fluminense, apesar de
acanhado e com capacidade para 1000 pessoas sentadas (mais cerca de 250
sócios), era considerado “incontestavelmente o melhor campo do Rio”13.
Dez anos depois, Arnaldo Guinle, como já dissemos, viabilizou a
construção do estádio ao lado da sede do clube na Rua da Guanabara, com
capacidade para 18 mil pagantes. Em 1922, o estádio foi reformado e
ampliado para 22 mil pagantes.
- 14 Para os preços das passagens de trem e bondes, bem como itinerários dos meios de transporte no Rio (...)
17Para
levar os torcedores ao estádio, a Companhia Jardim Botânico, comprada
posteriormente pela Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Company,
tinha doze linhas de bondes que transportavam os torcedores do Largo da
Carioca (região central) à Zona Sul. As linhas Laranjeiras e Cosme Velho
passavam à porta do estádio e custavam $300. Já as linhas Praia do
Flamengo, Largo do Machado, Largo dos Leões, São Clemente, Humaitá,
Jardim Botânico, Gávea, Copacabana, Leme e Ipanema que tinham paragem no
Largo do Machado, cerca de 1 km distante do campo do clube, custavam
$200 14.
- 15 Gazeta de Notícias, 7 de janeiro de 1907, p. 7.
18Estas
últimas linhas serviam outros dois grandes clubes de futebol da região.
Um deles era o Botafogo Football Club, do bairro de mesmo nome, que
alugava um campo no Largo dos Leões 15.
Quase todas as linhas da Cia. Jardim Botânico passavam próximas ao
campo, algumas à porta do acanhado estádio. Em 1909, o clube construiu
as primeiras arquibancadas de madeira para 500 pessoas sentadas. Nos
estatutos publicados em 1917 e 1923 no Diário Oficial, o Botafogo não
apresentava artigos que fizessem qualquer alusão à impossibilidade de
pessoas negras ou analfabetas integrarem o quadro associativo. No
entanto, como faziam praticamente todos os clubes da cidade, os
estatutos apresentavam o imperativo de que um novo sócio só entraria
para o quadro do clube se fosse apresentado por outro sócio e aprovado
em assembléia. Estes eram os mecanismos usados para excluir pessoas que
os sócios acreditassem não serem dignas de convívio no clube.
- 16 BRASIL. “Sociedades Civis: Estatutos do Botafogo Football Club”. Diário Official dos Estados Unidos (...)
- 17 BRASIL. “Sociedades Civis: Estatutos do Botafogo Football Club”. Diário Official dos Estados Unidos (...)
19A
barreira clara que se vê é a econômica, embora bem menor que a imposta
pelo Fluminense. Em 1917, enquanto o Fluminense cobrava 50$000 de jóia,
no Botafogo a mesma taxa custava 20$000. As mensalidades tinham valor
mais próximo, sendo de 10$000 no Fluminense e 8$000 no Botafogo 16.
No entanto, como visto anteriormente, nos anos imediatamente
posteriores o Fluminense teve grandes melhorias em seu clube e estádio,
precisando elevar a jóia e a mensalidade e, desta maneira, distanciou
ainda mais suas taxas — e consequentemente seu público — daquelas
praticadas pelo Botafogo. Em 1923, o Fluminense tinha jóia de 200$000 e o
Botafogo de 50$000. No clube do bairro das Laranjeiras, a taxa mensal
era de 20$000, ao passo que no Botafogo 10$000 17.
Mesmo assim, os valores cobrados no Botafogo, a possibilidade de
impedir possíveis novos associados em assembléia e a distância entre o
bairro e as zonas suburbanas da cidade praticamente impossibilitavam a
frequência de famílias de origem humilde no clube.
20Outro
grande clube da região, um dos maiores clubes de regatas da cidade,
formou uma equipe de futebol. O Club de Regatas Flamengo aceitou os
jogadores que haviam saído do então campeão Fluminense para montar um
dos mais fortes times de futebol da cidade. Com o campo localizado na
Rua Paysandu servido por todos os bondes que seguiam do centro em região
à Zona Sul e com as glórias e a fama advindas das vitórias no remo,
rapidamente o clube conseguiu um grande número de adeptos. Infelizmente,
nossa pesquisa não conseguiu encontrar os valores das mensalidades e
das jóias cobrados pelo clube aos seus associados. No entanto, a
agremiação foi uma das que mais atraiu a atenção de políticos
importantes do país. Só para citar um exemplo, Epitácio Pessoa,
presidente da República entre 1919 e 1922, também era presidente de
honra do clube.
- 18 BRASIL. “Sociedades Civis: America Football Club”. Diário Official dos Estados Unidos do Brasil, 15 (...)
21Outro
dos considerados grandes times, o único fora da Zona Sul, localizava-se
na freguesia da Tijuca, na Zona Norte, uma região recém-urbanizada
próxima ao centro e bem servida de transportes: o America Football Club.
O America era um clube que poderíamos situar entre a classe média alta
dos clubes de futebol do Rio de Janeiro, cobrando taxas que o colocavam
no patamar dos outros três clubes grandes. Em 1919, sua mensalidade era
de 7$000 18,
enquanto o Botafogo cobrava 8$000 e o Fluminense 10$000. O campo do
America, na Rua Francisco Xavier, n. 78, era servido pelas linhas Villa
Izabel, Engenho Novo, Engenho de Dentro e Aldeia Campista, que saíam do
centro em direção à Tijuca, facilitando assim o deslocamento dos
torcedores dos bairros adjacentes ao estádio.
22Os
grandes clubes precisavam de mais agremiações no intuito de organizar
campeonatos que pudessem gerar renda com a venda de ingressos regulares
para as equipes. Para tal, passaram a procurar formar uma liga de clubes
que pudesse tanto organizar as contendas quanto dar aos representantes
dos grandes clubes o poder de controlar o futebol da cidade. As ligas
desportivas funcionam como unidades promotoras do produto a ser vendido
aos espectadores: eventos esportivos em recintos fechados. São entidades
que congregavam um número suficiente de agremiações para a organização
de campeonatos e eram dirigidas, na maioria das vezes, por sócios
proeminentes de clubes que pertenciam à liga. Vejamos como se deu a
organização da liga dos grandes clubes cariocas e quais foram os
mecanismos criados nestas ligas que concentravam o poder nas mãos de
tais clubes.
23A
importância do interesse coletivo dos clubes participantes de uma liga
levou Dobson e Goddard à afirmação de que as ligas, do ponto de vista da
teoria econômica, devem ser consideradas como as mais relevantes
unidades de tomadas de decisão no esporte (DOBSON & GODDARD, 1998,
p. 763). As ligas se assemelhavam a cartéis, formados por uma
interdependência mútua dos clubes. O número de torcedores e a renda
adquirida com a venda de ingressos dependiam das performances de todos
os clubes. Dessa forma, os clubes precisavam ser parceiros econômicos e
organizar um campeonato economicamente viável, com equipes fortes e, de
preferência, próximas umas das outras, ligadas por meios de transporte
que facilitassem o deslocamento dos atletas e, principalmente,
torcedores, estimulando-os a acompanharem seus times. Somente a garantia
de bons jogos durante todo o campeonato, com partidas regulares e com
bom nível técnico, levaria torcedores durante todo o ano aos estádios. Em
países relativamente pequenos e com meios de transporte desenvolvidos,
como a Inglaterra, a possibilidade de se fazer um campeonato nacional de
clubes envolvendo os principais centros populacionais do país
facilitava a execução de projetos nacionais envolvendo o futebol
(VAMPLEW, 2004).
24Para
países do tamanho do Brasil, com o sistema de transportes ainda em fase
inicial de expansão, a formação de uma liga nacional de futebol no
início do século XX ainda estava fora de cogitação. Na maior parte do
tempo, os jogos aconteciam entre times da mesma cidade ou da mesma
região, principalmente nas maiores e mais populosas cidades do país.
25Em
1907, o meio mais rápido de integrar as duas maiores cidades do país,
Rio de Janeiro e São Paulo, distantes 440 quilômetros, era lento e caro.
A única opção era o transporte ferroviário, em uma viagem pela E.F.
Central do Brasil de aproximadamente 11 horas, aos preços de 34$800 na
1ª classe e 19$400 na 2ª classe. O trem “Rápido”, entre Rio de Janeiro e
Belo Horizonte, percorria a distância de 550 km em 16 horas e as
passagens custavam 59$300 e 42$800 para 1ª e 2ª classes,
respectivamente. Deslocar uma equipe de futebol, com elementos da
comissão técnica e diretores, tornava-se extremamente dispendioso para
os clubes, além do longo tempo perdido nas viagens. Numa época em que os
clubes exigiam que seus atletas fossem amadores, seria difícil
conseguir liberações do trabalho para tão longas viagens apenas para a
prática do futebol.
26Estas
condições levaram os principais clubes a formarem ligas metropolitanas,
aproveitando ao máximo a possibilidade de contar com torcedores dos
diversos clubes da cidade. De acordo com a lógica econômica acima
descrita, mas sem deixar de levar em conta aspectos sociais importantes
para a elite carioca e brasileira, foi constituída a primeira liga de
futebol da cidade do Rio de Janeiro, a Liga Metropolitana de Football
(LMF).
27Se a
ligação entre as grandes capitais estaduais do Brasil ainda era
precária nos primeiros anos do século XX, o desenvolvimento dos
transportes públicos na Capital Federal era um dos aspectos que mais
denotava o crescimento e a urbanização da cidade. Nas primeiras décadas
do século XX, os bondes transformavam-se em um dos mais importantes
fatores de expansão da cidade. A partir de
meados da década de 1910, praticamente todas as companhias de bondes da
cidade pertenciam à Light, empresa que iniciou seus negócios no Rio
através de ligações com as empresas da família Guinle que, por sua vez,
constituíam um dos maiores monopólios da cidade, controlando também a
distribuição de energia elétrica e de gás aos cariocas (MCDOWALL, 2008,
p. 176). Os bondes da Light serviam os bairros da Zona Sul e os
bairros Tijuca, Vila Izabel, Andaraí, Rio Comprido, São Cristovão e
Catumbi, zonas em crescimento populacional relativamente próximas do
centro e onde surgiam clubes de futebol mais modestos. Um dos aspectos a
ser levado em conta quando os grandes clubes formaram ligas para a
organização do futebol carioca era justamente a localização e a
possibilidade de acesso dos torcedores aos estádios.
28As
ligas de futebol formadas pelos clubes mais ricos da cidade congregavam
os clubes próximos à Zona Sul e à Central, além de alguns times de
bairros populosos e bem servidos de meios de transporte como Tijuca,
Vila Isabel, Andaraí, Riachuelo, Mangueira e São Cristovão. Estas
regiões não ficavam a mais de 10 km da região central e eram bem
servidas ou por bondes ou pelos trens suburbanos da E.F. Central do
Brasil. O Bangu Athletic Club era o único clube que realmente se
localizava a uma considerável distância do centro da cidade: mais de 30
km.
29O
bairro de Bangu contava com uma grande indústria de capital inglês, a
Companhia Progresso Industrial, mais conhecida como Fábrica Bangu.
Fundada em 1892, a empresa contava com vários técnicos ingleses que,
desde logo, começaram a praticar futebol. O local era servido pela E.F.
Central do Brazil, Ramal de Santa Cruz, uma estação antes do final da
linha distante cerca de 30 km do Centro, em viagem que durava
aproximadamente uma hora e meia. No início, apenas os melhores
trabalhadores foram convidados. Com a necessidade de vitórias, os
melhores jogadores passaram a ser chamados, inclusive negros,
introduzindo-os no futebol praticado pelos grandes clubes. A fábrica
passou a empregar bons jogadores e o time tornou-se bastante popular no
bairro e na cidade. A força dos dirigentes
do clube, ligados à direção da empresa (ANTUNES, 1994, p. 105), fazia
com que o Bangu, a despeito de sua localização, sempre fosse incluído
nos principais jogos da cidade.
- 19 Gazeta de Notícias, 2, 9 e 14 de maio de 1909.
30Em 1909, ao início de mais uma temporada de futebol na cidade, a Gazeta de Notícias publicou uma série de notas informando os endereços dos campos dos diversos times da liga e a maneira como chegar até eles 19.
As notas fazem menção a vários campos de futebol, dos quais destacamos
aqui alguns dos mais relevantes, cruzando os dados do periódico com as
pesquisas feitas nas edições do Almanak Laemmert do período.
31Um
dos principais campos citados era o do Club de Regatas São Christovão,
um dos mais fortes da Zona Norte da cidade. Situado em uma freguesia
populosa, com 59.332 habitantes, o clube conseguiu atrair um grupo
fidedigno de sócios e torcedores, a maioria moradores do bairro, tendo
inaugurado seu estádio em 1916 na Rua Figueira de Melo, 200. Todas as
linhas da Cia. Villa Izabel (São Januário, São Luiz Durão, Caju, Alegria
e Jockey Club) passavam em frente ao campo e a passagem custava $100. O
campo ficava ainda a cerca de 2 km da estação São Christovão, da EF
Central do Brasil, duas estações antes do entroncamento para outras
linhas de trens suburbanos — com os trens que vinham da Zona Norte, da
Leopoldina Railway, sendo uma boa alternativa de transportes para os
torcedores provenientes das Zonas Norte e Oeste da cidade.
- 20 ARQUIVO Nacional. “Sport Club Mangueira”. Caixa IJ6- 655.
32Um
dos clubes que alugava seu campo nessa mesma rua era o Sport Club
Mangueira. A equipe alugava um campo na Rua Figueira de Mello, n. 393, e
sua sede ficava na Rua Pirassununga, n. 49, no bairro da Tijuca. O
Mangueira era um clube formado por jovens moradores do bairro da Tijuca.
Dos nove membros da diretoria, oito deles tinha menos de 30 anos e a
grande maioria trabalhava no comércio — exceto o 1º vice-presidente,
negociante, e o 2º, o Capitão Alexandre Cunha, apontado no pedido da
licença de funcionamento para a polícia do Rio de Janeiro como
“capitalista” 20.
- 21 BRASIL. Recenseamento do Brasil realizado em 1º de setembro de 1920. Rio de Janeiro: Typographia da (...)
33Além
destes clubes, outros foram se organizando e aderindo à liga dos
grandes clubes. O Villa Izabel Football Club tinha seu campo próximo à
estação São Francisco Xavier, da Central do Brasil, na freguesia do
Andaraí onde, em 1920, moravam mais de 80.000 pessoas 21
— quase 10% da população da cidade. Além dos trens, o campo era servido
pelos bondes que ligavam o centro da cidade ao bairro, como a linha
Barcas-Villa Izabel (que saía da Praça XV) ao custo de $300 ou os bondes
Aldeia Campista, Villa Izabel, Andarahy Grande e Engenho Novo, da Cia.
Villa Izabel. A passagem até Vila Izabel custava $200 e até o bairro do
Andaraí, $300.
- 22 ARQUIVO Nacional. Caixa IJ6- 595.
- 23 Correio da Manhã, 21 de abril de 1918, p. 7.
34Do
grupo do Andarahy, conhecido como os “times de fábrica”, faziam parte
também o já citado Bangu e ainda o Carioca Football Club. Ligado à
Fábrica Carioca, no bairro da Gávea, o clube tinha, segundo o Comissário
da Delegacia do 21º Distrito Policial do Rio de Janeiro, Belmiro Julio
Vianna, entre seus membros e diretores apenas “operários de bom
comportamento” e por isso autorizara a licença de funcionamento do
clube, em 1916 22.
O campo, na Estrada D. Castorina, era servido pelas linhas Jardim
Botânico e Gávea. Os dirigentes tentavam articular os meios de
transporte ao seu campo de maneiras criativas, como é o caso do
“auto-omnibus” fretado para o jogo Carioca e Flamengo, em 1918,
interligando o campo ao ponto mais próximo dos bondes do bairro por um
preço de 2$200 — já com o ingresso de arquibancada incluído. Os
bilhetes, com direito à integração do ônibus com as linhas de bondes,
poderiam ser obtidos em uma das maiores casas de materiais esportivos do
período, a Casa Stamp 23.
35Apenas
para exemplificar a diferenciação entre as equipes consideradas grandes
e os clubes menores que foram sendo incorporados à LMF, podemos
comparar as mensalidades cobradas entre alguns desses clubes com os já
analisados. Nesse caso, a preferência foi por analisar as taxas cobradas
pelo modesto clube de operários do bairro do Andaraí.
- 24 BRASIL. “Sociedades Civis: Andarahy Athletico Club – Estatutos”. Diário Official dos Estados Unidos (...)
36Se
em 1919 o Fluminense, clube de taxas mais caras do Rio de Janeiro,
cobrava 15$000 por mês para frequentarem o clube, além dos 100$000 como
taxa de adesão, aquele que quisesse ser sócio do Andarahy pagava apenas
10$000 para aderir ao clube e mais 5$000 por mês. No entanto, caso o
pretendente a sócio fosse funcionário da Fábrica Cruzeiro, pagava apenas
3$000 de mensalidade e 5$000 de jóia 24.
A enorme diferença entre as taxas forma barreira sólida o suficiente
para delimitar o espaço frequentado nessas agremiações pelos seus
associados.
37Assim,
os clubes foram se vinculando aos moradores do bairro em que estava a
sua sede. O caminho que os torcedores suburbanos faziam até a Zona Sul
ou às regiões mais centrais da cidade elevava o custo total do programa.
Com o passar dos anos, assistiu-se a um verdadeiro fenômeno de
proliferação de clubes de futebol pelos bairros mais afastados da
cidade. O momento parecia mais que oportuno para que os grandes clubes,
com apoio das instâncias governamentais e da grande imprensa, pensassem
em criar uma estrutura de organização de campeonatos, com a
possibilidade de oferecer jogos regulares o ano todo, tornando o futebol
uma atividade ainda mais geradora de receitas para o clube.
38Pontos
fundamentais deveriam ser levados em conta para que a liga conseguisse
oferecer espetáculos de futebol comercializáveis. A agremiação que
participasse da liga dos grandes clubes deveria contar com campos
apropriados para a realização de jogos, cercados e sem a visão de quem
ficava de fora, além de local apropriado para a comercialização de
ingressos. Os principais clubes que formavam a principal liga da cidade
durante as três primeiras décadas do século XX, a despeito do time do
longínquo bairro de Bangu, ficam próximos uns dos outros com ligação
intensa dos bondes. O mapa abaixo mostra as linhas de bondes na cidade
do Rio de Janeiro entre 1907 e 1943, e ilustra a integração dos campos
dos clubes da principal liga da cidade com o sistema de transportes
públicos da cidade, principalmente as linhas de bondes.
Mapa 1
Adaptado do mapa de
Jorge Sondor publicado em “A Harmonia do Transporte Urbano em função da
Rede de Transporte Coletivo de Massa” (1985).
39No
entanto, outra lógica, a par da econômica, foi levada em conta para a
formação de uma liga que congregasse os grandes clubes cariocas. Tal
entidade deveria controlar o futebol da cidade, criar mecanismos de
poder que afastassem os clubes modestos do seu seio e, principalmente,
os jogadores mais humildes que fizessem parte dos quadros das equipes de
futebol.
- 25 A liga que congregava os principais clubes da cidade teve nomes distintos ao longo do período anali (...)
- 26 BRASIL. “Sociedades Civis: Estatutos da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres”. Diário Officia (...)
40A LMF mudou de nome várias vezes mas, independe disto 25,
manteve uma estrutura elitista de organização política e econômica. Ao
formarem suas ligas, os grandes clubes criavam estruturas de poder como o
Conselho Superior, que conferia amplos poderes aos clubes mais ricos da
cidade. Se os membros do Conselho Superior eram escolhidos na
Assembléia Geral com participantes de todos os clubes, para que o sócio
de um clube fizesse parte do Conselho Superior, seu clube deveria ter
“sede social e campo de football mantido por sua conta (campo este que
não poderá ser, para tal effeito, arrendado a outro club, filiado ou
não)” 26. Ou
seja, apenas os clubes proprietários de seu próprio campo e sede é que
poderiam ter sócios como membros do Conselho Superior — deixando de
lado, portanto, uma imensa quantidade de pequenas agremiações que
alugavam campos para poder jogar.
41O
Conselho Superior imputava ao seus membros a tarefa de decidir sobre a
filiação de novos clubes e aplicar as multas às penalidades cometidas
pelos membros, além de resolver “desinteligencias” entre os clubes.
Havia um parágrafo especial nos estatutos que dava à LMDT “o direito de
intervir na ordem interna dos clubs com o intuito de manter as
disposições dos estatutos dos referidos clubs approvados e registrados
na Liga” 27.
Além destes pontos, os estatutos das diversas ligas formadas por clubes
que tinham entre seus sócios representantes da elite colocaram inúmeras
barreiras para a participação de atletas de origem popular.
42Questões
como a exigência de que os jogadores não fossem profissionais do
esporte e que não exercessem profissões “braçais” ou “humilhantes”
inviabilizavam a participação de clubes que contassem em suas fileiras
com atletas de origem popular. Em 1917, dentre os estatutos da Liga
Metropolitana de Desportos Terrestres — nome que a Liga Metropolitana de
Football recebeu após passar a gerenciar os esportes terrestres
cariocas —, havia um item que tornava a aceitação de determinados
jogadores na liga algo totalmente à mercê da subjetividade. O capítulo
XIV, “Dos Jogadores”, aonde apareciam as questões relativas à proibição
de analfabetos e de trabalhadores de determinadas profissões, colocava
na alínea “j” que, além dos analfabetos, ficavam proibidos também “os
que, embora tendo, posição, profissão ou emprego, estejam, a juizo do
Conselho Superior, abaixo do nível moral exigido pelo amadorismo”.
43A
liga se atribuía tanto poder que em seus estatutos do ano de 1917 havia
uma disposição que dava aos diretores da entidade o direito de “intervir
na ordem interna dos clubs com o intuito de manter as disposições dos
estatutos dos referidos clubs approvados e registrados na Liga”. Tal
medida podia ser tomada por pedido feito pelo clube ou mesmo sem a
autorização deste
44quando,
não havendo pedido de intervenção [por parte do clube] as dissidências
ou quaesquer desavenças entre os sócios de um club forem de natureza a
provocar actos que atentem contra a moral e a reputação do desporto, ou
contra a ordem pública, por distúrbios ou acções indecorosas de seus
associados, fora ou na sede do club, e que possam admitir a intervenção
legal das autoridades do paiz para a manutenção da boa ordem 28.
- 29 Idem.
- 30 BRASIL. “Sociedades Civis: Estatutos da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres”. Diário Officia (...)
45A
liga dos grandes clubes fez uso das barreiras econômicas para barrar os
clubes menores. Para um clube se filiar à LMDT, em 1917, pagava a jóia
de 2000$000 e mensalidades de 30$000, além de 1$000 por jogador inscrito
no seu campeonato e 10% da renda bruta arrecadada nos jogos 29.
Para se ter uma ideia, um clube como o Andarahy, que cobrava
mensalidades de 3$000 aos sócios funcionários da Fábrica Cruzeiro (a
grande maioria deles), precisaria das mensalidades de mais de 650 sócios
apenas para entrar na liga dos grandes clubes. Tais valores cobrados
pela liga permaneceram inalterados até, pelo menos, 1922 30. Entretanto,
a despeito de não haver elevado os valores cobrados, suas taxas eram
bem mais altas que as ligas menores de clubes, criando barreiras
econômicas que, em conjunto com as barreiras sociais já analisadas,
impossibilitavam a convivência da grande maioria dos clubes de origem
popular no seio da elite.
46 O
presente trabalho teve como principal finalidade mostrar o
desenvolvimento do futebol nas regiões centrais e suburbanas da cidade
do Rio de Janeiro no século XX. Contando com poucos trabalhos nessa
área, as fontes encontradas (ainda em fase de análise) mostram um campo
extremamente profícuo para este tipo de iniciativa envolvendo os estudos
de História Econômica. Na verdade, o que este pesquisador conclama é
que seus pares possam dar maior atenção a objetos ainda relegados por
esse campo da História, mas que vem apontando caminhos férteis para
historiadores de outras áreas, como a História Social e Cultural. No
entanto, a natureza econômica da organização de clubes, ligas e
campeonatos, além da estreita relação dos esportes com os meios de
transporte e com os meios de comunicação, não vêm merecendo a devida
atenção dos especialistas dessas áreas. Espero que esta pequena
contribuição possa aguçar o olhar dos colegas para este objeto, tão
social quanto econômico, que ainda escapa do escopo das investigações da
História Econômica.