1No
início do século XX trava-se intensa polêmica entre geógrafos e
sociólogos para a delimitação de seus campos disciplinares. Na opinião
de Lucien FEBVRE (1925), a ambição dos morfologos sociais em constituir
sua ciência reforçava a crítica aos geógrafos, acusando-os de serem
ambiciosos, exclusivistas no objetivo proposto de estudar todas as
influencias exercidas sobre a vida social, objetivo que, para estes,
excederiam as forças de uma só ciência. Na análise do autor, isto teria
ocorrido em virtude da visão incorreta da geografia. O interesse
institucional de Durkheim na defesa do campo da sociologia, desde 1887
ao criar uma morfologia social, tenderia a considerar a geografia a
história e a etnografia como disciplinas de caráter auxiliar à
sociologia, devendo a geografia limitar-se ao estudo das adaptação dos
grupos humanos às condições no meio ambiente (FEBVRE, 1925).
2Embora
os geógrafos estivessem de acordo em relação à definição dos seus
papéis, o que estava em jogo era a própria sobrevivência da geografia. "…
la morfologia social no puede pretender la supresión de la geografía
humana en su beneficio, porque las dos disciplinas no poseen ni el mismo
método, ni la misma tendencia y el mismo objeto”
(FEBVRE, 1925:47). Diferentemente do sociólogo, o geógrafo parte do
solo e não da sociedade, a morfologia social estuda o solo apenas como
um dos elementos explicativos da vida e dos destinos das sociedades, não
o privilegia como fazem os geógrafos (RATZEL, 1990).
- 1 Ver de Horacio Capel: Filosofía y en Ciencia en la Geografía Contemporánea, sobretudo a segunda par (...)
3A proximidade da geografia com as ciências sociais deve também ser estudada, conforme Horacio Capel (1981)1
no processo de suas institucionalizações. A criação de cátedras de
geografia constituiu-se uma ameaça aos outros cientistas universitários.
A resistência dos geógrafos diante destes debates deve-se mais a razões
pedagógicas e ideológicas, do que a razões estritamente científicas
(CAPEL, 1981:123).
- 2 Nos Congressos de geografia a etnologia tinha entidade própria, no Brasil seguia-se o mesmo modelo, (...)
4A
proximidade em relação aos campos das ciências sociais tem o seu marco
após 1870 com o determinismo biológico. As idéias de Charles Darwin e
Claude Bernard se impõem lentamente à geografia (BROC, 1974). Esta
proximidade resultará em uma grande identidade entre a geografia e a etnologia2, na utilização das monografias, trabalhos de campo, classificação e na ênfase ao método comparativo.
5A
sociedade passa a ser compreendida como um todo constituído de partes
vivas em analogia ao sistema de movimentos vitais. Na concepção
spenceriana, as partes da sociedade são unidas por uma relação de
dependência com o corpo vivo - as conexões funcionais com as concepções
teleológicas dos processos sociais. Os conceitos biológicos de
organização (o organicismo) passam a ser a explicação dos fenômenos
sociais e toda a terra foi considerada como um organismo, - ser vivo. O
novo organicismo foi alimentado pela filosofia da natureza da época
romântica. Ao mesmo tempo, a categoria raça passa a ser o definidor de
civilização e conceito fundamental para os estudos das ciências sociais.
Nação e raça passam, muitas vezes, a ser encaradas como sinônimos.
6Renato
Ortiz (1985); Lúcia Lippi Oliveira (1990) ; Thomas E. Skidmore (1976);
Lilia M. Schwarcz (1995), entre outros, delegam aos escritos de Sílvio
Romero, Nina Rodrigues e Euclides da Cunha a responsabilidade da defesa
das teorias raciais e ambientais no Brasil. Meio e raça são apresentados
como parâmetros no quadro interpretativo da realidade brasileira.
- 3 G. Ramos (1995) classifica seu pensamento como um simetrismo (por adotar o que havia de mais avança (...)
- 4 Ver de Lúcia Lippi Oliveira: Modernidade e Questão Nacional (1990). Neste artigo, Oliveira propõe-s (...)
7Embora reforcemos o seu simetrismo e sincretismo3,
como afirmam Ramos (1995) e Ortiz (1985), havia uma preocupação em
Sílvio Romero, ao assumir o método crítico, em pensar a sua realidade a
partir de dados reais, em encontrar uma teoria da sociedade brasileira
como fundamento da ação política e social, no ideário da construção
mitológica, deste "obscuro objeto de desejo e de rejeição chamado
nação."4
8"O
pensamento crítico de Sílvio Romero se apresenta como parte duma
interpretação social e como arma de interferência na vida e na cultura.
Só o podemos avaliar, pois, se levarmos em conta a sua relação com o
momento em que viçou".(CANDIDO, 1988:15).
- 5 Em seu livro Zeverissimações Ineptas da Crítica, Porto, 1909: 126, Silvio Romero procura afirmar-se (...)
9As idéias de H. Taine, E. Renan, A. de Préville, Max Müller, H. Spencer, A. Comte, Gobineau entre outros autores em que se apoia5,
aproximavam-se do ideário do individualismo liberal, que privilegia as
idéias de liberdade e progresso. Progresso como necessidade, baseado na
valorização da liberdade individual. O desvario do progressismo e do
individualismo que o Ocidente impunha ao mundo se expressava no desejo
de autenticidade. As idéias tidas
como mais adiantadas do planeta, eram adotadas com orgulho, de forma
ornamental, como prova de modernidade e de distinção. “...As ideologias
do progresso do liberalismo da razão, eram forma de traz à cena a
modernização que acompanha o capital" (SCHWARZ: 1992: 23 ).
10Refiro-me
sobremodo ao Sílvio Romero do período novecentista, que assumirá, até a
sua morte em 1914, a adesão à escola de Frédéric Le Play, decepcionado
com os caminhos assumidos pela República, ante o pesadelo em que se
transformara seu sonho da positividade de transformação.
"Reformas
sobre reformas de varios abusos e achaques politicos foram tentadas e
levadas a effeito em quasi todas as ordens dos serviços publicos, ensino
eleições, magistratura, regimen judiciario. O resultado negativo de
todas ellas, como copias servis de instituições estrangeiras mettidas no
reactivo dissolvente do caracter brazileiro, não se fazia muito esperar
e cada vez mais se avolumava a descrença nacional.
Ninguem
comprehendia como era que um dos povos mais eminentes, mais cheios de
altas qualidades, de prestimosos predicados, segundo a crença geral
ainda hoje muito corrente; de posse, alem disso, do paiz mais rico e
mais fertil de todo o planeta, consoante ainda a crença geral, andava
mergulhado em tamanha pobreza, em tal atrazo que até o mais ossificado
optimismo não ousava contestar…" (Silvio ROMERO, 1908: 111).
11Até
a República, todas as mazelas tinham como causa os atos imperiais.
Desfeito este obstáculo, a República não consegue atingir os objetivos
sonhados, a "coesão, a unidade, a
estabilidade constitucional do país, a íntima organização da nação eram,
em grande parte, puramente ilusórias."
Na análise de Jeffrey D. Needell (1993), após a abdicação e,
principalmente, com o governo Campos Salles (1892-1902), havia nestes
combatentes e marginais das instituições básicas da Monarquia, entre os
quais Sílvio Romero, um desapontamento, uma sensação de fracasso.
"…
a Republica é agora e por enquanto, a ultima desilusão do pobre povo
brazileiro. Sua constituição espuria, copiada da constituição dos
Estados-Unidos … sua loucura financeira … suas revoltas … seus cambios
…sua bancarrota … seus pesadissimos impostos o despotismo das
olygarchias estadoaes … as roubalheiras … todas estas chagas visiveis a
olhos nús, que andam a afeiar o corpo da Republica, levantaram um tão
formidavel côro de imprecações ( … ).
( … ) A reforma da Constituição
póde e deve ser feita no sentido especial de precaver a unidade do paiz
e tornar possivel a serie de medidas sociaes, capazes de trazer não a
cura de todos os nossos males, porque varios de elles são incuraveis;
sim a extirpação de alguns e a melhora da maior parte.
Eis a tarefa a tentar, o caso a resolver …”. (ROMERO, 1908: 115).
12No
processo de desilusão, e por acreditar que "o caso" não se resolveria
no plano das idéias políticas, tem a certeza de que a questão é
orgânica, étnica, de psicologia popular, questão essencialmente da
estrutura social do povo, de sua "formação social".
- 6 Emile Levasseur teve grande destaque e consequente influência nas mudanças do ensino da geografia. (...)
13Mas
como pensar o Brasil sem perder de vista o sentido do progresso no viés
do capitalismo? Desviando-se do sentido das contradições formadoras do
capital, do processo de subjugação do trabalho, seu ato de fé repousará
nas idéias francesas, afastando-se dos caminhos do germanismo do mestre
Tobias Barreto e contraditoriamente, aproximando-se do "francesismo", do
círculo de afinidades de Levasseur6, por meio do "método" de Le Play, embora permanecendo sob o signo do evolucionismo.
14O
momento revolucionário na França, com o aceno da perspectiva da
ocupação do poder pela classe trabalhadora, desencadeia uma série de
conflitos sociais e políticos e diferentes ideologias. O domínio das
idéias, fortalecidas no espírito positivo que emerge do pensamento de
Auguste Comte, representa o fortalecimento do discurso da parcela
conservadora da burguesia. O ideário positivista casava-se ao ideário
capitalista na sua própria metáfora de ordenação.
15A
ótica do espírito positivo incorpora-se na modernidade. O princípio do
progresso que não comporta saltos, flui linearmente em um contínuo onde "…
todos os acontecimentos reais, compreendendo os de nossa própria
existência individual e coletiva, estão sempre sujeitos a relações
naturais de sucessão e de similitude essencialmente independentes de
nossa intervenção" (COMTE: 1983: 110).
16Na
concepção de Vincent Berdoulay (1981), o movimento colonialista e o
nacionalismo do final do século XIX proporcionam um melhor investimento e
conhecimento do mundo e do território nacional, favorecendo a pesquisa
geográfica e, sobretudo, o desenvolvimento dos estudos regionais. As
visões de mundo que contribuíram para as pesquisas geográficas longe de
serem monolíticas apresentavam divergências ideológicas, o que explica a
formação de diferentes círculos de afinidades, e consequentemente a
divisão dos geógrafos nos diferentes círculos.
17As
Sociedades Geográficas, através de suas sessões e boletins terão grande
papel nas discussões, constituindo-se durante um bom tempo as únicas
instituições de informação, de apresentação e debates, de formação de um
grupo de pesquisadores, tornando-se assim, tribunas para os geógrafos
não universitários. As presenças de Jules Duval, Emile Levasseur e
Elisée Reclus tornar-se-iam importantes referências para a divulgação do
pensamento geográfico francês nos anos posteriores.
18Entre
os círculos de afinidades destaca-se o de Levasseur reconhecido no
mundo científico por seus trabalhos na geografia, e sobretudo por ter
dado um estatuto de cientificidade a esta disciplina. Por meio de suas
diversas atividades, congrega no seu círculo vários tipos de
pesquisadores, de diferentes tendências, principalmente os de fora do
sistema universitário. Embora seu envolvimento em pesquisa na área da
economia estatística e financeira o aproximasse dos economistas do
pensamento liberal da escola de Adam Smith, (fundamentava a sua crença
na liberdade do trabalho na liberdade de mercado e na existência das
leis econômicas), difere deste com uma versão da economia política "moins abstraite, moins déductive et plus évolutionniste dans sa méthode” e, ademais, rejeita o método matemático e aproxima-se do método indutivo (BERDOULAY, 1981).
- 7 Os discípulos de Le Play são considerados conservadores por definirem a família como o elemento bás (...)
- 8 Embora tivesse profundas divergências com as idéias de Demolins, Elisée Reclus tece-lhe elogios.
- 9 Do sistema de Le Play permanecem: o método de observação; a importância da coesão da família e o es (...)
19O círculo de afinidades de Levasseur não era homogêneo, mas composto de diversas tendências. Dos discípulos de Le Play7, Berdoulay privilegia o círculo da Science Sociale, composto por um grupo restrito em torno de Demolins8, Tourville e Rousiers. O método definido pelos membros do grupo será resultado do aperfeiçoamento do método de Le Play9
por Henri Tourville, através do detalhamento da nomenclatura, tendo a
relação milieu/travail/famile como definidora na orientação da pesquisa,
a qual representava a base original da sua Geografia Social. As idéias
de Le Play exercerão fortes influências no pensamento geográfico.
20Sob
o ponto de vista de Lia Osório Machado (1999), pode-se estabelecer
distintamente duas concepções da Geografia Social, uma via Le Play, com
ênfase no ambientalismo e a outra via o anarquismo. A primeira enfatiza o
desenvolvimento social-moral do indivíduo/família/país, e está
enquadrada no conglomerado ideológico de A. Comte (1830-46); H. Buckle
(1875); Quatrefages (1877); C. Darwin (1859) e H. Taine. Seus principais
representantes na França foram: Le Play (1879) e E. Demolins (1901;
1903) e, no Brasil, Sílvio Romero inspirado nas obras de Hippolyte Taine
e Henry Buckle.
- 10 "Desta escola não aceito as idéias catholicas dum ou doutro de seus membros. Sigo os processos, as (...)
21Sílvio Romero lança o livro O Brasil Social na
perspectiva de pensar a nação brasileira, o caráter nacional; sua
preocupação consiste em definir a "geografia do Brasil" no sentido de
encontrar caminhos de construção de mudanças. Acredita o autor que os
males do país explicam-se, antes de tudo, pela forma “...
como se escreve no Brasil a respeito de cousas da terra, é de tratar o
país e a sua gente como se isto aqui fôsse feito de pedaços da Alemanha,
da Inglaterra, da Suiça, da França, no que elas contam de mais culto,
de mais progressivo, de mais adiantado"
(ROMERO, 1910: 195). Enfatiza a ausência de um “espírito” de luta do
povo brasileiro, sua passividade frente às condições de miséria, em um
país onde, contraditoriamente, se proclamam tantas e tamanhas grandezas.
Para Sílvio Romero, esta atitude de indiferença pode ser explicada
através das reflexões advindas da utilização do método de observação dos
fenômenos sociais da Escola de Le Play.10
- 11 Ortiz explicita já naquele momento a presença de trabalhos de Franz Boas onde "a noção de raça cede (...)
22Conforme
ORTIZ (1985), houve uma defasagem entre o tempo de maturação das idéias
no Brasil em relação às teorias raciais elaboradas na Europa, do seu
vínculo com a evolução social ao momento de sua vulgarização. Enquanto
na França, nos finais do século XIX, já se apresentavam críticas da
assimilação da raça às nacionalidades, -limitando sua compreensão ao
reino da zoologia, observando-se também a influência da concepção
durkheimiana de sociedade em contraposição ao estudo da problemática das
raças ou do meio -, para os intelectuais brasileiros,11 influenciados por Gobineau (Essais sur les Inégalités des Races Humaines ) e Agassiz, tais teorias são consideradas ponto de referência de toda e qualquer discussão.
- 12 Auguste Comte retira o caráter natural do milieu e introduz o conceito de raça como influência exte (...)
23Observamos
nos escritos de Silvio Romero no início do século XX que embora assuma o
método de Le Play, discorda do seu conceito de raça desta escola12.
Segundo Sílvio Romero, "talvez por ilusão francesa," a escola de Le
Play confunde os sentidos antropológico e sociológico do conceito de
raça. Conforme o autor, embora a base dos estudos de Taine e Renan
repousasse n conceito antropológico da raça, estes terminaram por
reduzi-lo em proveito do fato histórico. Na sua reflexão, o estudo das
raças é um fenômeno meramente antropológico, se tem uma visão mecânica.
Por outro lado, ao admiti-la como apenas um produto da história civil,
um fato sociológico, coloca-se o processo histórico ao “sabor” da
vontade humana, dos “nossos desejos e ideais”. Para Silvio Romero não se
pode negar o valor da história na formação das raças, contudo, embora a
ação da história tenha “destruído e misturado o povo” nos últimos dez
ou doze mil anos, “não consegui
apagar as inconcussas verdade da antropologia e da etnografia, [...] a
questão etnográfica é a base fundamental de tôda a história, de tôda a
política, de toda a estrutura social, de tôda a vida estética e moral
das nações” (ROMERO, 1960: 198 e 196).
24Na
opinião de Renato Ortiz (1985) Silvio Romero optou por Le Play por
achar que sua teoria, comparada às interpretações de Buckle, conta com “uma maior argumentação científica mais sofisticada da ação do meio geográfico sobre os homens”. Não
houve uma análise crítica da aplicação dos estudos de Le Play à
realidade brasileira, e a aceitação do conceito de raça de Le Play na
perspectiva histórica colocava um problema sério, pois a teoria
praticamente contradizia a maioria dos diagnósticos a respeito da
sociedade brasileira.
25Acreditamos
que, na realidade, ao “ajustar” os estudos de Le Play à sua análise
sobre o Brasil, Silvio Romero não se afasta dasua concepção spenceriana,
mas sobretudo, a reforça, como ele mesmo afirma: “os
processos da escola de Le Play fizeram-me penetrar mais fundo na trama
interna das formações sociais e completar as observações exteriores do
ensino spenceriano” (ROMERO, 1960: 189)
26Defende
Silvio Romero a necessidade de estudo etnológico, antropológico,
identificando as diferenças étnicas entre as nações. Contrapõe-se ao
método direto de colonização (de aniquilamento) e defende o método
indireto, de cruzamento, além de discordar da classificação dos
fenômenos sociais, por lhe parecer mais uma nomenclatura de problemas e
questões (ROMERO, 1910). Na sua forma de pensar:
"A
enumeração ou classificação dos problemas sociais deve partir dos fatos
mais íntimos e indispensáveis à vida, sem os quais nem a própria
subsistência da gente a estudar seria possível”, tais como: - meios de
existência, logar, trabalho, propriedade, bens móveis, salário,
economias ou poupanças" (ROMERO, 1908).
27Segundo
S. Romero, são três os fatores fundamentais para a análise: meio -
terra - população; ou seja: a variedade dos meios e das raças / a troca
das idéias/ solidariedade geral - a lei da persistência e da
equipolência das forças espirituais entre os povos e o intercâmbio dos
produtos das idéias e do afeto.
- 13 Para Sílvio Romero, os livros de E. Demolins devem ser lidos na seguinte ordem: Les Grandes Routes (...)
- 14 O estudo de S. Romero sobre Sergipe foi feito em atenção ao pedido de um conterrâneo (sergipano) Jo (...)
28Apoiado no método de Edmond Demolins13
e Henri de Tourville, propõe estudar o Brasil em inumeráveis
monografias, sob múltiplos aspectos, identificando cada um dos povos que
entraram na formação da nação, e dividindo o país em zonas sociais14.
Na sua proposição, deve-se realizar uma análise detalhada de cada zona;
identificando todas as classes da população, os ramos da indústria, os
elementos da educação, suas tendências especiais, costumes, modos de
vida das famílias em suas diversas categorias, condições de vizinhança,
de patronagem, de grupos, de partidos, a vida das povoações, vilas e
cidades, condições do operariado, recursos dos patrões e todos outros
problemas que possam ser detectados, que envolvem o estado social dos
fatores que constituem as gentes brasileiras, ou seja, seus antecedentes
históricos.
- 15 Diferentemente de Silvio Romero, Arthur Orlando não assume a escola de Le Play ou de E. Demolins, p (...)
- 16 Na concepção do grupo de Levasseur, a família é coloca como questão central por ser considerada a b (...)
29Ao ajustar a proposta de Le Play e Henri Tourville à realidade brasileira, da destaque ao estudo da família15 fundamentado na escola da Science Sociale16, especialmente nos trabalhos de Le Play. Conforme depoimento escrito no seu ensaio Brasil Social, para se compreender as sociedades é preciso estudar a família pois ela é a base de tudo na sociedade humana, “uma sociedade vale pelo que vale nela a família” (ROMERO:
1960:191). O destino da família está relacionado à propriedade; a
propriedade atua diretamente sobre as instituições sociais,
principalmente sobre a família; o solo atua sobre os homens e o
influencia moral e físicamente. As zonas geográficas se subdividem em
zonas sociais, conforme a origem da natureza do trabalho (trabalho como
base social). Conforme suas palavras: A maior parte da população
trabalha para alimentar uma pequena parte "Um terço, senão menos, trabalha mal para alimentar os outros dois terços" ( ROMERO, 1910:203 ).
- 17 Sobre as diferentes interpretações (republicanos e monarquistas) após República, é muito rico o est (...)
30Sua
crítica à exploração do trabalho deve ser analisada no contexto em que
se processa o quadro econômico, social e institucional no país, após a
instalação da República17.
A privatização significava crescimento econômico, pelo aproveitamento
da mão de obra livre contra a política clientelista promovida pelo
Estado ao transferir recursos para o sustento da máquina administrativa.
31Acompanhando a mesma trajetória de Le Play, apresenta 4 gêneros de famílias (conforme particularidades étnicas e históricas ):
-
Família patriarcal
-
Família quase-patriarcal
-
Família
tronco (souche) (recomenda Le Play este tipo de família para a França,
por estar de mais acordo com o desenvolvimento social e físico do país).
-
Família instável
32Na família patriarcal,
há um equilíbrio entre o tamanho da propriedade e tamanho da família
(baixa densidade demográfica), não havendo necessidade da divisão da
propriedade. O equilíbrio se rompe quando o número dos casais, reunidos
no mesmo sítio, fica fora de proporção com a produtividade das terras,
ou das oficinas de trabalho. Quando o equilíbrio entre as subsistências
que estas produzem e a população que nelas reside é roto, é preciso que
algumas famílias se destaquem - a transmissão é integral coletiva.
33Na família quase-patriarcal,
a transmissão individual substitui a integral coletiva. A transmissão
integral da oficina de trabalho é só para um filho. Os que não herdam
recebem suas cotas em dinheiro, mas não se afastam diretamente da
comunidade. Criados para viver nela, mesmos afastados continuam a
depender da comunidade.
34Na família-tronco (souche),
a sociedade é de formação particularista, funda-se na educação
individualista. Embora haja ainda a transmissão hereditária, na maioria
das vezes os filhos optam pelo trabalho em detrimento da família, com o
objetivo de aumentar suas riquezas. Neste tipo de família permite-se o
abandono em prol do trabalho.
35Já na família instável
o retalhamento da propriedade, ou a má legislação, torna impossível a
transmissão integral. O retalhamento favorece a falta de espírito
familiar.
36Em
suas reflexões, estes quatro gêneros de famílias dão origem às
sociedades de formação comunária e as de formação particularista. A
primeira apoia-se na coletividade e a segunda na iniciativa privada,
substituindo a idéia da solidariedade comunal (formação comunária) pelo
sentimento particularista, apoiado no indivíduo, na iniciativa, na
atividade e no esforço privado. Enquanto as primeiras predominam no
Oriente, as segundas, no norte ocidental da Europa e na América do
Norte, sendo a espécie mais completa a raça anglo-saxônica; para Sílvio
Romero, esta seria a mais completa formação social.
37Romero defende
(via Demolins) a superioridade do inglês, da sua formação intelectual; a
escola é concebida como meio real, prático, que coloca o menino o mais
perto possível da sua realidade, despertando-lhe o interesse pelas
coisas práticas. Apoiado nestas
idéias, acreditava que o ensino no Brasil deveria estar relacionado com a
realidade brasileira. Para Sílvio Romero, era preciso reformar as
escolas no Brasil, que mais pareciam caserna, hospício, quartel ou
hospital, enquanto as escolas inglesas estavam situadas no campo. Os
políticos no Brasil vêem o ensino como "um organismo de partido e um instrumento de combate como tudo mais."
"Incapazes de sondar as causas geraes e efficientes de nossas miserias, fazem do caso do ensino bóde expiatorio
das mazellas do presente…" …a questão é de educação e não de instrução,
" reformar a educação dos discípulos, e, com estes, os pais, e, com
estes, a família, e, com esta, o caracter do povo" (ROMERO, 1908: 92-3).
38Na
sua concepção, por razão de herança étnica e de cultura, o povo
brasileiro adotaria a formação comunária, que representa o "mandonismo,
oligarquismo, clientelismo", sendo porém, como observa, a formação
social particularista empresarial, a única forma da derrubada da
oligarquia.
39Em
carta a M. Edmund Demolins (ROMERO, 1910), datada de maio de 1906,
relata-lhe seu ponto de vista sobre o que denomina o "retrato social dos
brasileiros." Conforme sua análise, no período colonial dominava a
família patriarcal desorganizada, passando no início do século XX, com a
extinção da escravidão e inexistência de colonização geral
sistematizada, nacional e estrangeira, para a família completamente
instável devido ao parcelamento da herança e domínios e a desorganização
crescente do trabalho. Acredita que o desconhecimento completo da
agricultura, pelo trabalho forçado, desde o início da colonização
portuguesa e a emancipação rápida dos escravos, desorganizaram o
trabalho. Desta forma perde-se a base comunária sem ter possibilidade de
sua mudança para a formação particularista, mudança esta só possível
pela assimilação das raças particularistas, ou por um sistema
severíssimo de educação preconizado por Demolins em seu livro La Nouvelle Éducation.
40Reafirma
sua crítica à centralização da política local, e à política
clientelista. Na sua observação, o Estado mantém a malha do
funcionalismo em empregos diretos, ou pensões gratificações, de
propinas, quase exclusivamente à custa dos que trabalham. "É á cata do chefe para o arrimo, á cata do emprego publico, do arranjo politico sob qualquer fórma." Fundamentado nesta análise, apresenta a seguinte divisão social do Brasil:
Zonas Sociais do Brasil
Planalto da Guyana
Região das terras baixas
As terras marginais do norte e sul do Amazonas
Zona das matas da região ocidental
Planalto Central - Norte
Planalto do Interior
Região dos vales dos rios Paraguai e Guaporé
Região entre os rios Gurupi e o Parnaíba ( Estado do Maranhão e terras próximas )
Sertões do norte ( Os Cariris )
Terras da costa marítima
Região da Costa do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul
Terras do território das Missões
Campos, pampas e cochilas.
- 18 Sobre o livro de A. de Preville (discípulo de Le Play ), Sílvio Romero em seu artigo Brazil Social (...)
41Além desta classificação, em carta para Arthur Orlando (1911) 18, Sílvio Romero, influenciado pelo livro de A. de Preville, Les Sociétés Africaines; leur origine - leur évolution - leur avenir,
apresenta um esboço de classificação tendo como determinante o valor da
planta útil predominante no local, quanto a sua condição alimentar, seu
valor comercial e social, ou seja pela sua utilidade. Divide em: Zona
seringueira; Zona da castanha e do assahy; Zona do bacory; Zona do
piquy; Zona da carnauba mucunan; Zona das catingueiras, mangabeiras e
imbuseiros; Zona do mangue; Zona do cajueiro e da pitangueira; Zona do
cajueiro; Zona da mangueira; Zona das madeiras de lei; Zona do pinheiro;
Zona do matte. Plantas aclimatadas utilissimas: Zona da canna de
assucar; Zona do cacáo; Zona do café; Zona do arroz e Zona da mandioca.
42Observa-se
que em toda sua proposta "geográfica" há o empenho em encontrar
soluções para as questões sociais do país. Se de um lado sua análise
está contida no viés determinista ambientalista, por outro, ressalta-se o
papel do intelectual político que pensa o meio a partir de uma
perspectiva de mudança.
- 19 "entre o positivismo e o spencerianismo existem semelhanças conceituais, em geral pouco reconhecida (...)
- 20 Para a análise de Sílvio Romero sobre Spencer versus Comte, ver seu livro: Obra Filosófica. Rio de (...)
43A angústia de Sílvio Romero se traduzia na pregação da crítica, na sua "agitação turbilhonar." Ao se propor elaborar uma "Geografia social"
do Brasil, seu objetivo era encontrar soluções para por fim ao
"pessimismo" do povo brasileiro, através de um projeto de redefinição da
identidade nacional, casando a tipologia da escola de Le Play e o
darwinismo social de Spencer. Ao sobrepor o pensamento de Spencer ao de
Comte19, por acreditar que Spencer representava tudo quanto poderia haver de "antitético à mortificação comtesta,"20
acredita estar propondo o mais moderno dos métodos de análise - a
incorporação de valores modernos ao sistema social brasileiro sem
abandonar ideologias tradicionais. A sua visão simultânea do verso e
reverso, como identifica-o Paulo Arantes (1992), o faz contrapor-se ao
positivismo a partir do próprio espírito positivo. Na concepção de
Cândido, a contradição era seu modo de pensar, em um movimento "circular
que gira incessantemente sobre si mesmo e progride, parecendo
permanecer" (CANDIDO, 1989: 100).
44Sua Geografia Social está definida no círculo da raça - meio - história. Contudo como observa Lia Osório Machado:
“Se
podemos atribuir a Silvio Romero a introdução formal nos círculos
intelectuais da noção de 'geografia social', ele não estava sozinho na
busca por teorias ambientais que pudessem conter o fluxo de teorias
racistas trazidas pela onda de cientismo e doutrinas do progresso que
aportavam no Brasil na passagem do século” (MACHADO, 1999:7).
45Propor
a raça e o meio como condições de interpretação do caráter nacional era
introduzir na dimensão natural um esforço de explicação -aceitar as
desigualdades das raças era ser científico - é preciso observar porém
que, na obra de Romero, não está explícita a pretensão da defesa da
superioridade de uma raça, mas sim da fraternização das raças, através
da difusão cultural - aculturação, propondo o cruzamento como condição
de civilização, pela "elevação de raças inferiores." Na sua dialética de
opostos sobrepõe o direito da "raça inferior" ao da raça superior e
desta forma não subscreve um discurso de defesa de uma raça superior,
mas o direito de igualdade de superação. Em um jogo de espelho, o
reflexo que vê é a negação do que pretende espelhar.
46Para
Cândido (1989), a indagação de Silvio Romero a partir da raça era em si
mesma infrutífera, uma vez que a raça não explica nada, mas o seu
interesse por ela permitiu uma reflexão ampla e valiosa sobre a
literatura do Brasil e sobre o Brasil enquanto produtor de literatura , "todo crítico precisa propor o problema da estrutura, mesmo que ela não o leve a descobrir o que deseja", naquele tempo todo crítico deveria fazê-lo para ser digno do nome.
47Sua ambigüidade é marcada pela condição de intelectual brasileiro que proclama o novo, um intelectual universalista que
pensa e atua em nome do povo, da pátria, da nação. O intelectual
universalista toma partido de uma classe, mas não reconhece o vínculo
entre sua reflexão e interesses sociais particulares, acredita serem
independentes, autônomos (VENTURA, 1991).
- 21 Renato Ortiz, em seu artigo “Advento da modernidade” lança reflexões sobre a concepção do “mito da (...)
48Ao
privilegiar o papel do intelectual no processo de formação política do
país, Antonio Gramsci (1979), salienta a importância do olhar para fora.
Para este autor, a participação do intelectual deve ser entendida não
apenas por suas atividades, mas no conjunto do sistema das relações
sociais que estas estão inseridas. Neste sentido concebe-se que, em um
contexto dominado pela obsessão biológica, com suas incoerências e
recuos, Sílvio Romero teve a expectativa de mudança no “mito da
modernidade”, ajustado na ideologia do desenvolvimento21.
De acordo com a crença do progresso necessário e indefinido o passado é
visto como condição de atraso, o que está em descompasso com a ordem
existente, e o futuro é o símbolo iluminista. Futuro que se desnuda na
valorização da iniciativa privada.
49Para
Antônio Cândido, embora Sílvio Romero defenda suas idéias
cientificistas por intermédio da razão de ser do nexo causal, ele não
pode ser identificado como um determinista, mas como aquele que aponta
para a possibilidade de mudança. A crítica ao estado mental do povo
brasileiro é um convite a sua libertação, daquele que defende o
pensamento de que o homem pode agir com relativa liberdade dentro do
determinismo histórico. A condição do possibilismo "fez dele o mais livre dos críticos deterministas" (CANDIDO, 1988: 100).
50Buscou
Sílvio Romero possibilidades de mudanças até mesmo na afirmativa da
negação de uma vontade. O que importava para o autor era a tentativa de
encontrar respostas para sua angústia pessimista. Suas diversas
classificações "geográficas" surgem da constante tentativa de entender o
homem/povo brasileiro. Classificações sedimentadas na visão positivista
em que a relação homem e meio é observada na rigidez do espaço,
priorizando as categorias solo e clima como definidoras de uma
"paisagem", o que o aproxima da perspectiva do liberalismo econômico
inglês e, consequentemente, da defesa da propriedade do solo e da crença
na redenção pela opção da família particularista como "gênero de vida",
e o afasta da proposta da geografia social de Elisée Reclus. De acordo
com Reclus, o conceito de raça não deve ser visto como resultado de uma
simples classificação de ordem metódica, resultado de épocas próximas,
mas como produto de fenômenos múltiplos, meios anteriores que se
multiplicam ao infinito desde a sua origem, ação sucessiva dos ambientes
em tempos diversos. "O próprio desenvolvimento das nações implica essa
transformação do meio: o tempo modifica continuamente o espaço" (RECLUS,
1985:60).
- 22 "Sílvio Romero não submete, porém, o pensamento de Le Play à uma crítica fundamentada na realidade, (...)
51Talvez
possamos acatar a posição de ORTIZ (1985), ao relacionar o pensamento
dos precursores das Ciências Sociais ao fenômeno do sincretismo
religioso, uma vez que na lógica deste pensamento escolhe-se entre os
diferentes objetos a serem sincretizados, as teorias disponíveis;
selecionando-se os elementos considerados pertinentes. Deste modo, como
afirmamos anteriormente, ao escolher um elemento do pensamento de Le
Play, por apresentar algo em comum com as teorias já utilizadas,
ajustando-o ao estudo da sociedade, por estar na moda, não o submete à
crítica da realidade brasileira, ignorando a outra parte por entrar em
contradição com esta realidade.22
52As
contradições que advêm desta lógica implicam em situá-lo entre os
intelectuais, daquele momento histórico, coniventes ao próprio interesse
do Estado. Porém é preciso observar as constâncias, embora
inconsistentes, dos seus discursos, nas suas incontestáveis e acirradas
observações críticas ao poder. Acreditamos que, mesmo que o situemos na
organicidade deste próprio poder, não se pode negar a importância para o
pensamento geográfico no Brasil deste relacionamento com o pensamento
dos precursores das Ciências Sociais. Nossa intenção é observar o
pensamento de Sílvio Romero na dimensão da História do Pensamento
Geográfico, com o olhar sobretudo da crítica, mas sem perder o olhar do
signo do diferente na trajetória de um pensamento, de uma idéia de quem
olhou no interior do Zeitgeist.