1Os
parques são elementos da paisagem urbana que se inscrevem no espaço
construído. Ocupam área específica, demarcada no espaço, sobre a qual se
realiza trabalho, obras que permitem o seu uso efetivo. Este trabalho,
obras, de produção do parque, relaciona-se à dinâmica mais ampla de
reprodução da cidade. Constituindo um objeto politicamente definido, não
é neutro na paisagem, mas altera a característica do lugar, do espaço
onde está inserido.
2Como
diz Santos, “a partir do reconhecimento dos objetos na paisagem, e no
espaço, somos alertados para as relações que existem entre os lugares.
Essas relações são respostas ao processo produtivo no sentido largo,
incluindo desde a produção de mercadorias à produção simbólica” (SANTOS,
2004, p. 72).
3Os
parques são equipamentos públicos pelo fato de, em geral, terem sido
delimitados em terras de propriedade municipal, estadual ou federal, ou
seja, em terras públicas. No entanto, dependendo da localização, são
apropriados privadamente por classes e interesses específicos.
4Historicamente,
os parques estão relacionados ao usufruto de classes específicas na
Europa, no século XIX, quando a cidade industrial, carregada de seus
“males”, provocava, naqueles que tinham rendas mais elevadas, a procura
pelo campo, como lugar de refúgio, paz, “natureza”. Assim, o arquétipo
de parque tal qual se propagou pelas cidades de todo o mundo surgiu, de
certo modo, da prática de tratamento paisagístico nas imediações das
mansões senhoriais no campo, sobretudo, no século XVIII (WILLIAMS,
1989).
5No
Brasil, os primeiros parques são do século XIX, no Rio de Janeiro e em
São Paulo. A implantação de muitos parques nessas, e em outras cidades,
inscreve-se no contexto de profundas mudanças, sobretudo nas áreas
centrais, em fins do século XIX e início do século XX. Neste período,
inúmeros parques foram criados em cidades brasileiras como elementos que
contribuíram para o embelezamento da “cidade moderna”, possibilitando a
utilização e o aproveitamento de terrenos alagadiços de várzeas, fundos
de vale e áreas junto ao mar. A implantação desses projetos provocou
mudanças no processo de produção das cidades, interferindo nos preços
das terras, das edificações e na dinâmica de ocupação do espaço urbano.
- 1 A Lei no 3.071, de 1 de janeiro de 1916, em seu Artigo 65, define os bens públicos como: 1- De uso (...)
- 2 Esta lei dispõe sobre o parcelamento do solo urbano e dá outras providências. Na redação original d (...)
6Desde fins da década de 1970 os parques urbanos no Brasil, comumente, ocupam áreas destinadas como de uso comum 1 nos loteamentos, conforme a Lei Federal 6.766/79 2.
No entanto, a distribuição e implantação dos equipamentos públicos
nessas áreas competem aos órgãos municipais, que as realiza segundo seus
interesses. Além disso, as áreas onde se implantam os parques podem ser
desapropriadas pelo poder público, ou doadas pela iniciativa privada.
As desapropriações ocorrem através de lei municipal, mediante
indenização, e envolvem acordos/negociações entre ambas as partes.
7Na
cidade de Ribeirão Preto-SP, objeto desta análise, parques foram
implantados, desde a década de 1960, segundo interesses e estratégias
diferenciadas, evidenciando o processo contraditório de produção do
espaço, em especial quando se analisa a atuação do Estado, em âmbito
municipal. Muitos discursos são produzidos e disseminados ressaltando
características como lazer, qualidade de vida, “natureza” etc., no
entanto, uma análise criteriosa desses equipamentos no espaço urbano
demonstra um processo conflituoso e desigual, contrariando os discursos
propalados.
- 3 Para esta análise, importa afirmar que a renda diferencial resulta da aplicação/investimento de cap (...)
8Este
processo de criação e implantação de parques, sobretudo, respaldado em
um discurso em torno da preservação da natureza, em pauta pelos
organismos internacionais, como a ONU, evidencia, por um lado, a atuação
de gestões públicas, não simplesmente no intuito de criar, delimitar
espaços de lazer, de proteção da natureza, mas de projetar-se como
empreendedoras, com interesses políticos; de outro, as estratégias de
grupos imobiliários para auferirem renda diferencial 3
no espaço urbano, uma vez que estes parques agregam-se como fator
positivo ao lugar, bairro, zona e, por conseqüência, provocam
valorização imobiliária.
9Alguns
parques implantados a partir da década de 1990 em Ribeirão Preto, como o
“Prefeito Luiz Roberto Jábali” e “Dr. Luís Carlos Raya”, tornaram-se
equipamentos importantes que contribuíram na dinamização e valorização
da zona Sul da cidade, conforme aponta Gomes (GOMES, 2009). Estes
parques fazem parte de um conjunto de estratégias (avenidas ajardinadas,
boulevards, shopping centers etc.) que, implantado
nas áreas onde mora a população com maiores rendimentos, contribuiu para
a maior valorização dos imóveis em relação às outras parcelas da
cidade.
- 4 De acordo com o Decreto Municipal no 333, de 26 de dezembro de 1983, a cidade é dividida em setores (...)
10Em outros setores urbanos 4
não ocorreu o mesmo processo. Parques públicos como o Augusto Ruschi e o
Cláudio Franco Lima (ver Mapa 1), embora criados por lei, não foram
efetivamente implantados, do ponto de vista da infraestrutura. Além
disso, não apresentam significativo importante da fauna e flora local.
São espaços vazios não utilizados, efetivamente, para lazer e/ou
contemplação/conservação da natureza. Dessa forma, a criação de inúmeros
parques na cidade de Ribeirão Preto não se justifica pela necessidade
de conservação da fauna e flora, uma vez que estes não dispõem de nada a
preservar. Mesmo assim, são utilizados nos discursos públicos como
forma de engrossar os índices ilusórios de verde por habitante,
tecnicamente endossados como medidores de “qualidade de vida”.
11Em
Ribeirão Preto, embora existam muitas áreas denominadas parques, como
demonstrado a seguir, efetivamente poucas foram implantadas. Foram
criadas por lei, mas não desempenham função de parque, especialmente
quando se localizam na periferia pobre da cidade.
12Constata-se
que houve uma evolução expressiva no número de parques em Ribeirão
Preto, nas últimas décadas. Em 1998 havia 11 (onze) áreas regulamentadas
por lei. Já em 2004, o número de parques na cidade se elevou para 17
(dezessete), sendo que 9 (nove) não se encontravam efetivamente
implantados (Quadro 1). Estes parques foram criados por lei municipal,
mas, em alguns casos, foram implantados em parceria com a iniciativa
privada, como ocorreu com os parques Prefeito Luiz Roberto Jábali e Dr.
Luís Carlos Raya. A estes dois parques dar-se-á ênfase maior, nesta
discussão, pela importância que assumem no processo de valorização
desigual do espaço em Ribeirão Preto.
- 5 Plano Diretor de Arborização Urbana, Relatório No 01, 2003, não publicado, fornecido pela Secretari (...)
13 Para a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto 5, consideram-se implantadas
as áreas que “contenham equipamentos de lazer, passeio, iluminação,
mobiliário, ponto de água, vegetação existente natural e/ou implantada,
gramados ou ajardinamento e tratamento paisagístico, todos com
manutenção periódica”.
14 Semi-implantadas
são as áreas que, “apesar de não serem efetivamente implantadas,
contenham algum tipo de infra-estrutura e/ou manutenção (pública ou
privada)”. Esta infraestrutura pode ter sido implantada pela comunidade,
como, por exemplo, um campo de futebol.
15 As áreas não-implantadas
correspondem àquelas que, “mesmo contendo vegetação natural, [...] não
há infra-estrutura, equipamentos sociais, implantação de qualquer tipo
de vegetação e manutenção periódica da vegetação já existente”.
Quadro 1
|
RIBEIRÃO PRETO: PARQUES PÚBLICOS CRIADOS POR LEI ATÉ 2007
|
|
|
Nome
|
Localização
(Subsetor)
|
Área (m2)
|
Lei/Decreto de criação
|
Condição
|
|
|
|
|
|
|
Parque Augusto Ruschi
|
N-10
|
66.682,49
|
7337/1996
|
Não implantado
|
|
Parque Tom Jobim
|
N-06
|
63.448,54
|
7068/1995
|
Implantado
|
|
Parque Ecológico Orestes Lopes de Camargo
|
N-06
|
19.922,76
|
6907/1994
|
Não implantado
|
|
Parque Linear Ulisses Guimarães
|
N-01/08
|
275.250,50
|
6709/1993
|
Implantado
|
|
Parque José Maria Morgade Miranda
|
N-01
|
54.948,00
|
7020/1995
|
Não Implantado
|
|
Parque Municipal Morro de São Bento
|
N-01
|
250.880,00
|
476/1995
262/1999
|
Implantado
|
|
Parque Ecológico Ribeirão Verde
|
L-09
|
105.055,65
|
8382/1999
|
Semi-implantado
|
|
Parque Municipal da Mata do Jardim Palmares
|
L-07
|
90.673,01
|
L.C. 1691/2004
|
Não Implantado
|
|
Parque Prefeito Luiz Roberto Jábali
|
L-03
|
138.700,25
|
L.C. 1009/2000
|
Implantado
|
|
Parque Linear Sérgio Motta
|
L-03/L-06/S-03
|
179.468,00
|
351/1999
|
Semi-implantado
|
|
Parque Francisco Prestes Maia
|
O-02
|
12.485,25
|
1686/1965
|
Implantado
|
|
Parque Maurílio Biagi
|
O-02
|
196.522,31
|
4233/1982
|
Implantado
|
|
Parque Ecológico Cláudio Franco Lima
|
O-07
|
12.322,00
|
617/1996
|
Não Implantado
|
|
Parque Ecológico e Botânico Ângelo Rinaldi
|
O-07
|
182.986,17
|
620/2000
|
Semi-implantado
|
|
Roberto de Melo Genaro
|
S-01
|
11.722,00
|
496/1995
|
Não Implantado
|
|
Parque Dr. Luís Carlos Raya
|
S-07
|
39.560,29
|
10208/2004
425/2004
|
Implantado
|
|
Parque Fernando de Freitas Monteiro
|
S-05
|
68.605,59
|
8142/1998
|
Implantado
|
Fonte: Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto-SP/Departamento de Gestão Ambiental – 2007.
Org. Marcos Antônio Silvestre Gomes.
16O
Mapa 1 permite visualizar a espacialização dos parques urbanos em
Ribeirão Preto, implantados, semi-implantados e não implantados.
17
A criação de parques urbanos em Ribeirão Preto, embora tenha se
iniciado, oficialmente, a partir de 1965, com o Parque Francisco Prestes
Maia, tem sido mais marcante após a década de 1990, quando 11 (onze)
parques foram regulamentados por lei, conforme demonstrado no Quadro 1.
Um dos aspectos que justifica este aumento significativo no número de
parques, não só em Ribeirão Preto, mas em outras cidades, está
relacionado ao conjunto de estratégias discursivas que envolve a questão
ambiental. Sobretudo a partir da década de 1990 a ideia do
desenvolvimento sustentável se tornou proeminente nas agendas políticas
globais e locais.
18Os
parques Francisco Prestes Maia e Maurílio Biagi, ambos criados
anteriormente à década de 1990, constituem-se em espaços abertos
adjacentes à área central (Figura 1). O primeiro, de dimensão pequena
(cerca de 12 mil m2), se assemelha a uma praça, circundando o
Pronto Socorro Municipal. Constitui-se no espaço mais antigo da cidade
denominado de parque. O segundo circunda a Câmara Municipal de Ribeirão
Preto e é separado do primeiro pelo Terminal Municipal Rodoviário. Neste
parque tem-se observado esforços constantes em ampliar a arborização.
Mapa 1 - Ribeirão Preto: Distribuição espacial dos parques urbanos - 2007
Fonte : Secretaria de Planejamento e Gestão Ambiental. Organizado pelo autor.
Figura 1 – Vista aérea dos parques Maurílio Biagi (à direita) e Francisco Prestes Maia (à esquerda), no ano de 2004
Fonte: http://www.ribeiraopreto.sp.gov.br Acesso em agosto de 2007.
- 6 Em 1948 passou a ser denominado Bosque Municipal Fábio Barreto, de acordo com a Lei no 61, de 22 de (...)
- 7 Informações obtidas em documento denominado “Histórico da fundação do Bosque Municipal”, s/d, elabo (...)
19
Entretanto, em termos funcionais e de infraestrutura, o Parque
Municipal Morro de São Bento, também margeando a área central urbana,
embora denominado por lei em 1995, constitui um dos espaços mais antigos
criados com a função de lazer e conservação ambiental em Ribeirão
Preto. Foi adquirido pela municipalidade, no ano de 1907, através da
compra da Chácara Olympia, e implantado oficialmente, como Bosque
Municipal 6,
em 1937, na gestão de Fábio Barreto, passando, posteriormente, por
processos de melhoramentos na sua infraestrutura. O Parque Municipal
Morro de São Bento abriga, além de trecho de mata nativa, que forma
originalmente o bosque, dois complexos (um esportivo e um cultural),
totalizando uma área de 250.880 metros quadrados 7 (Figura 2).
20Convém
salientar que, em Ribeirão Preto, os parques não se encontram bem
distribuídos ao longo da malha urbana, de forma que favoreça seu uso por
todas as parcelas da população. Na maioria dos casos não dispõem da
infraestrutura necessária ao seu uso. São classificados como
semi-implantados pela Prefeitura, mas não oferecem condições mínimas de
uso, como é o caso do Parque Ecológico Ribeirão Verde (Figura 3),
localizado na zona Leste.
21Nos
poucos casos em que os parques são efetivados, as prioridades são
estabelecidas pelo poder público que, em geral, justifica a grande
quantidade de parques não implantados pela ausência de recursos
financeiros.
Figura
2 – Vista panorâmica do Parque Municipal Morro de São Bento no final da
década de 1990. A área verticalizada na parte inferior da imagem indica
o centro da cidade.
Fonte: http://www.ribeiraopreto.sp.gov.br. Acesso em agosto de 2007.
Figura 3 – Parque Ecológico Ribeirão Verde (2008)
Foto do Autor
22
Há casos também em que o parque consta no cadastro da Prefeitura como
implantado, mas não recebeu nenhum tipo de infraestrutura ou cuidados
com a vegetação. Nesta situação se encontra, por exemplo, o Parque
Linear Ulisses Guimarães, na zona Norte (Figura 4). Este parque não
oferece nenhum atrativo para o seu uso. Localiza-se em uma área habitada
por famílias de baixa renda que, em geral, dispõem de poucas opções de
lazer. Como se trata de um fundo de vale, nem mesmo as márgens do
Córrego que o corta receberam plantio de árvores, o que deveria se
constituir em uma medida importante, pois contribuiria para a formação
de uma mata ciliar.
Figura 4: Parque Linear Ulisses Guimarães (2008)
Foto do autor.
23
Muitos parques se localizam em áreas e sob condições questionáveis de
implantação. Diante dos discursos do poder público e dos grupos
imobiliários, que ressaltam as vantagens dos parques para toda a cidade,
constata-se que os espaços mais bem equipados estão localizados em
áreas de crescente valorização imobiliária, geralmente pouco acessíveis
às camadas de baixa renda. No eixo Sul-sudeste, para onde se tem
dirigido a expansão urbana, conforme diretrizes do Plano Diretor
Municipal (Lei Complementar no 501/95), e que corresponde à
área de maior valorização fundiária, como demonstrado por Gomes (2009),
foram criados e implantados pelo poder público os dois mais equipados
parques da cidade: Parque Prefeito Luiz Roberto Jábali, no ano 2000, e o
Parque Dr. Luís Carlos Raya, em 2004.
24Estes
parques contribuíram no processo de valorização da zona Sul. Foi
verificado que os terrenos próximos aos referidos parques apresentam
preços mais elevados do que outros nos mesmos bairros onde se localizam,
proporcionando renda diferencial elevada, confirmando que os parques
representam uma forma de valorização imobiliária. Ou seja, enquanto o
preço do m2 do solo na zona Sul, entre 1995 e 2008, aumentou
em mais de 300%, custando em média R$ 300,00 no final do período; nas
demais zonas esse aumento foi menos expressivo, e o preço do m2
custava em média R$ 100,00, com exceção do Setor Leste, onde alguns
bairros que fazem limite com a zona Sul apresenta preços superiores.
25Da
mesma forma, em 2008, o preço do m² do solo no entorno imediato do
Parque Dr. Luis Carlos Raya era em média R$ 300,00, enquanto em outras
partes do mesmo loteamento onde está implantado custava R$ 220,00. No
caso do Parque Luiz Roberto Jabali o m2 nas suas imediações custava em média R$ 250,00, em terrenos mais distantes do parque o preço médio era de R$ 165,00.
26As
áreas onde foram implantados estes parques passaram para a
municipalidade de forma distinta. A correspondente ao Parque Prefeito
Luiz Roberto Jábali resultou de desapropriação, enquanto a do Parque Dr.
Luís Carlos Raya se insere no percentual de áreas de uso comum do
loteamento Jardim Botânico, como obriga a Lei 6.766/79. Em ambos os
parques, uma característica é comum às áreas onde foram implantados:
resultam de antiga exploração de basalto no município (Figura 5). Estas
áreas foram incorporadas à malha urbana devido ao crescimento da cidade e
permaneceram sem nenhum uso, mas como reserva de valor, por mais de
vinte anos, desde que foram encerradas as atividades econômicas na
década de 1970. Através de processos diferentes foram transformadas em
parques.
27
Ao analisar as características do uso do solo nas áreas de antigas
pedreiras, que atualmente correspondem aos parques supracitados,
observa-se que em outros períodos havia um “aproveitamento” da
terra-mercadoria, mas também meio de produção, para a exploração do
basalto. No período atual, estas áreas, aparentemente obsoletas no
espaço urbano, mudam de característica com a criação de uma nova
paisagem, diferenciando o lugar. Este lugar, uma vez reproduzido, passa a
ser apropriado e consumido, não mais pela exploração econômica dos seus
recursos, mas pela capacidade de oferecer uma atratividade relacionada
ao lazer.
28As
áreas de antigas pedreiras no espaço urbano podem ser compreendidas
como aquilo que Gottdiener (GOTTDIENER, 1997) denomina de capital parado
do passado. Transformadas em parques, estas áreas tornam-se “novas
raridades” no espaço urbano. Como terra pública, não entram no mercado
de compra e venda, mas alteram o preço das terras nas imediações e
conferem novo valor à cidade e ao lugar.
29
Estas áreas, enquanto espaços de exploração de riqueza no passado, ao
significar, em momento específico, uma barreira à reprodução do capital,
são transformadas em espaços de valorização do capital, decorrentes de
interesses públicos e privados, sendo uma de suas consequências,
finalidades a alteração e o aumento do preço de troca da terra urbana.
Enquanto espaços “obsoletos”, as antigas pedreiras são incorporadas ao
processo de produção do espaço urbano, integrando-se à lógica de
reprodução do capital. Constituem estratégias para o mercado imobiliário
local, agregando-se, enquanto equipamentos públicos, à dinâmica de
valorização imobiliária da zona Sul-sudeste da cidade de Ribeirão Preto.
30A
implantação de parques em áreas de antigas pedreiras é expressão do
processo de destruição criativa tal como diz Harvey (HARVEY, 1998).
Representa a destruição de formas pretéritas que não interessam para a
acumulação de capital, que tem estagnada a renda diferencial da terra;
implica a reprodução e reapropriação do espaço, altera as
características morfológicas, a mudança do ritmo e da forma de extração
da riqueza. Destrói-se o espaço anteriormente produzido para, então,
recriá-lo, conferindo novos usos que contribuem para a reprodução do
capital, para o aumento da renda da terra urbana, em especial da renda
diferencial.
31Como
as áreas de antigas pedreiras (parques) não mais significam a extração
direta da riqueza (terra, basalto), foram modificadas, reproduzidas, e
assim contribuem para o incremento, produção e circulação da riqueza no
mercado imobiliário.
Figura 5 – Aspecto da zona Sul.
À
direita, o Parque Prefeito Luiz Roberto Jábali; à esquerda, cava da
pedreira onde foi implantado o Parque Dr. Luís Carlos Raya. No alto, à
esquerda, edifícios da Avenida João Fiúza (2005), um importante eixo de
valorização da zona Sul.
Fonte: Secretaria de Planejamento e Gestão Ambiental de Ribeirão Preto. Org.: Marcos Antônio Silvestre Gomes.
32Os
parques Prefeito Luiz Roberto Jábali e Dr. Luís Carlos Raya são
representativos da produção espacial em Ribeirão Preto, onde os
equipamentos públicos têm sido implantados nas áreas em que se aloja a
população de maior renda e a que se confere um maior valor ao solo
urbano. Dessa forma, se tornam notáveis na cidade não só pela dimensão
que assumem como espaços de lazer, mas pela localização em áreas de
crescente valorização imobiliária e pela projeção imputada pelo poder
público. Os parques se tornaram símbolos de gestões públicas municipais
como forma de aumentar a competitividade do município.
33
As gestões administrativas de Luiz Roberto Jábali e Gilberto Sidney
Maggioni na Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto foram encerradas,
respectivamente, no ano de 2000 e 2004, com a inauguração dos parques
Prefeito Luiz Roberto Jábali e Dr. Luís Carlos Raya. À época, os
discursos propalados pelo poder público enalteciam as qualidades
estéticas, infraestruturais e ecológicas destes espaços.
34Jornais
locais, à época da inauguração dos parques, anunciavam a entrega destes
à população, destacando-os como um fator positivo para toda a cidade.
Um deles, ao se reportar ao Parque Dr. Luís Carlos Raya estampou como
título: “Área nobre de Ribeirão ganhará outro parque”. Assim,
divulgou a importância do parque e destacou a sua localização como uma
característica positiva para a cidade, sem atentar para a ampliação das
desigualdades socioespaciais urbanas decorrentes da concentração de
investimentos públicos em áreas específicas da cidade.
35
A implantação de infraestrutura (estradas, asfalto, luz etc.) e de
equipamentos públicos (escolas, postos de saúde, praças, parques etc.)
altera o uso e o preço da terra urbana. Assim, a implantação de parques,
mesmo sem a adequada infraestrutura, mobiliário e vegetação nas áreas
ocupadas pela população de baixa renda, também pode alterar o preço da
terra, mas nesta análise se enfatizou os parques que alteraram
significativamente o preço da terra por estarem vinculados aos
interesses imobiliários especulativos.
36Embora
em número significativo (17) para um município de 547.417 habitantes
(IBGE, 2007), a maior parte dos parques de Ribeirão Preto que dispõem de
infraestrutura, que permite o uso efetivo, esta concentrada no eixo
Centro-sul-sudeste. Contraditoriamente, a distribuição da população em
números absolutos em Ribeirão Preto e a densidade populacional por
setores censitários (IBGE, 2000), apontam a maior parte da população
concentrada nas zonas Norte e Oeste, em geral as mais carentes em áreas
de lazer, como praças e parques. Juntas, essas zonas concentram cerca de
2/3 da população do município e metade dos domicílios.
37
Em relação à renda, constata-se que há uma concentração das camadas de
rendimentos mais elevados nas zonas Sul e Leste, o que evidencia uma
contradição entre a implantação de equipamentos públicos nessas áreas e a
carência desses equipamentos nas zonas Norte e Oeste, concentradoras da
população de menor poder aquisitivo.
38
Estas constatações apontam que o poder público municipal, ao criar e
implantar espaços, como parques e praças, nos setores onde se localizam
os interesses imobiliários, dirigidos às camadas de mais alta renda da
cidade, contribui para o aumento do preço dos terrenos, loteamentos e
edificações, consolidando o eixo Sul-sudeste de Ribeirão Preto como uma
área estrategicamente rendosa do ponto de vista imobiliário. Nesse eixo,
estão instalados os três shopping centers da cidade, equipamentos urbanos que contribuem para o aumento do preço do solo nessas áreas (ver mapa 1).
39 Este
artigo destacou a análise dos parques como equipamentos públicos no
espaço urbano, demonstrando que a forma como estão distribuídos em
Ribeirão Preto não atende às necessidades de toda a população.
40
Os parques mais bem equipados e que recebem cuidados constantes pelo
poder público localizam-se no eixo Sul-Sudeste da cidade. Foram criados
através de parcerias público-privadas, cujo interesse predominante era a
valorização fundiária dos loteamentos aos quais fariam ou fazem parte, e
não a conservação da natureza. São alegorias, simulacros, no espaço e
no tempo.
41
Na periferia pobre, as áreas destinadas aos parques, em sua maioria,
permanecem sem atrativos, usos que justifiquem a sua denominação. Há
casos em que a população implanta, a seu modo, algumas improvisações,
como campo de futebol, bancos de madeira, árvores etc, evidenciando a
negligência do poder público.
42
Em Ribeirão Preto, gestores públicos e agentes privados sintonizam o
discurso do “verde” no espaço urbano. Por um lado, vendem a imagem da
cidade, seus parques, praças, áreas arborizadas etc. como fundamental
para a qualidade de vida de todos e como sinônimo de preocupação
ambiental. Por outro, concentram suas ações em parcelas específicas da
cidade, restringindo os usos dos “espaços verdes” às camadas que podem
pagar para morar nas imediações destas áreas e/ou para elas podem se
deslocar.
43O
discurso ambiental, ao ser incorporado como estratégia desses agentes,
no processo de produção do espaço urbano, impõe a compra e venda da
imagem do parque. Estes equipamentos, voltando-se ao discurso do lazer,
da recreação, do tempo livre, da qualidade ambiental e de vida e da
estética urbana, inserem-se também no processo de produção e
mercantilização da natureza, tornando-se um elemento simbólico no
imaginário social.