- 1 Lamego, M. Práticas e representações da geografia quantitativa no Brasil: a formação de uma caricat (...)
1 Em 2010 concluí minha pesquisa sobre o movimento quantitativista na geografia brasileira.1
Investiguei a formação do que chamei de caricatura da geografia
quantitativa, responsável, entre outras coisas, por um persistente
desconhecimento dessa fase. O objetivo foi mostrar que a caricatura da
geografia quantitativa conduz a uma representação assaz equivocada de
suas proposições teóricas, de suas práticas e, principalmente, de sua
posição na história da geografia brasileira, sendo essa representação,
por sua vez, construída por meio de uma crítica de argumentos fracos.
- 2 A periodização que propus considera o ano de 1969 como a irrupção da geografia quantitativa no Bras (...)
2 E
se o objetivo foi identificar origem e natureza da caricatura, a
pesquisa levou à constatação de que não é possível falar em uma
geografia quantitativa brasileira e sim em duas versões que coexistiram
no Brasil, do final da década de 60 até pelo menos o final da década de
70.2 Essas
versões, por sua vez, se encontram encarnadas em fatos, ações,
artefatos, sujeitos e, especialmente, nos lugares nas quais se
desenvolveram: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no Rio
de Janeiro (o IBGE) e o Departamento de Geografia da então Faculdade de
Filosofia Ciências e Letras de Rio Claro em São Paulo (atual UNESP-Rio
Claro). Esses dois lugares são tomados aqui como os epicentros do
movimento quantitativista na geografia brasileira.
3 No
presente texto desejo apresentar e qualificar o que seriam as
diferenças entre a geografia quantitativa ibgeana e a geografia
quantitativa rio-clarense com base nas noções de heterotopia e centro de cálculo,
concebidas em Foucault e Latour, respectivamente, e desenvolvidas por
Barnes (2004a). O objetivo aqui é refletir sobre a conexão entre o
conhecimento e o lugar onde este é produzido, sublinhando seu potencial
explicativo na existência dessas duas versões da geografia quantitativa.
4 A
presente proposta encontra esteio na investida, a partir da virada do
século XXI, de geógrafos interessados pela história da disciplina, em
perspectivas contemporâneas mais afeitas a ao universo de estudos sobre a
ciência. Aqui vou falar mais especificamente dos chamados Science Studies,
especialmente de algumas de suas teses que aparecem em pesquisas
historiográficas de geógrafos como David Livingstone (1995, 2005) e
Trevor Barnes (2004a, 2004b). Tais investigações, em comum, sustentam a
indissociabilidade das componentes sociais e culturais das componentes
epsitêmicas no processo de construção do conhecimento dito científico,
contrariando sobremaneira um dos pilares da racionalidade moderna
calcado na universalidade da ciência.
5 Isso posto, o texto se divide em três seções. Na primeira, de modo breve, apresento algumas das teses dos Science Studies
que dão suporte aos argumentos que se expõem. Na segunda seção, pontuo a
influência dessas teses na composição de uma historiografia renovada
sobre os movimentos intelectuais da geografia e, por fim, na última
seção, por meio da construção de breves narrativas sobre o
desenvolvimento destas duas versões da geografia quantitativa
brasileira, avalio suas diferenças com base em duas categorias de
análise que relacionam natureza do conhecimento ao seu lugar de
produção.
6
Temas sobre o corpo, as circunstâncias particulares, as histórias de
vida, compreendidos como elementos centrais para a compreensão dos
processos de produção, circulação e recepção do conhecimento, como o
chamado embodied knowledge, e, ainda, o debate sobre o papel do
lugar na produção da ciência que suporta o argumento de uma
‘universalidade’ construída localmente, expresso na noção do situated knowledge (Haraway,
1991), desequilibraram, ou mesmo relativizaram, análises antes
fundamentadas nas tradicionais abordagens sobre a produção da ciência.
Em tais abordagens, o lugar onde o conhecimento é produzido não importa.
Logo, explicações para o desenvolvimento intelectual desconsideram que a
ciência se constitui em uma prática epistêmica local e se assentam
sobre um suposto caráter essencial do conhecimento científico que toma
forma no tempo, nunca no espaço.
- 3 Vale comentar que é tímida, ainda que crescente nos últimos vinte anos, a participação dos geógrafo (...)
- 4 Algumas obras são estimulantes portas de entrada para um estudo mais aprofundado do campo, como Zim (...)
7 A
percepção da importância do lugar na produção do conhecimento
científico não surge como uma atribuição de uma geografia desafeita à
modernidade, se tratando, de fato, da consequência de uma das teses
principais dos Science Studies.3 Falar mais detidamente sobre os Science Studies
significaria aqui uma deriva arriscada em função do escopo desse texto.
Entretanto, cumpre apresentar, ainda que de modo breve, esse universo
contemporâneo de pesquisas sobre a ciência, para entender seu alcance
para a historiografia atual da geografia.4
8 Os Science Studies
surgem como um campo dinâmico (e bastante labiríntico, ressalte-se) de
estudos que floresce na Europa e na América do Norte, principalmente,
entre as décadas de 70 e 80, e que reúne historiadores, filósofos,
antropólogos e outros pesquisadores dedicados aos processos e resultados
da ciência. O campo se desenvolve sob o signo da crítica aos postulados
da racionalidade científica moderna, ainda que muitos de seus scholars resistam ao rótulo pós-moderno.
9Algumas
obras são consideradas seminais na difusão do que seria uma nova
maneira de analisar a ciência, que a concebe como uma prática de
intervenção sobre o mundo e não apenas como um complexo sistema de
teorias. Dentre estas, para citar apenas algumas, se destacam Leviathan and the Air-Pump: Hobbes, Boyle and Experimental Life de Steve Shapin e Simon Schaffer (1987), Representing and Intervening: introductory topics in the philosophy of natural science de Ian Hacking (1983) e, talvez uma das mais conhecidas entre os geógrafos, Laboratory Life: the construction of scientific facts
de Bruno Latour e Steve Woolgar (1979 – primeira edição). Em comum
estas três obras advogam a idéia segundo a qual deve a ciência ser
pensada como prática, sendo necessário, portanto, que a ênfase recaia
sobre seu caráter experimental, necessariamente contin gente aos homens,
suas relações, seus tempos e seus lugares. Com isso, os praticantes dos
Science Studies esperam encurtar a distância entre ciência e sociedade, uma de suas prerrogativas.
10Em larga medida, a filosofia da ciência e a sociologia da ciência representariam tradicionalmente o hard core
das pesquisas sobre ciência e conhecimento. São fonte e também alvo dos
cientistas sociais que, nos idos dos 70 e 80, (re)desenvolveram a
sociologia do conhecimento científico (Sociology of Scientific Knowledge, SSK) – representada principalmente pela Edinburgh School e seu strong programme. Por isso mesmo, a sociologia da ciência aparece com o nome de Institutional Sociology of Science (ISS),
para diferenciar a natureza da pesquisa que faziam os pesquisadores que
depois desenvolveriam os SSK. Segundo seus críticos, a sociologia da
ciência falhou em seus propósitos porque não se ocupou de analisar o
conteúdo próprio da ciência de maneira sociológica. Nas origens dos Science Studies
estariam, segundo Hess (1997), esses três campos de estudos da ciência.
De uma certa forma, sua identidade e traços característicos foram
forjados por e a partir de distensões de muitos dos princípios da
filosofia da ciência, da ISS e da SSK. Por isso, os Science Studies podem ser considerados estudos críticos sucessores, mas não propriamente herdeiros dessas iniciativas.
11Ao avaliar as distensões entre a filosofia da ciência e os chamados social studies (onde se incluem os Science Studies e a SSK), Hess (1997) sugere que na filosofia da ciência se privilegia uma abordagem prescritiva da ciência enquanto nos social studies
aplica-se uma abordagem descritiva (obviamente com esperadas exceções à
regra em ambos os campos). O que significa dizer que a filosofia da
ciência tomou como tarefa a ação de legitimar a ciência, mostrar que era
uma atividade real e necessária, e para isso deveria tornar evidente as
características que a própria ciência se atribui (Videira, 2005).
- 5 Num interessante extrato da obra de Fuller (2007) é possível ter noção da certa animosidade envolvi (...)
12De maneira simplificada, enquanto a filosofia da ciência se ocuparia então de dizer como a ciência deve ser, os Science Studies
pretenderiam dizer como a ciência tem sido. Esse critério de distinção
das agendas é fundamental para entender a virada proposta pelos Science Studies
em sua abordagem da ciência e principalmente para compreender o
verdadeiro assombro causado pelos primeiros livros publicados por seus
praticantes na comunidade científica.5
13Em
pauta é colocada a urgente necessidade de se discutir e desvelar a
imbricada conexão entre política e ciência expressa no postulado segundo
o qual o conteúdo da ciência é impregnado da dimensão social e política
na qual tem sua origem. E a lente que os Science Studies
apresentam para avaliar o projeto de ciência na atualidade pode ser
perfeitamente aplicada à ciência no passado. Em investigações sobre a
produção do conhecimento científico no passado, os Science Studies contestam
a engessada divisão de tarefas do projeto investigativo da ciência,
concebido tradicionalmente em dois contextos: o contexto da descoberta e
o contexto da justificação.
14
Nesta divisão de tarefas, o conteúdo próprio da ciência – ou a ciência
em si – estaria sob a responsabilidade e cuidado dos filósofos da
ciência, que assumiriam a tarefa final de determinar o estatuto
científico ou não científico dos conhecimentos produzidos. Neste âmbito,
caberia a avaliação da objetividade e do caráter de verdade da ciência,
e sua consequente justificação.
15
Do contexto da descoberta se ocupariam os demais pesquisadores, como os
historiadores, sociólogos e antropólogos. Caberia a eles a investigação
dos fatores “extrínsecos” à ciência, como as histórias de vida e/ou os
contextos políticos, sociais, culturais, então considerados como pouco
ou quase nada influentes efetivamente no conhecimento produzido, no que
tange ao seu estatuto científico.
16
Como aponta Isabelle Stengers (2000), um importante passo foi dado pela
sociologia do conhecimento científico, em larga medida, preconizado
pelas teses bastante conhecidas entre nós, geógrafos, de Thomas Kuhn,
sobre o peso das relações sociais imbricadas no processo de construção
do conhecimento. A SSK fez pesar a carga de responsabilidade dos então
qualificados fatores sociais nas análises sobre a produção da ciência.
17
Tal passo, por sua vez, significou o início do desmantelamento de
algumos muros que separavam historiadores e sociólogos da ciência de um
lado e filósofos da ciência de outro. E significou também o ingresso de
pesquisadores oriundos de campos antes, em certa medida, alheios aos
debates sobre a produção do conhecimento científico, como a
antropologia, a psicologia e a linguística. A fortaleza de marfim da
ciência moderna sofria seus primeiros graves ataques.
18 E a grande novidade que trazem os Science Studies para esse debate é o fato de transcenderem a questão da disputa entre os contextos de descoberta e justificação. Os Science Studies
não reconhecem a existência destes dois contextos. Ao defenderem o
caráter indissociável das componentes sociais das componentes
epistêmicas os Science Studies vem, ao longo dos últimos 30
anos, pelo menos, nutrindo uma nova historiografia que entende a ciência
como uma prática local, contingencial, incorporada, que circula e que
se modifica nesse processo. Tal argumento, por sua vez, se ampara na
ideia de uma geografia própria da ciência.
- 6 Em artigo publicado na Terra Brasilis (Lamego, 2013), apresento algumas considerações sobre o debat (...)
19 A apropriação de algumas das teses e abordagens dos Science Studies pela geografia – a partir de meados dos anos 90, momento no qual se reaquece o debate sobre a escrita da história disciplinar6
– tem apontado para novos caminhos especialmente em pesquisas sobre a
história da disciplina, dando fôlego novo a investigações sobre fases,
transições, rupturas e continuidades intelectuais, revoluções e
contra-revoluções que marcam o sempre turbulento processo de
constituição do conhecimento geográfico. David Livingstone e Trevor
Barnes são dois geógrafos que vem desenvolvendo suas investigações sob o
signo dos Science Studies.
- 7 Vale ressaltar que em 1995, Livingstone faz um ‘ensaio’ do livro no artigo The spaces of knowledge: (...)
20 Em 2002, Livingstone publica Putting science in it’s place,7 obra na qual explora o papel do lugar na produção do conhecimento geográfico. O livro faz parte de uma série, intitulada Science.Culture editada por Steven Shapin, importante referência dos Science Studies,
cujas obras são presentes nos textos de David Livingstone e Trevor
Barnes. Livingstone aborda temas recorrentes a análises empreendidas
pelos Science Studies, como a actor-network theory (ANT) – teoria que se tornou conhecida a partir das contribuições de Bruno Latour, ou a noção do embodied knowledge trabalhada por autores como Steven Shapin e Christopher Lawrence.
21 O principal propósito de Livingstone em Putting science...
é defender a fundação de um novo domínio dentro da geografia: que seria
a geografia da ciência. Tal campo se somaria aos campos da filosofia,
história e sociologia da ciência. A justificativa para a criação desse
novo domínio encontra-se na trivial, ainda que nem sempre óbvia,
constatação de que a ciência ‘takes place’. Em seu argumento
central, Livingstone sustenta que a geografia da ciência posicionaria o
lugar no centro dos modos científicos de conhecimento tornando suspeita a
ideia da existência de alguma coisa unificada chamada ciência.
22
Esta mesma reinvindicação é presente em alguns trabalhos de Trevor
Barnes (2001, 2004a, 2004b), para quem a ciência também é prática local.
São inúmeros artigos e capítulos de livros escritos por Barnes nos
quais o geógrafo britânico expressa a adoção das teses dos Science Studies em suas investigações de natureza historiográfica.
23
Nesses trabalhos, Barnes elabora novas narrativas sobre fases da
geografia que não se encaixam em moldes tradicionais de narrativas
presas a mitos de origem, e por isso essencialistas, ou mesmo canônicas,
e fatalmente internalistas. Barnes assim o fez com a geografia
econômica (2001), com a geografia regional americana (2004b), e com a
revolução quantitativa no artigo Placing Ideas: genius loci, heterotopia and geography’s quantitative revolution, (2004a). É deste artigo que tomo emprestado a expressão genius loci
que uso no título do texto e que expressaria a ideia da existência de
genuíno espírito do lugar que se incorpora, ou melhor, que dá corpo ao
conhecimento produzido. Como desdobramento dessa noção de genius loci
estaria o argumento segundo o qual os lugares não são abstratos,
estáticos, delimitados por rígidas fronteiras, são abertos, dinâmicos,
definidos por suas relações com outros lugares.
24
Considerando tais argumentos na análise que realiza, Barnes (2004a)
enfatiza alguns elementos que permitem explicar a irrupção do movimento
quantitativista na geografia norte-americana e britânica e que estão,
necessariamente, vinculados ao lugar de produção. Quero destacar aqui
dois desses elementos que me parecem funcionar bem como importantes
chaves de explicação para o fenômeno das duas versões da geografia
quantitativa brasileira.
25 O
primeiro elemento seria a heterotopia, expressão que Barnes toma de
empréstimo de Foucault. A heterotopia ancora a produção do conhecimento a
lugares específicos, a partir da noção de ruptura intelectual. A ideia
aqui é se colocar a pensar nas transições da ciência a partir de uma
persectiva espacial, em detrimento da constante histórica.
26
Assim, a heterotopia seria uma condição específica que certos lugares
apresentam de não se ajustarem a normas ou padrões circundantes. Segundo
Barnes, seriam lugares de potencial inovação intelectual candidatos à
condição heterotópica, aqueles que suspeitam, neutralizam, ou mesmo
invertem o conjunto de relações que, supostamente, deveriam espelhar.
27
Nesses lugares a ordem das coisas é alterada e alternativa. São espaços
onde se justapõem elementos materiais, práticas, textos e ideias que
nunca antes haviam sido reunidos e que possibilitam a criação de saltos
inovativos. São espaços de criação e criatividade.
28 O
segundo elemento seria os centros de cálculo. A expressão é
desenvolvida por Barnes a partir de Bruno Latour, no seu seminal Science in Action
de 1987, e assim como a noção de heteropia, também ancora o lugar à
produção do conhecimento. Os centros de cálculo representariam lugares
que desenvolvem estratégias e métodos de coleta, acúmulo, organização e
disseminação de conhecimentos de forma sistêmica e organizada. Tais
centros formam nós chaves em uma rede de alianças mais ampla que se
estende geograficamente e permite ações à distância. São lugares de
extrema porosidade que, por estarem sempre em posição relacional numa
rede, possuem a capacidade de alterar as associações nas quais se
constituíram.
29
Agora, o exercício é refletir o quanto heterotopia e centros de cálculo
podem contribuir para explicar a existência das duas versões da
geografia quantitativa brasileira. Decerto não há espaço para construir
algo como uma narrativa do desenvolvimento da geografia quantitativa no
IBGE e em Rio Claro, entretanto cabe salientar alguns aspectos que
corroboram com o argumento que aqui se sustenta.
30
São muitos os elementos que se somam e convergem para o surgimento da
geografia quantitativa no Brasil. Histórias de vida, livros, agendas de
pesquisa, fomentos institucionais, simpatias e antipatias, visões de
mundo, projetos pessoais, visões disciplinares, posições políticas,
relações de poder e interesses são alguns desses elementos. Pertencem a
distintas esferas mas operam no real como se tal distinção sequer
existisse, por isso mesmo, qualquer análise que intente o afastamento ou
mesmo a extinção de um ou de muitos desses elementos será mal-sucedida.
31
Não há controvérsias quanto ao fato de serem IBGE e Rio Claro os dois
epicentros da geografia quantitativa no Brasil. Bomfim (2007), Reis Jr.
(2007) e Almeida (2000) são alguns dos autores que ratificam tal ideia.
Os próprios geógrafos envolvidos com o movimento quantitativista na
geografia brasileira também concordam com o rótulo que receberam na
época. Em diversas passagens textuais, encontradas tanto em depoimentos
(Oliveira, 2007; Diniz, 2004; Faissol em depoimento a Almeida, 1995)
quanto nas chamadas recollections (Geiger, 1999; Faissol, 1989;
Faissol, 1997) e até mesmo nos textos daqueles que não aderiram e se
pronunciaram como críticos (Andrade, 1977; Valverde, 1983/1984), há o
reconhecimento de que IBGE e Rio Claro seriam os lugares onde surgiu e
se difundiu a geografia quantitativa no Brasil.
32
Mas por que a geografia quantitativa surgiu nesses lugares e não em
outros? E quais são as diferenças existentes entre a geografia
quantitativa de Rio Claro e a geografia quantitativa do IBGE e o que
justifica tais diferenças?
33
Tais indagações, como argumentei anteriormente, estão vinculadas a duas
contingências fundamentais. Em primeiro lugar, (i) que a ciência é um
conjunto de contingências práticas, relacionadas intimamente a um
contexto amplo (Barnes, 2004a). E como conseqüência de (i), (ii) que os
lugares cumprem efetivamente um papel fundamental na sua constituição,
pois regulam entre outros fatores, a distribuição, a circulação e o
acesso ao conhecimento científico (Livingstone, 2003).
34
Todavia, antes de desdobrar essas questões no exercício inspirado por
Barnes (2004a), cumpre considerar como costumam ser concebidas as
diferenças entre IBGE e Rio Claro – tendo em vista ser a proposta última
desse texto desconstruir narrativas consolidadas e um tanto imprecisas.
A principal distinção feita aponta que a geografia quantitativa no IBGE
seria mais voltada à prática, isto é, direcionada para aplicações das
técnicas quantitativas. Já a geografia quantitativa de Rio Claro teria
se desenvolvido sobretudo no plano teórico, o que explicaria inclusive o
uso (bastante criticado, diga-se) do termo ‘teorética’ para designar
esta versão. Para explicar essas condições particulares, argumenta-se
que seria conseqüência do fato de ser o IBGE uma agência do governo, e
por isso, atuando de acordo com as demandas das políticas
governamentais, diferentemente de Rio Claro. Em outras palavras, tal
interpretação sustenta que os quantitativistas de Rio Claro teorizavam
movidos pelo espírito científico, neopositivista decerto, enquanto os
ibgeanos praticavam geografia quantitativa a serviço do Estado. Tal
análise é uma simplificação equivocada e parte da caricatura da
geografia quantitativa. Ao analisar tanto a produção de IBGE quanto a de
Rio Claro, encontram-se contra-exemplos de ambos os lados.
35
Apesar da notória aplicação das técnicas quantitativas nas pesquisas
desenvolvidas pelos geógrafos ibgeanos, não é verdade que no IBGE não
havia espaço para debates de natureza teórica sobre o quantitativismo na
geografia. Esses debates se realizavam em dois planos: num plano
‘interno’, isto é, dentro do próprio IBGE, por meio de grupos de estudos
e do intenso intercâmbio, de pessoas, livros e idéias – evidências da
circulação do conhecimento – envolvendo os geógrafos brasileiros e
estrangeiros; e num plano ‘externo’, representado pelos espaços de
difusão do conhecimento. Nesses espaços divulgavam-se não apenas as
pesquisas nas quais se aplicavam as técnicas quantitativas, mas também
estudos com base em contribuições teóricas dos geógrafos
quantitativistas americanos e britânicos, o que mostra que no IBGE a
geografia quantitativa foi adotada em suas proposições teóricas e em
suas práticas.
36 E
sobre um possível privilégio dos rioclarenses à teoria em detrimento às
técnicas quantitativas, se em um primeiro momento em função de
dificuldades operacionais (como a ausência de computadores para rodar os
programas de análise fatorial e outras técnicas mais sofisticadas),
deu-se primazia às imersões teóricas, tão logo sanadas tais
dificuldades, o grupo se destaca em importantes trabalhos de aplicação
das técnicas e desenvolvimento de modelos. As distinções destacadas a
seguir são, de fato, evidências do argumento defendido segundo o qual o
lugar é um dos elementos constitutivos da produção do conhecimento
científico. A ver.
- 8 O uso do termo ‘teorética’ para qualificar a geografia, ao invés de ‘teórica’ – considerando ser es (...)
37Fundada em 4 de março de 1971, a Associação de Geografia Teorética8
(AGETEO) de Rio Claro, reflete o particular interesse de seus geógrafos
fundadores em difundir e consolidar uma nova prática na disciplina.
Convencidos de que estavam diante de uma revolução sem precedentes,
capaz de fazer desaparecer as tradicionais dicotomias que afligiam a
geografia, trataram de criar o Boletim de Geografia Teorética (BGT),
cujo objetivo anunciado foi o de “facilitar o acesso às novas idéias”
decorrentes da “renovação metodológica” ocorrida na geografia americana,
conforme o editorial do primeiro número do periódico lançado no início
de 1971. O BGT se tornou o veículo de difusão de uma crescente produção
doméstica de geografia quantitativa. Cinco anos depois, ao BGT se soma a
revista Geografia, editada pela AGETEO, a partir de 1976.
- 9 A FFCL/RC foi criada em 1958. Durante o ano de 1967 a FFCL/RC foi incorporada a Universidade Estadu (...)
38A
fundação da AGETEO representa, na história do núcleo de Rio Claro, a
maturação de um projeto que teve início antes, no ano de 1969, em
encontros semanais que aconteciam na sala que pertencia ao Professor
José Alexandre Felizola Diniz, componente do corpo docente do Curso de
Geografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro –
FFCL/RC9 desde
1965. A Diniz, somam-se seus colegas no departamento, o Professor
Antônio Olívio Ceron, o Professor Miguel César Sanchez, a Professora
Lívia de Oliveira, esses três formados por Rio Claro e componentes da
segunda geração de docentes do curso de geografia, desde 1962, e o
Professor Antonio Christofoletti, que ingressou em 1966. Compunham o
grupo, ainda, os alunos que eram orientados por estes professores, dos
quais se destacam Lúcia Helena de Oliveira Gerardi e José Carlos G.
Camargo – que depois se tornaram docentes do FFCL/RC e Silvio Carlos
Bray (Gerardi em depoimento a Reis Jr., 2008).
39O
ânimo para tais encontros era a possibilidade de se debater sobre a
disciplina que os unia. E o que os estimulava era, acima de tudo, a
perspectiva de que uma renovação metodológica inédita até então na
disciplina levaria “os geógrafos a substituir seu interesse básico de
pura localização e descrição de fatos pela preocupação em identificar e
explicar as estruturas espaciais e processos espaciais”, como expõe
Gerardi (1971, p. 57) uma das mais ativas participantes do grupo.
Segundo Diniz “todo o grupo que havia terminado o doutorado em Rio Claro
por volta de 68/69 estava meio insatisfeito com a geografia que se
fazia” (Diniz, 2004, p. 221). Embuído desse espírito de renovação, o
grupo passa por um período de intenso investimento intelectual por meio
de pesquisas sobre a geografia quantitativa em textos publicados por
diversos geógrafos nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Suécia.
40 É
possível afirmar que uma parcela do interesse demonstrada pelos
rioclarenses em abraçar a causa quantitativa teria relação com certa
posição de rejeição desses geógrafos em relação à geografia praticada na
USP. Nunca se executou no departamento de geografia da Faculdade de
Filosofia Ciências e Letras de Rio Claro, desde sua criação em 1958, uma
geografia genuinamente de matriz francesa. Apesar de estar a poucas
centenas de quilômetros da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, que abriga o departamento de geografia da USP, o curso de
geografia de Rio Claro estaria metodologicamente a distância bem maior.
Existiu, portanto, desde o início certa disposição a uma mudança em
termos de método.
- 10 O caso da geógrafa Elza Keller é um dos mais emblemáticos. Elza foi para Rio Claro nos anos 60, ond (...)
41
Essa condição específica de Rio Claro concedeu-lhe relativa autonomia
em relação ao currículo da graduação, para seguir uma linha até então
pouco explorada nas universidades. Nesse sentido, foi possível exercitar
sua qualidade heterotópica. Os rioclarenses experimentaram a
justaposição de temas e métodos jamais praticados antes, não numa
universidade brasileira. É fundamental ressaltar que o processo de
conformação do corpo docente de Rio Claro contou com a participação
ativa de geógrafos do IBGE, emprestados por essa instituição para
atuarem em disciplinas do então criado curso de geografia de Rio Claro.10
42 A
chamada revolução quantitativa vai, então, ser entendida pelos
geógrafos de Rio Claro como um caminho extremamente oportuno para
aqueles que, de alguma forma, não estariam em acordo com as práticas
tradicionais. Esse desacordo com as práticas tradicionais, por sua vez,
não pode estar separada da intrincada relação entre Rio Claro e USP.
Isso porque se sustenta aqui que o interesse dos geógrafos de Rio Claro
pela geografia quantitativa se compartimenta em propósitos de ordens as
mais diversas, desde curiosidade intelectual até contendas de natureza
‘corporativista’.
43Em
outras palavras, a esperança de participar de um movimento que
reescreveria a geografia humana (Sheppard, 1995) pode ter sido uma das
ambiciosas pretensões que catalisaram o engajamento dos geógrafos
quantitativos. Mas, no caso específico de Rio Claro, some-se a tal
pretensão a possibilidade, talvez nem tão alardeada, de ganhar uma
notoriedade regional até então restrita aos catedráticos da USP,
vislumbrando a oportunidade de se tornarem, pela primeira vez,
protagonistas de uma história.
44Esses
são apenas alguns dos muitos elementos que sinalizam o empenho e ímpeto
demonstrados pelos integrantes do núcleo de Rio Claro em absorver a
geografia quantitativa, e conduzem em direção a uma análise que aponta
para a condição de heterotopia da geografia quantitativa de Rio Claro,
quando comparada àquela adotada pelo IBGE. Todo o desenvolvimento da
geografia quantitativa rio-clarense possui, então, a marca do
voluntarismo. Os professores envolvidos na construção dessa nova forma
de pesquisar e fazer geografia, investiram na tarefa de apreender e
difundir as teorias e métodos quantitativistas. Criaram cursos de
matemática aplicada, realizaram seminários para leituras das principais
obras da geografia quantitativa anglo-saxônica, desenvolveram pesquisas
em que aplicavam o conhecimento apropriado e traduzido.
45 E
se em Rio Claro, certas circunstâncias bastante peculiares permitiram
que o grupo do interior paulista gozasse de uma autonomia considerável
na gestão de seus projetos, no IBGE a história foi diferente.
- 11 IBGE: saberes e práticas territoriais. Terra Brasilis (Nova Série) [Online], 3 | 2014.
- 12 Lamego, M. O IBGE e a geografia quantitativa brasileira, Terra Brasilis (Nova Série) [Online], 3 | (...)
46
Recentemente , a revista Terra Brasilis dedicou uma edição especial que
contemplou o IBGE e seu papel na construção da geografia brasileira.11 Nessa edição, assino um artigo sobre o desenvolvimento da geografia quantitativa pelos geógrafos ibegeanos.12 A fim de enfatizar a ideia de ser o IBGE um centro de cálculo, retomo, de forma breve, alguns aspectos dessa história.
47O
que se pode, de início, sustentar é que geografia quantitativa que se
difunde no IBGE possuiu sua identidade costurada à história desta
instituição, que por sua vez, conecta-se à história do país. O IBGE não é
uma escola de formação de geógrafos. Ao se elaborar tal afirmação, é
preciso deixar claro que não se ignora o fundamental papel jogado pelo
órgão na formação dos geógrafos brasileiros, especialmente em momento no
qual as instituições acadêmicas se firmavam como espaço de produção do
conhecimento. No entanto, a ideia é chamar a atenção para o fato de ser o
IBGE um órgão vinculado à questão da política nacional, e é nesse
sentido que precisa ser compreendida a incorporação da geografia
quantitativa e a atuação de seus pesquisadores.
48
Tal consideração revela-se crucial para entendimento de como no IBGE as
escolas do pensamento geográfico foram assimiladas e adulteradas em
contingências históricas e sociais constitutivas. Como se daí se
derivasse uma história do pensamento geográfico ibgeana, na qual se
percebe a coexistência de matrizes e suas versões específicas.
49 A
chegada dos métodos e teorias quantitativistas nas pesquisas realizadas
pelos geógrafos do IBGE resultou, mormente, da própria condição de
centro de cálculo já experimentado pelo IBGE, desde sua origem, em 1939,
como uma agência do governo ocupada com as políticas de planejamento e
ação sobre o território. O IBGE nasceu poroso e muito cedo atuou como nó
de diversas redes mais extensas geograficamente. Para ilustrar essa
condição, destacam-se alguns fatores fundamentais para o desenvolvimento
da versão ibgeana da geografia quantitativa.
50O
primeiro fator aponta para a consolidação de uma rede de intercâmbios
com a geografia quantitativa anglo-americana, expressa, de um lado, na
frequente visita, desde meados da década de 60 de geógrafos como Brian
Berry, John Cole e John Friedman, que ensinaram aos geógrafos do IBGE as
principais técnicas quantitativas. E de outro lado, as décadas de 60 e
70 são marcadas pela ida de geógrafos do IBGE para os Estados Unidos,
onde realizaram pesquisas utilizando os métodos quantitativos.
51Um
segundo fator seria a chegada ao IBGE de uma nova geração de
computadores para a elaboração do censo de 1971, que possibilitou a
implementação dos programas que aplicavam métodos quantitativos
sofisticados.
52Algumas
mudanças administrativas cruciais no IBGE que deram poder a Speridião
Faissol, seria um terceiro fator. Faissol pode ser considerado um dos
personagens centrais na história da geografia quantitativa ibgeana que
ficou profundamente entusiasmado com a inovação proporcionada pelos
métodos quantitativos em pesquisas urbanas. Foi responsável pela
articulação de um grupo de pesquisadores do IBGE, selecionados por ele
com base, principalmente, nas habilidades matemáticas, intitulado GAM
(Grupo de Áreas Metropolitanas), que liderou a maior parte das pesquisas
do IBGE que fizeram uso de métodos quantitativos.
53O
cenário favorável para o engajamento no quantitativismo na geografia
estava então configurado. Reunindo-se esse momento, entram em cena os
dois últimos fatores considerados na irrupção da geografia quantitativa
ibegeana e na condição de centro de cálulo experienciada pelo IBGE:
54 A
reunião no Rio de Janeiro, da Comissão de Métodos Quantitativos da
União Geográfica Internacional em 1971 que representa a expressividade
da geografia quantitativa ibegeana no panorama geográfico internacional
e, por fim, o uso da Revista Brasileira de Geografia (RBG), sob a
chancela do IBGE, como o principal veículo de difusão das pesquisas dos
geógrafos quantitativos do IBGE.
55Uma
última consideração se faz necessária e corrobora o argumento aqui
exposto. Ao analisarmos o quadro dos profissionais do IBGE que foram
simpáticos à novidade quantitativista, vemos que se tratam de
profissionais que já faziam parte da instituição há pelo menos 10 anos, e
compunham uma classe bastante eminente no círculo social do quadro
profissional do IBGE. Estavam à frente de pesquisas importantes,
participavam ativamente da Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB),
ministravam cursos de aperfeiçoamento nas mais diferentes temáticas,
eram convidados para ministrar aulas em diversas instituições, e,
principalmente, já haviam passado por alguma experiência de intercâmbio.
Eram, muitos deles, jovens em idade e maduros na profissão. Por isso,
sem maiores arroubos, experimentaram a novidade quantitativa, para isso,
contavam com equipamentos e tecnologia que nenhuma outra instituição
poderia conceder.
56
Este texto procurou refletir sobre o potencial explicativo do lugar na
produção do conhecimento. Utilizando como base formulações teóricas e
metodológicas desenvolvidas por geógrafos contemporâneos interessados em
novas narrativas sobre as histórias da disciplina, argumentei aqui em
prol da existência de duas versões da geografia quantitativa doméstica.
As categorias de heterotopia e centros de cálculo foram aplicadas para
qualificar os dois epicentros da geografia quantitativa no IBGE: o
Núcleo de Rio Claro e o IBGE.
57 É
meu desejo ressaltar que a pretensão aqui foi estimular um debate sobre
a relevância do desenvolvimento de uma verdadeira geografia do
conhecimento geográfico, e expor ainda alguns caminhos já abertos e
sinalizados pelo desenvolimento dos Science Studies, que creio, são extremamente estimulantes para e na historiografia da disciplina.
58
As naturezas distintas da geografia quantitativa ibegeana e da geografia
quantitativa rioclarense foram, de modo breve, exploradas e servem para
ilustrar o argumento segundo o qual os lugares têm a capacidade de
moldar a ciência, desafiando assim análises ainda pautadas na primazia
do tempo.