- 1 Um grande marco para a geografia histórica foi a criação em 1975 do Journal of Historical Geography(...)
1Os
estudos sobre geografia histórica vêm adquirindo nos últimos anos
grande importância no meio acadêmico, através de grupos de pesquisa,
congressos, simpósios, disciplinas, entre outros espaços propícios para o
debate1. Inclusive,
novos temas de pesquisa e fontes vêm se consolidando na disciplina,
como os estudos sobre colonialismo, imperialismo, história ambiental,
nacionalismo, espaços da globalização e construção de conceitos como
gênero, classe e raça (NASH e GRAHAM, 2000).
2A
peculiaridade desta sub-disciplina da geografia já foi por bastante
tempo alvo de inúmeros debates acadêmicos, que envolviam principalmente a
possibilidade da geografia estudar o passado sem que fosse para buscar
ali a chave para a compreensão do momento atual (ABREU, 2000; 2010). A
geografia pode e deve se dedicar aos estudos sincrônicos, que não sejam
exclusivamente motivados pelo entendimento do período atual. Para o
autor é importante compreender o que em um dado momento do passado era o
presente, ou seja, seu presente de então. Nesse sentido, o
passado não é mais um ponto de apoio para os estudos sobre o presente.
Este “presente de então” não deve ser entendido como o presente do
calendário, mas como a duração dos fenômenos que se desenrolam no espaço
geográfico.
3Para
os que se aventuram no campo da geografia histórica uma das
preocupações em seus estudos deve ser a de questionar quais as
estratégias, intenções, normas e/ou regulações jurídicas, sociais e
culturais envolvidas na organização e no arranjo do espaço geográfico do
passado (NASH e GRAHAM, 2000). Compreender a lógica espacial que
governa a ocupação e a transformação da superfície terrestre no
desenrolar do tempo é um componente essencial nos estudos sobre as
“geografias do passado”. Embora aquele lugar não exista mais em sua
totalidade material, social e cultural, o espaço geográfico ainda guarda
rugosidades do período, cuja análise será complementada pelas pesquisas
nas instituições de memória (ABREU, 2010).
4Com
relação aos mapas históricos, é preciso clarificar que este pode ter
duas visões: a primeira, de um documento original, funcionando como se
fosse arquivo de época e a segunda, como um documento cartográfico
atual, que retrata um fato histórico a partir de informações e dados que
são acrescentados ao mapa antigo, tendo como referência uma fonte
histórica (DEUS, 2006). Os cartogramas aqui elaborados apresentam um
novo olhar sobre uma antiga base cartográfica, datada de 1866, que a
partir das ferramentas de geoprocessamento ganhou novos conteúdos.
5A
Cidade Nova foi muito bem retratada nos mapas da época como um lugar
pantanoso e alagado, devido ao Mangal de São Diogo aí existente.
Entretanto, diante dos esforços da municipalidade e da população para
aterrar e drenar o extenso mangal, a partir de meados do século XIX a
ocupação, residencial e comercial, se intensificou. O desmonte do morro
do Senado nas últimas décadas dos oitocentos veio encerrar a longa e
exaustiva fase de aterro, possibilitando, posteriormente na gestão
Passos (1902-1906) a construção do Porto do Rio de Janeiro e de avenidas
importantes para a cidade, em um espaço que outrora, foi um pântano.
6O
advento dos transportes coletivos (trem-1858; carris urbanos-1868) veio
reforçar a atração que esse espaço passava a exercer, sobretudo para uma
população pobre, mestiça e migrante, que passou a retalhar as antigas
chácaras aí existentes, transformando-as nas insalubres habitações
coletivas (ABREU, 2006). A proximidade da Cidade Nova com o “centro da
cidade”, onde as ofertas de trabalho eram maiores, contribuíam para
acentuar essa atração.
7Em
relação ao recorte temporal adotado, este coincide com a 1° fase de
expansão acelerada da malha urbana do Rio de Janeiro, que se estende de
1870 a 1902 (ABREU, 2006), viabilizada em grande parte pelos transportes
coletivos. Isso fez que não só a Cidade Nova, como também outros
lugares passassem a fazer parte do espaço urbano contínuo do Rio de
Janeiro, sendo submetidas a um novo espaço de relações, através dos
novos usos aí estabelecidos.
8Diante
dos processos acima, a questão central que orientou o trabalho foi: A
partir de um recorte sincrônico-diacrônico estabelecido, quais os
fatores e dinâmicas que podem ter influenciado as mudanças no padrão de
uso do solo? Nesse sentido, optou-se por analisar os usos do solo em
1872 e 1888 e os mosaicos obtidos foram analisados de forma quantitativa
e qualitativa.
9Abreu
(2000) e Gomes (2009) concordam que a geografia se define pelo tipo de
questão que é proposta visando contribuir para o entendimento da
sociedade e do espaço geográfico, seja o espaço do presente ou do
passado. “Haverá, contudo, sempre uma geografia quando o fenômeno da
dispersão espacial construir a questão central do problema. A geografia
existe em qualquer fenômeno em que haja uma dispersão espacial” (GOMES,
2009, p. 27), ou em certos casos, uma concentração espacial. A geografia
precisa considerar que os arranjos espaciais são produtos históricos,
resultados da ação humana sobre a superfície terrestre e que a cada
momento expressam as relações sociais que lhe deram origem (SANTOS,
2006).
10A fonte primária utilizada para o levantamento dos usos urbanos (atividades econômicas) na Cidade Nova foi o Almanak Laemmert, um tipo de anuário da cidade do Rio de Janeiro produzido entre 1844 a 1905. O
Almanak era composto por informações sobre a administração pública,
atividades econômicas, decretos, propagandas comerciais, entre outros
(Figuras 1 e 2).
11Sua
rica e extensa composição é o que o torna uma das principais fontes
históricas para o estudo da vida social, política e econômica da cidade
do Rio de Janeiro. Além disso, o período de sua circulação está inserido
em um contexto histórico-geográfico com significativas transformações
para a urbe carioca.
12A referência cartográfica foi a Plan of the city of Rio de Janeiro (1866), elaborada por Edward Gotto. Os cartogramas foram elaborados com o auxílio do software Arc Gis 9.2
13Para
que fosse possível analisar as mudanças quanto ao padrão de uso do
solo, julgou-se necessário a classificação das atividades por setor.
Para isso seguiu-se a metodologia adotada por Motta (2001), o que
resultou em: Comércio Varejista, Serviços, Manufaturas/ Artesãos e Uso
Misto.
Figura 1: Capa da edição de 1888 do Almanak Laemmert
Disponível em: http://www.crl.edu/content/almanak2.html
Figura 2: Exemplo de como as informações estavam dispostas nesse anuário
Disponível em: http://www.crl.edu/content/almanak2.html
14Nessa
parte do trabalho, iremos analisar as especificidades de cada
cartograma, para posteriormente proceder a uma análise comparativa entre
os mosaicos.
15O
primeiro cartograma para o ano de 1872 possui 194 registros de
atividades econômicas (Figura 3). Através dele é possível observar que a
distribuição ainda era muito pontual, em virtude de esta área ter sido
incorporada à malha urbana da cidade a pouco. O centro comercial e
político do Rio de Janeiro no século XIX era a Cidade Velha, o que aqui
também chamamos de “centro da cidade” (MOTTA, 2001). Isso justifica a
“centralidade” que ela exerceu frente aos outros espaços da cidade. A
antiga Rua Direita (atual rua Primeiro de Março) era conhecida como a
rua dos negócios, das novidades, das modernidades, tendo sua fama
perdurado até meados de 1850. Essa rua concentrava casas comerciais,
boutiques, farmácias, livrarias, a Capela Real, a alfândega, entre
outros edifícios. Segundo um viajante francês, ao percorrê-la tinha-se a
impressão de estar em um pedaço de Londres sob os céus do Egito; para
outro viajante, a rua Direita era a nossa Saint Honoré, a rua, por
excelência das grandes casas comerciais (GERSON, 2000). Até o inicio do
século XIX, a cidade ia praticamente até o atual Campo de Santana, a
partir daí existiam uns caminhos de terras e algumas propriedades
rurais, tudo sem grande importância para a vida econômica da cidade.
Tais caminhos de terra só foram “lembrados” quando D.João VI, instalado
na Quinta da Boa Vista, precisava ir até o Paço Imperial e tinha que
passar por tais caminhos lameados: “Em 1811, ficavam isentas do
pagamento de décimas urbanas as casas construídas nos terrenos
conquistados ao lamaçal” (GERSON, 2000:170).
Figura 3: Atividades econômicas mapeadas para 1872
16Com
relação a 1888, nota-se que há um salto quantitativo em relação aos
dados obtidos para 1872, pois de 194 passamos para 330 registros (Figura
4).
Figura 4: Atividades econômicas mapeadas para 1888
17No
segundo cartograma para 1872 (Figura 5) percebe-se que o comércio
varejista se destaca, sendo composto em grande parte por atividades de
baixo valor agregado e principalmente ligadas ao setor de Alimentos.
18Como
essas atividades correspondem àquelas que atendem às necessidades
cotidianas da população, isso pode justificar sua localização próxima
aos espaços residenciais, bem como seu padrão de localização ubíquo
(MOTTA, 2001).
19Como
exemplo de atividades desse setor, temos: armarinhos, lojas de
miudezas, açougues, lojas de materiais para obras, entre outros.
20Quanto
ao setor de serviços sobressai o número de registros do ramo da Saúde
(médicos) e do ramo de Hotéis, com destaque para o número de habitações
coletivas. Em 1872 das nove estalagens registradas no Almanak Laemmert, oito estão na Cidade Nova e dessas, quatro estão na Rua General Pedra.
Figura 5: Atividades econômicas mapeadas por setor de atividade para 1872
21Em
1888 (Figura 6), qualitativamente novos serviços aparecem, como:
colégios, agentes comerciais, tipografia, procuradores, casas de
negociantes, dentistas, ou seja, isso demonstra que para atender a
demanda da populosa freguesia de Santana, que em 1870 era de 32.686
pessoas e em 1890 possuía 67.533 habitantes (Recenseamento de 1872 e
1890 apud ABREU, 2006), era preciso que novos serviços fossem
oferecidos a esse mercado consumidor. Segundo Gerson (2000), após 1870 a
municipalidade construiu várias escolas públicas no Rio de Janeiro, e
uma foi inaugurada na Praça Onze, a São Sebastião. Esse incremento nos
tipos de serviços oferecidos aos moradores da Praça Onze e arredores,
indica uma expansão horizontal de certos estabelecimentos da Cidade
Velha em direção a outros espaços da cidade do Rio de Janeiro.
Figura 6: Atividades econômicas mapeadas por setor de atividade para 1888
22Analisando
o comércio varejista e as manufaturas/artesãos, estes apresentaram um
incremento quantitativo nos estabelecimentos já existentes (Tabela 1).
Neste último setor, o aumento é notado principalmente no ramo de
Alimentos e de Utensílios Domésticos.
Tabela 1: Quantidade de registros dos estabelecimentos comerciais
|
Atividades Econômicas
|
1872
|
1888
|
|
Cafés e bilhares
|
2
|
11
|
|
Fábricas de Charuto
|
2
|
7
|
|
Confeitarias
|
1
|
6
|
|
Farmácia
|
3
|
5
|
|
Padaria ou fábrica de pães
|
7
|
9
|
|
Fábricas de Cerveja
|
1
|
3
|
Fonte: Almanak Laemmert, 1872 e 1888.
23Após
a discussão a respeito dos mosaicos para 1872 e 1888, concordamos com
Souza (1989) quando afirma que o bairro central típico da cidade
pré-capitalista, era o responsável por concentrar atividades de comércio
e serviço de maior significância e diversidade, enquanto que os bairros
secundários dependendo de seu conteúdo social, poderiam ter um comércio
mais ou menos reles, porém permaneciam responsáveis pelo consumo
rotineiro da população. Assim, pode-se fazer uma analogia do
bairro central com a Cidade Velha e dos bairros secundários com a Cidade
Nova, São Cristóvão e Glória.
24Em
relação às atividades econômicas, as que apresentaram maior número de
registros foram: médicos, armazéns de secos e molhados e casas de pasto.
25Quanto
aos médicos, o Rio de Janeiro sendo uma cidade pestilenta,
constantemente assolada por epidemias, era natural que as pessoas
procurassem os médicos em busca de atendimento. Essa era uma das
profissões que mais apresentava um padrão disperso pela cidade, o que
também foi confirmado por Motta (2001) ao analisar sua distribuição pela
Cidade Velha nos anos de 1870 e 1901.
26Em
relação aos armazéns de secos e molhados e as casas de pasto, como
vendiam toda sorte de produto, eram estabelecimentos essenciais para o
dia-a-dia da população. Na teoria de Christaller, os bens aí
comercializados correspondem às atividades de hierarquia mais baixa, na
qual a distância que o comprador pretende percorrer é pequena (MOTTA,
2001).
27Um
dado importante foi o aumento de 65% dos registros da atividade
manufatureira no período analisado. Segundo a bibliografia consultada,
isso era o reflexo da disposição periférica que essa atividade estava
assumindo no final do século XIX. As possíveis causas para esse processo
serão explicadas na próxima parte do artigo.
28Outro
aspecto que na verdade era um padrão na época, era a
multifuncionalidade dos prédios. O uso misto ocorre quando em um mesmo
endereço duas atividades de classes distintas coexistem, como um médico e
um armazém de móveis, ou então que podem acabar se completando, como:
um armazém de secos e molhados e uma estalagem; uma fábrica de farinha
de trigo e uma padaria; ou então, o que era freqüente, a residência em
conjunto com uma atividade econômica, visto que para as condições do
período residir longe do trabalho era um privilégio para poucos.
29Após
o detalhamento dos usos obtidos, retornaremos a questão central do
trabalho, partindo do argumento de que as atividades econômicas não
estão organizadas de forma pulverizada no espaço urbano (MOTTA, 2001). Elas
fazem parte de uma lógica que não pode ser dissociada das práticas de
organização espacial e das exigências do capital. “O estudo sobre a
localização industrial é freqüentemente precedido por estudos que
mostrem que esses padrões de localização são ajustados às circunstâncias
físicas, sociais e econômicas de períodos particulares (SMITH, 1991,
p.93).”
30Assim,
cada lugar é dotado em um momento de uma significação particular
(SANTOS, 1979). No caso da Cidade Nova, esta de um extenso mangal,
passou a ser retalhada em estreitos lotes para atender a demanda,
sobretudo do capital fundiário e imobiliário (produção rentista de
moradia). Seus significados vão sendo alterados à medida que a produção
capitalista do espaço se consolida:
O
período que se estende de 1870 a 1902 representa para a história do Rio
de Janeiro, não só a primeira fase de expansão acelerada da malha
urbana, como também a etapa inicial de um processo em que esta expansão
passa a ser determinada, principalmente, pelas necessidades de
reprodução de certas unidades do capital, tanto nacional como
estrangeiro (ABREU, 2006, p.43).
31Sobre
a análise do padrão de uso do solo, Beaujeu-Garnier (1980) afirma que
as atividades comerciais irão procurar os espaços da cidade, onde a
probabilidade de obter lucro seja maior, sendo escolhido o lugar de onde
se possa tirar maior proveito da rede convergente de comunicações,
transportes, infra-estrutura urbana, entre outros. Essa localização em um primeiro momento é geralmente restrita ao centro da cidade e as suas imediações.
32Em
relação às atividades industriais, a autora reconhece que há uma
variedade de fatores que interferem em sua localização, podendo ser: a
natureza do empreendimento, necessidade por matérias-primas,
mão-de-obra, proximidade com as redes de transporte e comunicação, entre
outros. A literatura sobre esse assunto é riquíssima, sendo embasada
por distintas metodologias e trabalhos empíricos (BEAUJEU-GARNIER,
1980).
33Beaujeu-Garnier
aponta que a localização das atividades industriais no “centro da
cidade” e em suas imediações, está muito ligada a fatores históricos,
visto que geralmente esse é o núcleo de fundação da cidade, para onde as
atividades e instituições econômicas, políticas e sociais convergem
primeiramente.
34O
Rio de Janeiro oitocentista era uma cidade com reduzida mobilidade
espacial, o que implicava em moradias próximas aos locais de trabalho.
Dessa forme, residir no entorno do “centro da cidade” significava mais
do que ter poucos gastos com transporte, representava para a massa da
população a garantia de sobrevivência (ABREU, 2006). Os dados do
Recenseamento da população do Município Neutro de 1872 (IBGE apud PINTO,
2007), clarificam a concentração de operários na freguesia de Santana,
sendo de 25%, seguida pelas freguesias de Santa Rita (20%) e Sacramento
(19%).
35A
freguesia de Santana era a que mais concentrava habitações coletivas,
tendo em 1886, 392 focos de infecção, o que causava “assombro, senão
horror, o estado dessa freguezia” (IBITURUNA, 1886, p.33). Logo após
tinha-se a freguesia da Glória (160) e Espírito Santo (149). A
concentração desse tipo de moradia nessa periferia imediata ao “centro
da cidade” acentuava a mistura de usos do solo, conforme observado nos
cartogramas apresentados. Nota-se pelos dados acima que o mercado de
trabalho/consumidor na Cidade Nova era um fator atrativo para as
atividades produtivas.
36A
pesquisa de Motta (2001) mostra que o desenvolvimento de uma área
central no Rio de Janeiro no final do século XIX afetou o uso do solo
urbano na Cidade Velha e em suas imediações. As mudanças verificadas no
uso do solo ainda não permitem que se aplique o conceito propriamente
dito de área central a Cidade Velha, porém nota-se o embrionário
desenvolvimento desse processo.
37Através
dos dados utilizados em sua pesquisa é possível perceber uma
especialização dos serviços e uma diminuição da função residencial,
expulsão que ocorria lote a lote, devido ao alto valor do aluguel dos
imóveis.
38Diante
da centralização que vinha ocorrendo na Cidade Velha, o setor
secundário era empurrado para a periferia ou áreas longínquas, em busca
de fatores atrativos. O autor concluiu que as maiores companhias, com
elevado número de funcionários e necessitando de instalações amplas,
buscavam a descentralização. Nesse ponto a Cidade Nova oferecia a essas
companhias amplos terrenos a um preço baixo, o que dificilmente era
encontrado na densamente ocupada Cidade Velha. Em relação às companhias
de menor capital, com tecnologia arcaica, estas ainda eram organizadas
pelo antigo padrão locacional, optando, especialmente, por continuar na
Cidade Velha.
39Pelo
aumento do número de registros das atividades econômicas, em especial a
do setor manufatureiro, a formação dessa embrionária área central pode
ter influenciado o deslocamento de algumas atividades. A população
também era empurrada. Os ricos, principalmente para os bairros de
Botafogo e Glória e os rejeitados da cidade para as pestilentas
habitações coletivas.
40Além
dos fatores acima, também é preciso considerar que as mudanças
verificadas no uso do solo não podem ser dissociadas dos processos que o
Rio de Janeiro era submetido. Segundo Santos (2006) os eventos mudam o
conteúdo dos objetos e as formas espaciais, propondo, assim uma nova
história e geografia. A partir da chegada da Corte, a cidade do Rio de
Janeiro passou por inúmeras transformações que alteraram profundamente o
cotidiano da cidade. O Rio de Janeiro do século XIX estava integrado às
principais rotas marítimas, em especial com a Europa e a África, além
disso, seu porto era um dos principais do Atlântico Sul. A partir de
meados do século XIX, a cidade iniciou sua caminhada como principal
centro político e pólo econômico do Brasil, através das funções
portuária e financeira e posteriormente pelas funções industrial e
administrativa (BERNARDES, 1961).
41Nesse
sentido, o crescimento industrial do Rio é visto como: “Uma resposta ao
enriquecimento da cidade enquanto porto exportador de café e ao
crescimento populacional, que visava atender as necessidades crescentes
de um mercado interno” (OLIVEIRA, 1987, p.302 apud MOTTA, 2001, p.67). Em relação ao crescimento populacional, entre 1799 e 1821 a cidade teve uma taxa de crescimento de 160%.
(...) uma nova burguesia
comercial cresceu, desta vez interessada em investimentos urbanos, como
transportes, serviços em geral e na indústria. Tudo isso era propiciado
pela abertura de créditos para essas atividades, pela desvalorização da
moeda (resultado inflacionário do encilhamento) que encarecia os
produtos importados competitivos sem impedir a importação de máquinas e
de tecnologia, pela abolição da escravatura, ampliando o mercado
consumidor e pela grande imigração, responsável pela manutenção de
baixos níveis salariais em virtude da grande oferta de força de
trabalho. (LOBO, 1978, p.35 apud MOTTA, 2001, p.35)
42A
partir de meados do século XIX, os estabelecimentos de grande porte
começam a se deslocar para a periferia da cidade, onde era comum a
formação dos bairros operários. Essas instalações também se
beneficiavam dos terrenos extensos e a preços mais baixos, além disso, a
rede de transporte, seja ela férrea, rodoviária ou fluvial também
exerceu grande importância nesse processo de expansão do tecido urbano,
influenciando a re-localização das atividades econômicas, em especial as
do setor industrial (BEAUJEU-GARNIER, 1980), como pudemos verificar
para a Cidade Nova.
43De
um extenso mangal a Cidade Nova passa a ser um dos vetores da expansão
urbana da cidade do Rio de Janeiro em meados do século XIX. Estratos
urbanos mais pobres, por sua vez, tiraram vantagens desses terrenos
próximos ao centro da cidade, que logo foram retalhados em lotes
estreitos e profundos, surgindo daí um espaço que iria se caracterizar
pela multiplicidade de usos do solo, com grande concentração de
população imigrante e de população liberta, além de pequenas oficinas e
manufaturas.
44Pela
análise dos cartogramas de 1872 e 1888, o comércio varejista e o uso
misto foram os que apresentaram maior número de registros. O primeiro
porque eram atividades relacionadas ao cotidiano da população e quanto
ao uso misto, a multifuncionalidade dos prédios era bem comum no Rio de
Janeiro no período em tela. A multiplicidade de usos do solo é o que
caracteriza o padrão de uso do solo da Cidade Nova oitocentista. Suas
vantagens locacionais foram fundamentais para a convergência de uma
multidão de trabalhadores em busca de seu ganha pão, bem como de
atividades econômicas em busca das atratividades locacionais desse
espaço.
45A
justaposição das atividades era um padrão de uso do solo herdado do
período colonial. Entretanto essas contradições só seriam minimizadas no
início do século XX, a partir da Reforma Passos. Essa grande
intervenção urbanística no espaço urbano do Rio de Janeiro pretendia
organizá-lo segundo as novas bases ideológicas que não mais permitissem a
presença de pobres na área central, nem a de formas antigas e
contraditórias ao ideal modernizador. O passado colonial deveria ser
paulatinamente apagado da paisagem da cidade e dos hábitos de seus
moradores.
46Por
fim, os cartogramas elaborados não são uma representação fidedigna da
realidade, no entanto se aproximam desses espaços do passado. O
mapeamento dos usos urbanos nos conduziu para uma análise enriquecedora a
respeito da organização interna do Rio de Janeiro no período
oitocentista, e, sobretudo para a produção de material cartográfico que
possa minimizar os hiatos temporais que as pesquisas que lidam,
principalmente, com o passado enfrentam. Embora os cartogramas tenham
sido elaborados a partir de objetivos específicos, isso não minimiza sua
importância para as pesquisas que foquem temas similares aos aqui
trabalhados.