1Na
1ª fase da expansão marítima pelo Oceano, os navegadores portugueses
descobriram, mediram e cartografaram as Ilhas Atlânticas e a costa
ocidental africana para sul de Marrocos. Em 1460, o ano da morte de seu
principal instigador Infante D. Henrique, eles atingiam a embocadura da
Serra Leoa (Sierra Leone) -“um dos lugares mais agradáveis do mundo para
se viver”, na opinião do geógrafo Elysée Reclus (1885) -, onde
fundaram numa ilha à entrada da floresta uma feitoria e um forte para o
comércio do ouro e produtos do sertão (ou "desertão": o Saara),
estabelecendo relações muito cordiais com a população local: as aldeias
de negros da etnia Wolof (Jalofos), altos, de feições finas, amigáveis, inteligentes, muito interessados por tudo – concretamente, os Sapés,
que os Portugueses julgavam serem "Etíopes", súditos do imperador
Preste João das Índias (que seriam exterminados c.1540 pela invasão dos
Mendés, tribos vindas do interior, e reduzidos a algumas comunidades nas
ilhas Sherbro, completamente desestruturados). Segundo a mitologia
Sapé, seus mortos viviam sob o mar, brancos como peixes, e voltariam um
dia para visitá-los montados numa grande ave marítima – motivo pelo qual
acolheram tão bem os Portugueses e seus navios.
2Exímios no talhe do marfim - assim como da madeira e pedra-sabão em que esculpiam os ídolos
ou imagens de culto dos antepassados que colocavam à entrada de suas
casas -, começaram imitando pequenos objetos que os Portugueses traziam
nas caravelas: primeiro talheres (colheres de estanho, garfos, cabos de
facas); depois saleiros e os chamados “olifantes”, ou roncas, trompas de metal que serviam para assinalar a posição dos barcos em dias de nevoeiro; e,
por fim, encomendas de peças mais elaboradas, verdadeiras obras-primas,
copiadas de modelos e desenhos trazidos de Portugal. Assim se criou
c.1470-80 o primeiro foco de sincretismo estético extra-europeu desde a
Antiga Roma: a arte designada "afro-portuguesa" (W. Fagg, 1959), que
seria a nosso ver mais corretamente chamada sapé-manuelina. Foi
um episódio com uma duração de pouco mais de meio-século, e de que
apenas se conhecem cerca de 200 a 300 exemplares: a maior parte terá
desaparecido devido à sua extrema fragilidade, ou está ainda por
identificar em museus e coleções estrangeiras. Mas chamou a atenção da
Literatura de Viagens da época: em 1506 o nauta Duarte Pacheco Pereira
afirmava que “nesta terra se fazem as mais sotis colheres de marfim e melhor lavrado que em nenhua outra parte”; e em 1508 o comerciante alemão estabelecido em Lisboa Valentim Fernandes escrevia que "em Serra Leoa os homens são mui sutis e engeniosos, e fazem em marfim qualquer obra de que lhe dão o debuxo (desenho)"
– entendendo-se por “sutis” a refinada elegância, que chega a lembrar o
Antigo Egito, e extraordinária perícia técnica.
3Devido
ao monopólio real do marfim após 1481, os artesãos mais hábeis foram
trazidos para Lisboa como escravos régios - um alto status social -,
vivendo e trabalhando numa oficina no Palácio e se casando com criadas
da côrte, em convívio e familiaridade com o próprio Rei. Só assim foi
possível fazerem-se em dois meses as muitas dezenas de peças (hoje
espalhadas pelos melhores museus do mundo: de Camberra à Fundação Walt
Disney!) levadas por D. Manuel I em 1498 para Espanha ao ser jurado
sucessor dos Reis Católicos, a fim de as oferecer aos sogros e a nobres
como símbolos exóticos do seu papel de "Dominus Mundi". São peças
híbridas, de ornato, material e mão-de-obra africanos, mas com formas,
função e iconografia típicas do estilo manuelino.
4Pela
análise comparativa, o especialista italiano da arte afro-portuguesa
Ezio Bassani conseguiu, quando da primeira exposição em Nova York, no
Center for African Art, em 1988 (Africa and the Renaissance. Art in Ivory,
Prestel-Verlag) individualizar 9 mãos de artistas bem diferenciados
trabalhando numa mesma oficina, que ele imaginou na África, mas hoje não
temos qualquer dúvida em situar no próprio Paço Real da Alcáçova, em
Lisboa (no alto frente ao Castelo de S. Jorge, ruído com o Terremoto de
1755), ou no Paço da Ribeira a partir de 1504, quando ele se tornou
habitável.
5Também
a origem destes artistas é controversa. Bassani, seguindo aliás a
opinião de Fagg e da maior parte dos especialistas africano-americanos
(Katty Curnow, Paula Ben-Amos, Susan Vogel), considera dois focos muito
distantes: Serra Leoa e o antigo Reino do Benim. Mas, após a série de
estudos recentes do norte-americano Peter Mark, podemos afirmar com
segurança que o Benim nunca produziu marfins trabalhados sob encomenda
portuguesa e que a sua primeira e única origem – de obras e artistas
trazidos para Portugal – reside na vasta enseada de Serra Leoa.
6Eram
delicadas obras de aparato e alto luxo para serem usadas em desfiles e
cerimónias – banquetes e batizados nobres, como os “saleiros”, que não
serviam de baixelas de mesa (inexistentes na época) mas sim para o
padrinho de alta nobreza transportar nos seus dois recipientes côncavos a
água-benta e os grãos de sal a fim de serem colocados pelo oficiante na
língua do infante, como se vê nalguns quadros – ou destinadas ao uso
dos jovens príncipes (o Hermitage de São Petersburgo possui um olifante
com a legenda esculpida “Inf. D. Luís”, filho do rei D. Manuel
que teria então pouco mais de 10 anos!) Conforme pude há pouco
demonstrar, o rei D. João III – e decerto já seu pai D. Manuel –
dispunha de uma guarda pessoal de corpo, que sempre o acompanhava,
composta de 50 negros (certamente da Serra Leoa) trazendo a tiracolo uma
ronca - o erradamente designado de “olifante”, ou trompa de
caça, pela historiografia - em marfim esculpido pintado a ouro. Uma
demonstração de poder única na Europa. O que mais surpreende, é a
capacidade do artista/artesão negro visualizar o desenho bidimensional
num complexo de formas e volumes em três dimensões, que se
interpenetram, enlaçam, sobrepõem, torcem ou juxtapõem segundo os
princípios compositivos típicos do estilo manuelino, do mais extremo
naturalismo, em conjuntos vibrantes de vida, dinamismo e interacão: o
soldado luso fumando seu cachimbo, velhos comerciantes de longas barbas,
um português montado a cavalo, grupos de mulheres de mãos dadas
alternando com animais. Cordas, entrançados, fios de pérolas, nós – os
famosos “nós” manuelinos -, esferas armilares, cenas de caçadas,
javalis, cervos (animais que não existem na África), faixas torcidas,
inscrições em português e latim, o brasão de armas com a divisa do rei
D. Manuel e de nobres, cruzes-de-Cristo, formam o essencial da
decoração, que não se diferencia muito da dos monumentos portugueses da
época e copia à letra gravuras de livros de oração, como as Horae Beatae Mariae Virginis (Paris, 1496, trad. port. 1498), que todo o capitão levava consigo em suas viagens, que duravam meses.
7Talvez
do melhor desses artífices anónimos e chefe do ateliê do Paço, o
habilidosíssimo "Mestre das Armas de Castela e Aragão" como o designou
Ezio Bassani, fosse filho – nascido c. 1480 - o menino negro ou mulato
baptizado com o nome de Pedro, que viria a adoptar o apelido de Reinel,
ou reinol (isto é, "nascido no Reino"), que lhe ficaria como sobrenome
de família. Educado no Paço, recebeu a esmerada instrução dos cortesãos,
que soube juntar à técnica tradicional do pai, unindo a maestria na
arte do "debuxo" aos mistérios das matemáticas e da cosmografia; e,
esperto e precoce, viria a tornar-se num dos maiores cartógrafos da
côrte do rei D. Manuel, cujo ambiente absorveu como poucos: foi ele Pero
ou Pedro Reinel.
8Enquanto
o pai nascera na distante Serra Leoa, noutro continente, ele tinha já
nascido em Portugal, e orgulhava-se disso. O sobrenome Reinel não é
único na época, mas em casos isolados e que nunca chegaram a constituir
uma linhagem, que não figura nos livros de genealogia. Maria Teresa
Schedel Castelo-Branco, no seu trabalho A origem dos Reineis
(1996), imagina uma família com origem no final do século XIII num
francês Mestre Rainier e elenca uma dezena de Reinéis entre 1443 e 1563 –
mas todos eles são naturais de Marrocos (Azamor, Safim) e deviam ser
filhos de Mouros cristãos que adotaram o nome por haverem nascido no
Reino. Era-se, pois, um fenômeno vulgar. O ateliê dos eburnistas
trazidos da Serra Leoa se localizava no próprio Paço, decerto
paredes-meias com a oficina régia de Cosmografia, onde um grupo de
cartógrafos estudava, executava e arquivava os mapas oficiais da Coroa. O
jovem Pedro desde criança deve ter sido deslumbrado por essas artes,
atraído por sua habilidade no desenho e pela curiosidade em conhecer os
segredos das rotas e costas que o separavam da terra de origem do pai.
Aí deve ter recebido as primeiras lições da ciência da Cartografia, ao
mesmo tempo em que na aula dos filhos dos criados palacianos
estudava gramática, rudimentos de latim, matemáticas e a “Esfera” ou
cosmografia e geografia. Uma formação apurada, que a sua inteligência
tornou excepcional, e justifica que pelos 20 anos fizesse o cobiçado
exame para “mestre das cartas de marear”, em que ao longo da vida
realizaria uma notabilíssima obra ao serviço da Coroa de Portugal, sendo
ele próprio sempre designado como português.
9Saíram
de suas mãos, só ou junto com seu filho Jorge Reinel, 9 mapas (hoje
conhecidos) datáveis de até c.1540, que estão entre as grandes obras da
cartografia manuelina: nomeadamente o célebre "Atlas Miller" (1519) - o
"mais belo atlas do mundo" - associado à viagem de circum-navegação de
Fernão de Magalhães, cuja costa do Brasil é ilustrada por preciosas
iluminuras pintadas por António de Holanda, o rei-de-armas e
miniaturista heráldico de D. Manuel, pai de Francisco de Holanda (A.
Pinheiro Marques). E a mais antiga carta náutica que se conhece de
Pedro, hoje datada por Ferreira do Amaral de 1504, é a primeira do mundo
a conceptualizar um sistema de projeção cartográfica em escala de
latitudes graduada por um “tronco de léguas”, superando os meros
roteiros-portulanos medievais - o que mostra os seus conhecimentos e
saber técnico e teórico fora do comum.
10A
origem africana de Pedro Reinel - que num mapa do Atlântico de 1504,
orgulhosamente assinado (Archives Départementales de la Gironde,
Bordéus), coloca numa bandeira na Serra Leoa um ídolo de marfim em
homenagem a seus antepassados, e mais abaixo uma leoa gigante – o único
animal representado em todo o mapa - a segurar com uma pata a bandeira
do Reino, assim engrandecendo o lugar de origem do pai... – prova que o
Portugal quinhentista ignorava qualquer tipo de racismo, como tão bem
intuíu Gilberto Freyre. O gosto pelo abuso de bandeiras, flâmulas e
faixas de pano muito coloridas é, aliás, característica do seu estilo de
cartografar (a carta citada apresenta nada menos de 26 bandeiras!), de
um tom bem africano. O que não passaria de um fait-divers, se
não se desse a circunstância de Pedro Reinel ter sido feito
“moço-de-esporas de el-rei” - o primeiro grau da baixa nobreza, que se
atingia pelos 14/15 anos de idade – e ainda jovem ter visitado o seu
país: foi enviado cerca de 1495 numa embaixada ao reino do Mali, até
Tombuctu (decerto como intérprete); e foi o único que escapou com vida,
segundo refere o cronista João de Barros, "por ser homem costumado andar
naquelas partes". Aí recolheu notícias locais sobre o interior do Saara
e as fontes do Nilo, bem como as mais rigorosas informações geográficas
– rios, lagos, montes - e dados que fornece sobre o traçado da costa:
um processo que irá repetir na imagem que dá do "Novo Mundo", face à do
planisfério dito de Cantino, o primeiro mapa a representar o Brasil (1502).
11A
negritude de Pero (ou Pedro) e seu filho Jorge Reinel resulta fora de
quaisquer dúvidas de dois textos conhecidos e publicados desde há muito
(Sousa Viterbo, 1906), mas só recentemente lidos na sua integridade -
pois o papel apresenta uma lacuna difícil de ser lida no exato ponto em
questão e foi transcrito com essa linha substituída por pontos, até ser
corretamente interpretado. Com essas falhas foram sempre reproduzidos
(Denucé, 1908 - que nem sequer transcreve as linhas em dúvida -; Armando
Cortesão, 1935; J. Ferreira do Amaral, 1995, que assinala a omissão mas
não procura preenchê-la), até os documentos originais serem relidos
pelo especialista Alfredo Pinheiro Marques na sua edição facsimilada do
"Atlas Miller" (Barcelona, Moleiro Editor, 2006) e transcritos na
íntegra.
Trata-se de duas cartas, escritas por altos funcionários das
duas côrtes ibéricas - a do rei D. João III e a de seu cunhado, o
imperador Carlos V -, no âmbito da Junta de Badajoz-Elvas, que se
reunira em 1523-4 para resolver o essencial problema geopolítico da
exata localização, face à linha de Tordesilhas, do arquipélago das
Molucas (atual Indonésia), na sequência da viagem de circum-navegação do
globo pelo português Fernão de Magalhães ao serviço da Espanha.
12A
primeira, redigida em código (que Cortesão conseguiu decifrar),
conserva-se no Arquivo Geral de Simancas; data de Badajoz, aos 29 de
Agosto de 1523, e é da mão do embaixador castelhano em Portugal, Zúñiga,
dirigida secretamente a Carlos V. Segundo o texto editado por Pinheiro
Marques, ele tinha conseguido à custa de corrupção do departamento
oficial de cartografia do rei de Portugal, em Lisboa, "una carta entera de toda la navigación" - que era segredo de Estado -, e "le acaban esta semana una otra en libro, el que hace las (mapas) del rey de Portugal, que se llama Lopo Homem, este y un negro.
Residen en Lisboa, y tienen orden de no hacer cartas para nadie sino
para el rey, pero algunas veces se atreven con dinero y con seguridad,
aunque sea muy dificultoso.”
Era a equipe que tinha acabado de
fazer o espetacular "Atlas Miller", sob a supervisão geral e assinatura
de Lopo Homem - o nobre diretor do departamento de Cartografia,
socialmente mais prestigiado -, porém na verdade executado por Pedro
Reinel com a colaboração de seu jovem filho Jorge. Mas A. Cortesão,
levado pelos preconceitos raciais da sua época, nos anos 60, limita-se a
um simples comentário, de passagem: "Segundo parece, Lopo Homem teria um ajudante negro para o seu trabalho cartográfico";
e nada adianta sobre o assunto. Não lhe ocorreu que nestes trabalhos de
alto segredo de Estado não existiam meros ajudantes anônimos, e afastou
o dado como um casual pormenor lateral e fortuito, partindo do
princípio de que, se se tratava de "um negro", não poderia passar de um
qualquer auxiliar... Mas o contexto é bem claro: o "negro" que
colaborava com Lopo Homem - e que, aliás, era o principal autor dos
desenhos, visto que Homem se limitava a supervisá-los, como se vê
claramente do "Atlas Miller" - não era outro senão o cartógrafo Pero, o
patriarca da cartografia manuelina portuguesa, de origem étnica
africana, e por isso conhecido apenas como “o negro”, face ao seu
aristocrático chefe, o interlocutor do diplomata Zúñiga, que mal devia
conhecer Pedro Reinol, ou Reinel.
13O
que não significa que este fosse um desconhecido da documentação
oficial. Em 1519, o feitor de Portugal na Andaluzia afirmava ao rei D.
Manuel que eu vi assentadas (as ilhas Molucas) na poma (globo terrestre) e carta que cá fez o filho de Reinel para
uso na viagem clandestina de Fernão de Magalhães, mas que o pai fora lá
buscá-lo – a Sevilha, onde se refugiara após uma briga de jovem - e as
trouxe, sendo perdoados. De facto, por carta régia de 10 de Fevereiro de
1528, já D. João III concedia a Pedro Reinel, “criado de el-rei”
(título superior ao de moço-das-esporas) e “mestre de cartas e agulhas
de marear em meus Reynos e senhorios”, a tença ou salário anual
de 15 mil reais, sendo seu filho Jorge em 1532 nomeado como “escudeiro
da Casa Real” com licença para porte de armas e uma tença de 10 mil
reais; em 1534 Pedro recebia uma tença graciosa de 15 mil reais, e seu
filho de 20, decerto por algum trabalho extra; em 1542 a mulher de Pedro
Reinel, “que faz cartas de marear”, Isabel Fernandes, fazia uma
denúncia à Inquisição, o que indica posição de certo prestígio junto das
autoridades; de 1551 a 1564, sem dúvida após o falecimento do pai,
Jorge Reinel presidia a exames para o lugar de mestre de cartografia; e
em 1572 sua mulher, Brites Lopes, era perdoada da suspeita do desvio de
certas porcelanas por ele, já cavaleiro da casa del-rei, ser “velho e
doemte”. Eram, pois, funcionários da Casa Real que se podem considerar
com uma carreira razoavelmente bem documentada.
14A
segunda carta foi escrita de Elvas a 9 de Junho de 1524 ao novo monarca
português, em grande segredo, pelo jurista Antônio Azevedo Coutinho,
delegado à Junta Badajoz-Elvas, comunicando-lhe que Pedro Reinel (que se
encontrava então no local para acompanhar as negociações técnicas) o
informara de que tanto ele como seu filho tinham sido abordados por um
colega castelhano para passarem ao serviço da Espanha, e insistentemente
atraídos por cartas assinadas pelo próprio punho do imperador Carlos V !
Pedia instruções ao Rei sobre o que fazer; e prendeu o cartógrafo
espanhol, revistando-o e encontrando as comprometedoras cartas do
Imperador - que provocaram uma total reviravolta nas conversações -,
graças à denúncia patriótica de Reinel. O próprio Joaquim Ferreira do
Amaral, na sua excelente biografia e estudo da obra do cartógrafo (Pedro Reinel me fez,
Lisboa, Quetzal Editores, 1995, como ele assina um de seus mapas),
passa por cima deste crucial episódio em apenas um parágrafo,
limitando-se a assinalar as lacunas do documento e sem se aperceber de
todo o seu alcance.
Nesta assombrosa carta, em que o delegado afirma
que Pedro Reinel lhe havia confessado que seu filho Jorge recebera do
Imperador um agrado de 30 mil reais, lê-se nas últimas linhas
uma proposta reveladora: que D. João III finja consentir que os Reineis
executem trabalhos para Carlos V mas errados, para enganá-lo em manobra
de contra-espionagem; e "com astucia lhe mandará estes negros e outros mui melhores mestres do que eles"
(devia estar-se a referir a Lopo Homem e seu filho Diogo, da influente
família de cartógrafos nobres, os Homens, cuja irmã era casada com
António de Holanda e mãe do artista-cortesão Francisco de Holanda).
15Somente
a partir da 2ª metade do século XVII a palavra "negro" ganha, em
Portugal, um sentido pejorativo: de primitivo, rude, selvagem em baixo
da escala social, ou mesmo fora dela. Para os viajantes ingleses dos
séculos XVIII e XIX, os portugueses eram "os negros" da Europa, numa
acepção mais cultural e social de não-civilizados do que estritamente
rácica. Em 1524, eram negros simplesmente os de pele escura com
origem africana - como se vê da pompa e respeito com que D. João II
recebeu em 1488 a embaixada do rei Bemoim dos Jalofos do Senegal,
baptizado com o nome de João, tratado por "irmão", e com quem
estabeleceu uma aliança -, embora a palavra fosse também aplicada a
qualquer homem escuro não-europeu: indianos do Sul, índios
brasileiros... Eram os "estranhos", no sentido de simples estrangeiros
de pele negra. Não existia, não se conhecia traço algum de racismo.
Graças a esta extraordinária revelação, ficamos a saber que os famosos
Reineis - nas palavras de Alfredo Pinheiro Marques, "os mais antigos e
importantes cartógrafos do início dos descobrimentos geográficos e da
expansão colonial portuguesa e europeia" - tinham origem étnica africana
e pele e feições negras. O que não obstou a que, graças ao seu talento,
Pedro singrasse na profissão e fosse acolhido como cortesão no próprio
palácio real, passando de filho de um escravo a homem livre, e com uma
carreira nobilitada no seio palaciano.
16Pela
nossa parte, julgamo-lo filho do mais hábil artesão de marfim - esse
material exclusivo de imperadores, como o Preste-João da Etiópia, de
onde os julgavam naturais - trazido da Serra Leoa para Portugal nas
últimas décadas do século XV e que aqui estabeleceu oficina no próprio
paço, onde realizou algumas das obras-primas de maior luxo e propaganda
da arte manuelina, casou, aculturou-se, e teve um filho - chamado de
Reinel ou "reinol" por ser já nascido no Reino - que lhe seguiu as
pisadas no domínio da técnica do debuxo e do desenho, aliado à formação
cultural e instrução em matemáticas e cosmografia que recebeu nas aulas
da côrte. Tendo passado talvez parte da infância na aldeia paterna da
costa serra-leonesa, o jovem Reinel teve ocasião de recolher e obter
informações in-loco sobre o ignoto sertão do continente, que ao
regressar incorporou a seus mapas. Ainda era vivo em 1542, conhecendo-se
dele (só, ou em parceria com o filho) o Atlas e 6 mapas - 2 dos quais assinados em boa caligrafia - e mais 3 só de Jorge Reinel, ainda vivo em 1562.
17Curioso
é que no mais antigo desses mapas que conhecemos, hoje datado de 1504,
Pedro Reinel sobrepõe no mesmo espaço duas linhas do litoral africano –
por falta de espaço? por só mais tarde ter tido conhecimento da sua
continuação? eram as duas hipóteses até agora aceites... -: uma na
continuação do mapa da Europa ocidental ao Norte de África até à costa
da Mina (datável de 1498), onde se vê no lugar da Serra Leoa a eloquente
bandeira com o rosto de um ídolo de marfim; e outra mais para o
interior, prolongando a costa pelo Golfo da Guiné até à foz do rio Zaire
ou Congo (de 1504), descoberto desde 1483 por Diogo Cão. Como explicar
esse intervalo temporal e estranha dualidade de perfis? Na recente e
engenhosa hipótese de Ferreira do Amaral, o cartógrafo não fez mais do
que obedecer criteriosamente à proibição de D. Manuel de se representar a
costa de África para além do Castelo da Mina – a mais antiga fundação
europeia na zona tropical, erguido em 1483 (atual Elmina, no Ghana) -,
sob pena da perda de todos os seus bens, alargada por alvará de 13 de
Novembro de 1504 até à foz do rio Congo.
18A
que nos permitimos acrescentar: não querendo deixar vago o interior do
continente a Sul do Saara por falta de informações fidedignas, preferiu
retomar seu velho mapa de mais de 5 anos e preencheu o espaço vazio com a
representação autorizada da linha costeira até ao Congo - um horror vacui que
explica, a nosso ver, a insólita sobreposição de linhas de costa e a
posterior inserção de nada menos de 10 bandeiras coloridas, 8 das quais
com o crescente muçulmano.
19É a
mesma preocupação com uma representação rigorosa do interior, desse
“sertão” misterioso e inacessível, que encontramos em toda sua produção
cartográfica: em particular na do Novo Mundo do Brasil, uma das mais
belas das 26 páginas in-folio do álbum conhecido por "Atlas Miller".
Aí, terá sido dialogando com os primeiros Tupinambás trazidos em 1500
de Porto Seguro, acolhidos e aculturados na côrte - como o que se vê bem
representado sob a forma de Rei Mago no retábulo da Sé de Viseu
(c.1502): de porte altivo, usando gibão de seda acolchoada com mangas de
amplas fitas soltas, jóias, calção de algodão aveludado, tal como o
pintor flamengo Francisco Henriques (e não o Grão-Vasco, ou Vasco
Fernandes, como se pensava) o terá visto em alguma festa - que Pedro
Reinel pode ter obtido notícias seguras a respeito dos rios, lagos e
montes interiores, de minas e da fauna, que ele cartografa com grande
segurança e realismo. O seu cuidado com a representação do interior do
país vai ao ponto de, seguindo a notícia dos índios, mostrar 2 grandes
rios – decerto o Amazonas (que confunde com a baía do Maranhão) e o
Paraguai – partindo de um lago no centro: o fabuloso El Dorado,
podendo-se assim considerá-lo o pioneiro na criação do mito da
“Ilha-Brasil” que se iria manter até ao fim do século XVIII (Jaime
Cortesão).
20Foi
graças a esse cosmopolitismo e ausência de preconceitos rácicos na
côrte de D. Manuel I, onde conviviam e trocavam informações mouros com
eslavos e nórdicos, índios do Brasil com negros da Senegâmbia e Congo,
judeus, indianos, malaios, jaus, e até algonquinos da América do Norte e
do Canadá (uns 57 vindos em 1502), que a Cartografia portuguesa pôde
obter em primeira mão uma vista mais detalhada do mundo e do Brasil - de
que o Atlas Miller elenca 150 topónimos, contra 50 em média
nas outras regiões. São a mais realista visão do globo terrestre na
Europa do seu tempo, além de verdadeiras obras-de-arte, que constituem
um pioneiríssimo - e excepcional, senão único - testemunho de mestiçagem
étnica, de interesse geográfico universal, e de um intenso carácter de
hibridismo estético, que torna a ciência de “fazer mapas” um autêntico
exercício artístico.
Pedro Reinel, mapa do Atlântico Leste, assin. Pedro Reinel me fez
1498?-1504. Pergaminho, 71 x 95 cms.
Archives Départementales de la Gironde, Bordéus
"Mestre das Armas de Castela e Aragão"
Saleiro de duas cavidades em forma de esfera armilar. Marfim, 21 cms.
Museum für Völkerkunde, Berlim
Rosto de moço-de-esporas negro (Serra Leoa ou Mina) sentado aos pés do seu senhor
Túmulo em calcário de Diogo de Azambuja, fundador do Castelo da Mina, c.1515
Montemor-o-Velho, igreja de Nª Srª dos Anjos.
Orquestra de negros no balcão de uma sala de festas
Cristóvão de Figueredo, aba lateral dos "Painéis de Stª Auta" do convento da Madre de Deus em Lisboa. Óleo s/ madeira, 1520
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Lopo Homem-Reinéis e Antonio de Holanda. Pormenor da folha do "Atlas Miller" representando a Terra Brasilis, ou Brasil
1519. Pergaminho, 42 x 60 cms.
Bibliothèque Nationale de France, Paris
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b55002607s