- 1 FERRETTI F. Charles Perron, le cartographe de la “juste représentation du monde”. Visions Cartograp (...)
1A
coleção de cerca de 10.000 mapas deixados à Biblioteca de Genebra pelo
geógrafo anarquista Élisée Reclus (1830-1905) e seu cartógrafo e
companheiro de militância Charles Perron (1837-1909) constitui uma fonte
excepcional, e ainda pouco explorada, para a história da cartografia. Encontram-se ali os originais dos mapas desenhados por Perron, entre 1875 e 1894, para a Nouvelle Géographie Universelle (Nova Geografia Universal,
em diante NGU), assim como rascunhos, provas e notas de trabalho que
permitem analisar a “fábrica” da monumental obra reclusiana de 19
volumes. Mas encontram-se sobre tudo mapas de todo gênero, do século XVI
ao XX (incluindo reproduções das mais célebres cartas da antiguidade e
da idade média), recolhidos durante decênios pelos dois geógrafos como
fontes para a sua obra enciclopédica. Uma seleção dela constitui aliás o
pedestal do Musée Cartographique de la Ville de Genève [Museu
Cartográfico da Cidade de Genebra].1
2Esta
instituição, aberta em 1907 sob a direção de Perron após a morte de
Reclus e depois de quinze anos de negociações, liga-se explicitamente à
ideia de educação popular, laica, científica e progressista que
aproximava os anarquistas da época aos republicanos e liberais mais
avançados. Dirige-se ao mesmo tempo a jovens em idade escolar e a
adultos das classes populares. O museu, apesar dum certo sucesso
público, fechará suas portas em 1922, mas seus materiais cartográficos,
assim como os estudos de que foram objeto, tem sobrevivido.
3Na
historiografia contemporânea, os museus abertos nesta época são
considerados monumentos ou altares dos Estados nacionais: quais podem
ser os objetivos dum museu projetado por autores claramente heterodoxos e
financiado por uma instituição um tanto especial, como é a cidade
republicana de Genebra? O que significa um museu cartográfico para
geógrafos que são ao mesmo tempo os fundadores do movimento anarquista
internacional? Que papel joga a crítica do mapa bidimensional, constante
na sua obra?
4Para
responder estas questões iremos analisar, com a ajuda da literatura
existente, o rico fundo cartográfico depositado na Bibliothèque de
Genève [Biblioteca de Genebra] e os artigos e livros em que Reclus e
Perron abordam os problemas da educação popular, do ensino da geografia e
do emprego de cartas, globos e relevos nesta tarefa. Enfocaremos
particularmente os documentos concernentes ao museu, seu catálogo, e a
implicação de instituições locais como a municipalidade genebresa e a
Société de Géographie de Genève (Sociedade de Geografia da Genebra, em
diante SGG).
5O
Museu Cartográfico da Cidade de Genebra, aberto entre 1907 e 1922 no
palácio dos Bastiões, que ainda hoje abriga à Biblioteca da Genebra e
seu Departamento de Cartas e Planos, é o resultado do compromisso
perseverante e voluntarista do cartógrafo e militante anarquista
genebrês Charles-Eugène Perron, que lutou por sua instituição perante a
SGG e as instituições genebresas. Este compromisso começa em
1891, quando Élisée Reclus, ao retornar à França, deixa a sua coleção de
mapas na Suíça, onde trabalhara desde 1872 numa grande empresa: a
redação da monumental NGU.
- 2 FERRETTI Federico. Anarchici ed editori, reti militanti, editoria e lotte culturali attorno alla Nu (...)
6Foi Perron o cartógrafo deste trabalho coletivo2
que viu a publicação de mais de 6.000 mapas, que aproximam-se daquilo
que hoje chamamos «cartografia temática». Para a produção destas
imagens, Reclus e Perron apoiaram-se em fontes de todo gênero, enviadas
por correspondentes seus em todos os cantos do globo, animados por seu
propósito de dispor dos dados mais em dia possíveis para cada lugar
estudado na sua obra. Perron apresenta esta coleção cartográfica numa
sessão da SGG, precisando que ela contem os
- 3 PERRON Ch. La bibliothèque cartographique de M. Élisée Reclus. Le Globe. Organe de la Société de Gé (...)
mapas, planos e relevos topográficos que serviram na preparação dos dezesseis volumes já aparecidos da NGU. Esta
coleção única compreende mais de 6000 mapas. Há nela pouco de
curiosidades bibliográficas ou históricas; mas consiste em geral das
melhores cartas modernas que se possuem, o que tem um grande valor para
os geógrafos práticos. O mérito desta coleção é realçado ainda pela
presença dum grande número de esboços e levantamentos originais enviados
diretamente a M. Reclus. M. Charles Perron declara que coloca esta rica
coleção à disposição de seus colegas, membros da SGG, que podem
visitá-la e consultá-la na sua casa, no aguardo dele tomar as medidas
necessárias para fazê-la acessível a um público maior.3
7O
propósito de fazer conhecer este patrimônio cartográfico a um público
mais vasto daquele dos especialistas está fortemente enraizado no
enfoque geográfico reclusiano. Élisée Reclus e seus colaboradores
(Perron, mas também outros geógrafos anarquistas como Lev Metchnikoff e
Piotr Kropotkin) não foram geógrafos acadêmicos: viveram principalmente
da sua pluma, e a sua capacidade de alcançar o grande público é ao
mesmo tempo uma necessidade material e uma escolha política declarada.
De fato, estes cientistas, enquadrados na postura evolucionista da sua
época, eram também militantes, para os quais a ideia que a geografia
pode ser útil à educação popular (tanto de crianças quanto de adultos) é
parte central da sua abordagem.
- 4 CODELLO Francesco. La buona educazione: esperienze libertarie e teorie anarchiche in Europa da Godw (...)
- 5 PERRON Charles. De l’obligation en matière d’instruction. Genève : Imprimerie Vaney, 1868.
8Nos médios de militantes da Fédération Jurassienne [Federação de Jura],
secção suíça da Internacional Antiautoritária que se separa dos
marxistas em 1872, encontram-se as primeiras afirmações do movimento da
pedagogia libertária, que irá ser muito difundido na Europa nos decênios
seguintes.4 Em 1868, Perron publica em Genebra o panfleto De l’obligation en matière d’instruction [Da obrigatoriedade da instrução],
onde ele afirma claramente a sua ideia da centralidade estratégica da
difusão da instrução pública na a tarefa do progresso social e da
transformação da sociedade. “A ignorância, eis o vicio social orgânico, a
causa primeira da desordem! É ali que deve-se bater, e bater forte,
pois se conseguimos fazer desaparecer esta lepra, a verdadeira, a última
revolução será realizada”.5 Em 1876 Reclus e Perron constituem em Vevey uma secção da Federação de Jura, que edita o jornal Le Travailleur [O Trabalhador],
no qual eles propugnam a criação de escolas libertárias e de
universidades populares em que a geografia encontraria logo um lugar
preponderante.
9Como afirmam os membros desta seção,
- 6 GUILLAUME James. L’Internationale, documents et souvenirs. Paris : Lebovici, 1985, vol. IV, p. 147.
estamos bem longe de ter assegurada a instrução de que precisamos para lutar com vantagem contra os opressores. Por
uma sangrenta ironia da sorte, é a eles que temos de pedir o que
aprendemos. A maioria dentre nós é forçada ainda a enviar suas crianças a
escolas em que os homens, a soldo da burguesia, trabalham para
perverter o bom senso e a moral ensinando não as coisas da ciência, mas
as fábulas impuras do cristianismo, não as verdades do homem livre, mas
as práticas do escravo.6
- 7 DUBOIS Patrick. Le Dictionnaire de pédagogie et d’instruction primaire de Ferdinand Buisson : réper (...)
10Apesar
do lugar comum que vê-los como “utopistas”, os anarquistas desta época
desenvolveram com este objetivo posturas basante pragmáticas, inclusive
às vezes frequentar os republicanos e os liberais comprometidos na
construção da educação primaria laica. Dar aos filhos das classes
populares a possibilidade de se alfabetizar fora da educação
confessional é então uma prioridade para os intelectuais libertários: é
isto que explica, na França, a colaboração direta de anarquistas como
James Guillaume e Paul Robin com Ferdinand Buisson no seu Dictionnaire de Pédagogie [Dicionário de Pedagogia] e em outras experiencias pedagógicas financiadas diretamente pelo Ministério da educação pública.7
- 8 FISCHER C., MERCIER C., RAFFESTIN C. Entre la politique et la science, un géographe genevois : Will (...)
11Charles
Perron, nas suas gestões ante a SGG e os poderes públicos genebrinos,
não faz outra coisa que dirigir-se à burguesia liberal local em nome dum
projeto pedagógico popular e “científico”, o que na época significa
antes de tudo “não-religioso”. Um dos membros mais célebres da SGG,
correspondente de Reclus e titular da primeira cadeira de geografia em
Genebra, William Rosier, será um dos principais sustentáculos do projeto
de Perron. Este geógrafo é também um dos dirigentes do partido radical
genebrês, e como sublinham seus biógrafos, seu compromisso com a
educação popular é coerente com esta faceta. “Mais tarde, de 1906 a
1918, Rosier representa o partido no Conselho de Estado, órgão executivo
do Cantão de Genebra. Suas grandes vitórias estão relacionadas com a
melhora duma escola que visava ser o mais igualitária possível”.8
12Assim, como lembra a atual conservadora do Departamento de Cartas e Planos, Marianne Tsioli:
- 9 TSIOLI BONDENMANN M. Cartes et Plans. In Patrimoines de la Bibliothèque de Genève. Genève : Slatkin (...)
13em
1893 Perron deposita na Biblioteca os seis mil oitocentos treze mapas
reunidos em quarenta e três portfólios que vão constituir sua coleção
cartográfica. Em 1902, ele acrescenta duzentas quarenta e cinco cartas,
oitenta fotos e quarenta e um relevos. Perron e Reclus juntaram a este
presente várias obras de geografia e atlas, com o fim de promover o
estudo da geografia.9
14Mas o projeto não se concretizou tão rápido. Charles
Perron, aguardando poder realizar a disposição pública destes fundos,
produz junto com Reclus (que no momento encontrava-se instalado na
Bélgica, na Université Nouvelle de Bruxelles [Universidade Nova de
Bruxelas]), as obras do que então vai-se chamar de “cartografia nova”.
15Cientes
dos ensinamentos de Carl Ritter sobre a insuficiência da carta
geográfica bidimensional como representação do mundo, assim como do
monopólio então exercido pelos exércitos e pelos Estados sobre a
cartografia topográfica, os geógrafos anarquistas desenvolveram uma
crítica da carta plana, que levou-os experimentar a construção de
representações tridimensionais do mundo.
16O
exemplo mais célebre desta abordagem é o projeto dum Grande Globo na
escala de um para cem mil, apresentado por Reclus para a exposição
universal de 1900 em Paris. Segundo Reclus,
- 10 É RECLUS Élisée. Projet de construction d’un globe terrestre à l’échelle du cent-millième. Paris : (...)
17o
globo ultrapassa à carta no gênero da verdade: representa o planeta na
sua estrutura verdadeira, moldeia-se exatamente aos contornos
verdadeiros, enquanto que as cartas, tanto mais falsas quando aplicadas a
partes maiores da superfície planetária, não podem mais do que enganar o
leitor com respeito às dimensões relativas de regiões diferentes
[entanto que] sobre a redondeza dum globo artificial erro nenhum é
possível com relação à superfície relativa das diversas individualidades
terrestres.10
- 11 ALAVOINE-MULLER S. Un globe terrestre pour l’Exposition universelle de 1900. L’utopie géographique (...)
18Não retomaremos a história do Grande Globo, que é bem conhecida e que tem sido bastante estudada,11
mais do que para sublinhar que os trabalhos de Perron na Suíça, na
década de 1890, enquadram-se neste mesmo projeto. Perron trabalha num
relevo da Suíça na escala de 1 para 100.000, que não é outra coisa que a
primeira peça do enorme globo de gesso de 127,5 metros de diâmetro. Um
trabalho paralelo encontra-se em curso então na Escócia, sob a direção
de Patrick Geddes, amigo de Reclus e apoio entusiasta do Grande Globo. Reclus escreve a Perron:
- 12 Bibliothèque de Genève (BGE), Dép. des Manuscrits, Ms. Suppl. 119, lettre d’E. Reclus à Ch. Perron, (...)
Que
belo fragmento do nosso Globo será a Suíça […] Vossa Suíça, que vós
obterás sem dúvida a partir de levantamentos de montanha tomados sobre o
modelo primitivo, será desde já a peça principal de ataque. Combinamos,
eu acredito, que o projeto seja firmado para mim só. Desde que eu
esteja em capacidade de passar à execução, apareceremos na nossa
trindade […] Se esta carta da Escócia começa, sem dúvida pelo pequeno
fragmento Edimburgo-Glasgow, ela levará, se não vos parece prematuro, a
menção: Fragmento do Globo Projetado por E.R., Ch. P. et P.R.12
19Os
relevos visam construir uma representação do mundo em três dimensões
reproduzindo da forma mais correta possível a curvatura terrestre e,
sobre tudo, apresentando as alturas na mesma escala que os comprimentos,
enquanto a maioria dos relevos da época exageravam as dimensões
relativas das montanhas com o fim de fazê-las perceptíveis à pequena escala. Isto implica a utilização da grande escala, necessariamente maior que o milionésimo (generalmente, de 1/500.000 a 1/5.000).
- 13 BGE, Dép. des Manuscrits, Ms. Fr. 7996/2, Société de Géographie, Procès-verbaux des séances du Bure (...)
- 14 Ibid., sessão de 15 de maio de 1894.
20Em
1894, Perron apresenta seu primeiro projeto de relevo da Suíça ao
gabinete da SGG, que aceita o princípio mas precisando que seu apoio não
poderá ser senão “moral”. “M. Perron preparará, para a exposição de
1896, uma carte relevo da Suíça a 500.000 segundo seu método. Ele
solicitou à Sociedade interessar-se no assunto: convida o Comitê a ir
visitar seu trabalho. O Presidente respondeu-lhe que a Sociedade podia
faze-lhe um subsidio, que não poderia alias ser mais do que uma
bagatela, e que ela iria se interessar moralmente no assunto.”13
Em tudo caso, “M. Perron agradece à Sociedade pela sua eventual
subscrição à carta projetada, e aceita a condição de dar um quarto dos
ingressos uma vez pagas as despesas”.14
21Perron
não irá participar na Exposição de Genebra de 1896, mas em revanche
começa a trabalhar no seu relevo a 100.000 para a exposição de Paris,
fixando nisto as regras da sua “nova cartografia”:
- 15 PERRON Charles. Des reliefs en général et du relief au 100.000e de la Suisse en particulier, mémoir (...)
1. Os relevos tem por objeto mostrar a configuração do solo tal como ele é. 2. Eles
não devem admitir nenhuma das convenções em uso nas cartas de
geografia. 3. Nada deve ser representado ali que não seja à escala. 4.
Os relevos, que representam toda ou parte da crosta terrestre, devem ter
a curvatura exata. 5. Os relevos devem ser construídos a partir de
procedimentos mecânicos suficientemente precisos para que o resultado
tenha exatidão matemática. 6. Os relevos pertencem ao domínio das
ciências exatas, nas quais a arte só deve intervir em segunda linha.15
- 16 DE CLAPARÈDE A. Un Nouveau Procédé de construction des reliefs employé par M. C. Perron, Cartograph (...)
22O
princípio científico desta proposição é aceito pela SGG, cujo
secretário, Arthir de Claparède, oferece uma comunicação consagrada aos
relevos de Perron no Congresso Internacional de Geografia, realizado em
Berlim em 1900. “A grande vantagem do relevo e a de complementar
as cartas mostrando a superfície da terra na sua forma verdadeira, o que
não podem fazer aquelas com as numerosas convenções que é da sua mesma
natureza admitir. É assim que, segundo os maiores geógrafos, elas
inoculam-nos ideias errôneas que os relevos estão precisamente chamados a
destruir ou a prevenir”.16
- 17 BGE, Dép. des Manuscrits, Archives Baud-Bovy 270/4, ff. 146-148, lettre de Ch. Perron à D. Baud-Bov (...)
- 18 Ibid.
- 19 Institut Français d’Histoire Sociale (IFHS), 14 AS 232, Correspondance d’Élisée Reclus, lettre d’É. (...)
23No
entanto, o projeto do Grande Globo falha por falta de financiamento,
enquanto Perron, de acordo com Reclus, continua o relevo da Suíça com o
fim de apresentá-lo na Exposição independentemente do Globo. Sabemos,
por uma longa carta que escreve ao pintor genovês e simpatizante
libertário Daniel Baud-Bovy, que Perron obteve um subsídio de 1.500
francos do Conselho federal suíço, revogado depois por causa da
intervenção de um grupo de cartógrafos zuriquenses ciumentos do sucesso
deste cartógrafo genebrês e aliás anarquista. Encontrar apoio financeiro
em Genebra foi complicado pois, segundo Perron, “são pouco prestativos
nossos aristocratas genebreses”.17
Sozinha, a notável excepção do chocolateiro Suchard, que oferece-lhe um
subsídio de 5.000 francos a título de mecenato, depois de ter sido
informado das medidas adotadas na Suíça alemânica contra o cartógrafo.
Só ficava agora colocar mão na massa: como Perron deve terminar seu
relevo sozinho, seu regime de trabalho nestes anos relembra o proverbial
estilo de vida de Reclus. “Devo trabalhar 15 horas por dia, até os
domingos, velar continuamente até dez horas. No inverno levanto-me às 4
horas, acendo minha lâmpada e meu fogão e fico no trabalho até as cinco
horas”.18
Reclus, desde Bruxelas, não deixa de encorajar seu camarada: “Mesmo que
vosso assunto esteja atrasado, não me parece que esteja enterrado:
naturalmente, tereis de prosseguir com perseverança incansável”.19
24O
relevo participa finalmente na exposição de Paris, chegando a ganhar uma
medalha de ouro. Em Genebra, este painel de gesso que representa em
relevo toda a Suíça foi exposto com todas as honras no prédio eleitoral
do 26 de dezembro de 1900 a 13 de janeiro de 1901, para ao final
encontrar colocação permanente no átrio da Universidade de Genebra.
25No
mesmo período, já idoso e doente, trabalha na sua última tentativa de
representação do mundo nas suas três dimensões: os atlas globulares, ou
mapas esféricos, que citamos pela sua implicação no projeto do Museu.
Trata-se de folhas recurvadas de alumínio, de superfície lisa, mas cuja
convexidade consegue reproduzir a curvatura terrestre em pequena escala,
principalmente na de 1/5.000.000. Desta forma, eles representam os
diferentes países nas suas verdadeiras proporções, ao contrário dos
atlas e dos planisférios convencionais. Segundo Reclus, tirando os
oceanos, 50 folhas de 46 centímetros de lado bastariam nesta escala para
representar o planeta num Atlas só, cujas dimensões seriam um pouco
volumosas, mas em tudo caso manejáveis para o uso didático, pois as
folhas podem empilhar-se uma sobre a outra e ser assim transportadas.
- 20 RECLUS É. On spherical maps and reliefs. The Geographical Journal. n. 3, p. 290, 1903.
- 21 FERRETTI Federico. Il mondo senza la mappa, cit.
26Com
efeito, o fito destas representações é, mais uma vez, pedagógico: estas
placas devem servir na sala de aula, a partir da primária. É na
idade da educação primária, segundo Reclus, que as cartas bidimensionais
são mais perigosas, pois elas enganam a inteligência da criança pela
inoculação de modelos errôneos: o geógrafo afirma em 1903, perante a
assembleia da Royal Geographical Society [a Real Sociedade Geográfica] de Londres, que a carta plana, no nível primário, devia ser “completamente interditada”.20
Depois de ter apresentado este último projeto em Londres e em Berlim,
Reclus morre em 1905 sem ter podido acabar seu Atlas globular, mas as
primeiras placas de ensaio, construídas por Émile Patesson, são enviadas
à Suíça, onde Perron irá incluí-las na sua coleção. Estas
experimentações cartográficas, incluindo a produção de pequenos globos
de papelão para as salas de aula da escola primária, são mostra das
relações diretas que a Universidade Nova de Bruxelas mantinha com as
escolas libertárias ativas na época, especialmente a Escuela Moderna de Barcelona, dirigida por Francisco Ferrer y Guardia.21
- 22 TSIOLI BONDENMANN M. Cartes et Plans, cit. p. 191.
27O
novo prestígio adquirido por Perron após a Exposição Universal de 1900
contribui sem dúvida para o sucesso de seus esforços voluntaristas e
pertinazes pelo museu cartográfico: “Perron, nomeado oficialmente
curador em 1903, empreende a classificação metódica e a catalogação da
coleção, obtendo aliás um crédito especial […] Em 1905, o Dépôt des
cartes de la Ville de Genève [Depósito de mapas da Cidade de Genebra]
instala-se no prédio dos Bastiões”.22
- 23 PERRON Ch. Collection Cartographique de la Bibliothèque Publique. Le Globe. Organe de la Société de (...)
28Depois da participação do Conseil administratif de la Ville de Genève
[Conselho administrativo da Cidade de Genebra], as instituições
emitiram também um chamado de doações para completar e colocar os fundos
em dia. Segundo Perron, “este chamado teve pleno sucesso. É assim que
em 1902 e 1903, a mapoteca aumenta-se em mais de mil mapas, numerosos
atlas, cartas murales, etc., provenientes na maior parte de doações.23 Em 1904, o cartógrafo apresenta à SGG o estado desta “mapoteca”:
Encontra-se
para cada país, além dos mapas de Estado-maior e outros mapas gerais,
numerosas cartas regionais, planos de cidades, etc., assim como mapas
relativos à arqueologia, à etnografia, à política e à guerra. Há,
mais ainda, mapas relativos à geologia, à produção natural do solo, à
agricultura, à industria, ao comercio, às vias de comunicação, à
estatística, etc. Um grande número de cartas levam anotações da mão de
M. Reclus, o que não diminui seu valor […] Nossa mapoteca contem todavia
outros documentos, entre os quais encontram-se, também em grande
número, mapas especiais com dedicatória de seus autores e mapas
manuscritos de exploradores; outros, também manuscritos, de cartógrafos
conhecidos como Vuillemin, de gravadores célebres como Collin; e, por
fim, algumas peças raras.24
- 25 BGE, Dép. des Manuscrits, Biographies Genevoises, 1909, Charles Perron. [BGE, Departamento de Manus (...)
- 26 TSIOLI BONDENMANN M. Cartes et Plans, cit. p. 189.
- 27 Ibid., p. 190.
- 28 PERRON Charles. Catalogue descriptif du Musée cartographique / Dépôt des cartes de la Ville de Genè (...)
29O
14 de novembro 1907, o Museu Cartográfico da Cidade de Genebra abre as
suas portas, com a presença de Perron, Rosier, de Claparède e do
vereador da Cidade de Genebra Piguet-Fages, que pronuncia um discurso de
inauguração.25 Como
ressalta Marianne Tsioli, esta “iniciativa particular provocou uma
verdadeira comoção na raiz da geografia moderna, transformando uma
simples coleção de biblioteca enciclopédica num conjunto único e
excepcional”.26
A mesma autora observa claramente a continuidade pedagógica entre a
NGU, com a qual “Reclus e Perron visavam colocar o saber geográfico à
disposição de todos”,27 e o Museu Cartográfico, concebido para “interessar o grande público […] e facilitar o trabalho dos estudiosos”.28
- 29 BGE, Dép. des Manuscrits, Ms. Suppl. 119, lettre d’E. Reclus à Ch. Perron, 9 nov. 1902. [BGE, Depar (...)
30A
exposição, integrando apenas parte do enorme fundo cartográfico, é
organizada em cinco séries principais: mapas-múndi (176 peças); história
do desenho cartográfico (55 peças); cartas marinas (30 peças); cartas
da Suíça (50 peças); cartas do cantão e da cidade de Genebra (40 peças),
mas uma seção de “cartas diversas” (10 peças). Como exemplo da “nova
cartografia”, um disco globular de Reclus representando o Mediterrâneo
ocidental foi colocado no final da seção de história do desenho
cartográfico para relembrar, como escreve Reclus a Perron, “que a terra é
redonda e que os mapas lógicos devem sê-lo também” (Figura 1).29
Figura 1: Élisée Reclus e Emile Patesson, Carta Globular do Mediterrâneo Ocidental (Bruxelas, 1903)
Fotografia do autor.
- 30 PERRON Charles. Catalogue descriptif du Musée cartographique, cit., p. 5.
31Duas publicações acompanham a abertura do Museu Cartográfico. A
primeira é o seu catálogo, que inclui uma ficha descritiva sintética de
cada mapa exposto, e uma corta introdução para cada seção da exposição,
que evita entrar nos detalhes técnicos. “O catálogo não irá tratar dos
métodos sucessivamente empregados na construção dos mapas, como também
não das pesquisas relativas às espinhosas distinções de fontes, de
escolas, etc., sendo estas questões analíticas árduas e especiais demais
para encontrarem espaço numa exposição simples feita, tanto quanto
possível, à medida de todos”.30
Figura 2: Capa do Catálogo Descritivo do Museu Cartográfico (1907)
Fotografia do autor.
32A segunda é uma obra de Perron, publicada em Paris pela Revue des Idées [Revista das Ideias], sobre a história dos mapas-múndi desde a antiguidade até o século XIX, no cual a preocupação pedagógica prevalece ainda:
- 31 PERRON Charles. Une étude cartographique. Les Mappemondes. Paris : Éd. de la Revue des Idées, 1907, (...)
Anelo
conseguir fazer compreender, ao menos em parte, a importância que os
museus cartográficos podem ter tanto para os estudos científicos como
para a instrução pública. Não basta, com efeito, com saber da
existência de velhos documentos da história da cartografia, é preciso
que, como os quadros nas galerias de arte, eles sejam acessíveis a
todos. Escondidos nos seus papelões, a sua utilidade é das mais
restritas, pois só os tiramos, um de cada vez, quando algum erudito
solicitá-lo por ventura. Isto não é suficiente. Que trabalhos, tirando
aqueles de análise, pode produzir a consulta de documentos isolados? Os
estudos comparados que a sua vista simultânea permitiria terão sem
dúvida também seu valor. E, pois, no nosso século de instrução
democrática, não devemos fazer luz sobre a obra humana tal vez a mais
grande e a mais importante de todas, aquela que, iniciada no profundo
alongamento dos séculos, persegue-se ainda nos nossos dias com paixão: a
descoberta da Terra?31
33Perron
esforça-se também, no seio da SGG, para que a proposta de abrir novos
museus cartográficos seja levada ao Congresso Internacional de Geografia
previsto para 1908 em Genebra. Como testemunham as atas
manuscritas do seu Comitê, abertas recentemente para a consulta na BGE
(enquanto as sessões plenas estão publicadas na revista Le Globe [O Globo]), a Sociedade aceita esta proposição.
- 32 BGE, Dép. des Manuscrits, Ms. Fr. 7996/3 Société de Géographie, Procès-verbaux des séances du Burea (...)
34Numa
entrevista que tem com o Presidente, como resultado da decisão do
Comité do 7 de junho, M. Perron explicou quele deseja: 1) que o
congresso decida mandar fazer fac-similares das cartas raras antigas com
o fim de conservá-las e de permitir a formação de museus; 2) que um
organismo seja constituído para o estudo das vias e os meios e que, com
este fim, seja preparada a redação dum projeto a ser apresentado ao
Congresso pela Sociedade de Geografia. Decide-se examinar as propostas a
serem feitas ao Congresso no sentido que antecede.32
35Perron
participa neste Congresso, onde é nomeado membro duma comissão
encarregada de examinar as condições para a reprodução e a disposição
pública dos “monumentos cartográficos da humanidade”.
- 33 Neuvième Congrès International de Géographie. Genève, 27 juillet – 6 août 1908. Résolutions et vœux (...)
O
Nono Congresso Internacional de Geografia expressa o desejo de que as
sociedades de geografia procurem interessar os governos de seus
respectivos países na restauração dos monumentos cartográficos da
Antiguidade, da Idade Média e da Renascença, documentos de grande valor
científico, e que o tempo ameaça destruir. O Congresso nomeia os
senhores Nordenskjöld, K. Miller, G. Marcel, E. Oberhummer e C. Perron
membros de uma Comissão que tem por mandato centralizar os resultados
obtidos neste ordem de ideias, apresentar ao próximo congresso um
catálogo fornecendo o estado geral da reprodução de cartas antigas em
fac-símile, e determinar em ordem de importância os documentos
cartográficos antigos cuja restituição seja particularmente desejável. A
Comissão poderá ajuntar, por cooptação, membros provenientes de
diversos países que possuam documentos cartográficos.33
- 34 FERRETTI F. L’Occident d’Élisée Reclus, l’invention de l’Europe dans la Nouvelle Géographie Univers (...)
36Entre
os membros cooptados acha-se um cartógrafo francês e autor de manuais
de geografia escolar, Franz Schrader, que é aliás primo de Reclus e um
dos últimos sobreviventes, no momento, da antiga rede de colaboradores
da NGU.34
- 35 TSIOLI BONDENMANN M. Cartes et Plans, cit., p. 191.
- 36 Ibid., 192.
37Perron
morre em 1909, mas o Museu fica aberto sob a direção de Charles
Schöndelmayer: “nesta época, mais de seiscentas pessoas visitavam cada
ano o Museu Cartográfico”.35
No entanto, uma vez falecido seu animador infatigável, o Museu declina
gradualmente: o número de visitantes diminui, os horários de abertura
reduzem-se, e a instituição é fechada em 1922 “como medida econômica”.36
38Se
bem a história do Museu Cartográfico é claramente o resultado do
esforço voluntarista dum geógrafo heterodoxo como Perron, militante
anarquista e sobrevivente da rede de militantes e exilados que tinha
animado a Federação de Jura e também trabalhado na NGU, insere-se no
entanto, apesar da sua excepcionalidade, em condições históricas bem
precisas.
39Em
primeiro lugar, trata-se do período em que são construídas as
instituições educativas nacionais destinadas a servir toda a população:
como temos dito, os anarquistas colaboram com as vanguardas do movimento
da educação popular e laica, como William Rosier no caso da Genebra. O
movimento dos museus e das exposições insere-se neste contexto cultural;
não é acaso que a Cidade de Genebra tivesse já uma Delegação de
exposições e museus (sob a responsabilidade de Piguet-Fagues) com a qual
Perron podia dialogar.
- 37 ENCKELL M. Élisée Reclus inventeur de l’anarchisme. In CREAGH Ronald et alii (ed.). Élisée Reclus - (...)
40A
especifidade suíça e genebrina joga também um papel. Genebra tem sido
por vários séculos lugar de refugio de exilados políticos de toda a
Europa: é o encontro em terra helvética nos anos de 1870 entre exilados
russos e eslavos perseguidos pelo regime czarista e franceses refugiados
após a Comuna de 1871 o que faz possível ao mesmo tempo a constituição
do movimento anarquista organizado37 e o estabelecimento da rede que trabalhou na NGU.
- 38 WALTER François. Les figures paysagères de la nation, territoire et paysage en Europe (16e – 20e si (...)
41Perron explora com certa astúcia seu status
de único genebrês “nato” da rede: seu relevo da Suíça, segundo François
Walter, é uma mostra típica das “figuras paisagísticas da nação”38
adotadas então em toda a Europa, e recebe para aquilo o apoio dos meios
científicos locais. O contraste entre o cartógrafo genebrês e seus
colegas zuriquenses, por outro lado, ganha-lhe o apoio de Suchard: há em
vários níveis dinâmicas “nacionais” na obra.
- 39 REUBI Serge. Gentlemen, prolétaires et primitifs : institutionnalisation, pratiques de collection e (...)
42No
tocante à organização do Museu Cartográfico, Perron aplica todavia
critérios relativamente originais: se duas seções são tipicamente
consagradas à Suíça e ao Cantão de Genebra, a maior parte da exposição
constrói-se entorno de representações do mundo. Enquanto
na Suíça, como no resto da Europa, criam-se museus etnográficos
fundados na separação entre o Aqui europeu e dominador e o Acolá
selvagem e dominado,39
Perron é um dos raros cientistas que abordam a história das
representações do mundo segundo o princípio de unidade humana, sem
estabelecer hierarquias entre as representações produzidas por culturas
diferentes (mesmo que a maioria destes mapas sejam de produção europeia,
por uma evidente questão da busca das peças a serem expostas).
43Fica
claro também, por fim, por que os geógrafos anarquistas, críticos da
carta plana, dão uma importância tal a este objeto: é porque são cientes
do valor estratégico da representação cartográfica e da sua utilidade
como fonte para o que hoje pode chamar-se de “história cultural da
humanidade” que os mapas tinham de ter um lugar central no seu projeto
de educação popular.
44O
fundo Reclus-Perron, que conta cerca de 10.000 cartas, encontra-se
depositado atualmente no Departamento de Cartas e Planos da Biblioteca
de Genebra, onde só é acessível mediante consulta agendada. No entanto,
nos últimos anos a atenção por parte de pesquisadores e instituições tem
aumentado, e o projeto Écrire le Monde Autrement [Escrever o Mundo Duma
Outra Forma], que inicia em setembro de 2012 no Departamento de
Geografia da Universidade de Genebra, [http://www.unige.ch/ses/geo/index.html], propõe-se começar a exploração desta coleção de fontes cuja análise encontra-se apenas nos começos.