1Com o
Partido dos Trabalhadores à frente da Presidência da República e à
frente de alguns aparelhos de Estado, por mais de uma década, com três
mandatos consecutivos iniciados com Luís Inácio Lula da Silva
(2003-2010), e que se manteve por sua sucessora Dilma Rousseff
(2011-2014) no primeiro mandato, o Estado Brasileiro assistiu à uma
condensação material de novas relações de forças, estabelecendo uma nova
unidade conflitual de aliança no poder em um novo equilíbrio de
compromissos.
2Nesse
breve ensaio, lançamos mão de referências de autores da teoria marxista
do Estado como Nico Poulantzas (1985), Joachim Hirsch (2010), Martin
Carnoy (1988) e para compreensão das mudanças ocorridas no Brasil: Paul
Singer; André Singer; André R.Teixeira; Whitaker; Marilena Chauí;
Boaventura Sousa Santos (2014); Antônio G. Belluzzo; Leda Paulani;
Arlete M. Rodrigues, entre outros.
3No
início dos anos de 1980, analisando a estrutura social do Brasil, Paul
Singer detectou a emergência do que denominou de “subproletariado”,
constituído por “empregados domésticos, assalariados de pequenos
produtores diretos e trabalhadores destituídos das condições mínimas de
participação na luta de classes” (SINGER, 1981, p. 83):
O proletariado, portanto, também
se compõe de duas partes: uma empregada pelo capital ou pelo Estado que
chamamos de proletariado propriamente dito e outra composta pelos que
de fato ou potencialmente oferecem sua força de trabalho no mercado sem
encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure
sua reprodução em condições normais, constituindo assim um proletariado
virtual ou subproletariado. (SINGER, 1981, p. 22).
4Com
base nas quatro corridas eleitorais presidenciais, entre 1989 e 2002,
André Singer aponta a contradição mais patente de que, muito embora o
PT, em sua origem, representasse a classe trabalhadora e a esquerda
brasileira, Lula, a principal liderança do partido, não obteve apoio de
classes de baixíssima renda, nem sequer os votos realizados demonstraram
uma polarização esperada, sendo que a metade mais pobre da nação pendia
para a direita:
Era relativamente claro que
havia um poder de veto das classes dominantes, o qual residia na
capacidade de mobilizar o voto de baixíssima renda. O que não se
distinguia com nitidez eram as raízes ideológicas do mecanismo, embora
os levantamentos de opinião indicassem permanente supremacia
conservadora na distribuição do eleitorado entre esquerda e direita
(...) um desequilíbrio que decorria da inclinação dos eleitores de menor
renda para a direita. (SINGER, 2009, p. 89).
- 1 Foi assim que Lula perdeu para Fernando Collor (ano 1989) e para Fernando Henrique Cardoso (ano 199 (...)
5A
principal base de apoio a Lula estava entre os eleitores dos níveis
superiores de escolarização nos Estados mais urbanizados e
industrializados do Sul e do Sudeste. Uma reorientação política apenas
começa a ocorrer e inverter tal polaridade na eleição de 2006 com o
“descolamento entre eleitores de baixíssima renda e de classe média”.
Portanto, apenas após assumir o governo, Lula obteve a adesão do
segmento de classe que buscava desde, pelo menos, 1981.
6Mais
de duas décadas foram preciso para que a nova fração de classe, o
subproletariado, se realinhasse politicamente e se identificasse com a
classe trabalhadora no projeto político do PT. Mas tal realinhamento e
identificação desencadeou no fenômeno social do lulismo,
emergindo como uma força nova que transplantou a própria base de
sustentação da esquerda brasileira e do PT em eleições anteriores,
projetando no presidente Lula sua voz e imagem popular:
Atomizados pela sua inserção no
sistema produtivo, necessitam de alguém que possa, desde o alto, receber
a projeção de suas aspirações. (...) na ausência de um avanço da
esquerda, o primeiro mandato de Lula terminou por encontrar outra via de
acesso ao subproletariado, amoldando‑se a ele, mais do que o modelando,
porém, ao mesmo tempo, constituindo‑o como ator político (SINGER, 2009,
p. 99).
7De
fato, deu-se a ascensão desse novo ator político, que se enxergava na
imagem de Lula. O subproletariado, até então invisível na arena de lutas,
lembrado tão somente como eleitorado fiel por meio de históricas
práticas de clientelismo, passa a promover uma mudança na imagem social
da classe popular:
- 2 Texto de Marcos Coimbra: “Quatro Razões para a Vitória de Lula”, Cadernos Fórum Nacional, Nº 6, fev (...)
A alternância com Lula tinha
um sentido adicional e muito concreto para seus eleitores: o de ser,
também, uma alternância de classe no centro do sistema, a presidência da
república. (...) Por essas razões, a alternância era muito mais que
política, envolvendo sentimentos profundos de auto-imagem e
amor-próprio. Era uma alternância “deles” por “nós” e por “mim”. As
primeiras pesquisas feitas logo após o começo do governo captaram uma
nítida mudança nas atitudes dos eleitores de classe popular, apontando
para o aumento de sua auto-estima e da confiança de que o Brasil iria
melhorar (...). A vitória de Lula foi a vitória da noção de que um
presidente pode vir do povo. (COIMBRA, 2007, p. 12-13).2
8Para essa nova fração de classe, consubstanciaram-se políticas sociais:
O pulo do gato de Lula foi,
sobre o pano de fundo da ortodoxia econômica, construir uma substantiva
política de promoção do mercado interno voltado aos menos favorecidos, a
qual, somada a manutenção da estabilidade, corresponde nada mais nada
menos que a realização de um completo programa de classe. (SINGER, 2009,
p. 98).
9André
Singer (2009) sintetiza, portanto, uma valiosa contribuição para a
análise política brasileira nos últimos anos que traz à tona uma fração
de classe e um programa de classe a partir de pelo menos três novos
elementos sociais que se inscrevem na teoria do Estado Brasileiro: a
ascensão de uma fração de classe, o subproletariado (agora
com visibilidade e representação); um novo realinhamento político
(ainda que com um esvaziamento da dimensão ideológica); e a incidência
de políticas sociais pelo Estado.
10Revisitando a teoria, para Nico Poulantzas (1985), o Estado abarca todas as classes sociais. No interior do Estado há fissuras, por onde podem conflitar interesses antagônicos. Nesse sentido, as classes populares dominadas
(divididas e/ou desorganizadas) estão e sempre estiveram presentes no
Estado, e devido à existência de lutas populares é que ocorrem divisões e
contradições no interior do Estado: “na realidade, as lutas populares
atravessam o Estado de lado a lado”, e atravessam seus aparelhos.
Portanto, para Poulantzas as lutas populares não são algo externo que
cerca, assedia e pressiona o Estado do lado de fora; do contrário, são
internas a ele e estão inscritas na trama do Estado. Não são as lutas
que são absorvidas ou incluídas pelo Estado, mas “é o Estado que está
imerso nas lutas que o submergem” (Poulantzas, 1985, p. 162).
- 3 Dentro dessa condensação de forças, há as classes dominantes com o bloco no poder representadas por (...)
11Quando o autor desenvolve a famosa noção de autonomia relativa do Estado,
está em realidade refutando, por conseguinte, a concepção
instrumentalista de que o Estado é coisificado, instrumentalizado e
manipulado apenas por interesses da classe dominante. A autonomia
relativa diz respeito à relação do Estado com frações do bloco no poder3
para assegurar o interesse geral da burguesia (classe dominante) e a
própria organização e unificação do Estado na célebre citação: “O Estado
é a condensação material das relações de força (...) entre classes e
frações de classes” (POULANTZAS, 1985, p. 30).
12Assim, o Estado, para Poulantzas, é uma arena de lutas
onde se inscrevem e se condensam as lutas de classe. Ao Estado cabe,
portanto, uma função de organização e mediação das classes sociais em
disputa, o que termina em constituir uma unidade conflitual de aliança
de poder e de um “equilíbrio instável” dos compromissos entre seus
componentes. Desta perspectiva, o Estado atua na mediação dos conflitos
entre as classes dominantes e dominadas, dividindo e desorganizando as
massas, mas, simultaneamente, comprometendo-se com muitas de suas
demandas (Carnoy, 1988, p. 161).
- 4 Criado em 2004, o crédito consignado permitiu aos bancos descontar empréstimos em parcelas mensais (...)
13Ainda
que hoje não se possa analisar integralmente o alcance real das
políticas sociais implantadas na última década pelo Estado brasileiro
pode-se afirmar, seguramente, que na última década as classes populares
foram “objeto de medidas de atendimento social” (HIRSCH, 2010) e seus
interesses e orientações se materializaram em diversos campos das
políticas públicas. Além do Programa Bolsa Família (PBF), houve o
aumento real de 24,25% no salário mínimo durante o primeiro mandato, em
maio de 2005, cujo impacto foi mais abrangente do que aquele Programa.
De forma combinada, o Bolsa Família e a elevação do salário mínimo,
dinamizaram as economias locais menos desenvolvidas. Outra possibilidade
aberta aos aposentados, às vezes principal fonte de recursos em
pequenas comunidades, foi o uso do crédito consignado4
que permitiu o financiamento popular, incluindo um aumento expressivo
do empréstimo à agricultura familiar, do microcrédito e da bancarização
de pessoas de baixíssima renda (SINGER, 2009).
14Entre
os ganhos sociais mais significativos deve-se incluir o maior acesso ao
trabalho, assim como as políticas distributivas e reestruturadoras da
base econômica local, em especial no Norte e Nordeste (WHITAKER, 2014,
s/p)5. Outras
demandas sociais foram pautadas e têm trazido, paulatinamente, mudanças
estruturais na sociedade, como as cotas, a ruptura da indústria do
vestibular, com maior acesso às Universidades Públicas (pelo Exame
Nacional do Ensino Médio – ENEM, na esteira do Programa Universidade
para Todos – PROUNI) e aspectos do emponderamento da mulher pelo
PBF (e acrescenta-se aqui, pelo Programa Minha Casa, Minha Vida) (CHAUÍ,
2013).
- 6 “As contradições presentes entre as frações do bloco no poder se condensam nas divisões e contradiç (...)
15O
Estado institucionaliza e condensa no interior de seus aparelhos uma
relação com todas as classes sociais, pactuando com certos interesses
das classes populares. Mais que isso, as relações das classes populares
se institucionalizaram em aparelhos estatais que, funcionam como
contraponto às demais estruturas que, tradicionalmente, têm servido como
pontos de apoio de setores das classes dominantes (HIRSCH, 2010). A
aparelhagem do Estado deve servir justamente para mediar tais
divergências e o estabelecimento dos compromissos6.
Isso significa que as classes dominantes cristalizam um poder próprio
(por aparelhos ou setores no interior do Estado), enquanto as classes
dominadas apresentam apenas focos de oposição ao poder (Poulantzas,
1985, p. 164).
16Hirsch
(2010) explicita a heterogeneidade dos aparelhos do Estado analisando
sua relação com as classes populares e cita, como exemplo aparelhos como
Ministérios da Assistência Social ou do Trabalho, nos quais os
interesses das classes dominadas podem, em certa medida e de forma
subordinada, materializar-se:
O fato de que o Estado apresente
uma teia de relações sociais e de classe s expressa-se na
heterogeneidade de seus aparelhos. Ele não é uma unidade organizativa
fechada, mas desmembra-se em instâncias relativamente autônomas
frequentemente em concorrência e mesmo em disputa entre si. Nelas sempre
se manifestam relações sociais e de classe próprias, seja quando elas
agem como ponto de apoio de classes ou de parte de classes, seja sob a
forma de agências que se relacionam com as classes dominadas e cujos
interesses incluem-se nos mecanismos estatais de decisão. (HIRSCH, 2010,
p. 38).
17De
fato, em consonância à teoria anunciada, destaca-se a criação de
diversos Ministérios como o do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
(MDS), com políticas nacionais de desenvolvimento social, segurança
alimentar e nutricional, assistência social e programas de transferência
de renda. De modo geral, esse Ministério tem feito um contraponto ao
crescimento econômico capitalista sem desenvolvimento social. Da mesma
forma, a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) pode ser
considerada um contraponto ao Ministério da Agricultura.
18O
Ministério das Cidades representou a institucionalização de uma das
bandeiras históricas do PT, explicitada já pelo Projeto Moradia na
campanha presidencial de 2002, e deu inteligibilidade ao nível de
análise e à escala do urbano, com articulação inédita entre as políticas
urbanas setoriais, com especial enfoque para a habitação popular. Como
pontuou Boaventura Sousa Santos7,
um ciclo ascendente de inclusão social que difere e destoa o Brasil de
países da Europa que, justamente, vêm de um ciclo de exclusão social
bastante contundente e rápido, motivado pela crise econômica e
financeira.
19Ficou
patente, contudo, que no período analisado, a inclusão social que, de
fato, promoveu mudanças importantes se deu mais pela rota do consumo do
que pelo caminho da transformação de valores éticos:
O aumento da capacidade de
consumo, que, no fundo, foi o motor do lulismo, talvez tenha, isto sim,
amplificado ainda mais o pensamento fútil, as interpretações rasas e a
intolerância, típicas de uma sociedade que se move pela religião do
consumismo, por natureza a cristalização do individualismo, da
competição, do desprezo àquele que "não tem", ou seja, ao mais pobre.
(WHITAKER, 2014, s/p).
- 8 Como Marcio Pochmann questiona e traz para o centro da análise em seu livro: “Nova Classe Média? O (...)
20Trata-se
antes da elevação de renda e aumento da base assalariada com capacidade
de consumo e não do que vem sendo chamado erroneamente de "nova classe
média"8, afinal:
Formar classe média consumidora
não é tudo e a aposta na melhoria da renda das faixas médias e do seu
acesso ao consumo aquece, ao mesmo tempo, uma economia demasiadamente
liberal e altamente destruidora (citemos, por exemplo, o poder
exacerbado do setor financeiro, a destruição da Amazônia ou o papel
predador, no campo, do “agrobusiness)”. Se [o aumento da base
assalariada] por um lado abre para muitos o "fantástico" mundo do
consumo, ele não garantiu em nada, por outro lado, uma alteração dos
valores éticos e comportamentais da nossa sociedade, nem uma mudança
repentina de classe social dos beneficiados pelo aumento da oferta de
trabalho. Pelo contrário, os valores éticos que predominam na nossa
classe-média parecem ainda ser aqueles inculcados pelo regime militar,
da mediocridade cultural, da aceitação robótica das informações da
mídia, da passividade cívica e da alienação política. Portanto, não se
alteraram os fundamentos éticos da sociedade nem a lógica da política.
(WHITAKER, 2014, s/p).
- 9 R. A. Teixeira está se referindo ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, “o grande fiador de Lula (...)
- 10 Editorial da Revista Carta Maior. “Fissuras No Bloco no Poder e as Eleições Presidenciais” (TEIXEIR (...)
21Será
necessário, ainda, compreender o pano de fundo da ortodoxia econômica
(SINGER, 2009) do período analisado, culminando em uma nova reorientação
nos últimos anos do primeiro mandato de Dilma Rousseff. Durante o
governo de FHC (duas gestões), o bloco no poder que se consolidou foi a
fração bancário-financeira do capital, que havia se iniciado desde o
governo Fernando Collor, cujos interesses estavam ligados ao mercado
financeiro, doméstico e internacional, representados por postos-chave no
comando da política econômica9. De acordo com R. A. Teixeira10, essa fração capitalista se sobrepunha às demais, em especial aos segmentos do capital produtivo e à economia brasileira:
foi
lançada em um novo tipo de dependência que contava com a era dos fluxos
de capital volátil, fundamentais para manter a estabilidade do arranjo
macroeconômico então vigente: conter a inflação pela âncora cambial, ou
seja, mantendo a taxa de câmbio sobrevalorizada para baratear as
importações. (TEIXEIRA, 2014, s/p).
22A
dependência financeira do país perante os fluxos internacionais de
capital de curto prazo, que o autor acima aponta, não pode ser analisada
como um fenômeno isolado no capitalismo global, e assim como outros
países onde os mercados financeiros “lograram capturar os controles da
economia e do Estado, mediante o aumento do seu poder social”. A lógica
desse novo poder reside em sua “capacidade de impor vetos às políticas
macroeconômicas” e as ações dos governos sofrem fortes resistências das
“casamatas instaladas nos quartéis da finança contemporânea” (BELLUZZO,
2014, s/p).
- 11 A teoria marxista do estado herdou o conceito gramsciano de hegemonia: é o exercício da ideologia d (...)
- 12 E. Sader e R. A. Teixeira retratam detidamente o papel do Ministério da Fazenda como “centro de gra (...)
23Em
que pesem a oposição ferrenha e as duras críticas da esquerda, os
embates e disputas no interior do partido, o governo Lula se inicia com
um viés conservador no campo da política macroeconômica (SADER, 2007) e,
durante os anos iniciais, a dependência econômica financeira prevaleceu
pela “linha de menor resistência” contra os interesses estabelecidos,
permanecendo a hegemonia11 da fração bancário-financeira do capital no interior do bloco no poder (TEIXEIRA, 2014, s/p)12.
24Contudo,
a cartilha neoliberal fora sendo rompida paulatinamente. Mudanças de
peso começaram a ocorrer com novos grupos de interesses da fração
capitalista, que se articularam e ganharam espaço, como a “ala
desenvolvimentista”, “abrindo caminho para uma política fiscal mais
preocupada com a aceleração do crescimento e com a distribuição da
renda, com os gastos sociais e uma política de elevação do salário
mínimo”. Esse momento se cristaliza com o lançamento do Programa de
Aceleração do Crescimento – PAC (TEIXEIRA, 2014, s/p).
- 13 O PMCMV rendeu a manutenção da Secretaria de Habitação como a única de sua formação original dentro (...)
25A
situação internacional estava favorável “com a calmaria nos mercados
financeiros internacionais e elevação dos preços das commodities
exportadas pelo Brasil, aliada à estratégia do governo de acúmulo de
reservas internacionais”. Sabe-se que, em uma crise financeira
internacional de grandes proporções como a de 2008, o Estado é quem
socorre o mercado e, de forma análoga, o Governo Federal Brasileiro, em
2009, criou o PMCMV, “salvando” o país da crise, com investimentos e
aplicação de fartos recursos na construção civil. O Programa foi
proposto pelo Ministério da Fazenda, e logo vinculou a política urbana e
habitacional do Ministério das Cidades à economia nacional em um
Programa que deu escala à produção de unidades habitacionais prontas13.
26A crise internacional de 2008 ajudou a fortalecer a nova composição de forças do bloco no poder do Estado Brasileiro:
Um conjunto de estímulos como
redução de juros, expansão do crédito dos bancos públicos e do crédito
habitacional pelo programa Minha Casa Minha Vida, continuidade da
elevação real do salário mínimo e dos investimentos públicos planejados
no âmbito do PAC e redução da meta de superávit primário, permitiu que a
economia brasileira se recuperasse da crise mais rapidamente que vários
outros países, e após uma leve queda de 0,2% do PIB em 2009, auge da
crise no Brasil, cresceu 7,5% em 2010, último ano do presidente Lula,
com manutenção da renda e do emprego. (TEIXEIRA, 2014, s/p).
27Após
a crise internacional de 2008, continuou a redução da influência e
perda da hegemonia da fração de classe bancário-financeira.
A
reversão do padrão dos fluxos de capital que, nas crises anteriores,
originadas nos “mercados emergentes”, tendiam a fugir abruptamente dos
países periféricos em direção ao dólar, e nesta crise fizeram o caminho
inverso, permitiu que o Brasil pudesse fazer uso de uma política
macroeconômica expansionista para incentivar a atividade econômica, com
reduções substantivas da taxa de juros e expansão fiscal, a contragosto
dos representantes do sistema financeiro. O governo Dilma consolidaria
esta perda da hegemonia, cujo momento mais simbólico foi o discurso da
presidenta no 1.º de maio de 2012, Dia do Trabalhador, anunciando em
cadeia nacional que os bancos públicos iam travar uma batalha pela
redução dos spreads bancários. (TEIXEIRA, 2014, s/p).
- 14 A partir de agosto de 2011, o Banco Central inicia uma trajetória de queda da taxa Selic, até ating (...)
- 15 Artigo de Leda Paulani no blog da Boitempo, intitulado Terrorismo Econômico. Disponível em: http:// (...)
28Foi
no governo petista de Dilma Rousseff que sinais claros de
enfraquecimento da hegemonia da fração de classe bancário-financeira
foram dados, com a adoção de medidas de enfrentamento direto – que
seriam impensáveis alguns anos antes – por parte do governo, como a
queda da taxa Selic e a redução das taxas de juros dos bancos públicos14 (TEIXEIRA, 2014; PAULANI, 201415).
Assim, por fim no Brasil, os economistas apontam uma heterodoxia
econômica “para horror dos mercados financeiros” no presente governo
petista de Dilma Rousseff:
A
presidenta Dilma não conta com o apreço dos mercados financeiros. Ao
longo de sua trajetória na cadeira de presidente, ela foi se afastando
da cartilha ortodoxa que detinha ainda grande peso no governo (daí a
inexistência de terrorismo econômico nas duas eleições seguintes) e
tomando decisões pouco palatáveis para os interesses representados por
esses mercados. A começar pela troca de comando do Banco Central, a
presidenta teve a coragem de enfrentar o lobby bancário-financeiro, não
só reduzindo a Selic, como utilizando os bancos públicos para forçar a
queda dos vergonhosos spreads bancários, que ainda assim continuam muito
altos. A heterodoxia econômica, que havia ficado completamente
escanteada no início do período de 12 anos de gestão do governo federal
sob o comando do PT, foi ganhando espaço no governo da presidenta, para
horror dos mercados financeiros, que agora escutam estarrecidos pela voz
do atual ministro chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante, que não será
dada nenhuma guinada ortodoxa no segundo mandato da presidenta.
(PAULANI, 2014, s/p).
- 16 Mesmo governando com um equilíbrio instável, o Estado precisa garantir a unidade do aparelho políti (...)
29Claro
que essas medidas implicaram consequências políticas, como a perda de
apoio da fração bancário-financeira ao governo, e que, contudo, no atual
cenário político brasileiro busca novamente sua condição de fração
hegemônica no interior do bloco no poder, o que nos remeteria
invariavelmente no interior da teoria marxista do Estado à questão da
legitimidade em Gramsci16, tema para outro artigo.
30Há
um novo equilíbrio de forças e de bloco no poder, assinalado com agendas
antagônicas de compromissos sociais (voltados às classes populares) e
econômicos (voltados às classes dominantes) que dão lugar a conflitos
intensos, pelos quais se reabrem velhas fissuras: na demarcação de
terras indígenas; na construção de novas hidroelétricas em território de
comunidades ribeirinhas; nas cidades de exceção equipadas para a Copa
do Mundo (VAINER, 2013); e na perpetuação da produção do espaço moderno
de shoppings centers, edifícios de alto padrão, loteamentos
murados, condomínios fechados. Assim, a nova unidade conflitual de
aliança de poder inclui e abarca as classes populares, mas sem as
contemplar única e integralmente.
31As
lutas populares não se esgotaram nem cessaram e continuam atravessando o
Estado Brasileiro e seus aparelhos como causas históricas reclamadas,
atualizando a teoria de Poulantzas (1985). Para além das ruas, e dos
movimentos de massa, um fenômeno importante se processou nos últimos
anos, com lideranças de classes populares absorvidas na aparelhagem
estatal, moldando, uma vez mais, e atestando o caráter heterogêneo dos
aparelhos de Estado. A nova configuração institucional da última década
capturou parte das lutas dos movimentos populares organizados e deles se
apropriou, trazendo para o poder público lideranças e agentes políticos
das ruas, sindicatos e ONGs, invertendo e mesclando os papéis
tradicionais na arena de lutas.
32A
absorção de lideranças populares acarreta na inserção de mais um agente
na arena de lutas, tencionando o campo de forças e o equilíbrio instável
sobre o qual o Estado se assenta além de trazer mais um discurso
político e ideológico (explícito ou implícito) de gestão urbana e
assinalar temas da luta popular na agenda dentro do tempo-espaço da
política pública.
- 17 A adoção da expressão “absorção” em vez de cooptação nos parece mais compatível com a ideia de Esta (...)
33Se
tal processo de absorção permitiu o aparecimento de gestores
comprometidos e engajados em determinadas lutas, como a Reforma Urbana,
que vem da militância de movimentos populares, e não apenas de
movimentos políticos partidários, análises futuras deverão apontar. Da
mesma forma, a inserção de temas da luta popular nos aparelhos de Estado
entra na engrenagem da burocratização e no escopo do enquadramento de
políticas públicas. Há, em realidade, uma contradição no horizonte da
gestão democrática: se, por um lado, há o empoderamento de grupos e
frações das classes populares em novos canais de participação, há, por
outro lado, uma fragmentação no campo da luta gerado pela absorção17 de lideranças de movimentos populares tornados quadros políticos (Cargos de Confiança (CCs) / Cargos Comissionados).
34A
luta reivindicatória se torna institucional e se realiza em etapas de um
novo processo absorvido, incorporado e controlado pelo Estado. Para o
caso da política urbana e habitacional, a grande aproximação do PT com
movimentos populares de moradia transformou lideranças em gestores de
uma máquina pública municipal, estadual ou nacional, isto é, gestores de
aparelhos de Estado e responsáveis diretos pela promoção (ou não) de
políticas públicas (LOPES, BUONFIGLIO e ÁVILA, 2013).
- 18 38 Os mecanismos de reprodução da relação dominação-subordinação são inerentes ao arcabouço materia (...)
35Isso
significa um novo fenômeno que é preciso compreender no Brasil
contemporâneo, que é a maior presença de membros e frações das classes
populares no Estado, mas não de forma subalterna, como o “pessoal
técnico” apontado por Poulantzas (1985), mas, governando o país18.
36Para
a teoria do Estado, a presença das classes populares não configura
necessária, nem automaticamente, a institucionalização de um poder das
classes populares no bojo do Estado. Mesmo para o caso de uma mudança da
relação de forças e da modificação do poder de Estado em favor das
classes populares, para Poulantzas (1985), o Estado tende, a curto ou
longo prazo, a restabelecer sob nova forma a relação de forças em favor
da burguesia.
37Para
L. Althusser (1998), não basta à classe dominante deter o poder de
Estado (seja por meio de alianças de classe ou de fracções de classes)
e, por consequência, dispor do aparelho repressivo de Estado (polícias,
sistema prisional, etc), ela precisa exercer sua hegemonia de forma
perene no tempo naqueles aparelhos ideológicos da sociedade civil
(Igreja, Escolas, sistemas, Universidades, Meios de Comunicação): “A
partir do que sabemos nenhuma classe pode duravelmente deter o poder de
Estado sem exercer simultaneamente a sua hegemonia sobre e nos
Aparelhos Ideológicos de Estado (ALTHUSSER, 1998, p. 48-49)”.
38Esse
novo contexto brasileiro também exige o necessário abandono e superação
do dualismo Estado/Sociedade Civil em prol da invenção de novos
instrumentos analíticos, bem como do desenvolvimento de estratégias
políticas mais eficazes, como sugere B. Sousa Santos (2011). Em
realidade, como aponta o autor, a dicotomia Estado/Sociedade Civil pode
ser caracterizada como uma absorção recíproca e constante de um pelo
outro.
39E
de toda forma, não se ignora que novos protagonistas e minorias ganharam
visibilidade nas políticas públicas, com canais abertos de participação
popular, instituição de fóruns, redes, articulações entre sociedade
civil e poder público. Com o estabelecimento de novos espaços públicos
não estatais, pode-se falar de uma redefinição de relações entre a
sociedade civil e o Estado, trazendo novos elementos para essa clássica
dicotomia, garantindo para a sociedade civil novas fontes de
legitimação, nas quais têm lugar os poderes de fato (BOBBIO; 1982;
1986).
40As
Conferências Nacionais são o produto dessa redefinição de relações entre
a sociedade civil e o Estado. Nelas se gesta a ampliação da democracia
participativa contribuindo para a construção de Políticas Públicas no
Brasil, trazendo à tona a multidimensionalidade do conflito político,
fortalecendo a democracia representativa em seu conjunto:
As Conferências Nacionais são um
meio eficiente de se resgatar a multidimensionalidade do conflito
político. O papel delas é justamente o de, mediante práticas
participativas e deliberativas, estruturar o processo decisório em torno
de temas fundamentais (...) que embora eventualmente endossados por
membros dos ministérios, não fazem parte do pacote de políticas
considerado prioritário pelo governo. Assim, as Conferências, ao
formularem diretrizes de políticas e comunicá-las à sociedade e ao
Congresso, permitem que a multidimensionalidade da política retorne à
cena, mas de maneira estruturada sem expor o Legislativo aos ciclos de
decisão majoritária. (POGREBINSCHI, 2010, p. 29).
41Enquanto
políticas públicas para intervenção no território, as Conferências, em
suas diversas escalas, permitem “conhecer as realidades locais,
estaduais, regionais e estabelecer programas que atendam às
especificidades sociais e territoriais”, propiciando a articulação de
frentes e de diversos segmentos da sociedade civil, “como um espaço de
encontro e de trocas”, bem como a “formação de redes de informação e
difusão dos problemas a serem enfrentados” (RODRIGUES, 2010, p. 2).
- 19 O Conselho Nacional das Cidades é “um órgão colegiado de natureza deliberativa e consultiva, integr (...)
42O
primeiro ano da gestão do Ministério das Cidades se encerra com a 1ª
Conferência Nacional das Cidades, fórum deliberativo e marco histórico
na luta da Reforma Urbana, quando se lançam as bases na construção
coletiva e democrática para uma política nacional urbana. Na 1ª
Conferência, ocorreu a eleição do Conselho Nacional das Cidades, outro
importante espaço político constituído por um órgão colegiado de
natureza deliberativa e consultiva19.
O Conselho, instituído em 2004, para assegurar uma gestão mais
democrática e menos centralizada pelo Poder Executivo é a típica esfera
pública que amplia o espaço estatal e possibilita uma arena de lutas,
moldado com base na gestão do direito à cidade.
43Contudo,
o Conselho das Cidades é composto por agentes com poderes
contraditórios que o configuram como uma unidade conflitual de aliança
de poder: o poder público nas três instâncias (municipal, estadual e
federal), movimentos populares, entidades profissionais, acadêmicas e de
pesquisa, ONGs, entidades sindicais e empresários.
- 20 São três tipos de Resoluções: Recomendadas, Normativas e Administrativas. As primeiras são relativa (...)
- 21 41 Apenas para ter uma ideia do clima de debate, a primeira Conferência Nacional das Cidades delibe (...)
44Se
as Conferências Municipais, Estaduais e Nacionais das Cidades aprovam e
referendam propostas e diretrizes para a política urbana nacional, o
Conselho Nacional das Cidades, por sua vez, deve fiscalizar e implantar
tais propostas20.
A adoção de estruturas normativas participativas visa reequilibrar
poderes dentro da arena de lutas e faz um contraponto ao Legislativo.
Deve-se ressaltar a importância de diretrizes de caráter legislativo e
não simplesmente administrativo, isto é, resoluções que demandam
tratamento com intervenção legislativa de forma expressa: exigem a
elaboração, alteração ou regulamentação da legislação federal ou da
Constituição, ou ainda, de outro ato normativo (como emenda
constitucional) pelo Congresso Nacional ou de forma implícita (demandas
cuja satisfação requer elaboração legislativa de temas de competência do
Congresso Nacional (POGREBINSCHI, 2010)21.
45As
diversas Conferências das Cidades realizadas introduziram no debate
político os temas trazidos por novos atores beneficiando indiretamente
os indivíduos e grupos ausentes no debate, invisíveis na cidade ou que
simplesmente ignoram tais eventos porque as Conferências “colocam em
destaque as necessidades da maior parcela da população”, justamente
daqueles “grupos que não recebem os benefícios da produção da riqueza”
(RODRIGUES, 2010, p. 2).
46Entretanto,
restam muitas inquietações e dúvidas quanto ao futuro do Estado
Brasileiro: a configuração e materialidade institucional voltadas às
políticas públicas para as classes populares serão suficientes para
alguma mudança estrutural radical?
47A
mediação política desse processo de institucionalização, pela inserção
de novos agentes sociais no interior dos aparelhos estatais,
reequilibraria a “balança” da justiça social em prol das massas e
classes populares, historicamente dominadas? A constituição de um
processo mais amplo e democrático seria suficiente para alterar as
relações de força no Estado Brasileiro? A nova aliança de poder será
inclusiva, a ponto de restabelecer um novo padrão social de democracia
com efetivo e elevado grau de abertura e participação popular? O
atendimento social da habitação em escala, combinada com outras
políticas sociais, como as cotas, o Bolsa Família, etc., ratificados
como compromisso histórico, alterará a desigualdade social do país?
48Na
perspectiva dos autores aqui analisados, o Estado Brasileiro pode ser
apreendido como um campo aberto repleto de possibilidades de ação, capaz
de escutar diferentes orientações e constelações de interesse. Da mesma
forma, o desenvolvimento e o futuro do capitalismo permanecem em
aberto, não estão dados irremediavelmente e nem são determinados a
priori, mas condicionados à ação social por meio de lutas e estratégias
políticas (HIRSCH, 2010).
49Essa
recomendação de J. Hirsch nos leva ao campo de possibilidades de que
fala Boaventura Sousa Santos (2011), que é justamente a tarefa da teoria
crítica que não pode apenas aceitar a realidade existente, sob pena de
reduzi-la, pensando que se esgotaram as alternativas, quando estas podem
e devem superar o que é criticável no que existe.
50Na
última década, assistiu-se uma transformação no Brasil que se faz
necessário entender mais detidamente e que aqui analisamos em diálogo
com à teoria marxista do Estado. Longe da pretensão de esgotar a
realidade complexa da política brasileira, este artigo buscou um debate
em sintonia com o momento político vivido no Brasil, trazendo alguns
elementos sociais, políticos e econômicos da última década em um esforço
de esboçar provisoriamente um ensaio da teoria do Estado brasileiro do
período.
51Da
perspectiva de mudanças sociais e políticas, nos debruçamos sobre a
relação do Estado com as classes populares; a penetração de antigas
lutas e demandas populares no seio do Estado pautando contraditoriamente
a construção de políticas sociais por meio de aparelhos estatais
heterogêneos; do realinhamento político de representantes da fração de
uma classe denominada subproletariado se não identificados com uma
classe operária (trabalhadora em sentido amplo), ao menos identificados
simbolicamente com Lula, no fenômeno apontado como lulismo; da
emergência de novos atores sociais e políticos constituindo novas arenas
de luta; da absorção de atores sociais nos aparelhos estatais.
52No
plano da política macroeconômica brasileira, o período da última década
fora marcado por disputas intensas de interesses de grupos e frações
capitalistas no interior do bloco no poder, com destaque para a fração
bancário-financeira cuja queda de braço se traduzia ora no
fortalecimento da ortodoxia neoliberal, ora no fortalecimento da ala
desenvolvimentista. Esta ultima ala foi determinante para driblar a
crise financeira internacional com a formulação de programas nacionais
como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa, Minha
Vida (MCMV). Alguns elementos são apontados como a queda da taxa Selic e
a redução das taxas de juros dos bancos públicos que alguns autores
chamaram de heterodoxia econômica. De toda forma, velhas e novas
correntes possibilitaram novas composições de forças do bloco no poder
do Estado Capitalista Brasileiro.
53As
agendas política, social e econômica seguem em aberto a partir dos
compromissos antagônicos que o Estado toma para si e do jogo de relação
de forças entre classes dominantes e populares.