1A
relação entre a formação de rede técnica de eletrificação e implantação
dos transportes urbanos e do patrimônio territorial, urbano e rural, da
Light no Rio de Janeiro, demonstra as articulações que a Companhia
realizou junto aos governos estaduais e da União ao longo de toda a
primeira metade do século XX. O presente trabalho procura evidenciar as
estratégias adotadas pela Companhia no delineamento do monopólio dos
serviços e na produção do seu latifúndio.
2Quando
chegou ao antigo Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro, a Light
and Power desenvolveu uma estratégia, já aplicada na cidade de São
Paulo, de associar a produção de energia elétrica por meio de usinas
hidrelétricas ao uso de energia no sistema de bondes urbano. Tratou-se
de uma tática de associar a produção e o consumo durante os primeiros
anos de implantação do sistema elétrico, garantindo a demanda de parte
significativa da oferta, enquanto se disseminava a cultura da energia
elétrica nos demais setores produtivos e de serviços.
3Adquirido
o monopólio tanto da produção e distribuição de energia na cidade do
Rio de Janeiro quanto da oferta de transportes sobre trilhos e de ônibus
elétricos no perímetro urbano, a Companhia articulou esse mercado com
as empresas e agentes imobiliários, produzindo valorização das terras
urbanas e estabelecendo formas de renda diferencial e de monopólio na
produção (Harvey, 1980) e comercialização de novas áreas para a expansão
do tecido urbano na cidade do Rio de Janeiro, por meio da criação de
novos bairros e empreendimentos.
4No
mesmo período, entre os anos de 1905 e 1962, em face da intensa
expansão urbana da cidade e de sua área metropolitana, e da crescente
demanda por energia, a empresa implantou sucessivas modernizações dos
sistemas produtores de energia e de extensão da rede elétrica,
expandindo as atividades de geração de suas usinas hidrelétricas, que
facilitaram a ampliação das instalações geradoras e, em consequência,
incorporação de terras ao seu patrimônio na região centro-sul do estado,
particularmente no Médio Vale do Rio Paraíba fluminense. Trata-se da
criação das usinas e estações elevatórias da Ilha dos Pombos, em 1924,
Fonte Nova, em 1940, Santa Cecília, Vigário e Nilo Peçanha, em 1952, e
Pereira Passos, em 1962.
5Este
trabalho tem como objetivo apresentar alguns aspectos socioespaciais
acerca da formação desse patrimônio fundiário e suas implicações no
estado, em termos de ocupação de grandes quantidades de terras, para
controlar o sistema hídrico, quanto da indução da urbanização da cidade,
por meio de ações especulativas e direcionamento dos vetores de
crescimento, vinculados à expansão do sistema de transportes na cidade
do Rio de Janeiro.
6O
desenvolvimento e a difusão das novas tecnologias no campo energético,
particularmente o de refino do petróleo, no decorrer da segunda metade
do século XIX, culminaram na instituição do que podemos chamar de
segunda revolução industrial. Nesse período conjugam-se mais
intensamente as estruturas técnicas do primeiro período com os avanços
científicos em todos os campos do conhecimento, particularmente os de
química, física e eletricidade. Inicia-se aí o que Milton Santos
denominaria meio-técnico-científico (Santos, 1996). Técnica e ciência
tornam-se os ingredientes fundamentais para uma nova ordem na reprodução
das relações sociais de produção e, em consequência, a instituição de
uma nova ordem industrial e urbana.
7A
diminuição da dependência do carvão como matriz energética e a
ampliação de fontes como o petróleo possibilitaram um salto tecnológico
espetacular. Em primeiro lugar, por meio do aprimoramento dos motores a
combustão, então alimentados por óleo combustível, o que permitiu uma
intensa mobilidade espacial das estruturas produtivas industriais. O
desenvolvimento desses motores, nos primeiros anos do século XX,
possibilitou maior mobilidade em curtas distâncias, em fase de uso
crescente dos automóveis e dos caminhões. O resultado espacial mais
evidente de todas essas transformações foi a expansão da urbanização das
cidades industriais em todo o mundo.
8No
Brasil, país que ainda estava em fase inicial de sua industrialização, a
ampliação das atividades industriais e, por conseguinte, a
intensificação de sua urbanização, ocorre sob a égide desse novo
paradigma. Rio de Janeiro e São Paulo, nesse novo contexto, tornam-se
áreas de grande interesse de investimentos dos novos setores dinâmicos
da economia, como o de eletricidade. Por esse motivo, o engenheiro
norte-americano Frederick Stark Pearson cria no Brasil suas primeiras
empresas de eletricidade, num projeto em que pretende associar a cidade
ao negócio de geração de energia, por meio da combinação da eletricidade
com os transportes urbanos.
“En
aquesta etapa F.S. Pearson deixa de ser exclusivament assessor tècnic
(i eventual inversor) i fa el salt a promotor d’empreses. Promou
empreses elèctriques lligades a la ciutat i a la hidroelectricitat, una
nova font energética que li permet fer un salt d’escala en la indústria
elèctrica i implantar-se em entorns urbans en ràpid creixement
industrial. Combina aquestes elèctriques amb altres serveis urbans
altament consumidors de força motriu elèctrica, bàsicament els tramvies,
creant grans grups empresarials al voltant de l’electricitat. [como as
criadas em São Paulo, 1898, México, 1902, e Rio de Janeiro, 1904]”
(Berenger, 2008:16).
9Os
antecedentes desses empreendimentos no Brasil ocorreram 20 anos antes,
quando a energia elétrica se tornou realidade no ano de 1879, com a
inauguração do serviço de iluminação da Estação Ferroviária Central do
Brasil, na cidade do Rio de Janeiro e, em 1881, de um trecho da Praça da
República, na mesma cidade. Em 1883, entra em operação, na cidade de
Diamantina, estado de Minas Gerais, a primeira usina hidrelétrica de
pequeno porte do País e, em 1889, tem início a operação da primeira
hidrelétrica nacional de porte grande para a época, a Marmelos-Zero, da
Companhia Mineira de Eletricidade, pertencente ao industrial Bernardo
Mascarenhas (Escelsa, 2010). O uso da energia elétrica nos transportes
em nosso país também ocorreu simultaneamente ap seu desenvolvimento na
Europa e nos EUA. Em 1892, deu-se a inauguração da primeira linha de
bondes (transvias) elétricos de caráter permanente do País, também no
Rio de Janeiro.
10Nesse
final do século XIX, o Brasil vivia um intenso processo de modernização
tecnológica e de consolidação de suas áreas urbanas, como se pode
observar pela evolução do sistema ferroviário, que, no início dos anos
1870, era de 740 km e atinge a extensão de 9.000 km no final dos anos
1890. Outro fator importante nesse processo de modernização foi a
implantação da rede de telégrafos que, em 1874 foi conectada à Europa
por cabos submarinos. Nesse período a rede interna, interligando várias
partes do País, alcançava a extensão de 10.000 km (Andreatta, 2007:230).
11Em
consequência, as demandas crescentes de energia, comunicação,
transportes e outros serviços urbanos se consolidam e acabam por atrair
investimentos estrangeiros. Para garantir seus investimentos, contudo,
as estratégias das empresas que vinham se instalar no Brasil tiravam
proveito da fraca base tecnológica e dos conflitos de interesses entre
as classes dominantes à época para negociar vantagens e instituir um
modo de produção baseado em algum grau de monopolização da produção e
oferta dos serviços. Predominou, assim, a instituição de fortes
monopólios de geração e distribuição de energia, bem como de intenso
controle e oferta de modernização dos sistemas de transportes urbanos e
bondes (transvias), o que influiu significativamente na urbanização
brasileira.
12Em
1899, no dia 7 de abril, é fundada em São Paulo a Tramway, Light and
Power Company Limited, incorporada a Toronto (Ontário, Canadá), com um
capital de 6 milhões de dólares. Esse capital foi conseguido mediante os
estudos realizados por Pearson no ano anterior, que mostravam o grande
potencial econômico da Cidade de São Paulo, em face de que na cidade
“s’hi concentren els principals beneficis del negoci del cafè, hi ha uns
potents establiments bancaris i hi ha un desenvolupament industrial
latent dificultat per l’alt cost de l’energia degut a la necessària
importació del carbó” (Berenger, 2008:17).
13En
14 mesos, un temps récord, es va construir una presa i una casa de
turbines a Parnaíba que generava 2000 kW de potència, al riu Teitê, a 33
km de la ciutat, i una línia de d’alta tensó doble per transmetre
l’electricitat. Les obres es van iniciar al 16 de setembre de 1899 sota
les ordres de l’enginyer canadenc A.W.K. Billings, que ja es va vincular
a les empreses de Pearson treballant anys més tard a Barcelona, i la
central va entrar en funcionament per primera vegada al 23 de setembre
de 1901. La central aprofitava una caiguda d’aigua de 12 metres
alimentada per un embassament de 700 hectàrees mitjançant 3 turbines, i
els aparells elèctrics van ser proveïts per la General Electric dels
Estats Units (Berenger, 2008:17).
14A
Light, paralelamente às obras de construção da hidrelétrica, investe no
sistema de bondes da cidade, utilizando energia gerada em usinas
termoelétricas a vapor. Assim, em muito pouco tempo, devido ao aporte de
recursos e bons relacionamentos e contatos políticos em São Paulo, a
Companhia estabelece uma política de contratos e unificação dos serviços
de geração de energia e serviços de transportes urbanos. Com isso, sem
muito esforço, já em 1901 a Companhia absorve as demais empresas
existentes, como a Companhia de Água e Luz de São Paulo e a Companhia
Carris de Ferro de São Paulo, dando início ao forte monopólio de
produção e distribuição de energia no Brasil. Concretamente, como afirma
Elisabeth Weib, “estas duas áreas deram à empresa canadense uma base
suficiente para concorrer com as outras companhias que estivessem no seu
caminho, ou absorvê-las”.
15Em
uma década, o crescimento da companhia foi notável. Em 1900, a Light
operava uma rede de trilhos eletrificados de 24 km e 25 bondes elétricos
e, em 1912, a rede já totalizava uma extensão de 202 km e operava um
total de 257 veículos elétricos. Tal fato evidencia o potencial de
consumo e aumento exponencial da demanda nesse início de século na
Cidade de São Paulo. Associado a esse crescimento verifica-se, também, o
papel desempenhado pela Companhia no processo de urbanização da cidade.
Mesmo sem operar no campo imobiliário, a expansão da rede de bondes em
todas as zonas já urbanizadas, bem como nas áreas pouco adensadas nos
limites da cidade, fizeram com que a empresa estabelecesse acordos com
as empresas que operavam nesse campo. O sucesso nesse empreendimento foi
tão grande que o engenheiro Pearson buscou outros mercados, em especial
a cidade do México, em 1902, e a cidade do Rio de Janeiro, em 1904, com
a mesma intenção de dominar a geração de energia e a gestão dos
transvias. È a consolidação do projeto de associar a produção da cidade
aos negócios de energia e transvias.
16Em
julho de 1904 é criada a Rio de Janeiro Tramway, Light and Power
Company Limited. A companhia inicia suas atividades com um aporte de 4
milhões de dólares, obtidos pela associação da empresa criada por
Pearson, nos EUA, com os grupos financeiros de Toronto (Berenger,
2008:44). Diferentemente de São Paulo, que em 1900 tinha uma população
de cerca de 240 mil habitantes e iniciava seu processo de
industrialização, o Rio de Janeiro já passava dos 800 mil em 1904 e,
pelo fato de ser a Capital da República e a cidade mais industrializada
do País, dispunha de uma trama urbana de maior complexidade e de grande
número de serviços e infraestrutura já instalados. Essas dificuldades
foram bem sintetizadas por Weid, ao mostrar as redes de serviços e
concessões já em funcionamento:
“A
capital da República era um mercado tentador para os projetos dos dois
empresários mas, além das dificuldades político-burocráticas, havia
interesses estabelecidos em quase todas as áreas que lhes convinham. A
iluminação da capital era concessão da companhia belga Société Anonyme
du Gaz, tanto por meio do gás quanto da eletricidade; os transportes
coletivos sobre trilhos dependiam de concessões pertencentes a diversas
empresas que tinham privilégios de área dividindo a cidade: a Companhia
Jardim Botânico dominava a zona sul e a orla marítima, a Companhia de
São Cristóvão servia a Cidade Nova e a zona portuária, a Companhia de
Carris Urbanos controlava o centro da cidade e a Companhia Vila Isabel,
pertencente ao grupo alemão Siemens Halske Aktien Gesellschaft, tinha o
controle da área que se estendia para a Tijuca e zona norte. Além de
outras pequenas empresas com circuitos reduzidos ou distantes. O grupo
alemão tinha também o controle das comunicações telefônicas, com a
empresa Brasilianische Elektricitäts Gesellschaft, cuja compra era
incluída como condição para a aquisição da Companhia Vila Isabel. A
concessão para a produção de energia hidroelétrica estava em questão,
pois seu titular, William Reid, tinha desistido de desenvolvê-la e a
vendera ao Banco Nacional, que incorporara para isso a Companhia
Nacional de Eletricidade. Havia um grande número de empresários
interessados em adquiri-la, apesar de estar sua aplicação limitada à
distribuição de força motriz, uma vez que a iluminação era privilégio da
empresa belga” (WEID, 1994:4).
17Todavia,
com a demanda crescente de energia o engenheiro americano Pearson e o
canadense Mackenzie resolveram enfrentar os desafios, em face das
perspectivas favoráveis que despontavam na cidade. A primeira
dificuldade a ser superada foi obter a concessão de exploração do Rio
Laje, para a construção de sua hidrelétrica, já concedida à William Reid
& Cia., bem como adquirir as ações de outras empresas, inclusive a
belga Société Anonyme du Gaz. Isso foi conquistado já no ano de 1905,
devido ao bom relacionamento político e à rápida associação feita com a
direção do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro.
18Em
1905, iniciava-se a construção da Usina de Fontes para produzir energia
elétrica gerada por força hidráulica. Para viabilizar o funcionamento
da usina, iniciou-se também a construção da barragem e do reservatório
de água em uma área situada na porção sul do planalto da Serra do Mar,
localizada a 64 quilômetros do Rio de Janeiro, nos municípios de Piraí,
São João Marcos e Mangaratiba. A construção da usina transcorreu em meio
a uma grave crise financeira interna da empresa, devido à necessidade
de realizar simultaneamente vários outros investimentos na cidade, e a
um surto de malária, que perdurou durante os três anos de construção da
represa na região de Lajes e nas cidades próximas, como Piraí e São João
Marcos.
19Em
termos de produção de energia, em 1908, enfim, entra em operação a
Hidrelétrica de Fontes (fotos 1 e 2 - prédio menor, à esquerda na foto),
situada no município de Piraí, para a qual foi construída a represa de
Ribeirão das Lajes (fotos 3 e 4), a maior hidrelétrica do Brasil naquele
momento. A capacidade de geração de energia foi aumentada, em 1913, em
mais de 60% com a inauguração do segundo sistema de alimentação da Usina
(prédio maior da foto 1).
Foto 1 : Usina de fontes

Fonte : Light
Fotos 3: Represa de Ribeirão das Lajes, Piraí.
Fonte: Floriano J. G. de Oliveira, 2005.
|
|
Foto 4 : Represa de Ribeirão das Lajes, Piraí
Fonte : Floriano J.G. de Oliveira, 2005.
20No
transcurso desses anos, enquanto construía as represas, a Rio Light
buscou estabelecer a dominação monopolística da produção e distribuição
de energia no Distrito Federal e nos demais municípios na parte sul do
Estado do Rio de Janeiro. Mas, para conseguir esse objetivo, com vistas
ao monopólio de produção e distribuição de energia e serviços de
transvias, a Rio Light acaba se convertendo em empresa com atuação em
outras áreas, como as de serviços de iluminação pública, telefonia e
distribuição de gás, já que, “per a arribar a tenir el monopoli
energètic, que finalment aconsegueix, va comprar una sèrie d’empreses i
va acabar controlant, també de forma monopolística, els serveis públics
de tramvies, de gas, d’enllumenat i de telefonia” (Berenger, 2008:46).
Inegavelmente, o maior interesse da Companhia era a produção de energia e
transvias, cujo controle absoluto detém durante toda a primeira metade
do século XX, e fazer com que “la Light (de hecho el grupo Brazilian
Traction Light) se convirtió en um monopolio de los servicios urbanos,
que a su vez comenzó a operar en inversiones y emprendimientos
inmobiliarios, mediante la Brazilian Securities Company Ltd creada en
1904 (Andreatta, 2007:242).
21Já
em 1905, a Rio Light obtém a concessão de exploração de várias linhas
de bondes na cidade, e pouco a pouco vai adquirindo as demais
concorrentes, como La Ferro Carril e Hotel Corcovado, as empresas de
bonde Companhia de São Cristóvão, Companhia de Carris Urbanos, Companhia
Ferro Carril Carioca, Companhia Ferro Carril do Jardim Botânico e a
Companhia Ferro-Carril de Vila Isabel (Berenger, 2008:47). Em 1909, já
domina monopolisticamente todo esse serviço na cidade, à exceção de uma
pequena companhia de bondes na Ilha do Governador.
22A
empresa de Pearson no Rio de Janeiro, portanto, adquire grande
influência no processo de expansão da cidade, já que seu crescimento em
direção à zona sul e ao maciço da Tijuca é sustentado exclusivamente no
transporte sobre trilhos. Esse processo foi inaugurado já em 1892, com a
eletrificação dos primeiros bondes em direção ao Jardim Botânico e a
Copacabana, influindo decisivamente na consolidação desses bairros. O
mesmo ocorreria no sentido de Tijuca e Vila Isabel, bairros em que se
situavam grandes chácaras que, com a chegada dos bondes, foram loteadas.
23Com
as grandes reformas urbanísticas promovidas pelo prefeito Pereira
Passos a partir de 1904 no centro da cidade, a migração para os bairros
próximos ao Centro se intensifica e a cidade vai ganhando seus contornos
atuais: as classes de menor renda passam a ocupar os subúrbios,
utilizando os trens urbanos como principal meio de transporte, e as
classes mais abastadas dirigem-se aos novos bairros que vão sendo
abertos no traçado dos transvias.
24Assim,
concordando com Elisabeth Weid, é inegável o papel dos bondes na
expansão urbana das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Por isso,
acreditamos que ainda há muito a se estudar sobre a influência e as
estratégias das empresas na implantação desses serviços, pois, além dos
altos rendimentos capitalistas que a Light São Paulo e a Light Rio de
Janeiro obtiveram, vimos também, nesse processo, a significativa
expansão do tecido urbano nessas duas grandes metrópoles.
25A
concessão para produção e distribuição de energia gerada por
hidrelétrica no estado do Rio de Janeiro foi adquirida pelo engenheiro
britânico William Reid em dezembro de 1899. Com essa aquisição, Reid
iniciou, em 1903, a construção do reservatório de Ribeirão das Lajes,
distante 80 km da cidade do Rio de Janeiro, na área do planalto do Médio
Vale do Paraíba. Essa concessão foi vendida à Light em dezembro de
1904, quando então se retomaram as obras, e a nova Companhia concluiu a
construção da represa e da usina de Fontes, em 1908, iniciando
efetivamente a geração de energia hidrelétrica de grande porte no
estado.
- 1 Fundada em 1737, a cidade de São João Marcos localizava-se no reverso da Serra do Mar e pertencia a (...)
26Diversos
foram os impactos causados pela construção dessa represa na região sul
fluminense, inclusive a extinção de um município, São João Marcos 1.
Município onde nasceu o ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro,
engenheiro Pereira Passos, a cidade de São João Marcos chegou a ser uma
das mais populosa do estado, contando com cerca de 20 mil habitantes até
o início do século XX. A Light recebeu o direito a desapropriação das
terras em 1941, quando o Presidente Vargas, no início do Estado Novo,
concedeu o destombamento da cidade, que tivera suas construções tombadas
pelo antigo SPHAN como Patrimônio Histórico da Humanidade dois anos
antes.
27Esse
fato expressa o intenso movimento de expansão do sistema de
armazenamento de água nas represas, geração de energia e,
consequentemente, formação de um imenso latifúndio, de propriedade da
empresa até os dias de hoje. Um ano antes da conclusão das obras, em 19
de abril de 1907, o governo do estado do Rio de Janeiro deu autorização
para que fosse aumentada a disponibilidade hídrica do Reservatório de
Lajes por meio de um desvio parcial das águas do rio Piraí, afluente do
Paraíba do Sul. A potência econômica que proporcionaria o desvio dessas
águas para o Ribeirão das Lajes era de tamanha importância que a
companhia, a título de indenização, pagou aos cofres do Estado a quantia
de mil contos de réis, sendo 500 em dinheiro e 500 em apólices do
empréstimo popular realizado pelo Estado do Rio de Janeiro. Vale
ressaltar que os municípios de São João Marcos, Rio Claro e Piraí não
receberam compensação alguma do governo nessa indenização (Dantas,
1938).
28A
intenção da empresa de se expandir era evidente e, à medida que a
energia elétrica se tornava cada vez mais parte integrante do cotidiano
da cidade, a necessidade de aumentar a produção também crescia.
Complementarmente a isso, a Light já pensava em estratégias que
promovessem a instalação de novas usinas e, por conseguinte, a sua
consolidação na geração de energia no sul do estado do Rio de Janeiro.
- 2 A Usina de Fontes Velha recebeu a inclusão de duas adutoras na década de 1940. Construídas pelo gov (...)
29Contudo,
foi a partir do Governo Vargas, em face do aumento expressivo da
demanda de energia elétrica e da necessidade de uma fonte adicional de
água na cidade do Rio de Janeiro, que o governo autoriza a ampliação sem
restrições do complexo de Ribeirão das Lajes. Em 1940, no governo do
Presidente Getúlio Vargas, assinou o Decreto-Lei 2059/40, que previa o
aumento da capacidade do reservatório de Ribeirão das Lajes – através da
elevação de sua barragem – com o duplo intuito de suprir aumento da
capacidade de geração de energia e, ao mesmo tempo, fornecer água à
cidade. Tais objetivos são alcançados com a construção da segunda usina
geradora de energia, a Usina de Fontes Nova (foto 2), e da adutora que
corta todo o território entre a represa e a zona sul da cidade do Rio de
Janeiro 2. Esse sistema de abastecimento de água funciona até os dias de hoje.
30No
caso do Complexo de Lajes, após a construção da Usina de Fontes Nova o
Grupo Light continuou se empenhando na elaboração de projetos para novas
usinas. Em termos gráficos, visualizaremos, por meio das figuras que
apresentaremos a seguir, representações dos sistemas de produção de
energia e abastecimento de água criados do início do século XX até o
início da segunda metade do século.
31O
primeiro subsistema desenvolvido pela empresa canadense é o sistema de
Lajes, que se situa entre os municípios de Rio Claro e Piraí. Composto
pelo Reservatório de Lajes, Reservatório de Tocos, Barragem de Tocos e
pelas Usinas de Fontes Velha e Fontes Nova, tal subsistema é o
responsável pela desocupação do município de São João Marcos, já
mencionado.
Figura 1. Ilustração do esquema de aproveitamento hídrico do Subsistema Lajes
Fonte: Site Light e Energia.
32Esse
subsistema opera sob o conceito clássico de represa e usina associada,
ou seja, o reservatório é interligado diretamente por dutos ao sistema
de geradores da usina. Já o segundo sistema é mais complexo, pois opera
com a transposição de águas do Rio Paraíba do Sul para a movimentação
das turbinas nas novas usinas criadas nessa fase de expansão do sistema.
Para a continuidade da ampliação de suas instalações, a Light foi
autorizada pelo Governo Federal, em 1945, a desviar as águas do Rio
Paraíba do Sul e do Rio Piraí para implantação de novas usinas
hidrelétricas – Nilo Peçanha e Pereira Passos – que foram instaladas no
entorno das usinas de Fontes Velha e Fontes Nova.
33O
funcionamento desse sistema começa com o fechamento do canal por onde o
Piraí desaguava no Rio Paraíba do Sul. Com isso se institui o
represamento do Rio Piraí e, por meio da transposição de águas do
Paraíba do Sul, uma ampliação do seu volume de águas para a “nova”
represa que surgia com o fechamento do canal. Essa “nova” represa,
então, passa a receber contribuições de águas tanto das nascentes do Rio
Piraí, no município de Rio Claro, localizado na Serra do Mar, quanto da
transposição das águas do Paraíba do Sul. As águas dessa nova represa
são bombeadas pela Estação Elevatória de Vigário, no centro da Cidade de
Piraí, para os lagos artificiais que levam as águas dessa represa ao
ponto de adutoração da Usina Nilo Peçanha, construída junto das usinas
Fontes e Fontes Nova.
Foto 5. Estação captadora e bombeadora de Barra do Piraí
Light S.A.
|
|
Foto 6. Estação Elevatória de Vigário, em Piraí.
Floriano de Oliveira, 2005.
34Surge,
então, o segundo subsistema daquele que viria a ser denominado Complexo
de Lajes, o subsistema Paraíba-Piraí, conforme se pode observar a
seguir.
Figura 2. Ilustração do esquema de aproveitamento hídrico do Subsistema Paraíba-Piraí
Fonte: Site Light e Energia.
35
Por fim, como aproveitamento final das águas usadas nos dois
subsistemas, há ainda uma última utilização dessas águas pela Usina
Pereira Passos. Trata-se de uma usina de menor capacidade, que aproveita
a declividade natural do rio que se forma a jusante dos sistemas mais
antigos, para geração de mais energia.
Figura 3. Ilustração do esquema de aproveitamento hídrico do Subsistema Pereira Passos
Fonte: Site Light e Energia.
36Ao
avaliar a formação desses subsistemas verificamos que a constituição da
Companhia, em seus 108 anos no estado, envolveu uma extensa área
territorial, que ainda hoje compõe o patrimônio da Companhia.
Seguramente podemos afirmar que tal propriedade constitui a maior
propriedade fundiária do estado, que envolve parte dos territórios dos
municípios de Piraí, Barra do Piraí, Rio Claro e Mangaratiba.
37A
vinda da Light and Power para o Rio de Janeiro, após a compra dos
direitos de geração de energia, em 1904, dependia também, para ser um
empreendimento rentável, de autorização para atuação em outros ramos de
prestação de serviços, em particular, a quebra da concessão de
distribuição e iluminação pública concedida à Cia. Belga Société Anonyme
Du Gaz. Tal questão envolveu uma acirrada disputa empresarial entre a
Light e um dos principais grupos econômicos cariocas, o grupo Garffée
& Guinle, que também tinha interesses no ramo de serviços urbanos, e
as demais pequenas empresas concessionárias.
38O
resultado dessa disputa e desse jogo de influências políticas foi a
projeção do grupo The Rio de Janeiro Tramway Light and Power não para um
setor específico de interesse da companhia, que era a produção e
distribuição de energia, sobretudo para áreas de iluminação pública,
mas, agora, estrategicamente, também para os serviços de transporte
sobre trilhos e de distribuição de gás. A estratégia foi comprar as
pequenas companhias de bondes e eletrificar o sistema a partir de
pequenas usinas termoelétricas, e assim ir adquirindo forças para
conseguir o monopólio.
39Assim,
a Light and Power, além dos investimentos para garantir as obras de
construção da Represa de Ribeirão das Lajes e a Usina Hidrelétrica de
Fontes, passou a adquirir as concessões e companhias preexistentes, como
a Companhia Ferro-Carril de Vila Isabel, a companhia de telefones, a
companhia de gás, em geral realizando parte do pagamento com a troca de
títulos das companhias por títulos da Rio-Light (Weid, 2003). A
estratégia logrou êxito após a entrada em operação da Usina de Fontes,
em 1908, quando então, com base na alta disponibilidade de energia
elétrica, a Companhia passa a se capitalizar e superar as inúmeras
dificuldades na compra das demais concessionárias. A partir daquele ano a
Light passa a exercer total domínio sobre os serviços no Distrito
Federal, e as poucas empresas que ainda não pertenciam à Light foram
sendo subjugadas e anexadas, através de compra direta ou controle
acionário. Assim foi com a empresa Braconnot & Irmãos, produtora de
energia elétrica por meio de termoelétrica; a empresa inglesa Companhia
Ferro-Carril, proprietária do Hotel Corcovado; a Cia. Ferro Carril de
Jacarepaguá, com 15 km de trilhos, adquirida em 19117; várias empresas
nacionais de bondes, como a Companhia de São Cristóvão, a Companhia de
Carris Urbanos e, sobretudo, a Companhia de Ferro Carril do Jardim
Botânico. Esta última teve sua anexação definitiva em 1910.
40O
transporte de massas ferroviário e as companhias de carris (bondes)
foram dois elementos fundamentais para a expansão da cidade do Rio de
Janeiro e passaram a atuar emconjunto. Isso porque o transporte de
massas (trens) permitiu o desafogo do Centro e as companhias de carris
ampliaram a malha urbana muito além do antigo Centro e até mesmo da
Cidade Nova, que se formava na época. A maneira como se deu esse
processo levou a uma nova estruturação social do espaço, principalmente
devido à importância dos bondes na organização e na ampliação da malha
urbana do Rio de Janeiro.
41Até
o início do século XX, portanto a Cia. de Carris Jardim Botânico, bem
como inúmeras outras companhias menores que se formaram ao longo dos
anos, foram elementos fundamentais na expansão e urbanização dos
principais bairros e vias de acessos hoje existentes na cidade do Rio de
Janeiro. Essa expansão, promovida em um primeiro momento pelos bondes
de tração animal, foi posteriormente intensificada com o início dos
processos de eletrificação dos mesmos com a chegada da Light and Power à
cidade do Rio de Janeiro.
42Com
efeito, a partir de 1907 a Light and Power entra no ramo de transportes
sobre trilhos e intensifica a ocupação e expansão urbanas apoiada na
eletrificação dos bondes. Tal fato tanto potencializa as linhas e a
ocupação da zona sul da cidade como oferece maiores possibilidades de
expansão da zona norte em trechos mais afastados da rede ferroviária,
adensando a região conhecida como Tijuca, Andaraí e Engenho Novo. O Mapa
1, mostrado a seguir, também publicado por Elizabeth Weid (2003),
mostra a intricada rede de linhas de bondes que atuavam como complemento
à rede ferroviária.
43Entre
1905 e 1907, enquanto construía a represa e a usina de Lajes, a Light
atuou no sistema de bondes adquirindo as empresas ou assumindo seu
controle acionário. Assim, em 1907, consegue um contrato de unificação
das três maiores empresas que operavam a partir do centro da cidade em
direção à zona norte e aos subúrbios: a São Cristóvão, a Vila Isabel e a
Carris Urbanos. Tendo o domínio dessas empresas, a Light passa a
investir intensamente na aquisição e expansão de sua rede para todo o
subúrbio carioca, estabelecendo uma grande rede de transportes
complementares às ferrovias.
44Concretamente,
a Light tornou-se proprietária e, portanto, monopolista, de todas as
empresas de transporte sobre trilhos da cidade do Rio de Janeiro, com
exceção da companhia que operava na Ilha do Governador. A estratégia
adotada foi anexar as novas empresas adquiridas àquelas “que tivessem o
itinerário mais próximo”, como salientou Weid (2003:27), “como ocorreu
com a companhia Ferro-Carril de Madureira, que foi incorporada à
Companhia de Vila Isabel, passando a fazer parte do sistema integrado”
(idem). A partir dessa nova companhia, a Light também adquiriu a
concessão da linha até o Largo da Matriz, em Irajá, e chegou até
Jacarepaguá.
45Em
1909, todas as linhas de bondes da cidade já estavam sob controle
direto ou acionário da Light e, por conseguinte eletrificadas. Dessa
forma, aproveitando as obras de reforma urbana do prefeito Pereira
Passos no Centro e em alguns bairros, fiel ao princípio de higienização
predominante na época, a Light foi ampliando a rede de trilhos e
promovendo uma intensa expansão da malha urbana nos subúrbios cariocaa a
partir da companhia Vila Isabel, e, no sentido da zona sul, estendendo a
rede sob administração da Companhia Jardim Botânico, indo de Copacabana
para Ipanema e Leblon, fechando assim o circuito com a linha que
chegava até a Gávea, via Jardim Botânico. O circuito completo na zona
sul foi concluído em 1914.
46Na
parte sul da cidade a Light apenas modernizou e eletrificou as redes
existentes, produzidas pela Cia. Jardim Botânico, mas, no sentido da
zona norte, os investimentos em novas linhas foram mais intensos, tendo
em vista a necessidade de integrar toda a rede. A partir de pequenas
empresas que faziam a ligação do interior dos bairros à rede
ferroviária, a Light foi realizando a expansão da rede. Nessa parte da
cidade não eram apenas os passageiros que influíam na extensão dos
serviços. Havia também o transporte de cargas que permitia a
movimentação de mercadorias nos subúrbios até à rede ferroviária e ao
porto.
47A estratégia da Light foi, desde o início, construir um holding
regional, unificando sob seu comando o maior número possível de
concessionárias de serviço de utilidade pública. Elaborou, então, uma
intricada articulação técnica e política de modo a conseguir apoio nas
esferas governamentais para, ao mesmo tempo, garantir a concessão
monopolista de alguns serviços, para afastar a concorrência, e ampliar
ao máximo possível os prazos das concessões. Com isso, tornou-se, em
poucos anos, a maior e praticamente única empresa concessionária de
serviços de utilidade pública na cidade do Rio de Janeiro.
48A
empresa, a partir da produção e de uma ampla rede de distribuição de
energia, destacou-se em dois campos estratégicos da expansão urbana da
cidade: a modernização do parque industrial, oferecendo energia elétrica
em quantidade suficiente para ampliação das operações industriais; e a
eletrificação de todo o sistema de bondes, permitindo um alcance
espacial infinitamente superior às possibilidades oferecidas pelo antigo
sistema de tração animal.
49Nesse
último campo é relevante acrescentar que, quando a Light chegou ao Rio,
já havia implantada uma importante rede de transportes, mas baseada em
pequenas empresas isoladas. A unificação de todo o sistema foi o marco
de um modelo de concentração e dominação dos serviços, cujo resultado é a
instituição de um modelo de oferta privada de serviços de utilidade
pública que até hoje marca a constituição da estrutura de oferta e
exploração desses serviços, e que compromete totalmente a qualidade e a
quantidade de seu fornecimento.