1Pensar
a geografia econômica hoje é pensar sobre a complexidade do mundo
atual. Como alerta Martin (1996), houve muitas transformações nas
relações entre os lugares e o mundo, e tais fenômenos demandam novas
teorias geográficas para a análise dos sistemas produtivos. Martin
(1996) ressalta a necessidade de considerarmos as particularidades dos
lugares e as conexões com as escalas maiores. De fato, no período
tecnocientífico e informacional (Santos, 2002) é impossível estudar o
lugar pelo lugar.
2No
entanto, a Geografia precisou rever suas bases teóricas e metodológicas
para explicar as mudanças contemporâneas. Para autores clássicos como
George (1970), a Geografia Econômica tem por objeto de estudo as formas
da produção, assim como a localização do consumo dos diferentes produtos
no âmbito mundial. A distribuição dos homens pelo planeta, bem como os
modos de produção e fabrico relacionados a esses grupos humanos são as
chaves que explicam a vida econômica. Entretanto, George (1970) alerta
sobre a primazia da indústria no entendimento dos mecanismos econômicos
contemporâneos. Tomando como foco os territórios europeus, de fato a
Geografia Econômica foi obrigada a debruçar-se sobre o processo de
industrialização; por isso, muitas vezes a subdisciplina Geografia
Econômica foi quase sinônimo de Geografia da Indústria.
3 A
localização industrial e o desenvolvimento regional foram estudados
classicamente com bases em três teorias: clássica, keynesiana e
marxiana. Porém, entramos em uma nova fase do desenvolvimento econômico,
sobretudo em virtude das mudanças e do uso das novas tecnologias da
informação e comunicação (Martin, 1996). A Geografia da produção e do
consumo transformou-se radicalmente após os anos 1970, havendo
deslocamento da indústria dos territórios centrais para territórios
periféricos como Brasil e Índia. Nesse novo período histórico e
geográfico as atividades produtivas fundam-se em bases tecnocientíficas,
na expansão do crédito, ou, melhor, na ascensão do capital financeiro e
na publicidade que se associa à obsolescência programada dos produtos.
4A
Geografia Econômica trouxe várias teorias para explicar a maneira como a
produção vem se organizando, entre as quais a escola da regulação ganha
destaque. Martin (1996) sublinha o fato de essas teorias serem
demasiadamente generalistas ou localistas ou mesmo abordarem as
atividades econômicas a partir apenas da indústria. Tais teorias não se
mostraram suficientemente fortes para a compreensão dos países
periféricos, talvez nem mesmo para as economias avançadas na atualidade.
5Por
isso, é necessário enxergarmos o mundo a partir de teorias que
considerem a globalização, vista do ponto de vista geográfico como a
difusão do meio tecnocientífico e informacional (Santos, 2002);
analisarmos os territórios a partir do seu uso e não do território em
si, ou seja, o território usado (Santos e Silveira, 2001) – que
diz respeito à maneira como as formas e ações combinam-se quantitativa-
e qualitativamente e geram usos distintos, revelados nos lugares.
Especialmente na análise da dialética entre o espaço e a economia, os
circuitos espaciais de produção (Santos, 1986; Moraes, 1991) e a teoria
dos dois circuitos da economia urbana (Santos, 2004) constituem um
conjunto de possibilidades para a compreensão do complexo mundo das
atividades produtivas que gera uma vida de relações (George, 1968) nos lugares além do econômico.
6Dessa
forma, apresentamos neste artigo o funcionamento empírico do ramo do
vestuário com foco na cidade de São Paulo, conduzido pelos conceitos e
teorias apresentadas anteriormente. Nosso objetivo é mostrar como se
organiza o circuito espacial de produção do vestuário, ressaltando suas
particularidades, e mostrar como, nos anos 1990, houve uma reorganização
desse circuito e como o circuito espacial de produção, que é técnico e
diz respeito à maneira como o “circuito das firmas” organiza a produção e
dialoga com a economia urbana da cidade, formando o subsistema superior
e o subsistema inferior.
7O
circuito espacial de produção constitui-se em circuitos de acumulação
que se estruturam conforme as etapas produção, circulação, comércio e
consumo (Santos, 1986; Moraes, 1991) até que a matéria-prima seja
transformada em consumo ─ logo, em dinheiro e lucro para o agente que
comanda o circuito da produção.
8Tecnicamente,
o circuito espacial de produção de vestuário se dá da seguinte maneira:
na etapa de produção há a concepção da peça, elaboração do design,
escolha da cor, modelagem e costura. Na sequência vem a distribuição,
que se organiza de acordo com o ator que esteja no comando do circuito,
isto é, o ator que comanda a acumulação (grandes marcas, redes
varejistas, comerciantes de pequeno porte, feirantes etc.). Após a
distribuição as peças são comercializadas, e novamente a forma de
comercialização obedece ao tipo de ator que comanda o circuito. Se for
de grandes marcas, há redes de lojas próprias ou autorizadas. No caso
dos atacadistas, eles estão concentrados nas áreas de especialização do
Brás e do Bom Retiro, na cidade de São Paulo, o que evidencia que estes
dependem dessa aglomeração para sobressaírem no cenário nacional. Os
pequenos comerciantes desses dois bairros de São Paulo e os expositores
da Feira da Madrugada constituem outra situação dentro do circuito
espacial do vestuário. Estes muitas vezes concentram todas as etapas da
produção em um só agente, ou mesmo repassam a costura para pequenas
oficinas, mas geram na cidade atividades e materialidades
características do circuito inferior.
9A
produção de vestuário apresenta uma especificidade, que é a demanda de
intensa mão de obra na etapa de costura, pois esse tipo de produção
exige os movimentos refinados das mãos, ainda não substituíveis pelas
máquinas. Com a forte industrialização da cidade, especialmente entre
1930 e 1970, São Paulo tornou-se concentradora das atividades do ramo
têxtil, e com este surgiu a produção de vestuário. No entanto, nos anos
1980 houve uma forte crise econômica no País e desaceleração da
indústria. Uma década depois, observa-se uma desconcentração industrial
do ramo de vestuário para alguns lugares do território brasileiro.
Entretanto, a categoria circuito espacial de produção nos ajuda a
visualizar que em cada etapa da produção é possível gerar sinergias com
os lugares e, ao mesmo tempo, as possibilidades de transporte e
comunicação de longa distância também possibilitam a fragmentação cada
vez maior do circuito espacial de produção.
10Não
podemos, contudo, confundir desconcentração de determinadas etapas da
produção pelo território nacional (ou mesmo para outros territórios) com
descentralização do capital. Basta observar onde estão as atividades
dos circuitos espaciais de produção geradoras de atividades do circuito
superior. Ainda que a costura e mesmo o consumidor possam estar
dispersos no território, há centros de comando da produção que, em
grande medida, revelam a centralização do capital. A divisão territorial
do trabalho expressa a especialização produtiva dos lugares em tarefas
que agregam mais valor dentro dos circuitos espaciais de produção. No
entanto, o comando dos circuitos está localizado em poucos lugares.
11Houve
uma reorganização dos circuitos espaciais de produção em escala
planetária. Muitas redes de comércio de vestuário e marcas mundialmente
conhecidas dispersaram a produção por meio da subcontratação. Os países
asiáticos, o Norte da África, o Leste Europeu, a América Central
tornaram-se redutos da etapa de costura dentro dos circuitos planetários
das grandes empresas do ramo de vestuário.
12Além
desses territórios, uma prática muito comum das empresas foi o uso de
mãode obra imigrante no processo de produção nas grandes metrópoles:
Nova Iorque, Paris e Los Angeles e mesmo São Paulo abrigam áreas de
produção da indústria de vestuário. O imigrante, em virtude de sua
situação de fragilidade, acaba transformando-se na mão de obra ideal
para esse ramo. Na metrópole de São Paulo, os bolivianos compõem cerca
de 70% da mão de obra de costura (Informação extraída do documentário
“Nação oculta – os bolivianos em São Paulo”, produzido por Diego Arraya,
Mosaico Filmes, 2008).
13Considerando
a dinâmica regional brasileira, identificamos um forte processo de
desconcentração da produção, na etapa de costura, no território
brasileiro. As Tabelas 1 e 2 mostram como o município de São Paulo
perdeu pessoal ocupado e estabelecimentos no ramo de vestuário. São
Paulo, que empregava 22,9% do pessoal ocupado no Brasil em 1994, passa a
empregar, em 2009, 12,9%. Observou-se queda também na participação do
município com relação ao número de estabelecimentos, de 25% para 15%.
Entretanto, enfatizamos que a dispersão de uma etapa do circuito
espacial não significa, necessariamente, perda de importância da
atividade para a cidade de São Paulo, pois, como já apontamos, as
grandes empresas comandam os circuitos de acumulação e atuam fortemente
nas etapas de maior valor do circuito, como pesquisa, desenvolvimento,
concepção, design, logística e comércio. Dessa forma, ainda que
haja uma dispersão da produção, há também uma centralização das
atividades mais sofisticadas na metrópole de São Paulo.
Tabela 1: Pessoal ocupado na produção de confecção e acessórios (1994 - 2009)
|
Município de SP
|
%
|
Estado deSP
|
%
|
Brasil
|
|
1994
|
88.319
|
22,9
|
150.768
|
39,2
|
384.952
|
|
1995
|
79.382
|
22,2
|
136.937
|
38,2
|
358.286
|
|
1996
|
68.925
|
19,7
|
124.105
|
35,5
|
349.530
|
|
1997
|
58.461
|
17,0
|
110.542
|
32,2
|
343.097
|
|
1998
|
52.850
|
15,3
|
104.098
|
30,0
|
346.499
|
|
1999
|
56.176
|
14,9
|
109.253
|
29,0
|
376.803
|
|
2000
|
60.854
|
14,8
|
118.615
|
28,8
|
411.272
|
|
2001
|
59.300
|
14,1
|
118.608
|
28,2
|
421.138
|
|
2002
|
60.912
|
13,7
|
121.662
|
27,4
|
444.365
|
|
2003
|
59.910
|
13,4
|
123.125
|
27,5
|
448.524
|
|
2004
|
65.006
|
13,1
|
137.719
|
27,8
|
495.727
|
|
2005
|
68.232
|
13,1
|
145.400
|
27,8
|
522.717
|
|
2006
|
73.938
|
13,4
|
154.911
|
28,0
|
552.430
|
|
2007
|
78.144
|
13,2
|
161.903
|
27,4
|
591.226
|
|
2008
|
81.252
|
13,1
|
165.714
|
26,8
|
618.595
|
|
2009
|
81.454
|
12,9
|
166.620
|
26,3
|
632.350
|
Fonte: RAIS-CAGED; elaboração da autora, 2011.
Tabela 2: Estabelecimentos de produção de confecção e acessórios (1994 - 2009)
|
Município de SP
|
%
|
Estado de SP
|
%
|
Brasil
|
|
1994
|
6.957
|
25,0
|
11.059
|
40,0
|
27.761
|
|
1995
|
7.437
|
23,0
|
12.156
|
38,0
|
32.111
|
|
1996
|
6.842
|
22,0
|
11.294
|
36,0
|
31.436
|
|
1997
|
6.408
|
20,0
|
10.996
|
34,0
|
32.485
|
|
1998
|
5.843
|
18,0
|
10.346
|
32,0
|
32.444
|
|
1999
|
5.821
|
18,0
|
10.227
|
31,0
|
33.061
|
|
2000
|
6.037
|
17,0
|
10.634
|
31,0
|
34.745
|
|
2001
|
6.136
|
17,0
|
11.038
|
30,0
|
36.797
|
|
2002
|
6.220
|
16,0
|
11.274
|
29,0
|
38.318
|
|
2003
|
6.175
|
16,0
|
11.308
|
29,0
|
39.041
|
|
2004
|
6.261
|
15,0
|
11.669
|
29,0
|
40.485
|
|
2005
|
6.447
|
15,0
|
12.182
|
29,0
|
42.066
|
|
2006
|
6.753
|
15,0
|
12.738
|
29,0
|
44.142
|
|
2007
|
6.966
|
15,0
|
13.193
|
29,0
|
45.979
|
|
2008
|
7.356
|
15,0
|
13.959
|
29,0
|
48.577
|
|
2009
|
7.476
|
15,0
|
14.220
|
28,0
|
50.368
|
Fonte: RAIS-CAGED; elaboração da autora, 2011.
14A
dispersão da produção, especialmente na subetapa de costura no circuito
espacial de produção do vestuário, ocorreu em virtude dos altos preços
da mão de obra nas áreas de produção mais antigas, como São Paulo, em
função dos incentivos fiscais, tributários e territoriais oferecidos às
empresas para se deslocarem para o Nordeste. O aumento da facilidade
trazida pela maior densidade de transportes e comunicações também
constitui fator fundamental para o deslocamento da produção para outras
regiões do território brasileiro e mesmo do estado de São Paulo.
15Lencioni
(1991), estudando a reestruturação da indústria na metrópole de São
Paulo a partir do ramo têxtil, alerta para o fato de que essas
transformações têm como base o urbano, o industrial e o regional,
afirmando (1991, p. 15) que “a reestruturação urbano-industrial é
condicionada pelos processos de concentração e centralização na
reprodução do capital e sua manifestação se configura na desconcentração
da metrópole”. A autora acrescenta ainda que a dispersão da produção e
mesmo o crescimento de algumas cidades do interior paulista fazem parte
do processo de metropolização; não se trata de uma negação da metrópole,
e sim de uma conformação da macrometrópole paulista, pois a dispersão ocorreu em um raio de até 150 km da capital.
16A
outra face do processo de dispersão da produção são as formas de
centralização do capital como associações de empresas de capital
privado, absorções e fusões e a subcontratação (Lencioni, 1991).
17A
reorganização da produção nos países centrais, em que o emprego do
sistema de subcontratação de oficinas tornou-se comum, teve rebatimentos
concretos no território brasileiro, tanto com relação às empresas
multinacionais que passaram a usar esse sistema, substituindo as grandes
instalações industriais, como também em relação às empresas de médio
porte que também passaram a se utilizar da subcontratação. Os
comerciantes do Brás e do Bom Retiro, em grande parte, também
terceirizam a etapa de produção.
18Esse
movimento revela que há um aprofundamento da divisão técnica do
trabalho, juntamente com um aumento da especialização territorial do
trabalho em determinadas etapas da produção. O comando do lucro
concentra-se nos agentes do comércio; por isso, em período recente houve
um significativo crescimento das empresas de varejo de vestuário no
Brasil e há uma tendência à formação de conglomerados das grandes
marcas.
19A moda vem se tornando assunto para grandes investidores, e, segundo reportagem da revista Época
(18/2/2008), o Brasil passa por processo semelhante ao ocorrido na
Europa nos anos 1980, em que as grandes marcas da alta–costura, como
Gucci, Armani e Louis Vuitton, passaram a ser compradas e controladas
por grandes corporações, em geral conglomerados financeiros. Essas
grifes foram compradas por corporações como a francesa LVMH, cujo valor
de mercado está próximo de US$ 54 bilhões. O grupo é dono de mais de 50
marcas de luxo, entre elas Dior e Fendi. Seu principal rival no mundo é o
grupo PPR, também francês, que cuida de marcas como Gucci e Balenciaga.
No Brasil, foi criada em 2008 a holding Inbrands, com 50% do
UBS Pactual (banco suíço-brasileiro), 42,5% de Alvarenga (sócio-fundador
da Ellus) e 7,5% de Breia (sócio da Ellus). Para criar a holding,
o banco entrou com uma quantia estimada em R$ 100 milhões, enquanto
Alvarenga e o sócio aportaram o patrimônio da empresa, que fatura R$ 200
milhões por ano (revista Época, 2008). Esse processo reitera
as mudanças de estratégias dos investimentos dos grupos industriais
apontadas por Arroyo (2006), ou seja, as empresas industriais vêm
colocando seus ativos em aplicações financeiras, corroborando o
movimento de “financeirização da riqueza”, no qual o maior problema é o
caráter rentista desse movimento. Mesmo em uma atividade industrial
tradicional como a do vestuário tais processos se implantaram.
20
Dessa forma, os atores que comandam os circuitos produtivos – aqueles
que se beneficiam da valorização do capital, ao longo das etapas de
produção – correspondem ao grande capital, e localizam-se nas grandes
metrópoles mundiais. Mesmo que dispersem a produção, a inteligência das
empresas necessita de lugares nos quais a racionalidade científica, a
densidade comunicacional e de circulação e os serviços quaternários
estejam presentes (consultorias jurídicas, de informática, logística,
financeiras, agências de publicidade etc.); por isso as sedes de poder
encontram-se em pouquíssimo lugares.
21Destacamos,
entretanto, que há atores que compõem outras situações do circuito
espacial de produção, como os pequenos e médios comerciantes do Brás e
do Bom Retiro, que dependem do território para sua sobrevivência e
também subcontratam a etapa de costura, mas restringem-se aos limites
das áreas de especialização da metrópole, podendo até ir além dela, mas
não muito longe. O comércio para esses agentes depende da dinâmica das
áreas de especialização. Os bairros paulistanos do Brás e Bom Retiro
tornaram-se referência nacional no comércio atacadista de confecções e
atraem fluxos de pessoas de todo o Brasil.
22Santos
(2004) propõe uma alternativa teórica para explicar a urbanização dos
países periféricos, pois para esse autor a urbanização dos países pobres
não pode ser vista como a repetição da urbanização europeia no período
pré-industrial. Além disso, os territórios periféricos são integrados à
economia mundial para exercer um papel na divisão internacional do
trabalho, papel esse determinado por demandas extravertidas. Logo, foram
criados os mecanismos de dependência, dos quais o mais conhecido e
explícito foi o Pacto Colonial. No entanto, na era da globalização os
pactos se renovam e os mecanismos de dependência são outros, como, por
exemplo, a dependência tecnológica e dos capitais financeiros.
23Santos
(1976, 1977, 2004) propõe que interpretemos as cidades como um sistema
econômico, subdividido em dois subsistemas, os dois circuitos da
economia, o que autoriza que se trate a cidade como uma totalidade. Por
isso é impossível falar do circuito superior sem falar do circuito
inferior; ainda que o circuito inferior seja em grande medida dominado
pelo superior, ambos estão estruturalmente conectados por uma relação
dialética de subordinação, complementaridade e concorrência. A economia
urbana é uma totalidade e tanto o circuito superior como o inferior
estão subordinados às leis gerais de funcionamento do capitalista. Dessa
forma, os subsistemas urbanos nascem a partir da
[...] existência de uma massa
de pessoas com salários muito baixos ou vivendo de atividades
ocasionais, ao lado de uma minoria com rendas muito elevadas, [que] cria
na sociedade urbana uma divisão entre aqueles que podem ter acesso de
maneira permanente aos bens e serviços oferecidos e aqueles que, tendo
as mesmas necessidades, não têm condições de satisfazê-las. Isso cria ao
mesmo tempo diferenças quantitativas e qualitativas no consumo. Essas
diferenças são causa e efeito da existência, ou seja, da criação ou
manutenção, nessas cidades, de dois circuitos de produção, distribuição e
consumo de bens e serviços” (SANTOS, 2004, p. 37).
24Essa
dinâmica do sistema urbano surge das modernizações tecnológicas que,
por sua vez, são comandas pelo Estado e pelas grandes empresas.
Colocando em diálogo a categoria circuito espacial de produção com a
teoria dos dois circuitos da economia urbana, unimos as propriedades
técnicas da produção, “circuito das firmas”, com economia urbana. Esta
constitui o modo como se organizam as materialidades, divisão
territorial do trabalho, a partir do conjunto de circuitos produtivos
que se implantam nas cidades -- ou seja, formas urbanas surgem a partir
da repartição da produção, que é comandada por diferentes atores e com
distintos poderes de estruturação do espaço. Por isso encontramos a
cidade luminosa e a cidade opaca coexistindo não em dualidade, mas sim
em oposição conectada estruturalmente.
25As
grandes redes varejistas de vestuário que atuam no território nacional
compõem o circuito superior da economia urbana. Tais empresas vêm
expandindo sua atuação com elevados investimentos em pesquisa e
desenvolvimento, design, marketing, logística de
distribuição, comércio e apelo à expansão do consumo pautado no binômio
formado por publicidade e ampliação do crédito. As atividades mais
sofisticadas e o comércio dessas empresas localizam-se em São Paulo.
26Entre
as grandes redes varejistas de atuação nacional, como Riachuelo,
Marisa, Pernambucanas e Renner, apenas a última possui escritório fora
de São Paulo. Das redes internacionais, Zara e C&A possuem
escritórios na cidade de São Paulo. Tanto as grandes marcas quanto os
varejistas subcontratam as oficinas de costura para produção das peças.
Assim, encontramos os nexos entre os dois subsistemas urbanos por meio
da materialização dos circuitos espaciais.
27Os
lojistas do Brás e do Bom Retiro representam outra situação da produção
que gerou formas urbanas na cidade de São Paulo capazes de condicionar a
ação desses agentes promotores dos circuitos produtivos.
28Allan
Pred (1979), analisando as cidades nas economias avançadas, define que o
sistema de cidades é um conjunto nacional ou regional de cidades que
funcionam de modo interdependente, ou seja, qualquer mudança
significativa nas atividades econômicas, na estrutura ocupacional ou na
renda da população de uma cidade pode desencadear mudanças nas outras
cidades que compõem o sistema.
29Nos
sistemas de cidades, as metrópoles cumprem papel insigne, pois, segundo
Pred (1979), as relações entre insumo e produto ou relações de controle
de emprego e tomada de decisões dentro das empresas multinacionais e
órgãos de governo são elementos importantes para o conjunto das cidades
que obedecem à tendenciosidade espacial da informação, uma vez que a
localização das atividades econômicas obedece a decisões explícitas
(localização de órgãos de governo e disponibilidade de informações
especializadas são fundamentais para a difusão de inovações por outras
empresas) e implícitas (quando uma empresa ou órgão de governo decide
adquirir bens e serviços, rotineiros ou não) que corroboram para a
tendenciosidade espacial. Essa tendenciosidade espacial condiciona a
escolha dos lugares para implantação de unidades empresariais como
agências de publicidade, bancos, sedes administrativas, etc., que exigem
que parte do tempo seja gasta na troca de informações e na relação
direta com os clientes.
30As
cidades dos países periféricos, como já ressaltamos, apresentam outro
padrão de organização, mas algumas características da urbanização nas
economias avançadas também são observadas nos territórios periféricos. É
o caso da concentração de atividades industriais e de produção de
informação.
31Como
mostra Adriana B. da Silva (2001), a cidade de São Paulo abriga
densamente as atividades produtoras de informação. Essa produção de
informação é substrato para o funcionamento do complexo emaranhado de
circuitos produtivos que convergem na metrópole. Escritórios de
advocacia, consultorias financeiras e de informática, grandes agências
de publicidade, sedes de grandes bancos, sedes de instituições públicas
importantes são expressões do poder de comando dos fluxos materiais e
imateriais da cidade de São Paulo. Além disso, a construção da cidade
para a fluidez por meio do sistema rodoviário, torre de controle do
movimento de helicópteros, a presença de aeroportos, além dos
equipamentos culturais e de lazer – como museus, shoppings,
teatros, bibliotecas, grandes exposições internacionais –, permitem a
presença de um tipo de população ligada ao comando dos circuitos
produtivos que fazem da metrópole um lugar luminoso, que muitas vezes ganha a denominação cidade global.
32A
informação hegemônica, imposta pelas grandes empresas da “indústria da
moda”, coexiste com a informação usada como resistência nos
microcircuitos das confecções, que abrigam um grande volume de mão de
obra. A cidade de São Paulo torna-se um centro informacional, dada a sua
capacidade de produção, organização e distribuição da informação
hegemônica, e ao mesmo tempo torna-se centro do uso da informação não
hegemônica, assim como amplia seu papel produtivo pela via do circuito
inferior.
33O
diferencial que se observa no uso da categoria circuito espacial de
produção é que, em grande medida, resolve-se o problema da complexidade
da divisão das atividades econômicas em setores e assim identificamos o
circuito. Desse modo, a Geografia Econômica não precisa ser uma
Geografia da Indústria ou dos Serviços ou do Consumo, pois as etapas do
circuito espacial de produção estão conectadas e criam materialidades,
ou seja, criam uma divisão territorial do trabalho, que por sua vez vai
condicionar a própria existência dos circuitos.
34O
diálogo entre os circuitos espaciais de produção e os dois circuitos da
economia urbana apresenta-se produtivo na medida em que o circuito
técnico, das firmas, pode ser revelado pelas atividades urbanas, estas
pertencentes ao circuito superior, superior marginal ou
inferior, que funcionam dialeticamente em forma de dominação,
subordinação, complementaridade e concorrência, formando o subsistema
urbano.
35Na análise do ramo de atividade do vestuário verificamos que cada ator gera materialidades específicas nas cidades e na economia política da urbanização
por meio da organização do seu circuito produtivo. Quanto mais poderoso
é esse ator, maior a sua capacidade de ampliação dos seus círculos de
cooperação, chegando à escala planetária. Já os agentes que têm menor
poder de criar materialidades e fluxos dependem mais da contiguidade
para existirem. Esse é o caso dos atacadistas do Brás e do Bom Retiro.
Os expositores da Feira da Madrugada e o pequeno comércio de confecções
nesses dois bairros formam um circuito espacial de produção que gera
muitas atividades caracterizadas como de circuito inferior. Usufruem de
partes da cidade que foram abandonadas pelos agentes hegemônicos e, ao
mesmo tempo, deram dinamismo a essas áreas e vêm mobilizando fluxos
nacionais relacionados ao comércio de confecção, ainda que sejam
dependentes do ambiente construído da metrópole deteriorada para a
execução das etapas do circuito.
36Apesar
da reorganização do circuito do vestuário nos anos 1990, a visão do
processo possibilitada pela análise do circuito espacial de produção
mostra que o capital centraliza-se, sobretudo ao comandar o circuito em
pontos estratégicos do território. Além disso, a prática sistemática de
subcontratação é outra forma de encontrarmos a dialética entre as
atividades modernas e não modernas presentes nas cidades brasileiras,
sobretudo nas metrópoles.