1Ao
longo da primeira metade do século XX, no contexto que se segue à
Independência, intelectuais e políticos brasileiros dispuseram-se a
discutir questões ligadas à modernização e à organização social e
espacial do país. Na procura de uma matriz que definisse quem
seria e quem não seria brasileiro, entre discursos ora otimistas, ora
pessimistas, predominaram os debates acerca do caráter nacional, onde a
questão das identidades apareceu relacionada à formação territorial.
Nesse momento o território nacional configurou-se como um dos elementos
construtores da memória coletiva.
2Na
construção dessa memória, os símbolos e as tradições pelas quais a
sociedade se pensa e se identifica estão impregnados de representações
formuladas e difundidas por segmentos dominantes. Torna-se, assim,
importante recuperar a historicidade dos fatos, conhecer os processos e
os atores que interferiram no trabalho da constituição e formalização de
imagens exploradas até hoje. Como lembrou Oliveira (1989), diferentes
grupos da sociedade construíram suas memórias coletivas a partir das
quais foi montada e organizada uma memória nacional dominante.
Especialistas e ideólogos, historiadores, geógrafos e educadores,
construíram a memória nacional, organizando as comemorações, as festas,
definindo os heróis e as pessoas que deveriam ser lembradas.
3Os
atores sociais que desenvolveram com grande empenho a construção da
memória nacional inventaram tradições até então inexistentes. Os Estados
nacionais esmeraram-se em criar hinos, bandeiras, imagens e símbolos
que ‘personificam’ a nação, fornecendo-lhe o sentido de união e
identidade (Oliveira, 1989).
4Assim
certas festas, datas, heróis, monumentos e obras musicais se conjugam
naquele conjunto chamado por Hobsbawm de tradições inventadas, elementos
construídos e formalmente institucionalizados, quase sempre
consolidados através da repetição.
5Entre
as tradições construtoras da memória nacional, as que alcançaram certa
consistência produzindo um importante reforço à coesão pretendida pelo
Estado, estão aquelas por onde perpassa o elemento territorial. No
Brasil, em particular, o tema da terra conquistada, diversas
vezes revisitado, alcançou um papel de destaque no universo do
pensamento social. A historiografia sobre a expansão territorial, em
muitos casos, buscou relacionar o processo de ocupação com a
singularidade do ser brasileiro. Nesse sentido, a nação que
remonta os primórdios da ocupação colonial, na origem se encontraria
como tal desde a primeira marcha em direção ao interior.
- 1 Constructo ideológico de pequenos grupos, a nação precisa ser aceita por um coletivo maior. Comunid (...)
6Ao
escreverem a história do Brasil, alguns autores destacaram sua dimensão
territorial em detrimento da temporal. E, na ausência de um passado
histórico mais remoto, acabaram construindo representações do espaço e
fazendo do território base para um projeto nacional. O
“consenso” e os sentimentos destacados na historiografia nacional que
determinam o Brasil como comunidade, reconhecida como tal, dá-se também
frente ao território.1
Na historiografia brasileira, a conquista territorial aparece como tema
central para a construção da idéia de nação (Velloso, 1990; Moraes,
1991; Oliveira, 1991 e Luca, 1999).
7Nesse
processo de repensar o Brasil coube à geografia o papel de reconciliar a
nação com a sua história. O discurso sobre esse território com
dimensões quase continentais, acabou fornecendo elementos necessários
para a reconstituição do passado, excluindo-lhe as tensões e
ambigüidades que pudessem dificultar sua utilização na construção da
identidade nacional (Luca, 1999). Como lembrou Moraes (1991: 166), “as
representações espaciais forneceram um elemento de referência negado
pela história, colocando a discussão geográfica no centro do debate
ideológico”. Concebida a partir do território, essa idéia aparece
também fortemente ligada aos discursos regionalistas, como se pretende
destacar nesse trabalho.
- 2 Nesse sentido poderíamos citar aqui os trabalhos de Mônica Pimenta Velloso, O Mito da Originalidade (...)
8No
Brasil do início do século XX, a idéia de nação formou-se a partir de
um debate estabelecido entre os criadores de matrizes de identidade de
caráter local-regional. Diferentes intelectuais, inseridos no mesmo
campo cultural, alimentaram uma discussão para definir qual seria o
melhor modelo de identidade nacional: se Tiradentes e as montanhas de
Minas Gerais, se a “casa-grande e senzala” do Nordeste, se o olhar
contemplativo da capital federal ou se as bandeiras dos paulistas.
Exemplares, sob o aspecto de terem estabelecido no meio político e
cultural um campo de disputas entre modelos de brasilidade, as
diferentes visões foram elaboradas a partir da história, da geografia e
da experiência social de um determinado local. Por isso a temática da
região e o sentimento a ela associado, presentes nas investigações
realizadas nas ciências sociais, como tentativa de entendimento dos
diversos constructos imaginários acerca da elaboração de uma identidade nacional, podem ser bastante reveladores.2
- 3 As bandeiras paulistas eram expedições organizadas com o objetivo de capturar índios e descobrir me (...)
9Em
São Paulo o discurso regionalista, centrado na figura do bandeirante,
foi utilizado como ponte entre o local e o nacional. Na historiografia
paulista produzida nesse período as idéias de conquista e civilização
aparecem relacionadas com qualidades que as elites desejavam ver no
Brasil da época, tais como progresso, modernidade, riqueza e integração
territorial. Nesse momento o estudo do movimento das bandeiras também
foi utilizado para destacar a singularidade do habitante de São Paulo e
seu papel na conquista e, posteriormente, na ocupação do território.3
10O
ideário proposto nas primeiras décadas do século XX foi decisivo, pois à
medida que criou uma série de marcos simbólicos, produziu
“sentimentos”, que, acolhidos pela população se incorporaram à
consciência regional/nacional. Nesse sentido, a geografia colaborou para
cristalizar a idéia de São Paulo berço da nação. O espírito bandeirante
se espalharia por todo o país cumprindo o papel de guardião do
território e das tradições nacionais.
- 4 Entre estas, merece especial destaque a formulada por Gilberto Freyre, que, como assinalou Ortiz (1 (...)
11Entre
escritos e ensaios produzidos nesse período não estava em jogo apenas a
matriz da brasilidade; existia, pelo menos aos olhos dos intelectuais e
dos políticos, a busca de certa hegemonia política no país. Nesse
momento a criação de uma tradição tornou-se para a elite paulista
praticamente uma obsessão. O bandeirismo e o berço jesuítico foram
apresentados, frente a outras interpretações,4 como matriz da identidade nacional.
12As
décadas de vinte e trinta do século passado testemunharam o processo
que resgatou e transformou os primeiros colonos em símbolos do estado de
São Paulo. A partir de então, este personagem da história
paulista passou a freqüentar o cotidiano dos nascidos no estado,
nomeando praças, ruas, colégios e clubes. E também vias de circulação,
como as rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Fernão Dias e Raposo Tavares;
monumentos como o das Bandeiras, instalado próximo ao Parque do
Ibirapuera, e a estátua do Borba Gato, referência do bairro de Santo
Amaro.
13Nesse
período marcado por um forte sentimento de superioridade frente ao
resto do país, quando os representantes políticos de São Paulo passaram a
defender um reconhecimento do papel definitivo desse estado no cenário
político-econômico nacional, metaforicamente, São Paulo passou a ser
tratada como locomotiva, máquina responsável pelo crescimento do país.
De certa maneira essas décadas podem ser consideradas como um período de
grande criatividade no desenhar de um sentimento pátrio específico dos
paulistas (Borges, 1992: 71).
14Tal
processo fez parte de um projeto regional que procurou melhorar a
posição do estado nos fóruns de decisão nacionais. Nesse momento, na
busca de uma herança, intrinsecamente ligada ao destino e à
tradição, os intelectuais paulistas passaram a desenvolver trabalhos na
condição do exercitar a hegemonia cultural e política de seu estado de
origem.
15Se seguirmos a idéia de que todas as coletividades tendem a “ter seus símbolos próprios, dotados de um significado específico, com a função de perpetuar determinados valores”
(Queiroz, 1992), podemos dizer que a elite paulista encontrou no
bandeirante seu representante por excelência. Esse com presença marcante
no cotidiano do paulista traz consigo o papel de representar um
sentimento que remonta à história dos antigos colonos portugueses na
América.
“Da história (...) esperava-se um conjunto coerente de tradições a serem partilhadas por todos. Acreditando-se
conduzidos pela mão firme da metodologia científica, os historiadores
debruçaram-se sobre o passado, privilegiando certos indivíduos e
episódios em um trabalho de consagração que respondia às necessidades do
momento. Emergiu então a figura do bandeirante, dilatador incansável
das fronteiras. A narração da conquista e da manutenção do território
foi transformada na grande epopéia nacional, redimindo não só o nosso
passado mas também as regiões tropicais que – afinal – davam sinais de
poder conviver com a civilização. Essa construção excludente, que
transpunha a recente supremacia desfrutada por São Paulo para o tempo
mítico das origens, mal conseguia disfarçar suas implicações políticas”
(Luca, 1999: 86).
16O bandeirante, então, apresentou-se como síntese do espírito paulista que construía o Brasil. A
idéia tão divulgada através de frases, como ‘São Paulo não pode parar’ e
‘São Paulo é a locomotiva que carrega vinte e dois vagões’, revelam que
no momento os paulistas tinham consciência do traço mais importante da
história de seu estado e que estavam muito empenhados em perpetuar a
idéia de um contínuo crescimento econômico.
17Como
era preciso buscar no passado elementos que pudessem explicar tal
postura, os responsáveis pela construção da historiografia encontraram
um personagem que se encaixava perfeitamente na situação. O bandeirante
dos primeiros séculos da colonização brasileira, investigado dentro dos
preceitos científicos da época, foi sendo preparado para assumir o papel
de símbolo da grandeza, austeridade e força dos que no passado
construíram a imagem da ‘grande e poderosa São Paulo’.
- 5 Entendemos aqui bandeirantismo como uma variante historiográfica criada sobre o bandeirismo (ver no (...)
18O estudo sobre o bandeirantismo5
realizado nas primeiras décadas do século XX consolidou o processo de
formação territorial do Brasil como capítulo da história de São Paulo. A
partir desse período o bandeirante transformou-se no maior e quase
único responsável pela expansão territorial do Brasil, realizada para
além do Tratado de Tordesilhas, dando à bandeira status de instituição paulista.
19A bandeira estaria nesse momento sendo resgatada para tornar-se aquele “operador semântico”
(Queiroz, 1992) que ganharia outros sentidos, passando a fazer parte da
memória social brasileira. Como lembrou Neide Esterci, a bandeira seria
ao mesmo tempo
“um
fenômeno ligado, no tempo, ao passado, e no espaço, ao interior; é,
portanto, útil para expressar a idéia de que a mudança que se opera deve
ser uma volta ao passado e ao interior. Além disso, tendo
definido a Bandeira como fenômeno sui generis, tipicamente brasileiro
(por oposição a qualquer movimento de expansão que se dê ou se tenha
dado em qualquer outro país do mundo), se exclui, por ilegítimo,
qualquer outro modelo de organização, de ações ou idéias, que seria
‘imitação’, ‘deturpação’,’desvio’” (Esterci, 1972: 69-70)
- 6 Num trabalho de fundamental importância escrito por Alice P. Canabrava (1949) podem ser encontrados (...)
20Um
grupo que, entre outros, reuniu Alcântara Machado, Basílio de
Magalhães, Afonso Taunay e Alfredo Ellis Junior, procurou estabelecer
uma linha historiográfica que abordasse a história brasileira sob o
recorte da história das bandeiras saídas de São Paulo.6 Esse
grupo, comprometido com a produção de uma história nacional, optou por
um trabalho mais expressivo que retratasse a expansão territorial, a
abertura de caminhos e, principalmente, a história da Capitania de São
Vicente (que daria origem à de São Paulo).
21Considerados como os responsáveis pela elaboração da História Geral das Bandeiras Paulistas,
eram todos comprometidos com as posturas políticas em maior evidência
na época. Ellis Junior, Alcântara Machado, Afonso Taunay e Basílio de
Magalhães pertenciam à elite paulista, e guardadas as diferenças,
confirmaram, no campo da ciência, a capacidade do paulista para governar
o país. Assim, ao lembrar os antepassados, seus parentes ilustres,
parece que esses historiadores desejavam comprovar o direito de herança
sobre o poder. E retomando Hobsbawm (1984), podemos dizer que esse grupo
foi buscar na genealogia do século XVIII os elementos necessários para a
afirmação de uma tradição inventada.
- 7 Washington Luís Pereira da Silva (1870-1957), fluminense, advogado de formação teve importante pape (...)
22O
compromisso político do grupo pode ser percebido através da rede de
relações sociais e/ou de parentesco de alguns deles. Ellis Junior foi
deputado, filho de deputado e senador; Alcântara Machado, deputado e
constituinte da Assembléia de 1934; Taunay, filho de Visconde, era
integrante da família Souza de Queiroz, muito atuante na política local,
e concunhado de Washington Luís, político que, por sinal também era
historiador das bandeiras.7 Enfim, todos eram comprometidos com a elite política de São Paulo.
23No
escrever a história das bandeiras paulistas Afonso Taunay e Basílio de
Magalhães enfatizaram as conquistas e as descobertas; Alfredo Ellis
Junior, numa mesma linha de exaltação, trabalhou para demonstrar a
existência de uma estirpe paulista e Alcântara Machado distanciando-se
um pouco dos demais, estudou as condições econômicas da sociedade
seiscentista (Abud, 1985).
24Esse
grupo diferenciou-se dos anteriores não somente pelas circunstâncias
históricas, mas também pela valorização das características étnicas dos
bandeirantes e a avaliação das condições do ambiente geográfico do
planalto, que mostraria a influência dos fatores naturais sobre o
condicionamento da evolução social. Na leitura de vários textos
encontramos preocupações de caráter antropológico, vinculadas com o
exame das suas relações com o solo, com o subsolo, com a vegetação, com
as águas e os minerais da região, que para esses autores auxiliaram na
interpretação do comportamento social (Canabrava, 1949: 500).
- 8 O mapeamento destes temas foi realizado a partir dos debates desenvolvidos na disciplina História C (...)
25De
certa forma, podemos ler a história das bandeiras paulistas a partir da
própria opção temática dos historiadores. Isso porque praticamente
todos acabaram, de uma maneira ou de outra, tratando de assuntos como a
questão do isolamento, o acesso à vila de São Paulo de Piratininga, a
presença da Serra do Mar, o desenvolvimento econômico, a chamada
autarquia ou auto-suficiência (baseada na idéia de que o necessário era
produzido pelas pequenas fazendas paulistas) e, por fim, os atributos
formadores da identidade nacional: a raça e o território.8
26Todos
esses historiadores, comprometidos politicamente e envolvidos num
projeto para a reconstituição do passado brasileiro, contribuíram
enormemente para a conformação de uma história geral do Brasil, vista
como uma História Geral das Bandeiras. Ao partirem de um
trabalho que em princípio objetivava a constituição da história local,
acabaram escrevendo um capítulo da história da formação territorial do
país.
27São
eles talvez “novos bandeirantes”, já que, realizando um trabalho
monumental de pesquisa sobre as bandeiras paulistas, organizando e
copiando documentos, publicando e divulgando as provas da história
local, conseguiram argumentos para reclamar o que naquele momento a
elite paulista acreditava ser seu de direito. Com diferentes
instrumentos daqueles utilizados durante a expansão geográfica – caneta e
papel em vez de “as armas e o gibão”, e especialmente influência
política –, esses historiadores angariaram recursos, defenderam
politicamente seu estado na federação e afirmaram a tradição
bandeirante. Enfim, soldaram com eficácia um modelo de nação.
- 9 Após 1922 o símbolo bandeirante foi utilizado novamente em 1932 (durante a Revolução Constitucional (...)
28O modelo de nação bandeirante
construído meticulosamente a partir das grandes genealogias de Pedro
Taques (1744-1797) e Frei Gaspar (1715-1780) pôde enfim ser utilizado
através de representações e práticas sociais. Depois de passar
longo período esquecido, o bandeirante foi resgatado em diferentes
momentos históricos. O seu primeiro grande uso como símbolo
representativo de São Paulo aconteceu em 1922, na festa do Primeiro
Centenário da Independência do Brasil, envolvendo não somente homens de
letras e pesquisadores da época como o poder público e algumas
instituições de saber.9
29O
contexto sociopolítico das festividades do Centenário da Independência
em São Paulo foi o da crise vivida dentro dos acordos federativos
vigentes em nível nacional. O governo de Epitácio Pessoa (1919-1922)
estava sendo visto pelas elites paulistas como um período difícil, assim
como havia sido o de Hermes da Fonseca (1910-1914). O principal partido
de São Paulo, o Partido Republicano Paulista (PRP), tinha perdido a
posição hegemônica que gozava dentro do cenário nacional, situação que
acabou se refletindo na organização das festas realizadas em 1922. O
governo de Epitácio Pessoa havia agendado as atividades cívicas e
culturais para acontecerem exclusivamente no Rio de Janeiro, por isso
todas as comemorações ocorridas em São Paulo foram organizadas pela
presidência do estado.
- 10 O governo federal optou por uma festa de caráter internacional. Para tanto, o Rio de Janeiro, que s (...)
- 11 A presença de São Paulo nos momentos decisivos nacionais e os objetivos da festa local são claramen (...)
30Diferente da festa organizada pelo governo federal,10
a pensada pelo governo de Washington Luís deveria funcionar como uma
espécie de desagravo de São Paulo pela perda da posição que antes
ocupava no cenário político nacional. A cidade vivia um momento de
grande crescimento urbano e econômico, o que dava aos paulistas as
justificativas necessárias para sustentarem a idéia de que São Paulo,
por constituir o exemplo de maior sucesso do país, deveria dirigir e
representar a nação (Love, 1982; Queiroz, 1992; Elias, 1996; Sandes,
1997). Nesse momento, toda a elite política estadual percebeu a
viabilidade de defender uma volta ao centro das decisões a partir da
tese de que o paulista havia desempenhado um papel decisivo no processo
de emancipação política do Brasil.11
Assim, enquanto Epitácio Pessoa transformou o Rio de Janeiro num palco
de grandes polêmicas, envolvendo distintos projetos urbanísticos,
Washington Luís optou pela realização de festas de caráter cívico. As
concepções que nortearam a organização das duas festas caminharam em
direções bem distintas. Se no Rio de Janeiro as discussões giraram em
torno da idéia de modernidade, em São Paulo, vinculou-se a valores
históricos locais.
31Para
homenagear o Brasil independente programou-se a construção de alguns
monumentos, assim como também a realização de diversos atos cívicos que
reuniram políticos, intelectuais, artistas, pessoas públicas e,
evidentemente, uma parcela da população. A partir desse plano e do uso
de verbas públicas, o governo buscou recuperar alguns símbolos e
personalidades da história de São Paulo.
32A
festa foi, nesse caso, uma cerimônia pública repleta de função
pedagógica e unificadora, capaz de reduzir as distâncias existentes e
agregar pessoas de diferentes classes sociais Oliveira (1989). A
comemoração do Primeiro Centenário da Independência em São Paulo pode
ser considerada exemplar de um momento marcado pela invenção de
tradições, na medida que indicou quais eventos e pessoas deveriam ser
lembrados ou esquecidos.
- 12 No dia 7 de setembro de 1922, aconteceram muitas homenagens organizadas por diferentes instituições (...)
33A
data da independência, comemorada simultaneamente em diferentes
lugares, foi marcada por uma grande festa no bairro do Ipiranga.12
Através da lei n1324 de 31 de outubro de 1912, definiu-se a construção
de um monumento comemorativo em frente ao edifício onde funcionava o
Museu do Estado, dentro do que hoje conhecemos como Parque da
Independência. A mesma lei também planejou a construção de uma grande
avenida ligando o novo monumento à região central da cidade.
34Poucos
meses depois da proclamação da independência surgiu a idéia de
construir um monumento comemorativo no próprio local onde teria
acontecido o episódio, junto às margens do riacho Ipiranga. O
desejo de definir com precisão o local onde foi declarada a
independência é antigo. Tão logo passou a comemoração de 7 de setembro
de 1824, Lucas Antonio Monteiro Barros, então presidente da província,
realizou a primeira demarcação do lugar histórico. No ano seguinte, o
local recebeu uma pedra fundamental.
35Uma
nova iniciativa foi tomada somente em 1875, quando, por falta de
verbas, o Império lançou as loterias do Ipiranga, destinadas ao
levantamento de fundos para a construção do monumento. O plano, no
entanto, fracassou, já que toda a verba arrecadada foi usada pela
Assembléia Provincial na realização de outros projetos.
36Quase
uma década mais tarde, em 1884, o projeto foi retomado e colocado sob a
responsabilidade do engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi. Nesse
momento, a elite local, até então indiferente à construção do monumento,
passou a contribuir efetivamente. Com o enriquecimento de São Paulo, ao
que parece, um monumento-edifício ocupado por um museu poderia
constituir o suporte ideal para futuras representações simbólicas da
província (Sandes, 1997).
37Em
1890, o monumento projetado para lembrar a independência e festejar o
Império foi enfim inaugurado, exatamente no dia do primeiro aniversário
da República. O novo prédio, conhecido então como Palácio Bezzi, cumpriu
durante um período apenas a função de monumento histórico – à exceção
de um pequeno período quando recebeu uma escola primária –, situação que
mudaria alguns anos após ao receber um acervo e passar a sediar o Museu
Paulista (Sandes, 1997).
38O
acervo do novo museu começou a ser montado a partir de uma coleção
reunida pelo comerciante Joaquim Sertório e instalada no Largo
Municipal, hoje praça João Mendes. Formada por espécimes de zoologia,
botânica e mineralogia, peças de etnografia e história, mobiliários e
jornais – sem nenhuma organização científica –, a coleção de diferentes
gêneros de objetos mudou de endereço em 1890, tornando-se museu do
governo do Estado (Lopes, 1997).
- 13 Hermann von Ihering (1850-1930), formado em medicina e ciências naturais na Alemanha dedicou-se ini (...)
39Em
1893, por indicação de Orville Derby, diretor da Comissão Geográfica e
Geológica do Estado de São Paulo, o museu passou a ser dirigido pelo
zoólogo Hermann von Ihering.13
Nesse ano o acervo foi transferido de um prédio localizado na rua da
Consolação para o edifício-monumento do Ipiranga. Criava-se nesse
momento um museu etnográfico, cujo objetivo era contribuir para o estudo
da história natural da América do Sul e do Brasil (Schwarcz, 1989).
40Ao
organizar o novo espaço, von Ihering conseguiu aprontar os exemplares de
pássaros e mamíferos que passaram a ocupar seis salas do prédio do
Ipiranga. Anos depois terminou também as coleções de répteis e anfíbios.
Além de organizar o acervo do museu, von Ihering realizou também
excursões pelo interior do estado e visitas a instituições similares,
como a existente no Paraná (Lopes, 1997).
41O
espaço formado por quatorze salas foi organizado para comportar tanto
visitantes como estudiosos. Em virtude da inexistência de universidades
ou escolas que formassem professores de história natural, von Ihering
procurou durante os vinte e dois anos que esteve no comando da
instituição imprimir nela um caráter profissional.
42Depois
da longa direção de Hermann von Ihering e da breve passagem de Rudolf
von Ihering e Armando da Silva Prado o museu passou a ser dirigido em
1917 por Afonso Taunay.
43No
novo cargo, Afonso Taunay passou a trabalhar num projeto de
reorganização do acervo que mudaria seu sentido fundador. Na direção,
Afonso Taunay assumiu a missão de mudar seu caráter de museu natural e
para historicizá-lo. Organizou um acervo diferente do anterior, criado
por von Ihering. O museu que havia sido criado para ser vitrine das
ciências físicas e naturais transformou-se num espaço dedicado às
humanidades. Se no projeto inicial,
- 14 Tais mudanças podem ser notadas a partir da observação dos números e da disposição temática das sal (...)
“o
Monumento do Ypiranga se destinaria a um estabelecimento scientifico,
comprehendendo o ensino de todas as disciplinas designadas sob o título
de sciencias phisicas e mathematicas e sciencias naturaes” (Taunay,
1937: 21), após 1917 o estabelecimento passaria por uma grande reforma
que transformaria sua concepção naturalista. 14
44Ao
eleger São Paulo de Piratininga como o núcleo da originalidade
brasileira, ou mais especificamente, da expansão territorial, Afonso
Taunay contribuiu para a criação de uma eficaz tradição discursiva que
acabou transformando o bandeirante em símbolo nacional e o planalto de
Piratininga num local destinado, em função de sua geografia favorável,
despontar como núcleo irradiador da conquista. A geografia da região explicaria o espírito de vanguarda dos paulistas.
45A
idéia que o meio havia sido um dos elementos impulsionadores da
conquista territorial pode ser encontrada em grande parte dos ensaios de
caráter nacionalista produzidos durante a primeira metade do século XX,
principalmente quando visavam demonstrar a singularidade do lugar onde
havia surgido o bandeirismo. Nessas interpretações, o habitat foi considerado como capaz de alterar inclusive a genética dos mestiços, fazendo “aparecer uma raça característica que jamais se havia revelado” (Cassiano Ricardo, 1940: 41), ou ainda, na marcante expressão de Saint Hilaire, uma “raça de gigantes” (apud
Ellis Junior, 1926). O meio formado por clima favorável e terrenos
férteis teria sido o responsável pelo surgimento de uma gente diferente e
incomparavelmente forte. A história vitoriosa seria, simplesmente,
resultado da geografia local.
- 15 Capistrano de Abreu (1853-1927), historiador autodidata e um dos organizadores do acervo de documen (...)
- 16 Membro dos Institutos Histórico e Geográfico Brasileiro e Paulista (IHGB e IHGSP), o historiador Af (...)
46As bandeiras paulistas, que já haviam sido tratadas por Capistrano de Abreu em Capítulos da História Colonial (1907),15 constituiu-se no principal tema de Afonso Taunay.16 Nos dez volumes de História Geral das Bandeiras
o autor procurou explicar as expedições bandeirantes como um movimento
de exploração e expansão do território, imprimindo ao processo o status de maior expressão de sua obra, ponto nuclear do conhecimento histórico sobre São Paulo e Brasil.
47Em
seu texto, Afonso Taunay trabalhou a idéia de que o paulista teria sido o
primeiro a chegar aos lugares mais distantes do espaço colonial. Para
tanto, descreveu os caminhos e roteiros abertos pelos bandeirantes e
focalizou o momento de ocupação e fundação dos primeiros núcleos de
povoamento. Essa leitura do Brasil acabou mostrando um aspecto
importante de sua obra. Eclipsada pelo heroísmo do bandeirante que
avançou fronteiras, a violência praticada contra os índios não recebeu
por parte do historiador a atenção necessária. Afonso Taunay acreditava
que o apresamento do índio, para posterior escravização constituiu-se no
mais importante meio econômico da capitania. Em sua obra, a escravidão
foi plenamente justificada. A idéia de êxito na conquista territorial
redimiria os bandeirantes de toda e qualquer culpa em relação à
violência praticada. A tese de que o bandeirante foi o grande
responsável pelo movimento expansionista do Brasil foi fortemente
defendida pelo autor.
48Com
o fim do século XVI, os habitantes primitivos da região de São Paulo já
tinham passado pela destruição de suas aldeias e pela desarticulação de
suas sociedades, achando-se os poucos sobreviventes subordinados aos
colonos e aos jesuítas. Contudo, na historiografia produzida em São
Paulo durante as primeiras décadas do século XX, a obra violenta dos
bandeirantes, a ação etnocida da invasão territorial, deveria ser vista
como pura poesia. Os índios que foram mortos ou aprisionados pela ação
bandeirante foram tratados como irmãos de seus assassinos, como se esse
fosse um país construído sem derramamento de uma só gota de sangue.
Nessa história do Brasil não existe espaço para assuntos que possam
macular a imagem do paulista. Seus principais capítulos deveriam ser
enaltecedores de um personagem e de um grande tema, respectivamente do
bandeirante e da nossa herança material – o território conquistado.
49Ao
reconhecer a importância política do momento, Afonso Taunay procurou
aproximar o público que visitava o Museu do tema que se tornaria
constante em seus futuros escritos. Na preparação do evento cívico, usou
seu projeto de história do Brasil como elemento organizador do acervo,
buscando transformar o bandeirante num personagem central na construção
da nacionalidade.
- 17 O museu deveria cumprir um papel dentro das comemorações e Afonso Taunay pôde, através da organizaç (...)
50O
historiador revelou, logo na entrada do museu, qual eixo utilizaria
para contar a história do Brasil. Essa seria desenvolvida através de um
ângulo que evidenciasse a epopéia bandeirante. Se o museu tinha por meta
realçar e guardar a memória da independência, dos elementos formadores
da nacionalidade, o bandeirantismo entraria como parte fundamental no
processo de formação da nação. Os bandeirantes, vistos como homens
“intrépidos e corajosos”, conquistadores de novas terras, foram
escolhidos para representar o elemento mais importante no processo de
construção nacional: o território. Assim, a importância do Imperador D.
Pedro I ficaria limitada ao fato de ter ele concretizado o processo que,
na realidade, já havia sido iniciado nos primeiros tempos da
colonização.17
- 18 Representados nas duas estátuas monumentais expostas na entrada do museu, Antonio Raposo Tavares e (...)
51O
projeto inicial deveria lembrar os temas emancipacionistas, como a
Guerra dos Mascates, a Revolta de Beckeman, a Expulsão dos Holandeses,
Felipe dos Santos etc.; contudo, a organização final, programada entre
1919 e 1922, nada lembrou o primeiro projeto, porque no final acabou
consagrando um único personagem: o bandeirante (Elias, 1996). No acesso
pela escadaria monumental junto à de D. Pedro I, referência da
independência, foram colocadas estátuas de alguns bandeirantes. Com o
objetivo de lembrar os primeiros povoadores, logo no hall de entrada foram expostas duas estátuas de bandeirantes e a tela Os Primeiros Povoadores.
Ao dar lugar a esses personagens históricos, Afonso Taunay procurou
destacar os ciclos da caça ao índio e da devassa do sertão, e também da
mineração do ouro e de pedras preciosas, representados respectivamente
por Antonio Raposo Tavares e Fernão Dias Paes (Taunay, 1937: 57). Assim,
no lugar que deveria lembrar D. Pedro I, o ‘príncipe libertador’, foi
criado um ambiente capaz de recordar o passado colonial e imortalizar os
bandeirantes.18
52Para
reforçar essa simbologia, ao redor da estátua de D. Pedro I, foram
dispostas outras seis estátuas de diversos bandeirantes. Esses deveriam
representar as unidades da federação cujos territórios haviam pertencido
à antiga capitania, antes de seu desmembramento. Sobre isso, Afonso
Taunay (1926: 49) escreveu:
“Assim,
escolhi as seguintes figuras: capitais e simbólicas do bandeirismo de
São Paulo: Manoel de Borba Gato (Minas Gerais); Paschoal Moreira Cabral
(Mato Grosso), Bartholomeu Bueno da Silva, o Anhanguera (Santa Catarina)
e Francisco de Brito Peixoto (Rio Grande do Sul). Em cada pedestal se inscrevem o nome do Estado e a data de sua separação de São Paulo”.
- 19 Martim Afonso de Souza chefiou a primeira expedição portuguesa ao Brasil com objetivos não só milit (...)
- 20 João Ramalho é o português que Martim Afonso de Souza encontrou estabelecido na região de São Vicen (...)
53Muito próximo das estátuas estão também alguns quadros, como os de Dom João III e do fidalgo Martim Afonso de Souza19 – “o rei povoador e seu grande delegado americano da colonização inicial”, bem como de João Ramalho20 e do cacique Tibiriçá – “os patriarchas europeu e americano dos mais velhos troncos vicentinos” (Taunay, 1937: 57). A
instalação de tais figuras históricas tinha o objetivo de simbolizar a
era quinhentista de São Vicente, reconhecida como a primeira vila do
Brasil.
54Para
o diretor do museu, esse espaço deveria recordar o bandeirismo e o
processo de formação territorial do Brasil. Assim, os pedestais “foram
aproveitados para recordar o bandeirantismo, epsodio culminante da
historia nacional, e por assim dizer singular na historia universal.
Recorda a expansão brasileira para oeste, sem a qual seria o nosso
território um terço do que é (Taunay, 1937: 60).
55No mesmo hall
também foram colocados sobre pilares que acompanham a escadaria,
grandes vasos de bronze contendo pequenas porções d’água retiradas de
alguns rios brasileiros. Os vasos “que ornam motivos faunisticos e
floraes eminentemente representativos, como sejam anhumas, jacamins,
colheiros, garças, socós, taboas, nymphéas etc” guardam porções de água dos rios “Amazonas,
Madeira, Negro, Paraná, Paraguay, Uruguay, São Francisco, Tocantins,
Doce, Jaguaribe, Assú, Parnahyba, Carioca, Oyapock, Chuy, Capiberibe
Javary” (id., ibid.: 59-60).
56Com a imagem dos rios brasileiros, simbolicamente representados por essas ânforas d’água, Afonso Taunay procurou representar o “conjunto do território nacional”
(id., ibid.: 56), conquistado através da navegação de uma imensa rede
hidrográfica, idéia que fica mais clara na seguinte citação:
“Assim, não ha circumscrição do territorio nacional que não esteja representada por um curso d’água que lhe rega o solo (...) Ao
marco de Cananéa ladeiam os dous vasos que encerram as águas misturadas
do Oyapoque e do Chuy e as do Capiberibe e Javary, os rios dos extremos
norte e sul, e leste e a oeste do Brasil” (id., ibid.: 60).
57Tal
estratégia foi utilizada para demonstrar que o Tietê, um rio do tipo
endorreico, fez de seu leito o caminho natural para a conquista
territorial, argumento encontrado também em outros historiadores, como
Basílio de Magalhães e Ellis Junior. Para eles o destino
expansionista do bandeirante é também resultado da natureza do
território brasileiro. Esses autores atribuíram ao rio Tietê o papel de
orientador do movimento de expansão, o que faria dele a mais importante
via de comunicação do país.
58O
papel do Tietê no interior do museu, ou seja, a força evocativa do
conjunto da águas fluviais, também pode ser notada nos textos de Afonso
Taunay, que contribuíram para a transformação do rio num dos principais
elementos da tradição bandeirante.
- 21 Em História Geral das Bandeiras Paulistas, Afonso Taunay exemplificou um trajeto da expansão realiz (...)
No
conjunto das vias de penetração do Brasil meridional ignoto e selvagem,
nenhuma tem tão longínqua significação quanto a que ao Tietê tão
notável realce empresta. Está o nome do grande rio de São Paulo,
tributário do Paraná, indestrutivelmente ligado à historia da construção
territorial do imenso Brasil ocidental (...) Quando, à margem da ‘água
grande’ do Tietê de Piratininga, na antiga várzea de Guarepe, se
puseram, pela primeira vez, a meditar acerca do curso provável daquelas
massas líquidas, volumosas, que do mar tão perto nasciam e singularmente
corriam para o interior das terras, que teria ocorrido à mente dos
primeiros povoadores do planalto? Onde iria ter o misterioso caudal?
(Taunay, 1976: 7-8).21
59Na historiografia paulista o tema Tietê tomou papel fundamental na medida em que foi sendo relacionado à expansão territorial.
“O
Tietê identifica-se, em determinado período, com a própria vida-alma e
corpo, tradição e progresso, glória e miséria – de São Paulo, ligando-se
destarte, inseparavelmente, ao passado brasileiro” (Nóbrega, 1981: 56).
60O
conteúdo simbólico sugerido à natureza também pode ser notado quando
Afonso Taunay (s/d: 101) escreveu sobre o papel das ânforas no Museu
Paulista:
“Ao
padrão nacional evocador da glória das bandeiras virá trazer a presença
da ânfora de água do Tietê a nota do mais poderoso e poético
simbolismo”.
61A
mitologia bandeirante alimentou durante décadas uma imagem do
território nacional como herança exclusiva das iniciativas dos
bandeirantes, ou seja, o mapa do Brasil seria o mesmo desde o período
colonial. Tal ideologia foi formulada a partir de uma estratégia
que ora omitiu as discussões pela posse das áreas em litígio,
principalmente na região norte do país, ora “imputou aos “paulistas”
(aparentados diretamente ou imbuídos pelo espírito do planalto de
Piratininga) as vitórias diplomáticas ocorridas tempos mais tarde.
- 22 Para Marcelo Escolar (1990: 7) representação patriótica pode ser considerada como “una forma de int (...)
62O
simbolismo presente no acervo do Museu Paulista, aguçado não somente
por Afonso Taunay mas também por seus contemporâneos, notado através do
culto às dimensões territoriais do Brasil representadas em mapas, passou
a designar o papel de receptor e reprodutor de uma representação
patriótica que contribuiu para a naturalização das imagens do território
nacional.22
- 23 A preocupação de Afonso Taunay em reservar espaços especialmente para a exposição de objetos e imag (...)
- 24 A quase total ausência de documentação cartográfica produzida durante o período colonial pode ser c (...)
63Para
contar a história nacional a partir do território, Afonso Taunay, à
moda do que já acontecia no Instituto Histórico e Geográfico de São
Paulo, dedicou-se ao resgate de uma documentação a respeito da expansão
das fronteiras territoriais.23
Então, preocupado em reunir documentos e juntar provas, talvez por
influência de Capistrano de Abreu, Afonso Taunay procurou ampliar as
coleções históricas adquirindo um expressivo acervo iconográfico e
cartográfico referente à São Paulo. Mas como os bandeirantes, muitos
analfabetos, não deixaram documentação sobre os caminhos e roteiros nas
expedições pelos territórios desconhecidos,24 Afonso Taunay, infelizmente, pôde reunir somente documentos e vestígios de uma cartografia paulista mais recente.
- 25 Em relatório enviado à Secretaria do Interior, Afonso Taunay explicou que, para incrementar as sala (...)
64Aos
poucos a sala dedicada à Cartografia Colonial e Documentos Antigos,
aberta ao público em 1917, foi sendo enriquecida com a aquisição de
diversos mapas de São Paulo. Em 1918, Afonso Taunay inaugurou uma nova
sala dedicada ao passado do estado. Mais tarde, em 1922, abriu uma outra
sala para também expor documentos e imagens iconográficas que
reproduzem o cotidiano de São Paulo Antigo.25
- 26 Paulo Cavalcante de Oliveira Junior exemplifica bem esse fato quando, ao analisar o livro São Paulo (...)
65A repetição como estratégia para a criação de uma tradição26
também pode ser percebida através da escolha dos temas para a seção
histórica do Museu. Se por um lado, Afonso Taunay objetivava encontrar,
restaurar, copiar e reconstituir o máximo possível da história de São
Paulo, conferindo de certa maneira um alto grau de nobreza e
importância, por outro lado utilizava a repetição como estratégia
discursiva:
“vale
destacar que a repetição de um tema, de um argumento, de uma conclusão,
ocorridos dentro de um mesmo livro, em livros correlatos ou em momentos
aparentemente insignificantes, conformam uma idéia geral que ganha
estatuto de verdade, que cumpre a sua função simbólica de forma
explícita, mas especialmente, de forma implícita” (Oliveira Junior,
1994: 21).
- 27 A falta de material iconográfico suficiente para organizar o acervo do museu e posteriormente para (...)
- 28 O projeto para execução das estátuas de Fernão Dias Paes Leme e Antonio Raposo Tavares, assim como (...)
66A
reforma do museu coordenada por Afonso Taunay demonstrou a capacidade
do diretor em trabalhar com episódios históricos conciliados com a
criação de símbolos. Prova disso é a maneira como ele repetiu
certas situações e personagens, o empenho com que selecionou e organizou
o material iconográfico, a maneira como imaginou certos quadros
históricos, encomendados e realizados com certa distorção.27
Afonso Taunay, muito consciente da importância do mito e da ação
educativa de um museu, tanto pela sensibilização do visitante como pelo
número total de freqüentadores do espaço, buscou um elemento que
pudesse, no interior da instituição, representar o povo paulista nas
suas maiores virtudes. E assim, a partir do uso de uma imagem inventada –
o bandeirante paramentado com gibão e botas –, o diretor contribuiu
para a formação da imagem do expansionista que hoje povoa o imaginário
de tantos brasileiros.28
- 29 A geração de políticos e intelectuais que estiveram presentes nas comemorações de setembro de 1922, (...)
67A
escolha dos objetos mais significativos e o lugar onde deveriam ser
expostos acabaram demonstrando uma série de concepções que Afonso Taunay
começava a divulgar através de alguns textos. Essa organização ilustra
bem a maneira como ele concebia a história do Brasil, assim como também
sua boa relação com a elite paulista, já que a preparação do acervo do
museu para visitação estava concordante com a política de valorização da
história local.29
68A opção temática demonstra também uma preocupação básica centrada em dois pontos fundamentais. Primeiro,
a história do Brasil é retratada no museu via processo de formação
territorial, o que pode ser apreendido através dos episódios fundadores
da nossa nacionalidade: expedições, fundações de povoados, descobertas
de ouro, conhecimento do sertão etc. E segundo, juntamente com esses
episódios são apresentados os personagens desse importante processo,
aqueles que, imbuídos de coragem, arrastaram-se por um espaço
desconhecido para expandir o território, base da nacionalidade. Então, o
território nacional e o bandeirante formam a dupla de elementos que
devem ser lembrados por todos os visitantes do museu.
69Por
fim, resta-nos dizer que, ao destacar esses personagens dentro da
história da emancipação política do país, Afonso Taunay sacralizou o
espaço da memória no estado de São Paulo. Foi em 1922 que o diretor deu o
passo definitivo para a concretização de seu copioso estudo sobre os
bandeirantes. E foi também nesse momento que o Museu Paulista
transformou-se em espaço ideal para guardar a memória de São Paulo.
Quanto à geografia, ao defini-la como instrumento mais adequado para
contar a história de São Paulo, Taunay acabou afastando o Brasil de uma
interpretação pessimista, aproximando-o de outra que celebrava as
façanhas de uma gesta grandiosa (relacionada ao desenvolvimento e ao
progresso praticamente inevitáveis devido à grandeza de seu povo e sua
natureza). A história da pátria brasileira é fruto da geografia, tarefa
plenamente cumprida pelos bandeirantes do Museu Paulista.