1Este
trabalho apresenta uma reflexão sobre a concepção de Geografia presente
nos textos de Élisée Reclus. Busca-se compreender o pensamento do autor
e identificar suas possibilidades e contribuições para o
desenvolvimento atual da Geografia. Considerando sua teoria comunitária
como base de seu pensamento.
2Essa
reflexão está ligada a pesquisa iniciada em 2008 com o Grupo de Estudos
sobre Geografia e Anarquismo na Universidade Federal Fluminense que
culminou no Trabalho de Conclusão de Curso “A Atualidade do pensamento
de Elisée Reclus e Peter Kropotkin frente à crise da ciência moderna”
apresentado, em 2010. Apresentam-se aqui algumas ideias que são
resultado da continuidade dessa pesquisa.
3A
concepção de mundo e de Geografia de Reclus tem como fundamento sua
posição política enquanto anarquista. E é justamente isso que confere
aos seus estudos e suas considerações uma perspectiva diferenciada e
original. Para compreender suas idéias é necessário, portanto, conhecer e
perceber a relevância do pensamento anarquista. Dessa forma é possível
compreender o pensamento geográfico de Reclus e a importância de sua
contribuição para a Geografia, ressaltando ainda sua exclusão ou
afastamento do discurso geográfico acadêmico, formal e oficial e sua
atual revalorização, ambas pelo mesmo motivo: sua perspectiva
anarquista.
4Reclus,
diferente da maioria dos geógrafos do seu tempo e de hoje, não
fundamentava seus estudos no papel do Estado, mas, sim, no papel das
comunidades na formação e organização do espaço geográfico. Ele
considerava que o ponto de partida para a compreensão do desenvolvimento
dos povos é entender o movimento das comunidades que os compõem. A
forma como este geógrafo anarquista entendia as relações sociais dentro
do contexto da construção e organização do espaço geográfico pode ser
considerada pioneira, pois procurava estabelecer as relações entre as
classes sociais e o espaço ocupado e dominado. Reclus constrói assim sua
teoria comunitária do desenvolvimento humano a partir da Geografia.
5Além
disso, Reclus também foi capaz de perceber a importância das redes, ao
entender que elas eram o elemento responsável pela coesão dos
territórios. Dessa observação derivam duas idéias férteis: o uso das
redes como um dos principais mecanismos de dominação do Imperialismo
vigente na época e em oposição a possibilidade de um mundo em que a
organização espacial se daria a partir de uma articulação em rede, capaz
de garantir a autonomia das comunidades envolvidas, o federalismo.
6O
enfoque no papel das comunidades permite a percepção da importância das
redes como elemento articulador dessas comunidades. É a partir dessa
articulação que se dá a formação dos povos. Reclus propõe, então, a
utilização do conhecimento geográfico como instrumento de transformação
da sociedade e do espaço.
7É
muito importante ressaltar o fato de que qualquer tentativa de expor e
explicar o anarquismo e o pensamento anarquista é sempre parcial,
principalmente, devido ao caráter não doutrinário e anti-hierárquico
desta concepção.
8O
movimento anarquista é um movimento social internacional e
internacionalista, que surgiu no seio dos movimentos de trabalhadores,
no século XIX, na Europa. É possível, então, diferenciar Anarquia e
Anarquismo: (1) Anarquia como um feixe de princípios presentes, de forma
mais ou menos acentuada, em diversos povos com modos comunitários de
vida e em uma série de lutas e movimentos que buscam a ampliação da
liberdade ou reivindicam autonomia; já (2) o Anarquismo é um conceito,
uma vertente de pensamento político e um movimento social com teorias,
objetivos e métodos formulados a partir da Europa, no século XIX.
Pode-se então diferenciar movimentos anárquicos (que apresentam um ou
mais princípios da anarquia) de movimentos anarquistas.
9A
anarquia, enquanto um feixe de princípios que dão sentido a práticas
socioespaciais concretas é corrente na maioria dos povos que praticam ou
reivindicam formas comunitárias de vida. Essas são formas de sociedade
em que, a partir de sua autonomia política, os grupos sociais se baseiam
na coexistência e na ajuda mútua como suas principais formas de
organização e apropriação dos recursos naturais locais. Desenvolvem
formas de gestão de seus territórios bem próximas da autogestão,
relacionadas ao manejo dos recursos naturais locais. Essas formas de
manejo devem ser percebidas como formadoras e reformadoras do
(agro)ecossistema local, responsáveis, assim, pela construção do seu
espaço geográfico.
10Além
disso, a anarquia enquanto um feixe de princípios, também pode ser
percebida em diversos tipos de movimentos sociais surgidos
principalmente a partir da década de 1970. A busca por políticas e
metodologias participativas, a idéia de autodeterminação dos povos, a
preocupação ecológica, a reivindicação por formas de (auto)gestão e de
governo direto das comunidades sobre seus próprios territórios, todos
esses são elementos da anarquia.
11Já o
anarquismo deve ser visto com cuidado, devido à diversidade de
perspectivas e abordagens daqueles que tomam o anarquismo para si,
demonstrando uma de suas principais características: o caráter não
doutrinário. É preciso entender, então, que o anarquismo parte de dois
princípios básicos: “a negação de toda e qualquer autoridade e a
afirmação da liberdade” (GALLO, 2007, p.20). Dessa maneira, torna-se
impossível pensar numa doutrina anarquista, já que esta por si só iria
contra o princípio da liberdade. Deve-se ter em conta, também, que
poucos conceitos e movimentos foram tão mal entendidos quanto o
anarquismo; um dos principais motivos para isso, justamente, é a sua
diversidade interna.
12Pode-se
considerar que a tradição anarquista começa com o início das
organizações de trabalhadores. O desenvolvimento cada vez maior dessas
organizações cria a necessidade de se construir chaves teóricas para a
observação do mundo que suplantem as chaves teóricas burguesas e
possibilitem aos trabalhadores uma visão de mundo autônoma e
emancipatória. A maioria dos conceitos e categorias do anarquismo foi
formulada nas reuniões dos movimentos operários e nas discussões
políticas travadas pelo povo. Assim, Reclus (2002) sempre fala de uma
“ciência social” em oposição à ciência acadêmica e, ainda, segundo
Kropotkin,
13Como
o socialismo, e em geral todos os movimentos de caráter social, o
anarquismo originou-se do povo e só conservará a vitalidade e força
criadora que lhe são inerentes enquanto se mantiver com a sua
peculiaridade de movimento popular. (KROPOTKIN, s.d, p.11)
14A
partir das divergências teóricas com Mikhail Aleksandrovitch Bakunin
(1814 – 1816), cujas idéias ficaram conhecidas como coletivismo
anarquista, os geógrafos Pyotr Alexeyevich Kropotkin (1842-1921) e
Èliseé Reclus vão, junto com diversos outros anarquistas e
trabalhadores, iniciar a vertente de pensamento que ficou conhecida como
comunismo libertário, também chamado de comunismo anarquista ou
anarco-comunismo. A divergência principal está na questão da divisão do
produto criado a partir do trabalho. Para o coletivismo, cada um deve
receber de acordo com o trabalho realizado; já para o comunismo
libertário, cada um deverá receber de acordo com as suas necessidades,
desde que haja produto suficiente para isso. A proposta do Comunismo
Libertário é a de uma organização social baseada nas comunidades ou
comunas e em associações de todo tipo, com as mais diversas finalidades,
articuladas em rede.
15Por
fim o anarquismo pode ser entendido como uma forma de pensar e agir
sobre a realidade, constituindo-se, portanto, numa práxis, cujo objetivo
é a transformação radical da forma de organização política e econômica
da sociedade atual.
16É
imprescindível, ao analisar as idéias de qualquer pensador, situá-lo em
seu contexto histórico e geográfico, pois só assim é possível
entendê-las. Deve-se ter em mente que os textos de Reclus foram escritos
ao longo da segunda metade do século XIX e início do século XX e tanto o
vocabulário como as idéias neles apresentadas estão fortemente
conectadas aos debates filosófico, científico e político da época.
Algumas vezes são utilizadas palavras e expressões que hoje são
consideradas inadequadas, como “povos primitivos”, mas que faziam
sentido no contexto em que ele se encontrava. No entanto, Reclus
demonstrou profunda sensibilidade em relação às interações entre povos
diferentes. Assim algumas de suas reflexões se aproximavam a idéias que
hoje são consideradas mais apropriadas, como o multiculturalismo, a
autodeterminação dos povos e os direitos de autonomia local.
17Jean
Jacques Élisée Reclus (1830-1905) era filho de um pastor protestante,
professor da escola paroquial e de uma professora; cresceu em um
ambiente culto e foi educado para ser pastor, o que nunca chegou a se
tornar. Mas sua educação o permitiu se empregar como professor e
preceptor em diversos países. Foi exilado da França duas vezes e viajou
muito pelo mundo trabalhando como geógrafo\escritor. Fez longas viagens a
pé pelos EUA, por toda a França e pela Europa. Geógrafo de campo, da
prática, com incrível sensibilidade para dialogar com as pessoas que
encontrava no caminho. Essas vivências marcaram seu pensamento
geográfico. Além da publicação de trabalhos de Geografia Reclus se
dedicava à luta política na prática, se envolveu em uma série de
empreendimentos militantes (participando ativamente da Comuna de Paris) e
colaborou intensamente com a imprensa anarquista da época.
18Éliseé
Reclus escreveu uma grande quantidade de artigos, mas seu pensamento
geográfico de se encontra condensado em três grandes obras: (1) A Terra: descrição dos fenômenos da vida do globo; (2) Nova Geografia Universal; e (3) O Homem e a Terra.
19Em 1869, Eliseé Reclus publicou A Terra: descrição dos fenômenos da vida do globo,
onde mostrou sua idéia do ser humano como parte integrante da natureza.
Essa consideração torna o conhecimento da natureza essencial para o
desenvolvimento da liberdade e da autonomia dos indivíduos. Ao colocar o
ser humano como parte integrante da natureza, é possível romper a
dicotomia que caracterizou o fracionamento da Geografia, no século XX, e
que acarretou sérios prejuízos para essa ciência. Nesse livro, Reclus
demonstra sua concepção de Geografia e principalmente de Natureza. Essa
obra, segundo Moreira (2008, p.25), “irá inspirar os estudos do quadro
físico do planeta até o advento do Tratado de Geografia Física de Emmanuel De Martone (1873-1955)”.
20Iniciou em 1872 a Nova Geografia Universal,
obra de caráter enciclopédico publicada pela editora Hachete, sob uma
série de restrições ideológicas. Apesar disso, essa obra apresenta uma
das características importantes das obras de Reclus, que é a quebra de
dicotomias. Nela a dicotomia Geografia Geral/Geografia Regional é
colocada em xeque; pois Reclus procura situar (articular) a parte dentro
do todo e o todo em relação à parte da forma clara e didática. O estilo
da obra é herdeiro de uma tradição de pensamento não fragmentário, que
existia como modelo possível para a construção de conhecimento, já no
século XIX. Como explica Moreira (2008, p.25), a Nova geografia universal está na tradição do Erdkunde, obra de mesmo perfil publicada por Ritter, de quem Reclus foi aluno, e do Cosmos,
que Humbolt publicou em Paris. Reclus considera, então, a Geografia
como o estudo das áreas diferenciadas da superfície da Terra, a partir
da comparação entre elas, mas sem hierarquizá-las ao fazer a comparação.
21O Homem e a Terra
foi o único livro que Reclus escreveu sem restrições editoriais
contratuais; nele pode mostrar todo seu entendimento de Geografia a
partir da idéia de liberdade e da filosofia anarquista. Nessa obra
buscou romper a dicotomia entre Geografia e História, a separação entre o
“meio espaço” e o “meio tempo”, como ele chamava, ao considerar que “a
História é a Geografia do tempo bem como a Geografia é a História do
espaço”. Assim, suas principais obras se distinguem pela quebra de
dicotomias, em o “Homem e a Terra”, “dissolve a dicotomia espaço-tempo,
depois de ter feito com a dicotomia homem-natureza em A Terra e regional-sistemática em Nova Geografia Universal” (MOREIRA, 2008, p25-26).
22Além das três grandes obras de Geografia Reclus escreveu um livro sobre filosofia política: A Evolução, a Revolução e o Ideal Anarquista,
publicado em 1897. Esse livro é profundamente geográfico e sua leitura é
fundamental para compreender a visão de mundo que da base ao seu
pensamento geográfico. Nele Reclus expõe seu entendimento de como se dá o
desenvolvimento dos povos através de Evoluções e Revoluções, Progressos
e Regressos.
23Embora
tenha sido um dos geógrafos mais importantes e conhecidos do seu tempo,
seu reconhecimento se deu principalmente junto ao público leitor em
geral, estadistas e aos movimentos anarquistas, socialistas e de
trabalhadores, mas não junto às universidades. A posição política de
Reclus se opunha aos objetivos e ações dos Estados (e ao próprio
Estado), que são os principais financiadores das universidades, por isso
atuou como professor durante curto período e pouco influenciou o
pensamento geográfico, formal e acadêmico. Além disso, sua metodologia
era divergente em relação ao pensamento científico hegemônico da época,
fortemente influenciado pelo positivismo, assim, sua obra passou a ser
desqualificada a partir de um discurso que a colocava como
essencialmente descritiva e “pouco científica”.
24A
vitalidade e atualidade da obra de Reclus ficaram em evidência a partir
da emergência da crise da ciência, da crise ambiental e dos movimentos
sociais de populações que vivenciam ou reivindicam modos de vida
comunitários. Assim, a partir da década de 1970, a obra de Reclus e sua
militância anarquista passaram ser mais valorizadas pelos geógrafos,
mas, muitas vezes apenas pela sua importância histórica e não pela
atualidade de sua abordagem científica\geográfica.
25A
Geografia é um campo da ciência que estuda o espaço, ou seja, a
organização espacial que tem a relação entre o ser humano e a natureza
na base de sua ordem e de suas transformações. Justamente por isso, os
dualismos fundamentais da ciência moderna trouxeram uma série de
problemas para o entendimento da Geografia, tanto por parte da população
de uma forma geral quanto por parte dos estudiosos desse ramo. Mas é
importante assinalar que uma parte dos geógrafos não aderiu à
fragmentação exagerada, por entender que dessa forma iriam perder poder
analítico e descaracterizar esse ramo científico. Por isso, sempre
existiram geógrafos que procuraram um entendimento do todo, evidenciando
as interconexões entre fenômenos e processos diversos, como Reclus,
que, já no século XIX, entendia o elemento humano como a natureza
consciente de si própria (RECLUS, 1985). Dessa maneira, ao mesmo tempo
em que situa o ser humano dentro da natureza, carrega a natureza de
significação própria, dotando-a de consciência.
26Para
Reclus, o meio provoca o humano a transformá-lo, promovendo assim a
construção do espaço. Para ele “a força do homem se mede pelo seu poder
de acomodação ao meio” (RECLUS, 1985, p.41), ou seja, o homem não luta
contra o meio, ele se incorpora ao meio e acaba incorporando o meio a
si. Desconstrói-se assim, também a idéia comum de que existe uma luta
ininterrupta entre o ser humano e o ambiente natural, além de se colocar
num campo de visão totalmente oposto à corrente de pensamento que ficou
conhecida como determinismo geográfico. Isso porque o determinismo vai
se preocupar em ressaltar um fator externo único, como o clima, por
exemplo, considerado tão importante a ponto de determinar o processo de
desenvolvimento de um grupo social em sua relação com um território.
27Esse
geógrafo anarquista identificava diferentes ordens nas quais os
elementos que compõem o meio podem ser agrupados. Mas essas ordens de
agrupamento não são vistas como opostas ou dicotômicas. E o meio é
entendido de uma forma bastante ampla, contemplando espaço e tempo.
Deve-se conceber, então, o meio como o conjunto dos elementos espaciais,
junto com o conjunto dos elementos temporais. Assim, “ao meio-espaço
caracterizado por mil fenômenos exteriores, é preciso acrescentar o
meio-tempo, com suas transformações contínuas, suas repercussões sem
fim” (RECLUS, 1985, p.57). Essa forma de entender o meio rompe com a
dicotomia entre espaço e tempo e tem um caráter totalizador. É uma visão
holista, que enfoca “a complexidade dos fenômenos ativos” (RECLUS,
1985, p.58). Assim sendo, as influências sofridas pelos humanos, devem
ser vistas em conjunto, o que torna impossível considerar qual tipo de
influência é mais importante.
Esse segundo meio dinâmico,
acrescentado ao meio estático primitivo, constitui um conjunto de
influências no qual é sempre difícil, muitas vezes impossível reconhecer
as forças preponderantes, tanto mais que a importância respectiva
dessas forças, primeiras ou segundas, puramente geográficas ou já
históricas, varia segundo os povos e os séculos. (RECLUS, 1985, p.58)
28Portanto,
no que diz respeito às influências do meio sobre o ser humano, Reclus
demonstra que um único fator não pode ser determinante no
desenvolvimento seja dos indivíduos ou das sociedades, porque o que deve
ser levado em conta é o “conjunto das influências”.
29É,
então, de vital importância para a compreensão do ser humano, entendê-lo
a partir de sua vivência, pois “cada um de nós é, na realidade, um
resumo de tudo aquilo que viu, ouviu, viveu, de tudo aquilo que pôde
assimilar pelas sensações” (RECLUS, 1985, p.56). E, ainda mais, para
esse geógrafo não há como saber quais as forças, fenômenos e processos
interferem preponderantemente sobre a ação humana. O homem vê sua
natureza interna refletida na natureza externa que o cerca e que ele
mesmo ajuda a moldar. O meio é parte do homem e o homem parte do meio.
Assim, a forma como esses processos, tanto internos quanto externos, são
sintetizados nas diversas vivências, vai ser responsável por um
“desigual desenvolvimento nos indivíduos e nas sociedades”. (RECLUS,
1985, p.39)
30Mas
também é importante ressaltar que as forças, fenômenos e processos que
atuam sobre os seres humanos são extremamente diversos. Reclus explica
que,
todas essas forças variam de
lugar para lugar de época para época: portanto, foi em vão que os
geógrafos tentaram classificar, numa ordem definitiva, a série dos
elementos do meio que influem no desenvolvimento de um povo – os
fenômenos múltiplos e entrecruzados da vida não se deixam classificar
numa ordem metódica. (RECLUS, 1985, p. 59)
31O
geógrafo anarquista considera, portanto, que a busca de leis gerais para
o desenvolvimento dos povos, através de um único método cientifico
(nesse caso um único método geográfico), é infrutífera, pois os povos
devem ser observados através do prisma dos “fenômenos múltiplos e
entrecruzados da vida”. Eles devem ser vistos enquanto a síntese de toda
a sua vivência, que se dá concomitantemente no “meio-espaço” e no
“meio-tempo”. Assim, as formas de pensamento humano se constroem através
dessas vivências. Evidencia-se, então, a ligação existente entre as
vivências dos povos e das sociedades em sua relação com a construção das
diversas formas de pensar e de conhecer.
32Apesar
de considerar a procura de leis gerais do funcionamento e da evolução
dos povos uma tarefa infrutífera, Reclus afirma que os fatos da evolução
histórica podem ser agrupados em três grandes categorias de
acontecimentos: A primeira é fruto do desenvolvimento desigual dos
indivíduos e das sociedades, assim “todas as coletividades humanas, com
exceção dos povos que permanecem no naturismo primitivo, se desdobram
por assim dizer, em classes e castas” (RECLUS, 1985, p.39). Essas
classes ou castas possuem interesses diversos ou até antagônicos e vão
estar em constante luta, pois “o equilíbrio rompido de indivíduo a
indivíduo, de classe à classe, oscila constantemente”(IDEM, p.39). Dessa
forma, Reclus aceita a “luta de classes”, proposta por Marx, mas com
restrições à forma como Marx considera esse conceito, sendo essa a
segunda grande categoria de acontecimentos. Por fim, o terceiro grupo de
acontecimentos se refere ao esforço e à criatividade dos indivíduos,
pois “qualquer evolução na existência dos povos só pode ser criada pelo
esforço individual” (ÍDEM, p.40). Assim, o processo de formação dos
grupos humanos a partir da sociabilidade vai evidenciar o fato de que,
as sociedades “agem e reagem sobre a maneira de sentir e de pensar,
criando assim em grande parte, aquilo que se chama ‘civilização’” (ÍDEM,
p.56).
33Outro
aspecto importante do pensamento de Reclus é a forma como concebia a
Evolução e a Revolução. Para ele, “as evoluções realizam-se pelo
deslocamento de forças a um novo ponto” (RECLUS, 2002, p.27). Por isso
considera que evolução e revolução “são fatos da mesma ordem só
diferenciados pela amplitude do movimento” (ÍDEM, p.22). Assim a
“evolução e a revolução são dois atos sucessivos de um mesmo fenômeno, a
evolução precedendo a revolução, e esta precedendo uma nova evolução”
(ÍDEM, p.25). Dessa forma, o pensador anarquista era capaz de
compreender tanto o movimento das sociedades quanto os da natureza.
34Com
base nisso e na consideração de Kropotkin de que a ciência passou a se
preocupar menos com as grandes generalidades e mais com “os indivíduos
de que se compõem essas somas, e das quais acabou por reconhecer a
independência e a individualidade, ao mesmo tempo que a sua íntima
agregação” (KROPOTKIN, 2001, p.28); passa-se a uma concepção da vida que
parte dos indivíduos para chegar a conceber o todo.
35A
partir de um enfoque diferenciado em relação a “geógrafos, como
Frederico Ratzel, preocupados com o papel desempenhado pelo Estado no
controle do território” (ANDRADE, 2004, p.19), Reclus não vai se
fundamentar no papel do Estado, mas, sim, no papel das comunidades na
formação e na organização do espaço geográfico. Assim, para compreender a
evolução histórica e geográfica de um povo é de primeira importância
dar atenção às afinidades que são formadoras desse povo, ou seja, seus
costumes, sua língua, seu processo de formação histórica, etc. O Estado
nacional é entendido como uma conformação sócio-espacial recente na
história, que deixará de existir ao longo do processo histórico. A ação
das afinidades comuns é vista como uma influência permanente na formação
e na organização sócio-espacial dos povos. Portanto, essa “libertad de
agrupación individual implica la movilidad de la frontera; en realidad ¡
cuán pocos son los habiteantes que están de acuerdo, francamente, con
las convenciones oficiales!” (RECLUS, 1986, p.189). Por isso, Reclus
considerava que as fronteiras dos Estados nacionais são fronteiras
artificiais, pois não levam em conta nem as afinidades comuns e nem a
liberdade de associação. Já as afinidades comuns, por sua vez, são
capazes de forjar um caráter “espontaneamente nacional” (RECLUS, 1986,
p.124), através da associação das comunidades. É por isso, então, que
“Reclus vê nossa era” como “um contraponto entre o comunitarismo e o
capitalismo” (MOREIRA, 2008, p.49).
36Em relação à questão da propriedade, Reclus explica que:
la forma primera de apropiación (pues la tierra que se cultiva reconociendo que ya no se tendrá el derecho de poseerla
cuando se deje de fecundar el suelo mediante el trabajo, no es todavía
una propiedad), siegue la propiedad colectiva. (RECLUS, 1986, p.324)
37Assim,
a primeira noção de propriedade que se constrói entre as comunidades e
os povos é a de posse, ou seja, o direito de propriedade sobre algum bem
só existe enquanto o seu possuidor fizer uso desse bem. Evidencia-se
assim, em relação à organização espacial da Idade Média, “que la
propiedad común fue antaño el régimen dominante entre las sociedades”
(RECLUS, 1986, p.296). Uma forma de organização espacial em que cada
aldeia “formaba antaño un conjunto bien ordenado, donde cada quien
estaba seguro de la posesión del suelo, de las facilidades de trabajo y
de un funcionamiento regular de la existencia comunitaria” (ÍDEM,
p.297).
38Reclus
considerava como ponto de partida para entender o desenvolvimento dos
povos compreender o movimento das comunidades que compõem esses povos. A
forma como esse geógrafo anarquista entendia as relações sociais dentro
do contexto da construção e organização do espaço geográfico, fez dele
um dos pioneiros da “Geografia de tom social e político que veremos
surgir na Geografia mundial e brasileira nos anos 1970, responsável
inclusive pelo seu atual ressuscitamento”; pois, “procurava estabelecer
as relações entre classes sociais e espaço ocupado e dominado” (ANDRADE,
2004, p.19). Em relação a esse aspecto, Reclus é bastante claro ao
explicar que: “Todas las oscilaciones económicas de la sociedad que
afectan a las clases de los trabajadores y de los capitalistas, nobles o
burgueses, se representan sobre el suelo y modifican la red de las
líneas divisórias” (RECLUS, 1986, p.330).
39Para
Reclus, é preciso construir uma Geografia que tome o indivíduo -
elemento primário da sociedade (RECLUS, 1985) - como foco de sua
reflexão; que seja uma forma de entender e estudar a organização
espacial a partir de uma política da diversidade e da diferença.
Parte-se da compreensão de que são os indivíduos que ao se associar
formam as comunidades e estas por sua vez vão se associar formando os
povos: “cada individuo tiene el derecho de agruparse, de asociarse con
otros según sus afinidades; entre ellas la comunidad de costumbres, de
lenguaje, de história es la primera de todas en importancia” (RECLUS,
1986, p.189).
40Eliseé
Reclus foi capaz, já no século XIX, de perceber a importância das
redes, o que demonstra a relevância de seu pensamento geográfico na
atualidade. Considerava que as redes eram o elemento responsável pela
coesão dos territórios, pois “el conjunto de los puntos ocupados se
reúne en un todo geográfico mediante una red de vías de comunicación”
(RECLUS, 1986, p.237). Segundo ele, a atuação das vias de comunicação
agia no sentido da conformação do que considerava uma identidade mais
“espontáneamente nacional” (RECLUS, 1986, p.124), exemplificando com o
caso da Alemanha:
Una vez borrados todos los
antiguos limites geográficos mediante las vias de comunicación y las
grandes concentraciones urbanas, resulto que Alemania era naturalmente
dentro de su esencia misma, más unida que los países vecinos unificados
artificialmente. (ÌDEM, p.124)
41Dessa
observação derivam duas ideias muito férteis: primeiro a constatação e o
estudo do uso das redes de transporte e comunicação como mecanismos de
dominação do imperialismo vigente na época e, com base nessa crítica,
uma concepção de mundo onde a organização espacial se daria a partir de
uma articulação em rede, garantindo a autonomia das comunidades
envolvidas; contribuindo para o desenvolvimento da teoria do Federalismo
(muito importante para os anarquistas).
42Esse
geógrafo foi um dos grandes críticos da política imperialista, ao
contrário de diversos geógrafos da mesma época que, sob a influência do
positivismo, ao procurarem fazer uma Geografia neutra, acabaram servindo
aos interesses dessa política.
43Assim, ao analisar a evolução dos instrumentos de dominação da política imperialista, durante a segunda metade do século XIX, considerava que
la Gran Bretaña gradual y
silenciosamente ha agregado a su flota otro instrumento de dominación
mundial, adhiriendo a su isla la mayor parte de sus dependencias de
África, Asia, Australia, América, mediante una red de hilos submarinos
que recientemente le daba las primicias de noticías telegráficas y le
subordinaba todos los pueblos a los cuales el conocimiento de hechos
lejanos llegaba antes desnaturalizado y engañoso. (RECLUS, 1986, p.290)
44Reclus
destacou que o domínio sobre as informações e fatos ocorridos em locais
distantes, principalmente, talvez, sobre revoltas, guerras e
revoluções, é um instrumento estratégico de subordinação. Mas,
considerava que, apesar dos meios de comunicação estarem sob domínio das
classes e dos países opressores, também colocam em contato os
explorados e oprimidos do mundo todo e “gradualmente los pueblos
oprimidos se dan cuenta de que su caso no es el único en el mundo”
(ÍDEM, p.245). Esse contato entre os oprimidos do mundo todo, pode
representar o germe de uma vida nova, a partir das “associações de
forças entre pobres, agricultores ou gente de industria”, mesmo
encontrando “grandes obstáculos em consequência da falta de recursos
materiais” (RECLUS, 2002, p.124). Essas iniciativas têm em vista o
“exemplo das ‘cooperativas’, sociedades de consumo e outras, que também
tiveram começos difíceis e que agora atingiram, em tão grande número,
uma prosperidade maravilhosa” (ÍDEM, p.126). Isso porque, através das
vias de comunicação, “a prática científica do apoio mútuo dissemina-se e
torna-se fácil” (ÍDEM, p.127).
45A
partir dessa observação, ele desenvolveu sua concepção de uma sociedade
futura essencialmente comunitária e articulada em rede. Mas Reclus tinha
consciência dos obstáculos a serem enfrentados e de que “à
internacional dos oprimidos, responde uma internacional dos opressores”
(ÍDEM, p.130). Sua proposta de organização da sociedade e do espaço é
baseada na Geografia, que através de suas três principais obras
“candidata-se e qualifica-se, assim, para Reclus, como êmulo de uma
ciência libertária, pondo o homem diante de si como um ser
conscientemente livre e atuante” (MOREIRA, 2008, p.26). Reclus
considerava, portanto, que a “Geografía, pues, no es cosa inmutable,
ella se hace, y rehace todos los días; a cada instante se modifica
debido a la acción del hombre” (RECLUS, 1986, p.212).
46A
fim de construir um conhecimento geográfico que seja capaz de contemplar
“a complexidade dos fenômenos ativos”, os grupos humanos e as
sociedades devem ser vistos através dos “fenômenos múltiplos e
entrecruzados da vida”. Uma vez que esses fenômenos “não se deixam
classificar numa ordem metódica”, Reclus propõe uma variedade de
metodologias de estudo tão múltiplas quantos forem os povos a serem
estudados. A partir do estudo comparado entre áreas, entendendo por
estudo comparado o estudo das generalidades e diferenças entre as
diferentes áreas do planeta, sem a necessidade de uma hierarquização
entre essas áreas. Dessa maneira, Reclus lança as bases para a
construção de uma Teoria Anarquista da Geografia.
47Essa
pode ser considerada uma proposta metodológica que visa o respeito à
matriz cultural de cada povo ao ser estudado. Dessa forma, deve haver
diversas epistemologias e metodologias partindo das diferentes matrizes
de pensamento e de ser humano. Assim essas metodologias devem dialogar
livremente entre si para poderem se desenvolver de acordo com as
peculiaridades de cada sujeito estudado. Sujeito esse que irá reagir e
influenciar o estudo e o sujeito que realiza o estudo. Numa relação
Sujeito-Sujeito em que a base é o respeito mutuo.
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concepção de sociedade do comunismo libertário parte de uma visão de
mundo baseada na Geografia; é uma proposta de sociedade em que se busca o
desenvolvimento através da autonomia, estabelecendo um estreito vínculo
entre teoria e prática e entre trabalho manual e trabalho intelectual.
Constitui-se, assim, numa práxis social em que as soluções locais são
valorizadas, pois parte de uma política da diversidade. Desta maneira,
quando as questões postas em discussão excedem o nível local, as
localidades, ou seja, as comunidades devem se articular. O avanço
técnico das redes de comunicação e transporte, colocando em contato
comunidades do mundo todo e possibilitando o diálogo entre elas, dá cada
vez mais força ao argumento da constituição de uma federação livre
entre os povos, estabelecendo assim uma relação harmônica entre os
indivíduos e as sociedades.