1Considerando
que o conjunto dos estudos geográficos sobre as frentes pioneiras pode
ser compreendido como uma modalidade discursiva que se utiliza
preponderantemente de conceitos de base espacial, tais como fronteira,
paisagem e região, para elaborar explicações sobre o Brasil, aventa-se
nesse artigo que a análise da geografia acadêmica, uma das mais
evidentes expressões do discurso científico sobre o espaço (Moraes,
1988), possibilita rastrear a estruturação de uma explicação
especificamente geográfica para inúmeras questões postas como
fundamentais para o país na primeira metade do século XX, como o debate
sobre qual o melhor caminho para o desenvolvimento econômico, o problema
do povoamento e colonização de áreas até então pouco ou nada ocupadas e
a necessidade geoestratégica de integração política e econômica das
afastadas regiões que compunham o território.
2Com o
tema da formação territorial do Brasil (Moraes, 2011) como pano de
fundo, a construção da noção de frente ou franja pioneira nos escritos
de Pierre Monbeig oferece descrições explicativas para muitos desses
temas, revelando de maneira consistente o modo como a geografia
acadêmica poderia participar das discussões então colocadas pelo
pensamento político-social (Nogueira, 2012). Nessa direção, pode-se
dizer que ao trazer a lume a linha formativa de composição de uma
explicação geográfica sobre o fenômeno do pioneirismo no âmbito do
Departamento de Geografia da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras da Universidade de São Paulo (FFCL/USP) entre as décadas de 1930 e
1950, procuramos avaliar aqui a relação existente entre a expansão
espacial do povoamento ocorrida no Brasil na primeira metade do século
XX e o processo de formação territorial do país.
3Partindo
da análise direta dos escritos do geógrafo francês publicados entre as
décadas de 1930 e 1950 (Monbeig, 1940; 1952; 1957), este trabalho
procura apontar de que maneira a descrição explicativa das franjas
pioneiras como áreas de movimentação de fronteiras dinamizadas pela
interiorização da colonização, que impulsionou a fundação de cidades, o
desmatamento de florestas e a abertura de campos de cultivo e pastos,
comporta igualmente uma análise sobre o processo de construção dos
sistemas de engenharia que conseguiram consolidar nexos de solidariedade
entre distintos lugares (Santos, 1994; 2002), garantindo maior fluidez e
integração a um território que passava por bruscas alterações em sua
configuração espacial para se adequar às novas necessidades surgidas com
a expansão territorial do capitalismo no Brasil (Santos, 2010).
4Expressivamente,
a década de 1930 pode ser tomada como um ponto de inflexão da geografia
brasileira pela atuação de algumas figuras de inconteste proeminência,
como Pierre Monbeig, cuja obra é de algum modo continuada por discípulos
mais próximos – o que indica a rotinização da produção científica da
geografia, que a partir de então passa a ser praticada e consagrada
fundamentada em novos parâmetros. Sua atuação como pesquisador, aliada
às suas preocupações didáticas enquanto docente, fez com que sua obra
aparecesse como um modelo de escrita dentro do espaço
acadêmico-universitário brasileiro, direcionando estudos e consolidando
linhas de pesquisa aparentadas que contavam com um vocabulário
conceitual único, circunstância que expressa a formação de alguns
denominadores comuns entre sua obra e as que a sucedem temporalmente.
5Em
vista disso, a categoria formação, tal como aparece num esclarecedor
ensaio de Paulo Arantes (1997) sobre Antonio Candido, talvez possa ser
tomada como o giro explicativo que permite reconhecer um ponto de
convergência a unificar a discussão. Comentando o uso metodológico que o
crítico paulista dá a essa categoria em sua obra “Formação da
Literatura Brasileira”, Paulo Arantes sublinha a diferenciação levada a
cabo por Candido entre literatura e manifestação literária:
Ao distinguir entre manifestações literárias avulsas – a cifra mesma da tenuidade brasileira – e literatura propriamente dita, encarada como um sistema
de obras ligadas por denominadores comuns que fazem dela um aspecto
orgânico da civilização, um fato de cultura que não surge pronto e
acabado, antes se configura ao longo de um processo cumulativo
de articulação entre sociedade e adensamento artístico, ao rever nesses
termos a constituição de uma continuidade literária no Brasil, Antonio
Candido dava enfim forma metódica ao conteúdo básico da experiência
intelectual brasileira. Mais exatamente, pondo em evidência elementos da
assim chamada formação nacional, que alimentavam as escolhas estéticas
dos escritores, acabava desentranhando do fato bruto, a que se resumia a
referida formação nacional, o fio condutor de uma outra linha de força
formativa, vir-a-ser de um sistema cultural que na sua trajetória ia aos
poucos convertendo surtos desgarrados em vida literária efetiva
(Arantes, 1997: 21-22).
6 No
esquema interpretativo de Antonio Candido visto por Paulo Arantes, a
contribuição isolada de um ou vários autores, ainda que seja relevante
do ponto de vista estético, social ou qualquer outro parâmetro de
avaliação crítica que se adote, não forma um sistema literário, e isso
principalmente pela falta dos importantes denominadores comuns, que
teriam a função de estabelecer um elo de ligação entre as distintas
obras, articulando entre elas um ar de família que permitiria a
identificação de uma tradição, observada principalmente no aspecto de
continuidade e rotinização da produção artística, a partir do qual as
obras produzidas em um dado momento influiriam na elaboração de outras,
fechando a tessitura do sistema. Alçada à sua expressão metodológica, a
categoria formação ultrapassaria o conjunto ensimesmado das
manifestações literárias ditas de alta cultura, adentrando o universo
cultural da acumulação da produção literária como um todo por um viés
que indaga a própria possibilidade de existência de atividade
intelectual na periferia da economia-mundo capitalista (Arantes, 1997;
Arruda, 2004; Candido, 1987).
7Posto
isso, a hipótese aqui trabalhada revela a possibilidade de compreender a
obra de Pierre Monbeig e seus discípulos nos termos básicos da chave
interpretativa utilizada por Antonio Candido para identificar a
consolidação da literatura brasileira, pois a influência que o trabalho
de Monbeig indiscutivelmente exerceu para a primeira geração de
geógrafos formados nas universidades brasileiras, principalmente em São
Paulo, pode ser sem dúvida entendida como um marco que permite
diferenciar essa fase da geografia brasileira dos períodos anteriores,
marcados pela presença de contribuições isoladas e esparsas que, embora
relevantes e passíveis de análise em si mesmas, não chegaram a gerar um
sistema orgânico de obras dentro do campo disciplinar. Assim, da mesma
maneira que Candido diferencia um sistema literário das manifestações
literárias avulsas, pode-se também distinguir, tendo como parâmetro o
campo geográfico, as manifestações artísticas, literárias e filosóficas
que formulam um discurso culto sobre o espaço, o chamado pensamento
geográfico, do discurso mais coeso da geografia científica ou acadêmica stricto sensu,
que aparece como uma modalidade discursiva passível de ser apreendida
enquanto produto social delimitado histórica e culturalmente (Escolar,
1996; Moraes, 1988).
8O
sentido de grupo professado de um modo particular pelos geógrafos
vinculados à FFCL/USP (Andrade, 1987; Bernardes, 1982), perceptível nas
escolhas temáticas, nos procedimentos de pesquisa e no arcabouço
metodológico de predominante sotaque francês, permite que se enxergue
ali a germinação de um conjunto de obras interligadas por certos
denominadores comuns, tais como a predileção pelos conceitos de
paisagem, região e habitat, a concepção da geografia como
ciência de síntese que privilegia as relações homem-meio, a importância
conferida ao trabalho de campo e as metáforas organicistas que
estabelecem analogias entre os fenômenos físicos-naturais e as relações
sociais, já que as últimas, esvaziadas de sentido crítico, seriam em
grande medida condicionadas pelos primeiros.
9Os
resultados concretos da chamada geografia moderna assim praticada,
conforme foi observado por outros comentadores (Monteiro, 1980),
adquirem plena maturidade tanto nas teses defendidas na USP nas décadas
de 1940 e 1950, quanto nos trabalhos dos geógrafos brasileiros
apresentados durante o encontro internacional de geografia da União
Geográfica Internacional (UGI), ocorrido no Rio de Janeiro, em 1956,
sendo pois absolutamente factível que se compreenda a geografia
acadêmica surgida com a consolidação institucional dos cursos
universitários como uma componente do imaginário espacial professado
abertamente no Brasil durante o período enfocado (Maia, 2008; Oliveira,
2000; 2011).
10Enfim,
esse trabalho busca esclarecer se realmente é possível falar de uma
linhagem comum entre o mestre e os alunos que, sob sua orientação direta
ou inspiração básica, defenderam trabalhos de pós-graduação ao longo
das décadas de 1940 e 1950, como Ary França (1951; 1960), Nice Lecocq
Müller (1951) e José Ribeiro de Araújo Filho (1950). Apreciando em
detalhe os trabalhos de Müller (1951) e Araújo (1950), pretende-se dar
seguimento à ideia de que ao tomar o fenômeno do pioneirismo como um
parâmetro de regionalização para o estado de São Paulo (Nogueira, 2013),
esse grupo de geógrafos, todos futuros professores da USP, construíram
um indicador palpável para avaliar o nível de desenvolvimento dos
lugares, visto que era então comum examinar o atraso ou o avanço das
paisagens paulistas tendo-se como referencial a herança exercida pela
ação ou pela ausência dos fatores que acompanhavam a atividade cafeeira.
11A
bem dizer, considera-se que a concepção do pioneirismo, entendida como
um dos principais vetores da modernidade no território brasileiro,
forneceu a estes geógrafos um parâmetro avaliativo para o processo de
formação territorial de São Paulo e do país, originando a produção de
obras que apresentam uma linguagem ou estilo comum que acaba por
conferir aos trabalhos daqueles que mais diretamente se apropriaram das
referências metodológicas presentes nos trabalhos de Monbeig um
indiscutível ar de família, quando menos, perceptível pela circunstância
de a maior parte deles tomar os escritos de Monbeig como o exemplo
acabado do que deveria ser um trabalho científico em geografia, do qual a
monografia regional descritivo-explicativa, apoiada em farto material
cartográfico e iconográfico conseguido por meio das observações diretas
efetuadas no campo, seria o epítome.
12Especificamente,
tenta-se compreender em que medida alguns dos pressupostos teóricos e
metodológicos contidos na noção de franja pioneira foram internalizados e
retrabalhados pela primeira geração de geógrafos universitários formada
em São Paulo, ganhando uma nova leitura na feitura de suas obras
posteriores, dedicadas em boa medida a avaliar questões atinentes ao
nível de desenvolvimento do espaço agrário paulista. A propósito, tendo
em conta que a atividade econômica era considerada o principal móvel do
processo de apropriação e consequente transformação dos meios naturais
em paisagens culturais modernas, como então se dizia, indicaremos nesse
artigo de que maneira o modo de fazer geografia legado por Monbeig
adquire continuidade na prática científica daqueles que frequentaram
seus cursos e participaram das excursões de campo por ele comandadas,
compartilhando dos termos gerais presentes em sua concepção de geografia
mesmo após terem assumido posições institucionais de relevo dentro da
estrutura do Departamento de Geografia da FFCL-USP.
13Ao
fim e ao cabo, as discussões empreendidas pelos geógrafos uspianos, bem
ou mal unificadas pelo tema do pioneirismo, podem indicar que a
valorização dos fatores econômicos no processo de organização regional
das paisagens, mesmo que feita a partir de um viés linear, que
considerava o processo de formação territorial de maneira evolutiva,
muitas vezes naturalizando as relações sociais e desconsiderando os
conflitos existentes, mostrava uma preocupação ímpar em desvendar as
alterações que a consolidação de uma nova estrutura social e econômica
impunham às paisagens e populações tidas como tradicionais, revelando de
que maneira o desenvolvimento geograficamente desigual do capitalismo
(Harvey, 2004; Smith, 2008) brasileiro podia ser observado, descrito e
explicado pela geografia acadêmica recém institucionalizada, que
participava assim do debate mais amplo posto pelo pensamento
político-social do período (Brandão, 2007).
14Como
se pretende na medida no possível demonstrar, esse tipo de arranjo
explicativo, fundamentado nas excursões que tinham o intuito de validar
as hipóteses elaboradas em gabinete com observações efetuadas no
terreno, consegue integrar numa mesma chave os elementos mais
representativos do enquadramento proposto por Monbeig em suas análises
acerca do fenômeno do pioneirismo, a saber: a) a valorização da história
e das temporalidades na construção da interpretação geográfica do real;
b) a importância das técnicas e do nível de civilização dos grupos
humanos na estruturação e organização das paisagens; e c) o
papel das vias de comunicação para a consecução de um desenvolvimento
econômico capaz de impulsionar alterações substanciais na configuração
espacial das áreas analisadas.
15Sem
nos demorar em demasia nas relações entre a geografia e a história,
seria importante frisar a proximidade de Monbeig com o historiadores do
grupo dos Annales, principalmente Marc Bloch e Lucien Fevbre,
seus professores em Paris e interlocutores privilegiados dos geógrafos
junto às outras ciências humanas no meio universitário francês, e
Fernand Braudel, é claro, amigo para a toda vida que conheceu em São
Paulo (Burke, 1997; Dosse, 2004). Além desses nomes, cumpre lembrar que
Albert Demangeon, seu primeiro orientador, é o verdadeiro responsável
pela aproximação do círculo de afinidades dos geógrafos da Sorbonne com o
grupo intelectual dos Annales. Com efeito, em um artigo escrito originalmente como introdução da obra Traité de Géographie Humaine,
que sua morte deixou inacabada, Demangeon propõe dar um sentido à
geografia humana, cujo progresso remontaria ao próprio avanço do
conhecimento sistematizado sobre o globo terrestre, definindo-a, por
aproximações, como o estudo dos grupos humanos em suas relações com o
meio geográfico, termo que acha mais apropriado e amplo do que o
genérico “meio físico”, porquanto permite considerar a história da ação
contínua das sociedades humanas sobre a natureza (Demangeon, 1942).
- 1 “Pour être compréhensive et explicative, la géographie humaine ne peut pas s’en tenir à la seule co (...)
16Depois
de definir o objeto de estudos da geografia humana, Demangeon (1942)
passa a descrever os três princípios gerais que regeriam seu método: o
princípio da causalidade, que age de maneira diversa nos fenômenos
sociais quando comparados com a geografia física, pois os fatores
naturais não exerceriam um total condicionamento das atividades humanas;
o princípio que sustenta a necessidade de a geografia produzir seu
conhecimento a partir de uma base territorial, visto que nenhuma
sociedade pode ser estudada fora do solo que habita e lhe serve de
fundamento; e o princípio que defende as vantagens de se recorrer ao
estudo do passado de um grupo social para bem explicar os fatos da
geografia humana.1
17Decerto,
a dificuldade em enquadrar uma sociedade em movimento, como ele
qualificava a sociedade brasileira em geral, e a paulista em particular,
num estudo regional clássico preocupado com o gênero de vida, mais
adequado para descrever as paisagens de longa duração do Velho
Continente, não deve mascarar a importância da história e das
temporalidades na apreciação que Monbeig faz das movimentações pioneiras
dinamizadas com a expansão das plantações de café e algodão (Roncayolo,
2006), já que esse traço da geografia por ele praticada certamente pesa
na valorização conferida à história na estruturação das paisagens, ou
melhor, na definição dos conteúdos e dinâmicas que as animam.
18Explicitamente,
Monbeig se refere ao uso da história na explicação das paisagens em
duas conferências de extensão universitária intituladas,
respectivamente, “Paisagens agrícolas: o exemplo do Mediterrâneo”,
proferida na FFCL/USP, no ano de 1937, e “A paisagem, espelho de uma
civilização”, realizada na mesma instituição e local, em 1939. Na
primeira delas, diz que a paisagem adquire cidadania científica plena
apenas com a geografia moderna, que a constitui desde o início do século
XIX como seu campo de trabalho exclusivo, o seu domínio particular,
afirmando que um dos exemplos cristalinos da evolução das paisagens
devido ao avanço das técnicas de intervenção humana podia ser encontrado
exatamente em São Paulo, onde, num período de duas a três décadas, as
paisagens simples e monótonas das fazendas de café escravocratas,
tradicionalmente monocultoras, cediam lugar a uma paisagem mais
equilibrada, com laranjais, terras aradas para o algodão ou campos com
hortaliças (Monbeig, 1940).
19Essas
considerações foram retomadas e desenvolvidas na conferência posterior,
que cunha em seu título uma expressão que resume em termos precisos as
indicações metodológicas de La Blache, quais sejam, a de se tomar a
paisagem como um “espelho da civilização”, isto é, como o reflexo do
nível de desenvolvimento técnico de uma sociedade ou povo, consequência
do domínio progressivo exercido por um grupo humano sobre uma área
natural que lhe serve de espaço de vivência ao longo da história. De
fato, ao notar novamente que a geografia moderna recobra com vigor o
interesse científico sobre as paisagens, documentação geográfica
verdadeiramente humana, que revelam a ação das sociedades sobre o meio
natural, Monbeig diz, na conferência de 1939, que “A história e o método
do historiador de hoje podem levar-nos a uma explicação: para julgar-se
uma obra humana é necessário recolocá-la no seu meio histórico”
(Monbeig, 1940: 234).
20Ao
final, num exercício prático do tradicional princípio da analogia,
Monbeig indaga aos ouvintes acerca da validade científica em se
estabelecer, para países novos e de povoamento rarefeito como o Brasil,
“onde as civilizações conservaram-se primitivas [e] (...) nos quais a
vitória dos homens sobre a natureza data de ontem, de hoje mesmo”
(Monbeig, 1940: 244), as mesmas relações entabuladas entre o nível de
desenvolvimento das técnicas, o peso das conjunturas históricas e a
formação de paisagens utilizadas para fundamentar a descrição
explicativa das paisagens culturais existentes na Europa.
- 2 “A plantação de café tal como nos descreve Pierre Dennis em seu “Brasil no Século XX”, tal como exi (...)
21Para
ele, a análise das paisagens modeladas nas chamadas regiões novas, alvo
prioritário do dinamismo pioneiro, apareceriam como o caso de maior
interesse para os geógrafos, que em viagens separadas por poucos anos de
diferença conseguiriam surpreender empiricamente as alterações
efetuadas nas paisagens de antanho, pois entre o final do século XIX e
as primeiras décadas do XX novos cenários e relações sociais foram
criados, deixando para trás um passado colonial recente com a mesma
rapidez com que se derrubavam florestas e se abandonavam antigas
fazendas.2
22Com
efeito, esse enquadramento seria retomado em sua tese de doutoramento,
redigida ao longo da década de 1940 e originalmente apresentada, em
1950, na Universidade de Paris, sob o título Marche de peuplement et pionniers de São Paulo. Publicada em livro no ano de 1952 com o título Pionniers et planteurs de São Paulo,
ela foi traduzida para o português por dois de seus ex-alunos, Ary
França e Raul de Andrada e Silva, somente em 1984, demora que não deixa
de ser intrigante, haja vista a penetração e influência do autor na
geografia brasileira. De todo modo, esse trabalho é um registro fiel da
maturação do trabalho de pesquisa didático e científico desenvolvido
pelo professor durante sua estadia em São Paulo. Em verdade, o livro tem
até mesmo uma faceta de trabalho coletivo, uma vez que a presença de
estudantes e outros professores que gravitavam próximos à cadeira de
Geografia Humana da USP era constante nas viagens de campo empreendidas.
23Nesse
trabalho, as progressivas modificações verificadas nas direções e no
conteúdo das frentes pioneiras em momentos distintos ilustram claramente
como as mudanças substanciais pelas quais passava a sociedade
brasileira tiveram um imediato reflexo no processo de organização
espacial do mundo pioneiro, dando origem a dois tipos distintos de
paisagem: um tipo de paisagem residual mais ligado ao antigo mundo dos
senhores de escravos, que se concentrava nas chamadas “regiões velhas”, e
um outro tipo de paisagem moderna, o das “regiões novas” do oeste
paulista e norte do Paraná, que mesmo mantendo ainda a grande fazenda
como forma básica de ocupação do solo, já dava sinais de alterações em
seu conteúdo (Monbeig, 1952).
24No
caso, a caracterização de uma região como dinâmica ou decadente, termos
que diziam respeito à prosperidade das atividades econômicas
desenvolvidas em cada área, é um critério de diferenciação espacial que
somente ganha sentido se se leva em conta o início da colonização
engendrada em São Paulo pela expansão das lavouras de café e algodão,
pois uma área seria considerada dinâmica ou decadente sempre em relação
às zonas pioneiras que apresentavam maiores níveis de produtividade,
assim como o povoamento só poderia ser visto como recente ou antigo
tendo-se no horizonte o início do afluxo das levas de migrantes
estrangeiros e nacionais ocupados com a abertura das frentes pioneiras
desde o século XIX.
25Isso
quer dizer que uma região como a do vale do rio Paraíba, imemorial área
de passagem entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que havia
sido a primeira e assistir à marcha dos cafezais no início do século
XIX, podia sem problemas ser considerada, ao alvorecer da década de
1940, uma região de povoamento antigo que apresentava sinais de
decadência após o esgotamento dos solos causado por uma cultura
caracterizada pelo uso intensivo de recursos naturais, com a involução
das atividades econômicas e a fuga dos habitantes para outras áreas.
Nesse registro, as paisagens organizadas quando da época áurea do ciclo
cafeeiro ainda no século XIX, com seus casarões, fazendas e antigos
campos de cultivo, apareceriam num momento seguinte como paisagens
residuais, que para os observadores ostentavam um claro aspecto de
abandono e regressão das atividades.
26Não
obstante, a partir da década de 1950, com o desenvolvimento da
indústria, a urbanização das capitais paulista e fluminense e a
construção da nova estrada de rodagem entre as duas maiores cidades do
Brasil, houve uma recuperação econômica e demográfica de muitas das
cidades que já haviam sido alcunhadas de “mortas” no início do século
XX, o que deu início a um processo de reaproveitamento dessas antigas
paisagens, que foram refuncionalizadas a partir das novas demandas
colocadas por uma estrutura social, política e econômica cada vez mais
hegemonizada pelas relações capitalistas em expansão e puderam
“rejuvenescer”, modificando as relações estabelecidas entre o meio
geográfico e os grupos humanos.
27Seja
como for, de maneira idêntica ao que ocorria na maior parte dos
trabalhos inspirados no modelo regional cunhado por Albert Demangeon e
Raoul Blanchard, também nas teses de doutoramento dos geógrafos
brasileiros a ordem de exposição dos assuntos seguia a sequência básica
quadro natural, história, homens e atividades, generalizada para
praticamente toda a produção geográfica brasileira acerca do mundo
agrário nas décadas de 1940 e 1950, período definido como os anos
dourados da geografia agrária brasileira (Ferreira, 2002).
28Iniciando-se
pela descrição do sítio, com atenção à caracterização do meio natural
em suas principais linhas, ou seja, pelas formas de relevo, pelo tipo de
vegetação e pelo clima predominante, fatores que ajudariam a delimitar o
espaço-objeto do qual se vai falar mais a fundo, seguiam-se observações
sobre o histórico do povoamento, o que era feito por meio dos relatos
de viajantes estrangeiros ou nacionais que visitaram o país ao longo do
século XIX e com o recurso dos raros documentos estatísticos e
cartográficos existentes. Neste capítulo sobre o povoamento antigo, era
comum incluir referências sobre as rotas de desbravamento e os primevos
núcleos fixos de população, tidos como os responsáveis pela abertura da
região incorporada ao domínio dos grupos humanos.
29Após
a reconstrução do processo de conquista dos meios naturais pelos grupos
humanos, que podia também comportar indicações acerca dos ciclos
econômicos mais importantes desenvolvidos na área analisada,
desembocava-se na análise da evolução das paisagens, o que era feito
sobretudo através da apreciação do estágio atual da economia regional,
avaliando-se a situação da localidade escolhida em relação à circulação,
pois isso influenciaria sobremaneira o nível da produção e o alcance da
comercialização dos principais gêneros agrícolas ou industriais
regionalmente considerados. Por fim, ao tratar dos aspectos mais
próximos da geografia humana, era inescapável também fazer indicações
sobre a estrutura agrária e o habitat, o que incluía avaliações
sobre os tipos de habitação e indicações acerca da relação estabelecida
entre as moradias e os gêneros de vida locais.
30Nesse
detalhe, urge notar que a identificação dos chamados tipos tradicionais
que cada autor observa em sua área de estudos com as formas singulares
de gênero de vida que se teriam desenvolvido ao longo dos séculos de
colonização pelos quais passaram os trópicos brasileiros, não é um
procedimento utilizado abertamente por Monbeig, que notava os perigos de
se transplantar procedimentos de pesquisa consagrados na Europa para a
análise das situações observadas em países de colonização recente.
Embora Monbeig se utilizasse da expressão caboclo como modo de
qualificar os descendentes dos antigos colonizadores lusitanos, isto é,
para identificar a população encontrada no país antes das levas de
imigrantes estrangeiros terem tomado conta dos planaltos ocidentais
paulistas e norte-paranaenses, ele estava longe de estabelecer uma
relação direta entre os tipos tradicionais, os gêneros de vida e os
meios naturais por eles ocupados tal como esta podia ser encontrada nos
escritos de seus discípulos, que sem dúvida herdaram esse modo de
apreensão da realidade brasileira de outro francês: Pierre Deffontaines.
31A
Revista Brasileira de Geografia (RBG), publicada desde 1938 pelo
Conselho Nacional de Geografia (CNG) com o objetivo de produzir e
divulgar estudos originais sobre a realidade brasileira, enfatizando a
relação dos grupos humanos com os meios naturais, foi fundada num
momento em que o processo de construção da identidade nacional comandado
pelo Estado ancorava-se nas particularidades de cada região, ação que
revela o intuito de esvaziar a articulação política das antigas
oligarquias estaduais por meio do fortalecimento de um regionalismo
cultural que concebia a identidade brasileira como a soma das
identidades regionais. De fato, a partir de seu quarto número, a RBG,
num esforço de representar os matizes geográficos mais característicos
do país, passou a publicar a seção “Tipos e aspectos do Brasil”,
constituída por imagens de paisagens ou pelos chamados tipos
tradicionais da população retratados pelo artista Percy Lau, que se
faziam acompanhar de pequenos textos redigidos por técnicos e
especialistas do próprio CNG (Salgueiro, 2005).
32Uma
vez que a iniciativa teve uma boa acolhida do público em geral, a
partir de 1940 os textos e desenhos da seção “Tipos e aspectos” são
organizados em uma coletânea, dando origem a um livro que foi sendo
progressivamente aumentado com o passar dos anos, dada a continuidade da
seção na RBG. Ora, em seu livro “Geografia Humana do Brasil”, lançado
em 1940 e também originado de um conjunto de artigos publicados na RBG,
Pierre Deffontaines dedica todo um capítulo à análise do efetivo humano
do Brasil. Ali, destaca-se desde logo a parte intitulada “Os
personagens-tipo”, claramente inspirada na seção do periódico do CNG
acima referida. Com efeito, Deffontaines afirma que uma região humana
definir-se-ia fundamentalmente:
- 3 Nesse caso, seria importante verificarmos a mudança ocorrida no entendimento da população e espaços (...)
33Nos
trabalhos dos geógrafos uspianos os personagens-tipo surgem num
registro bem próximo ao encontrado nos escritos deste discípulo de Jean
Brunhes. Contudo, é bom que se diga que acompanhando uma alteração
ocorrida no pensamento político-social brasileiro no início do século
XX, expressa por meio dos escritos de Gilberto Freyre e Josué de Castro,
entre outros, os geógrafos que escreveram seus trabalhos ao longo das
décadas de 1940 e 1950 não consideravam que tais elementos demográficos
fossem preguiçosos, tampouco concordando acerca da disponibilidade
ilimitada de recursos naturais tropicais que manteriam a suficiência de
seus hábitos alimentares, salientando a situação de miséria e a extrema
pobreza em que vivia a maior parte desses habitantes, que tinham o
aspecto físico de doentes subnutridos. Assim, o planejamento e a
introdução de novas técnicas agrárias eram os caminhos apontados como os
ideais para solucionar o atraso das paisagens e das populações
tradicionais.3
34Partindo
da definição de gênero de vida como o conjunto de técnicas
desenvolvidas no exercício de uma ação contínua e metódica dos grupos
humanos sobre a natureza (Sorre, 1984), veremos a seguir de que maneira a
expansão da colonização e do povoamento impulsionada pelas frentes
pioneiras, que catalisou intensas modificações nas antigas relações de
acomodação existentes entre as formas de ocupação desenvolvidas
secularmente nos trópicos brasileiros e os meios naturais que lhes
serviam de suporte, foi apreciada nos trabalhos de doutoramento dos
geógrafos paulistas. No geral, todos empreendiam uma tentativa de
examinar as mudanças ocorridas em gêneros de vida historicamente
arraigados a partir de uma série de procedimentos similares:
primeiramente, faziam a reconstrução temporal das relações sociais e das
paisagens, como uma verdadeira monografia de geografia histórica
clássica, uma vez que descreviam em minúcias a configuração territorial
de seu espaço-objeto numa dada secção temporal, que ficava restrita aos
períodos cobertos pelas raras fontes primárias que continham dados
estatísticos.
- 4 “Matéria de ensino, a geografia é também um instrumento moderno que pode servir eficazmente as cole (...)
35Após
terem estabelecido em linhas gerais a dinâmica que teria resultado em
uma determinada configuração espacial em épocas anteriores, num
exercício de reconstrução das geografias passadas não muito afastado das
propostas do inglês H.C. Darby (1953), passavam então a analisar de que
maneira o desenvolvimento (ou não) de uma nova atividade econômica
influenciava a evolução dos gêneros de vida e a organização das
paisagens do presente, verificando se tais elementos geográficos haviam
se modernizado pela consolidação de uma nova estrutura econômica e
social ou, ao contrário, se os fatores humanos que garantiam a dinâmica
paisagística haviam regredido e entrado em decadência. Nesse registro,
percebe-se que do ponto de vista do arranjo explicativo projetado, o
interesse estava no presente, mas era a história que punha as paisagens
em movimento, permitindo avaliar o nascimento e a formação de unidades
regionais. Ao final, nas conclusões, apontava-se então possíveis
soluções para cada caso, num belo exemplo do papel utilitário da
geografia.4
36Pela
similaridade com o tratamento conferido ao tema por Monbeig, iniciemos
comentando o trabalho de Nice Lecocq Müller, cujo título é “Sítios e
sitiantes no estado de São Paulo”. Apresentado em 1946 à cadeira de
Geografia Humana, o trabalho foi publicado sem modificações somente em
1951. Filiando-se ao ramo de estudos da geografia humana, “que tem por
escopo o estudo das inter-relações entre as sociedades humanas e os
fatores do meio natural” (Müller, 1951: 11), o estudo de Nice Lecocq
preocupava-se especificamente com o meio rural, concebido como “aquele
cuja população vive diretamente da exploração do solo sob as formas da
agricultura, pastoreio ou coleta” (Ibidem: 12). Em pormenor,
questionava-se sobre o surgimento de um elemento demográfico novo no
tradicional mundo rural paulista: o sitiante, pequeno produtor rural que
praticava a policultura.
37Aqui,
pode-se perceber a influência do fenômeno do pioneirismo na definição
de seu objeto de estudo, uma vez que esse novo elemento demográfico
acompanhava, de certo modo, as alterações causadas pela vaga pioneira no
mundo rural paulista. Assim, se no início do século XX o café atraía
todas as atenções, generalizando a grande fazenda e a paisagem do mar
verde do café por todos os cantos, o que imprimia no mundo rural uma
estrutura social em que o fazendeiro, tipo social dominante,
polarizava-se com os colonos, meros substitutos da mão-de-obra escrava,
essa simplicidade monótona deixara de existir por volta da década de
1940, quando o fracionamento das propriedades e a queda dos preços
internacionais do café sugeriam novas soluções para a continuidade da
colonização e do povoamento em São Paulo:
À monocultura vai sucedendo a
policultura, criando novas paisagens, mais variadas, novos gêneros de
vida, também mais variados. Por outro lado, zonas que não foram
atingidas pelo ‘rush’ do café, como o litoral, têm encontrado algumas
oportunidades, ainda que modestas, de reerguimento, reintegrando-se na
vida do estado; e, nessas zonas, que tinham ficado isoladas, também
aparecem novas paisagens e novos gêneros de vida, algumas vezes rejuvenescidos
pela influência da colonização estrangeira. O ‘pivot’ dessa
transformação foi o fracionamento da propriedade e o desenvolvimento da
policultura. Para estudá-la seria preciso, segundo cremos, partir do
novo tipo de homem rural que agora toma pé e conquista seu lugar ao sol:
o pequeno produtor policultor, ou seja, o sitiante. Eis,
finalmente, o nosso assunto. Evidentemente, não pretendemos estudar o
sitiante à luz de sua evolução histórica, econômica ou social: seria
outra tese e de assunto que não é, diretamente, o nosso. O que nos
propomos a fazer é estudar quem é esse sitiante do ponto de vista
geográfico, ou seja, como se distribui, de que forma ocupa a terra, qual
o seu gênero de vida, quais as paisagens por ele criadas. Em resumo,
iríamos, dentro do ambiente rural, estudar o sitiante em duas regiões – a
de povoamento antigo e a de povoamento recente, levando sempre em
consideração o fator café e as diferenças do meio natural (Müller, 1951:
13).
38Definido
o tema, percebe-se que o esforço de delimitar a contento o que seria o
viés geográfico não prescindiria dos empréstimos que necessariamente se
fariam às chamadas ciências afins, como a economia, a sociologia ou a
antropologia social, o que a leva a tentar uma primeira definição de
sitiante que de maneira surpreendente não se afasta muito dos termos até
hoje utilizados nos trabalhos de geografia agrária para designar o
chamado camponês: “é o pequeno produtor baseado numa organização
familiar de exploração do solo que visa, direta ou indiretamente, a
prover à sua própria subsistência” (Müller, 1951: 14). Avançando nessa
definição, a geógrafa tenta refazer o trajeto de utilização do termo
sitiante, localizando em que época da história brasileira a palavra
passou a designar o pequeno produtor policultor preocupado com a
subsistência de seu grupo familiar, em oposição ao grande produtor
ocupado com a monocultura comercial da cana ou do café.
39Tendo
como fonte primária os relatos do viajante naturalista Auguste de
Saint-Hilaire, que visitou o Brasil no início do XIX, e se utilizando
livremente dos escritos de Oliveira Viana (“Populações meridionais do
Brasil”) e de Caio Prado Jr. (“Formação do Brasil contemporâneo”),
Müller tenta rastrear nos documentos antigos o termo que mais se
aproxima da noção de sitiante tal como ela se lhe colocava na década de
1940, pois somente ao final do século XIX a palavra surgira fazendo
referência ao pequeno produtor rural que não era dependente da grande
fazenda, como o agregado. Referindo-se às suas fontes primárias, a
autora dá mostras do trabalho verdadeiramente historiográfico que
desenvolve:
“A palavra ‘sitiante’ parece ter
sido reservada desde os primeiros tempos de seu emprego, entre nós,
para designar exclusivamente os pequenos lavradores independentes, pois
que, nos mesmos textos, encontramos também referências ao agregado”
(Müller, 1951: 26).
40Por
fim, após enumerar os fatores que agiram favoravelmente no
desenvolvimento do tipo social do sitiante, como a fragmentação das
grandes propriedades cafeeiras tanto nas zonas velhas de solos esgotados
quanto nas novas zonas recém-conquistadas à natureza, a fuga dos
proprietários para as cidades, que catalisou o desenvolvimento do
arrendamento como forma de exploração indireta do solo, a formação dos
núcleos coloniais de imigrantes e até mesmo a urbanização e a
industrialização, que conferiram valor comercial aos produtos de
abastecimento produzidos pelos sitiantes ao organizar um mercado
interno, diz que o melhor critério para se definir o conceito de
sitiante é “o de considerar a opinião do próprio homem do campo a
respeito” (Müller, 1951: 27).
- 5 “Em resumo, iríamos, dentro do ambiente rural, estudar o sitiante em duas regiões – a de povoamento (...)
- 6 “Por trabalhar direta e pessoalmente na terra, e por fazê-lo com a ajuda da família ou de alguns em (...)
41Desse
modo, fundamentada nas pesquisas que efetuou diretamente no terreno, a
geógrafa desenvolve um viés comparativo analisando os sitiantes
encontrados em dois tipos de municípios: aqueles localizados nas zonas
de povoamento antigo e os que habitavam o meio rural das zonas de
povoamento recente 5.
Para tanto, a autora dá-nos sua definição definitiva de sitiante: é
todo e qualquer pequeno produtor rural que trabalha diretamente o solo
com a ajuda da família e, muito ocasionalmente, com o recurso de uma
mão-de-obra assalariada. Dito de outro modo, a definição de Nice Lecocq
Müller, que leva em consideração o que chama de “fator café”, tomado
como o principal parâmetro do nível de desenvolvimento econômico e
demográfico por trás da divisão entre as zonas “velhas” e as zonas
“novas”, pois que novas paisagens e novos gêneros de vida se
desenvolveram a partir desta atividade, supõe que a principal condição
do conceito de sitiante seja a exploração direta do solo e o volume da
produção, ficando o regime desta exploração (mão-de-obra familiar,
assalariamento ou as diversas formas de parceria e arrendamento) e mesmo
a questão da propriedade da terra num segundo plano. Logo, o mais
relevante na definição de sitiante é o tipo de exploração do solo
desenvolvido por aqueles que trabalham na terra, e, por isso, as
distinções passíveis de se fazer entre os sitiantes proprietários e os
não proprietários da terra em que trabalham, como os posseiros,
moradores, arrendatários ou parceiros, é de menor importância, já que o
interesse geográfico por esses elementos demográficos são as
consequências resultantes do trabalho executado na criação dos quadros
paisagísticos: “O critério [da propriedade da terra] não tem base em
fenômenos geográficos, isto é, nas inter-relações diretas entre o homem e
o meio” (Müller, 1951: 28).6
42Já
no capítulo sobre a vida econômica, Lecocq Müller nota que a sucessão de
ciclos econômicos em São Paulo originou estruturas econômicas que não
guardavam abertura para a integração do pequeno produtor, o que deixou
os sitiantes à margem do mercado. Esse tipo clássico de sitiante
praticando sua agricultura de subsistência, “o resultado da ausência das
vias de comunicação” (MÜLLER, 1951, p. 109), tinha sua vida econômica
“presa a um mercado estritamente local” (Loc. cit.), visto que o
mais comum era o sitiante trocar algum excedente em espécie por sal ou
instrumentos de trabalho nas vendas, casas de comércio de alcance local
que servem de centro para a formação de um habitat cuja característica é a dispersão, seja a linear ou a coagular.
43Concluindo,
as paisagens criadas pelos sitiantes, que ainda estavam longe de
atingir a estabilização, corresponderiam aos vários tipos de exploração,
ocupação e técnicas praticadas pelos diferentes grupos, havendo muitos
matizes entre os dois extremos representados pelas paisagens dos grandes
domínios monocultores e a organização espacial fragmentada da
policultura. Afinal, as paisagens das zonas novas, marcadas pela
variedade derivada da própria conquista do solo, têm uma fisionomia
paisagística distinta daquelas das áreas localizadas na retaguarda das
frentes pioneiras, que apresentam as marcas da ocupação do solo
escalonadamente em diferentes estágios de humanização da paisagem, cada
degrau representando uma época da conquista:
habitat44A
feição de relatório de campo que o trabalho deixa transparecer em
inúmeras passagens é confirmada quando percebemos que diversos pontos
indicados por Nice Lecocq foram posteriormente retomados e aprofundados
por Monbeig no livro “Pioneiros e fazendeiros”. Em seu conjunto, os
temas tratados por Nice Lecocq Müller guardam grande similaridade com o
trabalho do francês, e isso até por seu objeto de estudo, qual seja, os
traços paisagísticos introduzidos no mundo rural paulista pela
fragmentação das grandes propriedades, o que dava base para o surgimento
dos sitiantes, um elemento demográfico que, se não era totalmente
desconhecido no estado de São Paulo, começava a ser notado em suas
necessidades, bem como a fazer parte da vida econômica mais complexa
introduzida com a urbanização e a industrialização, fatores novos que
incentivavam especializações produtivas, sustentando uma divisão
territorial do trabalho mais complexa ao criar um mercado fixo para a
policultura secularmente praticada pelos grupos familiares que
trabalhavam diretamente a terra.
45Embora
elabore um estudo de geografa regional de uma área litorânea, a Baixada
do rio Itanhaém, José Ribeiro do Araújo Filho retoma muitos dos temas
postos por Monbeig e Nice Lecocq Müller. Caracterizando a sua área de
estudo como um “sertão bruto”, o que pode parecer estranho à primeira
vista, caso tenhamos em conta a oposição generalizada no pensamento
político-social brasileiro do período entre o litoral e o sertão (Souza,
1997) – conquanto isso não seja estranho à definição de sertão proposta
neste trabalho, que o concebe mais como um espaço a ser conquistado, um
qualificativo de áreas sujeitas a implantação de estratégias de
dominação (Moraes, 2003) – Araújo segue seu orientador formal, Pierre
Gourou (1947), que ocupou por um ano o lugar deixado por Monbeig na
cátedra de Geografia Humana após a volta deste para a França, em 1946,
ao dizer que as florestas fechadas e o clima quente e úmido que definem
essa paisagem como tipicamente tropical tornavam insalubre a baixada
itanhaense, descrevendo um cenário natural que desafiava a penetração
humana.
46Como
outras tantas baixadas tropicais despovoadas ao redor do planeta, a
região de Itanhaém permanecia, pois, “sufocada” pelos fatores naturais,
caracterizando-se, do ponto de vista da ocupação, por sua economia
primitiva e por sua pouca civilização. Estabelecendo então uma
comparação desta área com os planaltos ocidentais, que se abriam à
valorização e ao progresso pioneiro do café, adequando-se à
temporalidade do mundo desenvolvido, o autor demonstra claramente o peso
que o pioneirismo tinha no equacionamento de seu estudo:
47A
baixada do Itanhaém é um dos muitos exemplos de baixadas tropicais, que o
litoral brasileiro oferece, com toda a série de problemas que o quadro
natura, ainda não vencido pelo homem, deixa perceber. Justamente num
momento em que se fala da penetração do interior, simbolizada na tão
explorada frase “a marcha para o oeste”, é interessante mostrar que
temos ainda muitas terras para explorar na retaguarda, em zonas que,
embora palmilhadas desde a colônia, ficaram à margem da valorização,
mercê de uma série de circunstâncias. O curioso é que a maioria dessas
zonas marginais se situa à beira-mar, particularmente no litoral
paulista, porta de entrada da mais rica região brasileira (...).
Questões de ordem puramente física (clima tropical super-úmido,
florestas densas e emaranhadas, manguezais, zonas arenosas, solos
difíceis de serem trabalhados), impediram o homem de ali criar riquezas
compensadoras, de acordo com os métodos então usados (Araújo Filho,
1950: 8).
- 7 “Ora, isso não acontece no litoral. O caiçara, tipo que até hoje está à margem da civilização, mesm (...)
48Seguindo
a lógica expositiva consagrada nos cânones franceses, após ter descrito
o quadro natural opressivo que a baixada litorânea sul-paulista
representava para o estabelecimento dos grupos humanos, Araújo Filho
dedica algumas páginas ao povoamento antigo e à população atual que
davam vida aos núcleos de Peruíbe, Itanhaém e Praia Grande, destacando o
primitivismo generalizado que ainda vigorava nas paisagens e nos
gêneros de vida ali encontrados, o que lhe permite concluir que o tipo
característico de habitante da região, o caiçara, “em nada procurou
diferenciar-se de seus antepassados (...) este tipo de praiano não
admite modificação no que ele herdou de seus avoengos: um gênero de vida
primitivo e de acordo com o meio hostil que o rodeia” (Araújo Filho,
1950: 30). Ao considerar o caiçara paulista como um resquício de um
passado que se quer superar, Araújo o qualifica como um elemento
demográfico que se encontra em uma situação inferior tanto em relação a
outros caiçaras, como os do Nordeste, quanto ao caboclo planaltino, que
mesmo sem escolas ia se educando aos poucos “através do contato com
certos fatores do progresso, como estradas de ferro ou de rodagem” (Loc.
cit).7 E segue o autor:
Ao lado das paisagens naturais
que o litoral paulista oferece à argúcia dos estudiosos, um tipo humano
bem característico, completamente influenciado pelo meio e sem recursos
para dele fugir, aparece, como que reproduzindo à beira-mar o tipo tão
conhecido do “jeca” do planalto. De fato, o caiçara nada mais é do que
uma variedade de caboclo, com algumas diferenças apenas do caipira de
serra acima; diferenças essas que, mercê do meio em que vive, o obrigam a
uma vida à primeira vista mais folgada, mas que na realidade é mais
dura que a do seu irmão planaltino. Se o caiçara dispõe a seu favor de
uma natureza relativamente pródiga, como mar e a floresta a lhe
oferecerem alimentos, para aproveitá-los, contudo, tem de desenvolver um
trabalho que, devido à técnica primitiva, não lhe traz quase resultado
(Araújo, 1950: 31-32).
49Para
Araújo, o clima hostil, aliado aos solos pobres e à técnica deficiente
dos caiçaras, são os fatores que, combinados, tornaram-se obstáculos
consideráveis para a verdadeira instalação humana. Com efeito, a antiga
ocupação que teria dado origem aos caiçaras não era considerada uma
colonização digna desse nome, mas apenas um povoamento primário que
deveria ser superado, o que implicava considerar que essa faixa do
litoral sul-paulista continuava à espera dos fluxos modernizantes que
iriam libertá-la do domínio da natureza. Assim sendo, o geógrafo nota
que o elemento que poderia ter atenuado essa situação de atraso e
abandono não era a expansão cafeeira, que nunca se instalou nas terras
do litoral de São Paulo, mas a introdução dos bananais no início do
século XX, que estruturou aquilo que o geógrafo chama expressivamente de
uma “zona pioneira litorânea”.
50Desse
modo, embora a população sazonal que periodicamente afluía para os
bananais tivesse contribuído para melhorar consideravelmente a situação
econômica da região, o semi-nomadismo dos trabalhadores não levou à
baixada itanhaense uma colonização fixa, com o que o pioneirismo
dinamizado nas zonas litorâneas não ocasionou uma alteração dos quadros
naturais e uma modificação dos gêneros de vida, que teimavam em
permanecer os mesmos. Em resumo, o homem não teria ainda conseguido
dominar o meio tropical hostil à sua fixação, uma vez que a cultura da
banana, por ser “baseada em métodos que absolutamente não condizem com
os modernos princípios de racionalização do trabalho” (Araújo Filho,
1950: 10), falhou em transformar os quadros naturais de Itanhaém em
paisagens humanas modernas.
- 8 Falando sobre o marasmo que tomava conta do núcleo urbano de Itanhaém mesmo com o desenvolvimento d (...)
51Tendo
se desenvolvido com rapidez sobretudo a partir da década de 1920,
quando os bananais deixaram a região de Santos e São Vicente, a zona
pioneira itanhaense não proporcionou riqueza e desenvolvimento à sede
municipal, porquanto sua zona agrícola, através da Estrada de Ferro
Santos-Juquiá, ligava-se diretamente a Santos, numa operação típica de
transferência geográfica de valor (Moraes, 1994).8
Após o esgotamento dos solos de Santos e São Vicente, os empresários da
banana, dentre os quais o próprio pai de Araújo ocupava posição de
destaque, tomariam decisão idêntica à dos cafeicultores do planalto,
partindo em busca de novas áreas de solos férteis, ação que ao fim e ao
cabo conferiu territorialidade própria a verdadeiras zonas pioneiras
localizadas ao norte e ao sul de Santos.
52Na
verdade, a expansão das lavouras da banana é o fator ao qual se deveria
imputar a consolidação da ocupação de extensos trechos do litoral
paulista, uma vez que seu cultivo contribuiu para a criação de um novo
tipo de riqueza que incentivou o desbravamento de muitas áreas
litorâneas que se conservavam até então em um estágio de letargia, como
então se dizia. Por outro lado, o enquadramento dessa questão ficaria
incompleto caso não se notasse o surto de construções feitas nas áreas
de mangue, que após 1940 cederam espaço para a edificação das casas de
veraneio dos turistas do planalto, nicho de negócios que cresceu
assustadoramente principalmente depois de 1950, quando foi terminada a
Via Anchieta. Realmente, ao se referir às modificações ocorridas no
núcleo antigo de Itanhaém, Araújo novamente exemplificava de que maneira
o fenômeno do pioneirismo planaltino poderia ser tomado como parâmetro
desejável para a evolução e desenvolvimento, e isso tanto para os meios
rurais como para os urbanos:
Aqueles aspectos tão próprios
das cidades novas paulistas, verdadeiros milagres urbanos saídos do
espírito empreendedor dos pioneiros planaltinos, onde, ao lado das
residências, muitas vezes de madeira, já se encontram armazéns, lojas,
confeitarias, cinema, etc., tudo no mesmo ritmo de desenvolvimento e de
vida, fazem contraste com o evoluir vagaroso da Itanhaém de hoje (...).
Conquanto existam grandes diferenças entre as zonas pioneiras litorâneas
e as do planalto, quer no que diz respeito aos métodos, quer nas suas
consequências, nelas se encontram alguns aspectos comuns. Por exemplo,
no litoral as terras são “griladas” como as do planalto; também são elas
ocupadas pela lavoura extensiva para fins comerciais, de maneira que
glebas devassadas há dez ou quinze anos são logo deixadas para trás como
pouco produtivas, à medida que se vai avançando num desbravamento sem
limites. Belo exemplo desse pioneirismo destruidor, iniciado em pleno
século XX em vários trechos de nossa costa, nos é dado pela Baixada do
Itanhaém, onde, há justamente vinte anos, o homem vem desenvolvendo uma
das maiores áreas bananeiras do país (Araújo Filho, 1950: 51-59).
53Por
fim, o geógrafo pontua que embora a região por ele estudada possuísse
um dos povoamentos mais antigos de todo o Brasil, uma vez que o núcleo
original de Itanhaém foi o segundo núcleo fixo de povoamento fundado por
Martim Afonso na capitania de São Vicente, no ano de 1549, ela está
ainda à espera de uma reação do homem ante ao meio hostil, pois a zona
litorânea paulista, que não acompanhava o progresso do planalto,
necessitava da adoção de novos métodos de trabalho para que suas
paisagens fossem completamente humanizadas. Da mesma maneira que
Monbeig, Araújo também parece considerar que o processo de organização
espacial era mediado pelo trabalho, isto é, que a humanização das
paisagens estava atrelada à valorização do espaço. Por isso, a
circunstância de a maior parte da população instalada nessa área ser
constituída pelos caiçaras, tornava-se, pois, uma das provas inequívocas
de que o domínio exercido pela natureza caracterizaria as paisagens
regionais, que consequentemente eram consideradas atrasadas quando
comparadas com o restante do estado de São Paulo:
54Mas
a geografia moderna nos ensina que, mesmo nas regiões mais ingratas ao
estabelecimento do homem, pode este, através da ciência e da técnica, e
de um trabalho constante e bem dirigido, fazer verdadeiros milagres na
sua reação contra os elementos naturais (...). Entre nós, porém,
continuam as baixadas litorâneas no esquecimento, em resultado da famosa
“marcha para o oeste”. Já é tempo, pois, de fazermos qualquer coisa em
prol de zonas que, mesmo difíceis de serem trabalhadas, estão em
situação privilegiada quando comparadas com as longínquas terras do
Centro-Oeste ou da Amazônia. Devemos, antes de mais nada, explorar,
dentro dos métodos racionais de trabalho, os vazios que se encontram
ainda na retaguarda dos nossos grandes centros, colonizando-os, o mais
breve possível. Povoando nossas baixadas litorâneas, estaremos não só
criando novas riquezas, como, particularmente, provado que nas zonas
tropicais também o homem branco pode criar civilizações. (Araújo Filho,
1950: 9).
55O
trecho supracitado é revelador. Nele, pode-se observar que o trabalho
científico do geógrafo, partindo de informações coletadas diretamente no
terreno, poderia ser uma ferramenta útil para a análise de situações
problemáticas do ponto de vista do desenvolvimento, valorizando a
ciência e a técnica como forma racional de se obter sucesso na
colonização e povoamento de áreas consideradas naturalmente hostis à
instalação dos grupos sociais. Esse traço da geografia, a “ciência da
colonização” por excelência, como a considerava Isaiah Bowman (1931), um
dos únicos autores textualmente citados por Monbeig em sua tese de mais
de 400 páginas, influenciou o juízo de Araújo em suas avaliações sobre a
faixa tropical paulista, que contrastava com o desenvolvimento
alcançado na franja pioneira planaltina. Para o futuro titular da
cátedra de Geografia do Brasil, uma ocupação produtiva do espaço seria a
solução ideal para transpor a barreira interposta à evolução pela
hostilidade do meio natural, uma vez que ao lado dos fatores de ordem
física, como o solo e o clima, também os fatores de ordem humana,
expressos nos métodos utilizados pelos trabalhadores, contribuem para
conferir a algumas áreas um aspecto de abandono e decadência.
- 9 A propósito, no primeiro texto que Monbeig escreveu sobre a zona pioneira de São Paulo, em 1937, já (...)
56Ao
fim e ao cabo, os trabalhos analisados conseguem pôr numa mesma chave
os elementos antes descritos como os mais representativos do
enquadramento proposto por Monbeig, tais como a valorização das
temporalidades, a importância das técnicas na organização das paisagens
humanas e o protagonismo das vias de comunicação para a integração do
território.9
Conforme tentamos evidenciar, os traços comuns existentes entre os
trabalhos de Lecoq Müller e Araújo Filho, que poderiam se multiplicar
caso fosse possível enveredar na apreciação de outras obras e autores,
são por demais ilustrativos, com o que ficamos inclinados a referendar
que houve mesmo em São Paulo a constituição de um grupo de trabalho
afinado com os ensinamentos geográficos obtidos na década de 1940,
período que marca a atuação de Pierre Monbeig na Universidade de São
Paulo. Nessa direção, o fenômeno do pioneirismo e a expansão da
colonização e do povoamento impulsionado pelo café cumpriram o papel de
temas unificadores, conferindo aos geógrafos uspianos, por vezes de
maneira indireta, um horizonte ideal de análise para seus trabalhos de
doutoramento.
57Por
outro lado, a importância dos fatores econômicos no processo de
organização das paisagens, mesmo que utilizado a partir de um viés que
carrega uma indisfarçável linearidade, como se pode inferir do recurso
aos ciclos econômicos para qualificar a estrutura social existente em
outras épocas, alça a questão da circulação e da integração entre as
distintas regiões a um primeiro plano, abrindo àqueles que se aventuram a
contar a História da Geografia novas possibilidades para a compreensão
de como o processo de formação territorial e de consolidação do
capitalismo brasileiro aparecia nas descrições explicativas dos
geógrafos dessa geração.