1O
objeto amplo deste trabalho consubstancia-se pela história da
Cartografia no IBGE, desde a fundação do conselho que se constituiu no
embrião da Geografia e Cartografia no órgão, que foi o CBG – Conselho
Brasileiro de Geografia, criado pelo Decreto n. 1.527, em Março de 1937,
ainda como parte do Instituto Nacional de Estatística (INE) –, até a
virada do século XX para o XXI, quando se inicia um novo período de
transformações profundas, por conta da completa desmaterialização dos
processos produtivos em cartografia e da predominante estruturação da
rede geodésica com base nos sistemas de posicionamento por satélites.
2Como
o período é longo e as ocorrências são muitas, a intenção essencial
deste trabalho é destacar os pontos de inflexão importantes desta
história da cartografia ibegeana, para tentar mostrar como esta linha do
tempo chega até o final do século XX, quando se iniciam as
transformações profundas que se vive hoje no órgão, em função da quase
total desmaterialização da produção, por conta do afluxo dos meios
computacionais de produção. O período posto em destaque por este
trabalho será marcado pelas mudanças das chamadas geotecnologias e pelas
mudanças dos próprios produtos cartográficos gerados.
3A
função cartográfica ibegeana, desde seu início, tem duas vias
essenciais: representar o território do país através de mapas, a chamada
Cartografia Sistemática, e apoiar as operações censitárias, para as
quais a cartografia é um instrumento básico no planejamento e na
operacionalização das pesquisas. Para bem estruturar estas duas funções
principais, num país que à época do início dos grandes censos era
absolutamente carente de mapeamentos, o IBGE precisou ainda se
responsabilizar por implantar e manter a infraestrutura geodésica do
Brasil (Vértices e Referências de Nível contemplando o sistema de
coordenadas oficiais do Brasil), que ainda hoje se encontra entre as
funções do órgão na área de geoinformações.
4Isso
tudo se contextualiza em algumas questões importantes: primeiro o fato
de que o Brasil, para todos os efeitos práticos, não é um país, mas sim
um continente. E depois, pelo fato de que os anos de história do órgão
ocorrem em paralelo a uma espiral acelerada de transformações nas
geotecnologias, espiral esta que, no Brasil, muitas vezes teve que ser
capitaneada pelo próprio IBGE.
5Importante
ainda considerar, no âmbito da história do órgão, que como observa
Penha (1993), o IBGE é órgão do Governo Federal de um país continental e
complexo, como o Brasil, sendo uma “instituição heterogênea que opera
desde áreas como a Geodésia e Cartografia até a elaboração de
indicadores econômicos, passando por todas as etapas da pesquisa
estatística e geográfica”. Portanto, tratar da cartografia de um país
continental, num órgão cuja função precípua não era o mapear, ou não era
apenas o mapear, traz uma série de dificuldades operacionais
que vão desde a priorização e alocação de recursos até a própria
contratação, treinamento e alocação de pessoal especializado. Estas
questões, em especial, podem ser identificadas em vários aspectos da
história sucinta do órgão que será abordada a seguir.
6A
cartografia, materializada por documentos cartográficos, torna-se o
registro oficial das ocorrências das feições geográficas, após serem
cartografadas e representadas nos mesmos. As primeiras tentativas
da execução da representação cartográfica do território brasileiro
remetem-se ao período pré-colonial. A este tempo, nos primórdios do
mapeamento do país, ocorre o fracionamento do território
recém-descoberto pela Coroa Portuguesa, pela divisão deste território em
capitanias hereditárias. Na sequência, durante o período do Império e
também no período inicial republicano tornava-se cada vez mais premente a
necessidade estratégica do conhecimento detalhado do território, com o
escopo principal da apropriação dos recursos naturais e controle das
revoltas internas inerentes à nascente república, num país de dimensões
continentais, sendo digna de registro neste período a construção da
Carta do Império. O alvorecer do século XX, entretanto, encontra o
mapeamento nacional ainda não sistematizado. O mapeamento sistematizado,
que consubstancia a Cartografia Sistemática de um país, pressupõe a
construção de uma série de folhas de carta, em representação plana num
sistema de projeção normatizado, com a precípua finalidade de
aperfeiçoar o processo de gestão territorial e de tomada de decisão dos
gestores do Estado. Trata-se da infraestrutura cartográfica de
representação do território, que vai da escala 1:1.000.000 à escala
1:25.000, mas que no século XX caracterizou-se mais destacadamente pelos
mapeamentos nas escalas de 1:100.000, 1:50.000 e 1:25.000 produzidos
oficialmente pelo IBGE e pelo Serviço Geográfico do Exército. Estas três
escalas são as mais operacionais e importantes, quando se trata de
gestão territorial e planejamento em geral. A primeira tentativa de se
implementar esta sistematização da cartografia brasileira ocorreu com o
mapeamento fomentado pelo Engº Francisco Bhering, relator da primeira
Carta Geográfica do Brasil, exarada do Clube de Engenharia no ano de
1922. Neste mapeamento foram elaboradas as primeiras folhas da carta na
escala 1:1.000.000, em comemoração ao centenário da independência.
7Este
mapeamento procurou seguir as convenções internacionais para a
construção da CIM (Carta Internacional do Mundo ao Milionésimo),
observando-se que o preparo para impressão e a própria impressão das
folhas foram realizadas fora do Brasil, de forma mais específica, em
território germânico, na cidade de Berlim (Instituto Dietrich Reimer).
8Neste
mapeamento, procurou-se obedecer às convenções técnicas internacionais
emanadas da convenção de Paris de 1913, sendo este empreendimento
considerado pela historiografia especializada como a primeira Carta
Científica do Brasil, válida pelo pioneirismo na tentativa de
sistematizar a execução da cartografia brasileira (PENHA, 1993).
9O
embrião do que seria a Geografia do IBGE, por conseqüência a sua
representação pela ciência cartográfica, surge nos braços da
estatística, inserida no contexto político do Estado Novo, interessado
na expansão das fronteiras agrícolas do país com a Marcha para Oeste,
além de incrementar a nascente indústria nacional. Desta forma, o
ano de 1933 possui uma particular importância na historicidade da
cartografia no IBGE, por três expressivas ocorrências, a saber: a
criação do Serviço Federal de Estatística Territorial; a constituição da
Comissão interministerial encarregada da elaboração do projeto de
organização do sistema estatístico brasileiro; a pressão exercida pela
União Geográfica Internacional. Ao materializar estas macro-orientações,
foram definidas algumas diretrizes que sinalizaram o nascedouro da
sistematização da cartografia no IBGE. Estas diretrizes emanam da
instalação pelo decreto nº 22.984, de 25/07/1933, no âmbito do
Ministério da Agricultura, da Diretoria de Estatística e Publicidade,
mais tarde denominada Diretoria de Estatística da Produção. De
significativa importância para a nascente atividade cartográfica
nascente no ambiente civil foi a 1ª Seção, chamada Seção de Estatística
Territorial, cujas finalidades aprovadas pelo decreto nº 23.979, de
8/03/1934 preconizava em seu artigo 111º, dentre outras, as seguintes
diretrizes:
I –
Reunir documentações sobre o território nacional, mediante coleta,
crítica, fichamento e arquivamento dos dados geográficos, fornecidos
pelas repartições federais, estaduais e municipais e por instituições
particulares;
II – Organizar uma mapoteca do território nacional,
tanto quanto possível, completa e racional, principalmente quanto à
agricultura do país;
III – Elaborar trabalhos cartográficos padrões,
mediante a execução tecnicamente rigorosa de cartas-tipo do território
nacional, totais e parciais, gerais e especiais;
(...)
VII –
executar trabalhos de desenho da D.E.P., mediante a representação
gráfica e cartográfica, rigorosa e sugestiva, dos resultados de suas
investigações estatísticas.
10Pelo
volume de trabalho e responsabilidade assumida a partir das diretrizes
acima, cabia uma reestruturação e fortalecimento da 1ª Seção, o que de
fato ocorreu, quando o Governo de então transformou a Seção de
Estatística Territorial em uma repartição autônoma, subordinada ao
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com o nome de “Serviço
de Coordenação Geográfica”, o qual tinha a atribuição precípua da
organização técnica dos trabalhos geográficos do Recenseamento Geral da
República, estabelecido pelo decreto lei nº 782, de 13/10/1938.
11Duas
significativas personalidades se destacaram na organização e
uniformização da estatística brasileira naquela época múltipla e
desarticulada, que levou a reboque a cartografia: O então Ministro da
Agricultura, Juarez Távora, e o então Diretor de Estatística do
Ministério da Educação, o ilustre Dr. Mario Augusto Teixeira de Freitas.
O primeiro destaca-se ao constituir a referida Comissão
interministerial supracitada, que tinha por objetivo mor estudar um
plano de organização e de uniformização da estatística brasileira. O
segundo, que fazia parte da referida Comissão, ainda em 1932, elaborou
um anteprojeto de criação de um Instituto Nacional de Estatística e Cartografia,
submetido inicialmente na época ao Ministro da Educação, posteriormente
reapresentado no âmbito da Comissão Interministerial, sendo então
apreciado para sua concretização. A Comissão julgou inoportuna a
inclusão da cartografia nas finalidades da instituição sistematizada da
Estatística, e apresentou a criação do Instituto Nacional de
Estatística. Porém, a semente lançada por Teixeira de Freitas não foi
semeada em vão, posto que as nascentes iniciativas cartográficas no país
também estavam necessitadas de serem intensificadas, uniformizadas e
carentes de coordenação.
12Estas
necessidades prosperaram no âmbito do próprio INE, recém-criado, pois
em sua primeira convenção nacional preconizou a necessidade de serem
elaboradas, antes dos períodos de coleta dos censos gerais ou regionais,
cartas físicas e políticas do território estadual, nas quais deveria
constar a divisão municipal e distrital, se possível. Os Municípios
deveriam também ter suporte técnico, para levantar ou rever os mapas dos
seus respectivos territórios (CNG, 1939, p. 9).
13Em
outubro de 1936, entendeu o Ministro Macedo Soares que era chegado o
momento da criação de uma Instituição que representasse os anseios dos
eminentes geógrafos daquela época, no sentido de inserir o Brasil no
contexto internacional da ciência geográfica. Neste contexto, o
recebimento de uma correspondência do Prof. P. Deffontaines, para que o
Brasil aderisse à União Geográfica Internacional, tornou-se um
importante fator de alavancagem na criação do Conselho Nacional de
Geografia – CNG.
14Para
atingir este objetivo foram convocadas para participar de uma série de
cinco reuniões (de 26 de outubro a 18 de novembro), no Palácio do
Itamaraty, as personalidades mais representativas da cultura geográfica
brasileira naquela época, as quais após profícuas discussões elaboraram o
projeto de criação do CNG.
15Desta
forma, em 24 de março de 1937, foi instaurado o Decreto nº 1527
(BRASIL, 1937) que “institui o Conselho Brasileiro de Geografia
incorporado ao Instituto Brasileiro de Estatística, autoriza a sua
adesão à União Geográfica Internacional e dá outras providências.” O
Conselho foi solenemente instalado em 1º de julho de 1937, no salão de
conferências do Palácio do Itamaraty.
16De
acordo com Castro (1991), na assembléia inaugural foram aprovadas 14
resoluções, dentre elas as que dispunham sobre o funcionamento das
Comissões Técnicas e do Corpo de Consultores Técnicos, que tratavam da
adoção da ortografia simplificada nos trabalhos cartográficos, que
resolviam assumir as atribuições de caráter geográfico afetas ao
Conselho Nacional de Estatística e, principalmente, que visavam
estabelecer como prioridade máxima a atualização da Carta Geográfica do
Brasil, ao milionésimo.
17O
nome do Instituto foi modificado para que refletisse de fato e de
direito sua missão e atribuições com o escopo de integrar a Estatística e
a Geografia. Nascia assim, em 26 de janeiro de 1938, o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, instalado pelo decreto nº 218 do
governo federal. De acordo com o discurso do Presidente da República
Getúlio Vargas, a importância do órgão recém criada era tanta que ele
oferecia para a sua instalação a sua casa (Palácio do Catete) e o seu
melhor ministro para comandá-lo, Macedo Soares, Ministro das Relações
Exteriores (Almeida, 2000).
18Ainda
segundo Almeida (2000), a evolução do IBGE ao longo de sua existência
ocorre em cinco etapas principais: Entre 1934 e 1967, quando sua direção
era vinculada diretamente à Presidência da República, com seus
servidores regidos pela legislação do funcionalismo público; Entre 1967 e
1990, a agência se transforma em Fundação IBGE, com contratos de
trabalho regidos pela CLT; A partir de 1990 retorna ao Regime Jurídico
Único, retornando seu corpo funcional a esfera do funcionalismo público
federal; de 1993 ao ano 2001, passa a fazer parte do sistema de
agências, ligado à estrutura de ciência e tecnologia do governo federal;
a partir de 2001 sai do âmbito da estrutura da ciência e tecnologia e
ganha um quadro de carreira própria inerente às suas atividades
estatísticas e geocientíficas.
19Uma
das primeiras e principais iniciativas que influenciaram diretamente os
planos iniciais para sistematizar a cartografia brasileira, de acordo
com Penha (1993), foi exarada do Secretário-Geral do CNG, por
solicitação do órgão de imprensa “Agência Nacional”. Este plano
subdividiu o território brasileiro em programas cartográficos
singulares, a saber: mapeamento da zona limítrofe ao litoral brasileiro
que deveria ser representada por mapas mais minuciosos nas escalas de
1:50.000 e 1:100.000; mapeamento de uma faixa de área mais abrangente,
adentrando o interior na direção Oeste, na escala de 1:250.000; e,
mapeamento para recobrir as extensas terras situadas no Norte e
Centro-Oeste, com escassa densidade demográfica, com baixos índices
econômico-sociais, que deveriam ser mapeadas na escala de 1:500.000,
determinando ilhas em escalas maiores onde fosse julgado necessário.
20O
objetivo principal, segundo o Secretário-Geral, seria a orientação ao
poder público para melhor tomar as decisões mais otimizadas, no
desbravamento do país rumo ao Oeste. Neste contexto, o plano contempla
três principais empreendimentos: a execução dos mapas municipais, a
uniformização cartográfica e a atualização da Carta Geográfica do Brasil
ao Milionésimo.
21A
Campanha dos Mapas Municipais, que tinha o respaldo legal do Decreto-lei
nº 311, prescrevia que todas as prefeituras brasileiras deveriam
construir seus mapas municipais em dois anos (1938-1939). Caso não o
fizessem no tempo aprazado, teriam os seus territórios anexados a
municípios vizinhos que tivessem cumprido o compromisso.
22Todos
os 1574 municípios brasileiros cumpriram a determinação legal no prazo
previsto e o resultado foi apresentado num portentoso evento denominado
“Exposição dos Mapas Municipais”, em 29 de maio de 1940. A Fig. 1
apresenta imagem do à época Presidente Getúlio Vargas visitando a
exposição, e foi tomada em sua passagem pela apresentação do mapa de seu
município natal, São Borja, no Rio Grande do Sul.
23A
preocupação com o preparo dos mapas municipais especificamente para o
recenseamento geral de 1940 revelava-se no conteúdo da Resolução 3 do
CNG, de março de 1938, que estabelecia que “os requisitos mínimos a que
os mapas municipais devem satisfazer e as instruções gerais para a
fixação das zonas urbanas e suburbanas das sedes municipais e
distritais” (IBGE, 1938, p. 1). O prazo dado para que cada município
brasileiro entregasse um mapa que, a rigor, ainda hoje, não seria
simples de elaborar para a grande maioria dos municípios brasileiros,
era de menos de um ano, pois se encerraria em 2 de março de 1939.
24Interessante observar que a demanda qualificava o mapa a entregar da seguinte forma:
De
modo geral, como mínimo de exigência, o mapa do território municipal
representará, com a exatidão compatível com os processos de levantamento
expedito, a linha de contorno do município, as divisas interdistritais,
as principais elevações, o desenvolvimento dos principais cursos
d’água, as sedes municipais e distritais, os povoados e as principais
fazendas, as estradas e caminhos e as linhas telefônicas e telegráficas
devendo os acidentes figurar com os seus respectivos nomes. Se
não for de todo possível a exatidão mínima referida, o mapa
representará, ao menos esquematicamente, os elementos territoriais
citados (IBGE, 1938, p. 2-3).
25No
que tange à atualização da Carta Geográfica ao Milionésimo, após a
edição das pioneiras folhas de carta do Clube de Engenharia, houve a
necessidade de elaborar uma 2ª edição da CIM. Por força da
abrangência destas folhas de carta (6º longitude x 4º latitude) e pelas
dimensões continentais do território brasileiro foi necessária a
confecção de 52 folhas de carta nesta escala, que poderiam ser reduzidas
a 50 folhas, caso fossem anexadas pequenas porções territoriais, como
as ilhas oceânicas de Trindade e São Pedro e São Paulo, em outras folhas
de carta.
26Outra
decisão importante para o mapeamento brasileiro na época, ainda segundo
Penha (1993), foi a edição do Mapa do Brasil, na escala de 1:6.500.000,
em comemoração à realização do 5º Recenseamento Geral do Brasil, em
setembro de 1940. Este mapa foi bastante difundido no país, quando foram
distribuídos mais de 100.000 exemplares nas escolas do ensino
fundamental no Brasil da época, para figurarem nas salas de aula.
27Esta
preocupação permanente e recorrente com a questão da organização
territorial brasileira se revela em outros momentos e reafirma a
importância da questão territorial, e, consequentemente, de sua
representação cartográfica, para a estruturação operacional das
atividades estatísticas do IBGE. A Resolução 26 do CNE – Conselho
Nacional de Estatística, de 15 de dezembro de 1937, resolve, dentre
outras coisas, submeter à consideração do Governo da República, “o
alvitre de serem decretadas, quanto antes, com as medidas de emergência
necessárias, disposições orgânicas relativamente à divisão
administrativa e judiciária do território nacional” (IBGE, 1937, p. 1).
Figura 1 – Getúlio Vargas na Exposição dos Mapas Municipais
Fonte: Almeida (2000)
28É
deste tempo, da virada da década de 30 para a de 40, uma preocupação e
uma antevisão daquele que será o grande método de produção da
cartografia mundial no pós-guerra, em especial nos mapeamentos
sistemáticos nacionais. A Resolução 35 do CNG, de 20 de julho de
1938, determina ao Diretório Central “o estudo de um plano de
intensificação no país dos levantamentos territoriais, sobretudo com os
recursos modernos da aerofotogrametria” (IBGE, 1935a). Neste sentido, é
importante lembrar que a imensa maioria da cartografia sistemática do
Brasil, na escala de 1:100.000, produzida pelo IBGE, pela DSG (Diretoria
do Serviço Geográfico do Exército) e pela iniciativa privada, em
pequena parte, se viabilizou a partir da cobertura aerofotogramétrica do
Brasil, na década de 1960, pelas fotografias aéreas do vôo AST-10,
executado pela USAF, Força Aérea Americana, na escala média de 1:60.000.
Estas fotos cobrem o território brasileiro quase integralmente,
excetuando-se a Amazônia, sobre a qual é virtualmente impossível se
conseguir sucesso em missões aerofotogramétricas, por conta da
permanente e dinâmica ocorrência de nuvens.
29Mauro Mello (1986), ao tratar desta importante inflexão na história de produção cartográfica do IBGE, observa que
Os
primeiros anos da década de sessenta assinalam a modernização da
geodésia e cartografia do IBGE, estrutura-se e consolida-se a linha de
instrumentos fotogramétricos e, em conseqüência, inicia-se a produção de
folhas da carta de 1:100.000 e 1:50.000, até então não trabalhadas pela
instituição.
A motivação principal para engajamento do IBGE
em tais atividades se deu com a disponibilidade de fotografias aéreas,
na escala de 1:60.000, obtidas pela ‘United States Air Force – USAF’,
em convênio com o governo barsileiro, ao abrigo do Acordo Cartográfico
Brasil-Estados Unidos, firmado e aprovado pelo Congresso Nacional em
1962.
30Com
efeito, a partir da década de 1960 inicia-se um período dos mais
marcantes à produção cartográfica do IBGE, no qual efetivamente se
estenderam pelo país as redes geodésicas do órgão, essenciais à
infraestrutura de georreferenciamento cartográfico, e foram produzidas
diversas cartas do mapeamento sistemático, cobrindo quase todo o
território brasileiro, à exceção da Amazônia.
31Rodolpho Pinto Barbosa (1961), ao anunciar neste ano o Programa da Divisão de Cartografia, destacava que
O
ano de 1961 para a Divisão de Cartografia significa a transição do
estágio de exclusiva elaboração das cartas de compilação, em pequenas
escalas para o de mapeamento topográfico, em grandes e médias escalas. O
sentido desta alteração não implica em mudança de roteiro, mas traduz o
caminho natural, o desenvolvimento normal e lógico das atividades
cartográficas do CNG. (...)
Mais importante e sobrelevando-se a
todas, está a tremenda falta de cartas topográficas em escalas médias e
grandes do território brasileiro. A deficiência tende a agravar-se em
vista do atual surto de desenvolvimento nacional, que exige boas cartas
para o planejamento de todos os tipos dessas atividades. No momento
[1961], o Brasil tem cerca de 442.933 quilômetros quadrados do
território mapeados sistematicamente nas escalas topográficas de
1:100.000, 1:50.000 e 1:25.000, (...) pode-se avaliar o atual atraso,
quando se sabe que o Brasil tem 8.513.844 quilômetros quadrados
portanto, somente 5,2% do seu território estão mapeados nestas escalas.
32Estas
eram, portanto, as condições que antecediam ao período que seria o mais
frutífero em termos de produção cartográfica para o IBGE: As décadas de
1960 a 1990.
33O
período em que houve grande impulso no mapeamento do Brasil, no qual o
IBGE teve um papel fundamental, foi exatamente o período no qual o órgão
foi transformado pelo Governo Federal em Fundação. As principais
marcas deste período, em termos técnicos, podem ser estabelecidas por
dois pilares de atuação cartográfica. Um dos pilares foi consubstanciado
pelos serviços de campo da Geodésia, que estabeleceram a infraestrutura
de georreferenciamento imprescindível ao mapeamento integrado do país. O
outro pilar foi a estruturação e adoção da metodologia de produção
fotogramétrica como a principal geradora dos mapas nas escalas mais
importantes que o desenvolvimento do Brasil demandava, nas escalas de
1:100.000 e 1:50.000.
34Em
termos metodológicos, para mapeamento, na década de 1950, fora do
Serviço Geográfico do Exército, a técnica fotogramétrica não era ainda
disseminada e usual. Este era um tempo no qual a cartografia nacional em
escalas superiores a 1:250.000 era privativa das Forças Armadas e eram
ainda muito poucas as empresas privadas que enveredavam pelos
aerolevantamentos fotogramétricos.
35No
entanto, em um trabalho apresentado no Congresso Brasileiro de Geografia
de 1954, Allyrio Hugueney de Mattos, então Diretor de Cartografia do
CNG/IBGE, ilustra muito bem como ainda era incipiente o uso da técnica
fotogramétrica. Numa argumentação que os mais de 50 anos decorridos
tornam ainda mais valiosa, Allyrio, também professor emérito da
Universidade do Brasil e uma das maiores autoridades brasileiras em
Geodésia e Cartografia, observa que “um mapa moderno deve ser executado
com o auxílio do método aerofotogramétrico, que não só reduz o tempo e o
custo do trabalho, como também enriquece os detalhes e isso tudo, sem
prejuízo da precisão.” (Mattos, 1954a, p. 13). Neste mesmo trabalho, que
por razões não muito claras despertou polêmicas à época (Mattos, 1954b,
p.1), Allyrio trata de outras iniciativas da fotogrametria ao nível
regional, que antecederam o uso da técnica nos estudos de localização,
inclusive, da nova Capital, cujos estudos não teriam chegado a termo no
momento adequado, se não houvesse sido usada esta técnica de
levantamento indireto, ou seja, sem que o trabalho seja empreendido
diretamente no campo. Os casos de uso da fotogrametria no Brasil, à
época, estavam mais restritos às áreas urbanas e a estudos mais
específicos, como no caso do vale do rio São Francisco (Mattos, 1954a,
p. 17). De uma maneira geral, entretanto, em termos civis, os usos mais
importantes da fotogrametria no Brasil se davam apenas em áreas urbanas.
36A
fotogrametria, a rigor, havia sido introduzida no Brasil, em termos
operacionais, ou seja, encarada como um método potencial de mapeamento,
no ano de 1912, quando “o Major Vidal foi incumbido pelo Gen. Bento
Ribeiro, da organização de uma seção de Estereofotogrametria, na antiga
Fortaleza da Conceição” (Castelo Branco Filho apud RBC, 1973, p. 41). Os
primeiros equipamentos que permitiam a execução dos trabalhos,
estereoautógrafos Orel da Casa Zeiss foram autorizados para aquisição em
1914, pelo mesmo Gen. Bento Ribeiro, que era então prefeito do Distrito
Federal, no Rio de Janeiro. Os equipamentos se destinavam à Comissão da
Carta Cadastral da Capital da República, para execução de trabalhos que
seriam dirigidos pelo engenheiro Emílio Wolf, que, entretanto, na
seqüência, foi obrigado a retornar à Europa por conta da Primeira Grande
Guerra. O esforço posterior mais importante em relação a esta técnica,
ainda no âmbito do Exército, data de 1920. Trata-se da vinda da chamada
Missão Cartográfica Austríaca, contratada pelo governo brasileiro para
organização do SGE (Serviço Geográfico do Exército) e a criação da
Escola de Engenheiros Geógrafos Militares, embrião do hoje curso de
Engenharia Cartográfica do Instituto Militar de Engenharia – IME (RBC,
1973, p. 39).
37A
defesa de Allyrio desta técnica, em realidade, já expressava uma
provável visão do IBGE de sua importância, porque o órgão já vinha, há
algum tempo, investindo nesta técnica. Em 1949, o CNG havia promovido o
primeiro curso civil de Aerofotogrametria do Brasil, de caráter público,
porque, como observou Chistovam Leite de Castro (1949, p. 929), “outros
[cursos] tem havido, mas condicionados e limitados aos objetivos e
interesses próprios das entidades que os organizaram”. O curso teve o
apoio do Serviço Geográfico do Exército e da Embaixada da França, e as
aulas práticas de fotointerpretação foram dadas por Francis Ruellan,
geógrafo francês que teve destacado papel no desenvolvimento da
Geografia, tanto no CNG quanto na academia (Machado, 2000).
38Mas
a efetiva incorporação de meios efetivos de produção fotogramétrica,
ainda relativamente tímida e experimental, acontece apenas no ano de
1956. Neste ano,
O
Conselho [CNG] adquiriu o primeiro aparelho restituidor, o
‘Estereotopo-Zeiss’ e iniciou os primeiros trabalhos de restituição
plano-altimétrica empregando a triangulação radial. Uma pequena
equipe interessou-se pelo novo tipo de trabalho e o Conselho nos anos
seguintes adquiriu mais quatro estereotopos. Foi assim constituído o
primeiro núcleo fotogramétrico dentro do Conselho a fim de reproduzir um
trabalho de maior categoria, isto é, o levantamento aerofotogramétrico
(Magalhães, 1960, p. 769).
39Curiosamente,
Allyrio Hugueney de Mattos, que advogava a tese da execução dos
mapeamentos do CNG por fotogrametria, era um dos mais renomados
especialistas brasileiros em levantamentos terrestres. Formou-se
em engenharia civil pela Escola Nacional de Engenharia (atual UFRJ) em
1913, entrou para o quadro de astrônomos do Observatório Nacional em
1917, em 1926 obteve por concurso a livre-docência em Topografia e
Legislação de Terras e em 1930 se tornou professor catedrático de
Astronomia e Geodésia da mesma Escola Nacional de Engenharia onde havia
obtido sua graduação primeira (SBC, 1972, p. 7). A partir de 1938,
quando se incorpora aos quadros do CNG, por solicitação deste à Escola
Nacional de Engenharia, inicia a campanha de determinação das
coordenadas geográficas dos municípios do Brasil, que pode ser
considerada a gênese da rede geodésica civil brasileira, cuja
implantação se inicia em 1945, com a triangulação de primeira ordem e
com as redes de nivelamento de precisão que se constituem, até hoje, na
infraestrutura geodésica brasileira gerenciada pelo IBGE. Estas redes se
estendem hoje por todo o Brasil, mas em 1944, em sua gênese, partiram
sob a coordenação de Allyrio, como bem descreve Mauro Mello (1986):
Em
fins de 1944, o então Conselho Nacional de Geografia – CNG, órgão
integrante do IBGE, recebeu a incumbência de mapear a Região Carbonífera
de Santa Catarina, localizada no sul daquele Estado.
Para o atendimento dessa tarefa, desenvolveu-se, inicialmente, uma cadeia de Triangulação ao longo do Meridiano de 49º.
Quando
a medição angular já estava bem adiantada e após ter sido medida a
primeira base, o Coordenador de Cartografia do CNG, Prof. Allyrio
Hugueney de Mattos, resolveu criar, sob a Chefia do Engenheiro Honório
Bezerra, a Seção de Nivelamento DC/SNi, com a atribuição do controle
altimétrico do Projeto.
Em 13 de outubro de 1945, a DC/SNi iniciava
os seus trabalhos dando partida na Rede Altimétrica Fundamental
Brasileira que hoje [1986] já ultrapassou a marca dos 130 mil
quilômetros, nivelados e contranivelados, o que dobra esse quantitativo e
equivale a 6,6 vezes a volta da Terra, em torno do Equador, a pé e com paradas a cada 50 metros.
40Essas
redes são essencialmente materializadas por pontos de medição precisa,
nos quais se implantam marcos de concreto que dão materialidade aos
pontos. Em termos da rede horizontal, na generalidade, ela era
medida através da medição dos ângulos dos triângulos que as formavam,
sendo o processo por isso chamado de Triangulação. O encadeamento destes
triângulos permite o transporte das coordenadas horizontais (latitude e
longitude) por longas distâncias, e a conseqüente disseminação dos
sistemas de georreferenciamento que permitem que as cartas todas do
mapeamento de um país tenham um único sistema de coordenadas a lhes
integrar. A dificuldade de efetuar trabalhos de campo, à época, podem
ser avaliadas pela imagem que constitui a Fig. 2, apresentada a seguir.
Figura 2 – Medição de campo no início das campanhas do IBGE
Fonte: Acervo IBGE
- 1 Para que se tenha uma ideia breve do que se trata este método de medição geodésica, ele contempla a (...)
- 2 Transporte de altitudes ponto-a-ponto, que se estende pela margem das estradas, em medições que evo (...)
41A
cadeia de triangulação, cuja medição importa em dificuldades
operacionais muito grandes, evolui relativamente pouco nos primeiros
anos de sua implantação. Como reporta Virgílio Corrêa Filho (1951, p. 1387), no décimo-quarto aniversário do CNG, “a triangulação1
alongou-se de Tôrres, no Rio Grande do Sul, por cerca de 1.400 km, a
Goiânia, aproximadamente acompanhando o meridiano de 49º, com medição
geodésica do maior arco dessa espécie, já realizada na América do Sul.”
Quanto ao nivelamento de precisão2,
este, em 1950, já havia alcançado a extensão total de 10.000 km (Corrêa
Filho, 1951, p. 1388), que é um número bastante expressivo a um país de
dimensões medianas, mas que para o Brasil, pouco mais fazia do que
iniciar a implantação da rede brasileira. A Fig. 3 apresentada a seguir
reporta imagens da medição dos primeiros nivelamentos do IBGE.
42Estes
dados históricos sobre a infraestruturação geodésica da cartografia
brasileira não apenas reportam a gênese da questão geodésica no IBGE,
mas servem também para criar o pano de fundo à compreensão da
importância da grande revolução tecnológica que irá se iniciar nos anos
1970, com a chamada Geodésia Espacial, na qual o IBGE teve um papel
condutor, nos esforços iniciais.
Figura 3 – Medição de nivelamento geométrico próxima ao marégrafo de Itajaí
Fonte: Acervo IBGE
43O
primeiro número da Revista Brasileira de Cartografia apresenta como sua
primeira matéria, à página 4 do número 1 do ano 1, em novembro de 1970,
artigo de Dorival Ferrari, à época Diretor do Departamento de Geodésia e
Topografia do IBGE, anunciando, como dizia o título do artigo, “Novo
processo no estabelecimento do apoio fundamental”. Ferrari (1970, p. 4) observa que
Parece
ter chegado o momento de solucionar definitivamente o problema do Apoio
Fundamental em todo o território brasileiro, mesmo para as regiões
consideradas, até o momento, impenetráveis, utilizando-se os métodos
convencionais de triangulação, trilateração ou de medição de distâncias
por meio de aparelhos eletromagnéticos e eletroóticos.
Esta solução vem com o progresso da ciência e da tecnologia, nesta era espacial em que vivemos.
44As
experiências efetivas do IBGE no posicionamento por satélites
iniciam-se então no ano de 1973, sob a coordenação de Dorival Ferrari. Durante
um período de 45 dias, nos meses de setembro e outubro daquele ano,
conforme relata Ferrari (1974, p. 10), o IBGE realizou missão de campo
para
determinação
de 13 (treze) estações Geoceiver, doze das quais se situam no
Território de Rondônia e uma no Estado do Mato Grosso. A esse projeto deu-se o nome de SAT-RO, que significa Observações com Satélite em Rondônia. (...)
A finalidade da campanha com
Geoceiver era o estabelecimento de pontos de Apoio Fundamental,
indispensáveis ao Plano de Mapeamento de Faixas de Fronteiras.
45Mas
a questão do estabelecimento da infraestrutura geodésica do Brasil,
responsável pelo georreferenciamento e integração de todas as atividades
de mapeamento do país, não prescindia apenas do estabelecimento da
chamada rede horizontal, ou seja, da rede estabelecida para materializar
o sistema de coordenadas horizontais (latitude e longitude).
46A
rede vertical, ou altimétrica, que estabelece as referências de nível
(RN), também foi bastante desenvolvida neste período, para que se
tivesse, em todo o território a mapear, altitudes referenciadas ao
sistema oficial brasileiro, cuja origem (Datum Vertical) se situa em
Imbituba, referenciada ao marégrafo existente naquele porto, em Santa
Catarina.
47As
atividades de nivelamento, novamente à luz da condição continental do
país, não são absolutamente triviais. Em 1976, cerca de três décadas
depois de ter iniciado os trabalhos de implantação da rede de RRNN e de
transporte de altitudes pelo país, já havia atingido todos os estados e
territórios do Brasil, com exceção do Amapá, alcançando cerca de 70.500
quilômetros de nivelamento (SBC, 1976, p. 39), que se trata de uma marca
bastante expressiva, principalmente em face das dificuldades
operacionais da época. Estas dificuldades podem ser apreciadas pela
reportagem da Revista Brasileira de Cartografia (1976, p. 39) da época,
quando esta reporta que
uma
etapa marcante desta gigantesca tarefa [operação de campo para o
nivelamento de transporte de altitudes] foi vencida no dia 22 de outubro
próximo passado [1976], quando duas turmas de nivelamento do IBGE
encontraram-se na rodovia transamazônica, entre Altamira e Itaituba,
depois de terem saído de Goiânia, uma via Cuiabá e Porto Velho e outra
passando pela Belém-Brasília e Marabá. Essas turmas integrantes
das Divisões de Levantamentos Geodésicos do IBGE, com sede em Brasília e
Fortaleza, concluíram naquela data um circuito de nivelamento de alta
precisão com 6.384 km de extensão, alcançando-se a precisão de 0,04 mm
por quilômetro nivelado.
Para consecução deste objetivo, usou o IBGE
um método especial de nivelamento para travessia dos rios Madeira,
Tapajós, Xingu e Araguaia, sendo a maior delas a do rio Tapajós, com
2.830 metros.
A despeito das endemias regionais, da falta de recursos
locais e de outras dificuldades inerentes aos trabalhos de campo na
região amazônica, a rede de nivelamento do IBGE, além do circuito
mencionado, já atingiu a cidade de Rio Branco pela BR-364, atravessou o
rio Amazonas nas proximidades da cidade de Manaus e penetrou no
território de Roraima pela BR-174. Esta em andamento, entre outros, o
nivelamento ao longo da rodovia Cuiabá-Santarém, BR-163.
48Com
relação especificamente à produção cartográfica, os desafios de
mapeamento sistemático do Brasil, em 1970, não eram nada simples, mesmo
sendo a responsabilidade deste mapeamento oficialmente compartilhada
entre IBGE e DSG do Exército, sob coordenação da COCAR (Barreto, 1970,
p. 38). Em síntese, como apresenta Barreto (1970, p.38), a situação cartográfica a equacionar, àquele tempo, contemplava:
(...) vôo feito pela equipe do
AST-10-USAF, na escala de 1:60.000, cobrindo uma área da ordem de 1447
folhas de 1:100.000, ainda não impressas.
Apoio geodésico (triangulação e nivelamento) existente, com vôo de 1:60.000, abrange um total aproximado de 308 folhas [...].
49No
que tange aos equipamentos fotogramétricos, levantamento feito por
Barreto dava conta da disponibilidade total no Brasil de duzentos e
quarenta e um equipamentos deste tipo. Os dois principais órgãos
da cartografia oficial brasileira dispunham de 33 (IBGE) e 38 (DSG),
portanto 14 % dos equipamentos do parque nacional pertenciam ao IBGE e
16 % à DSG. Com base nestes recursos de geodésia e fotogrametria da DSG,
muito semelhantes aos do IBGE em quantidade e qualidade, Barreto (1970,
p. 41) afirmava que “se continuarmos somente com os meios e recursos
existentes na DSG, levaremos uns cinqüenta (50) anos para mapearmos o
Brasil nas escalas de 1:100.000 e 1:250.000”.
50No
que diz respeito ao mapeamento sistemático da área mais desafiadora do
Brasil, a Amazônia, o ano de 1973 registra a execução de 345.000 km2, na
escala de 1:100.000, como parte de um convênio entre IBGE e SUDAM
(Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia). Para estas cento e
treze folhas, o IBGE responsabilizou-se pelo planejamento dos serviços,
pelas atividades de campo e pelas atividades fotogramétricas (RBC, 1973,
p. 61). Os desafios da implantação da infraestrutura geodésica do país
também eram, em parte, nesta época de muito trabalho a fazer para
recuperar o atraso do Brasil na infraestrutura geoinformacional,
enfrentados através de convênios com outras entidades públicas. Com a
SUDEMA – Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Maranhão, o
IBGE firmou convênio para o estabelecimento de 80 estações de poligonais
de precisão, para vértices da planimetria, e para 220 RRNN para a
materialização da rede altimétrica. O planejamento, a construção dos
marcos, o reconhecimento, a medição, os cálculos e os ajustamentos se
constituíram nas atividades empreendidas pelo IBGE (RBC, 1973, p. 61),
para o estabelecimento da infraestrutura geodésica do Maranhão.
51Entre
os anos de 1977 e 1982 a COCAR fomentou o PDC – Programa de Dinamização
da Cartografia, que alavancou a área mapeada total do Brasil em cerca
de 27% de sua área total, ou seja, de um total de quase quatro milhões
de quilômetros quadrados (aproximadamente 44% do território brasileiro)
para pouco mais de seis milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados,
que equivalem a cerca de 71 % do território (SBC, 1982, p. 27). O IBGE
não era a única organização envolvida na produção deste mapeamento, mas
sem dúvida era uma das mais importantes, tendo sido esta a época em que a
produção do IBGE se fez mais intensa. Vale ainda observar que este
salto quantitativo da área mapeada do Brasil, nestes cinco anos,
equivale a mais de quatro vezes a extensão territorial da França e a
quase sete vezes o território da Alemanha. Apenas no ano de 1982 as
organizações que compunham o Plano de Dinamização da Cartografia,
essencialmente IBGE e DSG do Exército, mapearam oitocentos e quarenta e
seis mil quilômetros quadrados, ou seja, uma área equivalente a mais do
dobro do território alemão. Em termos de Brasil, entretanto, esta
excepcional produção do ano de 1982 significava apenas pouco mais de
nove por cento do território nacional. Uma análise criteriosa destes
números pode instruir uma boa reflexão acerca da brutal dimensão da
missão que tinham o IBGE e a DSG, e das dificuldades que estas
instituições sempre tiveram para cumprir seu papel institucional, num
país que, em termos de política de estado, nunca reconheceu
adequadamente a importância infraestrutural da cartografia terrestre
básica.
52As
dimensões do Brasil também impunham desafios excepcionais ao IBGE na
questão da infraestrutura geodésica do país. No ano de 1984, quando os
computadores eram ainda máquinas de processamento de dados
especialíssimas, o órgão implantou, em seus computadores IBM 3032, um
sistema computacional para processamento das observações geométricas de
sua rede planimétrica, com capacidade de ajustar até quatro mil estações
da rede (SBC, 1984, p. 46). De acordo com informações da época,
O
sistema [USHER] além de proceder ao ajustamento realiza a emissão de
vários diagnósticos quanto às observações – direções, distâncias e
azimutes – com base em modelagem estatística bastante sofisticada. Com
a implantação do sistema espera-se para 1986 a realização do
ajustamento em bloco da rede planimétrica; triangulações e poligonais
implantadas e mantidas pelo IBGE. (SBC, 1984, p. 46)
53Com
relação aos levantamentos gravimétricos, o IBGE retomou em 1981, no
âmbito de convênios estabelecidos com a Universidade de Brasília e com a
Universidade de São Paulo, os trabalhos de medição de campo, após uma
paralisação de pouco mais de dez anos (SBC, 1985, p. 55), o que equivale
a dizer que a década de 70, em termos das medições de gravimetria, foi
uma década perdida para o órgão. Estas medições, que são muito
importantes ao papel de instituição referencial às questões geodésicas
brasileiras, tinham contemplado de 1981 a 1985 cerca de três mil e
setecentos pontos, que é um número expressivo no que tange às operações
de campo, mas que, em face das dimensões continentais do país, é
insuficiente para o adequado conhecimento do campo gravitacional
terrestre, no âmbito do território brasileiro.
54Os
anos 70 e 80 constituíram ainda um período no qual o IBGE assumiu de
forma tão intensa seu papel institucional em relação à cartografia, que
até curso de formação de técnicos de nível médio foi promovido pelo
órgão. A ENCE (Escola Nacional de Ciências Estatísticas), mantida pelo
IBGE, formou a primeira turma de Técnicos em Geodésia e Cartografia no
ano de 1976. Savitri Gomes de Aguiar (1984, p. 50), representando os
alunos, observa que
A
habilitação de técnico de 2º grau em Geodésia e Cartografia, proposta
pela Fundação IBGE ao MEC/CFE, foi aprovada pelo Parecer no 2933/75 (...). Dentre
as razões que levaram a Fundação IBGE a criar este curso, a principal
foi a crescente solicitação de mão-de-obra especializada, não só nos
trabalhos desenvolvidos pela própria Fundação, como também pelas novas
empresas especializadas em mapeamentos e levantamentos geodésicos que
surgiam.
55Este
curso, que foi precursor na formação de técnicos especializados em
geodésia e cartografia e que sempre foi reconhecido pela excelência de
formação, inclusive porque, como observa Aguiar (1984, p. 50), o curso
contava “com seis meses de estágio prático no IBGE”, infelizmente não
sobreviveu às reformas que marcaram a virada dos anos 80 para os anos
90, no IBGE, quando o órgão se decidiu pela manutenção exclusiva dos
cursos de graduação e de pós em Estatística, especificamente, e pela
desativação progressiva dos cursos médios (ENCE, 2013), fato que,
afinal, levou à extinção do curso de técnico de Geodésia e Cartografia e
à concentração da ENCE nas temáticas da Estatística e da Demografia.
56A
Carta Magna de 1988 propiciou que estados e municípios angariassem
maior autonomia no estabelecimento de ações na gestão executiva
relacionada às suas instâncias administrativas.
57A
questão da representação cartográfica foi fortemente influenciada neste
aspecto, pois ao final da década de 80, início da década de 90, os
recursos disponíveis pelo Governo Federal para o levantamento de
significativas porções territoriais do país rareavam, quando comparados
àqueles disponíveis até então. Concomitante a este fato, o volume
crescente, a diversidade e a volatilidade das informações relevantes
para o desenvolvimento em todos os segmentos da sociedade, quase que
obrigava com que os órgãos, instituições e empresas envolvidas na
definição de políticas e no planejamento estratégico do uso ordenado dos
recursos do País, utilizassem instrumentos, metodologias e tecnologias
que possibilitassem análises de informações integradas e
georreferenciadas em meio digital.
58Este período marcou o início de uma significativa revolução que sinalizou uma modificação radical no modus operandi
da produção da cartografia nas instituições envolvidas e a produção
cartográfica no IBGE não ficou imune a esta revolução. Uma revolução
também se observava nos processos informatizados relacionados à produção
da informação cartográfica. Até então, as plotagens dos canevas a serem
utilizados no processo de estereocompilação fotogramétrica eram
realizados de forma manual em pantógrafos mecânicos. Neste período
iniciou-se um procedimento automatizado na geração dos canevas, com a
utilização de equipamentos denominados plotters, os quais após o
ajustamento realizado em ambientes computacionais que utilizavam os
computadores de grande porte denominados mainframes, traçavam
de forma automática os canevas. Estes computadores eram da IBM e
utilizavam em suas operações para entrada de dados cartões processados
em máquinas perfuradoras de cartões também fabricadas pela IBM como as
IBM360 e IBM370. Esperava-se de dois a três dias para se analisar nas
listagens dos relatórios os resultados do processamento da tarefa. Este
processamento automatizado em ambiente de computadores de grande porte
foi o início de um impressionante ciclo de mudanças tecnológicas que
influenciaram de forma direta todas as mudanças verificadas no processo
de produção da informação cartográfica no IBGE no período compreendido
entre as duas décadas finais do século XX até o período contemporâneo.
Duas principais iniciativas ocorreram neste contexto: o projeto de
criação do CIC (Centro de Informações Cartográficas) e do Projeto
INFOCAR (Informatização da Cartografia).
59A
criação do Centro de Informações Cartográficas (CIC) no âmbito da
Diretoria de Geociências (DGC) ocorre a partir da iniciativa de Eng.º
José Roberto Duque de Novaes que tinha em seu escopo a informatização de
processos cartográficos que envolviam desde a elaboração de cadastros
com a relação das cidades e vilas do Brasil, até procedimentos que
iniciaram a digitalização manual de feições cartográficas contidas em
documentos cartográficos de diversas escalas, assim como o início das
atividades para a transformação dos mapas municipais em meio analógico,
para a criação de um mapa municipal digital. Este projeto foi um dos que
mais foi influenciado pelo intenso ritmo da evolução tecnológica que se
iniciava em meados da década de 80 e se prolonga até os dias atuais.
Passou-se das iniciativas de informatização cartográfica dos ambientes
de computadores de grande porte para as primeiras iniciativas de
produção em microcomputadores desktop como os primeiros Personal Computers
(PC) de 10 megabytes de disco rígido e acoplados em rudimentares mesas
digitalizadoras, os quais iniciaram a conversão de dados de cartas e
mapas do ambiente analógico para o ambiente digital.
60O ambiente do Centro de Informações Cartográficas era um ambiente de CAD (Computer Aided Design)
e neste contexto, não tinha a preocupação em seu escopo pelo
estabelecimento dos conceitos topológicos que caracterizam as
informações cartográficas preparadas para ambientes de Sistemas de
Informação Geográfica (SIG). O objetivo principal era iniciar a
conversão para ambiente digital das informações que até então estavam
exclusivamente em meio analógico, a partir dos rudimentares recursos
disponíveis na época.
61Desta
forma iniciou-se a coleta de dados cartográficos diretamente dos
documentos cartográficos preenchendo-se formulários especializados por
escala cartográfica, elaborados de forma precípua para esta finalidade,
com o objetivo de criar cadastros especializados das principais
informações cartográficas representadas de forma pontual. Configurava-se
num método embrionário de digitalização manual, cuja operação principal
consistia na leitura de coordenadas diretamente dos documentos
cartográficos, com réguas especializadas elaboradas especialmente para
esta finalidade, por escalas do mapeamento sistemático, a saber:
1:1.000.000; 1:250.000; 1:100.000; 1:50.000 e 1:25.000.
62Desta
maneira, foram sendo elaborados ao longo da década de 1980 cadastros de
informações pontuais contidos nas folhas de carta do mapeamento
sistemático brasileiro. Os principais cadastros elaborados foram os
seguintes: Cidades e Vilas, Referências de Nível, Minas, Usinas, Marcos
de Fronteiras (Municipais, Estaduais e Internacionais).
63Além
destes cadastros com informações de representação pontual, iniciou-se
um processo de aquisição das primeiras mesas digitalizadoras
eletrônicas, que naquela época entravam no mercado nacional. Assim foram
adquiridas algumas mesas digitalizadoras manuais com a finalidade de
digitalizar as feições lineares. Priorizou-se inicialmente a
digitalização dos seguintes temas de informação cartográfica: divisão
político-administrativa (estadual e municipal), hidrografia e bacias
hidrográficas.
64Com
a incorporação em 1985 do Projeto Radam Brasil ao IBGE foi extinta a
Diretoria de Geodésia e Cartografia e criada a Diretoria de Geociências
do IBGE, a qual incorporou todo o acervo e atividades geocientíficas que
até então eram executadas no âmbito do referido Projeto, incluindo
algumas atividades de geoprocessamento, particularmente aquelas
desenvolvidas na Unidade da Bahia em Salvador. A partir da criação da
Diretoria de Geociências, iniciou-se um processo, na época ainda
embrionário, para informatizar todas as fases do processo de produção
cartográfica, que ainda era analógico.
65Criou-se
então um grupo para estudar e posteriormente implantar a informatização
dos processos de produção da cartografia, da estereocompilação
fotogramétrica digital aos processos de editoração cartográfica,
passando pelo estabelecimento de camadas de informação cartográfica
armazenada em banco de dados. Este projeto foi denominado Projeto de
Informatização da Cartografia ou INFOCAR.
66O
Projeto de Informatização da Cartografia (INFOCAR) foi estabelecido no
âmbito da Diretoria de Geociências, como uma espécie de continuação do
Centro de Informações Cartográficas. Neste contexto observou-se a
incorporação, cada vez mais intensa, da tecnologia dos Sistemas de
Informação Geográfica (SIG) para a produção e disseminação de
informações nos diversos níveis de governo e da iniciativa privada.
67A
Base de Dados de um SIG é a modelagem digital da realidade geográfica
usada para simular estudos e análises sobre as sociedades em geral. Esta
base possuía três componentes principais: espacial ou geométrica,
descritiva ou alfanumérica e temporal. Mas ainda mantendo a estrutura
CAD, pois os bancos de dados armazenavam as características geométricas
das feições como cor, peso e estilo dos elementos lineares.
68A
componente espacial dos SIG eram as bases cartográficas digitais em
diversas escalas e se tornava cada vez mais premente a transposição de
documentos cartográficos para o meio digital, que em conjunto com as
informações descritivas, iriam suportar as análises requeridas pelos
usuários.
69Nesta
conversão havia que se considerar alguns requisitos topológicos,
anteriormente não utilizados em desenho ou em sistemas CAD, como a
conectividade das redes (hidrográficas, viária, de transmissão e outras)
e a adjacência e fechamento dos elementos poligonais. Sob este prisma, a
transposição não se resumia apenas na migração de bases cartográficas
para o ambiente digital, mas também em sua estruturação topológica para
que certas análises pudessem ser executadas.
70Os
principais objetivos do Projeto foram os seguintes: capacitar o corpo
técnico no domínio dos recursos de tecnologia adquiridos para a
cartografia no IBGE; elaborar a modelagem de uma Mapoteca Topográfica
Digital (MTD) que incorporasse as folhas do Mapeamento Sistemático
Nacional, associando adequadamente as informações gráficas e não
gráficas, visando a sua recuperação para diferentes tipos de aplicações
de abrangência geográfica (produção cartográfica digital e SIG);
concepção e desenvolvimento de aplicações que contribuíssem para a
automação dos processos de produção cartográfica; e, desenvolvimento de
normas e metodologia para a produção cartográfica digital.
71O
Projeto INFOCAR iniciou suas atividades em 1990, com a aprovação pelo
Banco Mundial das especificações dos sistemas a serem adquiridos. Ao
longo desse ano foram desenvolvidas as fases de: aquisição dos sistemas,
constituição das equipes e treinamento conceitual do corpo técnico, até
a instalação dos sistemas adquiridos (março a junho de 91). A partir
destas atividades iniciais, foram empreendidas as fases de estudos dos
sistemas adquiridos e desenvolvimento de metodologia a ser adotada.
72Ao
longo de 1993 procedeu-se à adequação das metodologias de algumas das
etapas da produção cartográfica digital, através de projetos de produção
experimental nas áreas de: estereocompilação digital; digitalização
automática; estruturação, validação e gerenciamento da Mapoteca
Topográfica Digital (MTD); e, consolidação da Malha Municipal Digital e
geração automática de originais cartográficos.
73Na
definição dos recursos a serem adquiridos foram analisados os seguintes
parâmetros: requisitos e objetivos do projeto de informatização,
especificações técnicas de software e hardware, suporte e manutenção.
Após análise das propostas técnicas dos fornecedores optou-se pela linha
Intergraph, visto ser a única que apresentava uma solução,
consolidada no mercado mundial, para os principais gargalos da produção
cartográfica, quais sejam: conversão de grande quantidade de documentos
cartográficos para o ambiente digital (digitalização automática) e a
geração automática de originais cartográficos (minimizando os custos da
gravação de fotoplásticos – processo demorado e de elevado custo).
74Para
atingir os objetivos requeridos estruturou-se o Projeto INFOCAR de
forma a suportar as atividades que compõem a produção cartográfica:
aquisição e atualização de dados; estruturação, validação e
gerenciamento da MTD; geração automática de originais cartográficos e
administração de recursos computacionais.
75Os
recursos tecnológicos incorporados ao Projeto INFOCAR, que constituíram o
passo inicial na direção de uma linha de produção cartográfica para a
época, contemplaram os seguintes sistemas: estereocompilação digital;
digitalização automática; processamento de imagens; plotagem e
fotoplotagem; editoração de mapas; informação geográfica.
76Durante
toda a década de 90 foram operacionalizados cada um destes sistemas,
numa fase inicial com os recursos humanos formados pela própria equipe
do projeto, constituída de dois ou três profissionais oriundos dos
processos de produção analógicos. Estes profissionais precursores
ficaram encarregados de introduzir, a posteriori, os
procedimentos desenvolvidos nas áreas de produção, que aos poucos foram
absorvendo os processos informatizados, em substituição aos processos
analógicos de produção implantados até então. Digno de registro foi o
ingente esforço de digitalização com scanners automáticos, das
folhas de carta do mapeamento sistemático brasileiro, envolvendo todo o
mapeamento nacional produzido pelo IBGE e pela DSG, num total de
aproximadamente 15.000 documentos convertidos neste processo. Esta ação
culminou ao final dos anos 90 no desenvolvimento de um processo
automatizado para a geração dos 5507 mapas municipais estatísticos,
através do sistema denominado SISCART, que foi utilizado durante o Censo
Demográfico do ano 2000. Este esforço foi um significativo e marcante
esforço para informatização dos processos analógicos até então
utilizados, pois até o Censo de 91 os mapas eram desenhados à mão, com
caneta nanquim. Para o censo do ano 2000 os mapas municipais foram
montados de maneira automatizada e com produção descentralizada, nas
Unidades Estaduais do IBGE (Santos et al. 1996).
77Este breve percurso histórico não poderia se encerrar sem que se lançasse um olhar ao futuro da cartografia no IBGE. Com
efeito, caberia aqui a pergunta sobre que tendências futuras aguardam o
IBGE, enquanto a mais importante agência civil de mapeamento do Brasil?
Após tantas revoluções tecnológicas ocorridas, principalmente nas
últimas três décadas, quais seriam os grandes desafios a serem
sobrepujados?
78Em
primeiro lugar, se poderia colocar o desafio de continuar à frente de
toda a revolução tecnológica que ainda se encontra em curso na geodésia
espacial, com a esperada expansão da tecnologia GNSS, com a perspectiva
de que em 2020 mais de uma centena de satélites de posicionamento global
estarão em órbita, em diversos sistemas, para além do GPS.
79No
que tange ao tratamento da enorme quantidade de informações
geoespaciais, cumpre destacar que a aquisição de dados se transforma
cada vez mais no sentido do uso de dados emanados de inúmeros
dispositivos eletrônicos com alto poder de processamento de informações
geoespaciais, como GNSS, celulares, redes sociais (dados modelados pelo
usuário), predição de padrões e condutas, geomarketing e proliferação de
serviços baseados em localização (LBS) ocasionando considerável
incremento do volume de dados disponíveis para validação e eventual
incorporação às bases oficiais da cartografia civil.
80Neste
sentido, outro desafio tecnológico que decorre dos já estabelecidos é a
gestão de todos estes dados e a conseqüente produção de informação.
Hoje, a carta impressa é apenas um subproduto, quando outrora era o
produto principal. Hoje, a informação cartográfica se encontra diluída
em poderosos bancos de dados corporativos, descentralizada na chamada
nuvem de dados geoespaciais, gerada muitas vezes por voluntários que,
interconectados, abastecem as redes formadas com informações sobre
localização; em outras palavras, o referenciamento geográfico se
populariza, o que redunda em desafios de armazenamento, estruturação,
análise e validação. Que informação deve ser absorvida pela instituição
oficial de mapeamento e qual deve ser descartada? A eficiente gestão de
toda esta parafernália de informação geoespacial é tanto ingente quanto
urgente.
81Ao
final, restam ainda os desafios do papel oficial do IBGE na
disponibilização e gestão da infraestrutura de dados geoespaciais do
Brasil. O desafio de estabelecer uma política de gestão dos dados e de
disponibilização e disseminação ao público de informações qualificadas,
que sempre estiveram em sua missão institucional, agora de forma
digital. E o desafio de provar aos Governos a importância crucial da
informação geoespacial, no sentido de estabelecer a infraestrutura
essencial de informações que é imprescindível aos investimentos em
saúde, educação, energia, agronegócios, transportes e tantas outras
atividades que dependem da infraestrutura geoespacial para estabelecer
seus estudos iniciais de viabilidade e de anteprojeto.