1A
década de vinte representou para a geografia escolar brasileira um
momento de profundos questionamentos acerca das orientações
teórico-metodológicas que desde a primeira metade do século XIX, quando
da introdução desta disciplinas nos currículos prescritos,
caracterizavam sua prática de ensino.
2Em
oposição ao modelo de geografia tradicionalmente ensinado, emerge de
forma paradigmática uma nova proposta de ensino para esta disciplina,
tornada oficial a partir da reforma Luiz Alves/Rocha Vaz.
3Para
que melhor possamos compreender a emergência desta nova feição
adquirida pela geografia dos professores, faz-se necessário que nos
reportemos aos fatores sócio-históricos que contribuíram no seu
engendramento.
4Romanelli,
ao analisar as transformações que a educação brasileira começaria a
passar, a partir da década dos anos vinte, procura nos situar no
contexto de mudança do qual o período estava prenhe.
A
I República teve (...) um quadro de demanda educacional que
caracterizou bem as necessidades sentidas pela população e, até certo
ponto, representou as exigências educacionais de uma sociedade cujo
índice de urbanização e de industrialização ainda era baixo. A
permanência, portanto, da velha educação acadêmica e aristocrática e a
pouca importância dada à educação popular fundavam-se na estrutura e
organização da sociedade. Foi somente quando essa estrutura começou a
dar sinais de ruptura que a situação educacional principiou a tomar
rumos diferentes. De um lado, no campo das idéias, as coisas começaram a
mudar-se com movimentos culturais e pedagógicos em favor de reformas
mais profundas; de outro, no campo das aspirações sociais, as mudanças
vieram com o aumento da demanda escolar impulsionada pelo ritmo mais
acelerado do processo de urbanização ocasionado pelo impulso dado à
industrialização após a I Guerra e acentuado depois de 1930 (ROMANELLI,
1993:45).
5À
medida que a estrutura até então hegemônica começou a ruir, o sistema
educacional brasileiro foi sendo objeto de gradativas mudanças. O modelo
agroexportador em franca decadência vai dando lugar a um modelo
econômico urbano-industrial. A intensificação do processo de
urbanização, decorrente do modelo econômico emergente, foi gerando novas
e crescentes demandas de mão-de-obra especializada para ocupar as
funções que os setores secundário e terciário estavam a exigir. A
demanda social de educação amplia-se rapidamente e o sistema escolar se
vê pressionado a expandir-se, à medida que um contingente cada vez maior
de pessoas dos estratos médios e mesmo das camadas populares buscavam a
escola a fim de ampliarem suas possibilidades de ascensão social.
6Concomitantemente
a este estado de transformações mais aceleradas, tem início um processo
de repensar a educação brasileira por parte de intelectuais ligados à
educação ou não, assim como por movimentos políticos, que em comum
apresentavam a preocupação com a alteração do status quo até então reinante (mesmo que tais alterações fossem apenas relativas).
- 1 Nagle, ao estudar a educação brasileira no período correspondente à Primeira República, identifica (...)
7Estes
atores sociais, contemporâneos do novo modelo urbano-industrial que
estava sendo implantado no país, desempenharam o papel de formuladores,
veículos e disseminadores de novos padrões culturais. Em decorrência, a
discussão acerca da educação começou a fazer parte da “ordem do dia” e,
em meio ao conservadorismo reinante, emergiu um inusitado entusiasmo pela escolarização, bem como um certo otimismo pedagógico.1
O
entusiasmo pela educação e o otimismo pedagógico, que tão bem
caracterizaram a década dos anos vinte, começaram por ser, no decênio
anterior, uma atitude que se desenvolveu nas correntes de idéias e
movimentos político-socias e que consistia em atribuir importância cada
vez maior ao tema da instrução, nos seus diversos níveis e tipos. É essa
inclusão sistemática dos assuntos educacionais nos programas de
diferentes organização que dará origem àquilo que, na década dos vinte,
está sendo denominado de entusiasmo pela educação e otimismo pedagógico
(NAGLE, 1976:101).
8Desses
dois fenômenos, podemos apontar como principais contribuições à
educação brasileira as discussões acerca da necessidade de se ampliar o
acesso à escolarização por parte da população e, por outro lado, as
discussões acerca da necessidade de se repensar a escola, no que tange
as suas funções, currículo, metodologias, etc.
9Rapidamente
o questionamento acerca da educação amplia-se e consegue penetrar nas
legislações educacionais, como podemos constatar nas palavras de
Azevedo:
Foi
nesse ambiente de agitação de idéias, de transformações econômicas e de
expansão dos centros urbanos, que se iniciou no planalto e no litoral,
para se propagar pelas principais cidades do país, o movimento
reformador da cultura e da educação. O primeiro sinal de alarma que nos
colocou francamente no caminho da renovação escolar, foi a reforma
empreendida em 1920 por Antonio de Sampaio Dória que, chamado a dirigir a
instrução pública em São Paulo, conduziu uma campanha contra velhos
métodos de ensino, vibrando golpes tão vigorosamente aplicados à frente constituída pelos tradicionalistas que panos inteiros do muro da antiga escola
deviam desmoronar. Mas, não só as resistências eram ainda muito fortes
para que a obra, encetada e interrompida no primeiro ano, pudesse
desenvolver-se e produzir todos os seus efeitos como também, ainda que
fugindo à orientação puramente administrativa, essa reforma, limitada ao
ensino primário, concentrava os seus melhores esforços na transformação de métodos e técnicas
de ensino. Em 1924, Lourenço Filho, no Ceará, a que foi chamado para
reorganizar o ensino primário; Anísio Teixeira, na Bahia, onde ensaia as
atividades de reformador que deviam desenvolver-se, em toda a sua
plenitude, no Distrito Federal (1932-35), de volta de sua viagem de
estudos aos Estados Unidos; Carneiro Leão, no Rio de Janeiro, e Lisímaco
da Costa, no Paraná, já se orientam por uma ação, variável no grau de
intensidade, como no conteúdo e nos objetivos, para a renovação escolar,
semeando novas idéias e técnicas pedagógicas, promovendo realizações e
organizando planos de reformas, parciais e globais, mas todas limitadas
ao ensino primário e aos seus problemas fundamentais (1971:653).
10Para
a geografia escolar brasileira, o período também adquire uma
importância ímpar. Nele se verificou de forma mais acentuada o conflito
entre os professores de tendência conservadora que defendiam uma
concepção tradicional da geografia e de seu ensino (a geografia
clássica, ensinada de forma descritiva e mnemônica) e, de outro lado,
professores favoráveis à renovação do ensino desta disciplina, não só no
que diz respeito à metodologia empregada nas salas de aulas, como
também no que se refere aos conteúdos.
11A
reforma que passaremos a analisar em seguida representou para a
geografia escolar brasileira o triunfo, pelo menos no campo oficial, da
vertente de professores empenhada em renovar o ensino desta disciplina.
12A
última das Reformas educacionais implementadas quando da República
Velha foi a instituída pelo Decreto nº 16.782-A, de 13 de janeiro de
1925, cuja redação final ficou ao encargo do Reitor da Universidade do
Rio de Janeiro e Diretor do Conselho Superior de Ensino, Professor Rocha
Vaz, e referendada pelo Ministro da Justiça e Negócios Interiores, Luiz
Alves.
13Apesar
de na ementa desta reforma estar explícito que a mesma visava
estabelecer o concurso da União para a difusão do ensino primário – além
de criar o Departamento Nacional do Ensino e reformar o ensino
secundário e superior, dentre outras providências a serem tomadas –, o
corpo da mesma deixa bastante claro que a prioridade por parte do
governo central continuaria a ser, apenas, os dois níveis de ensino
tradicionalmente beneficiados, ou seja, o secundário e o superior.
14Dentre
as várias transformações almejadas pela nova Reforma, podemos destacar a
ampliação do curso secundário para seis anos ( ver quadro 1) e a
implantação em definitivo do regime seriado, que assumia a partir
daquele momento um caráter universal na escolarização média brasileira.
Em conseqüência desta última medida, viu-se extinto os exames parcelados
de preparatórios.
QUADRO 1
CURRÍCULO DO COLÉGIO PEDRO II APÓS
A REFORMA LUIZ ALVES/ROCHA VAZ (1925)
1º ANO: Português; Aritmética; Geografia Geral; Inglês; Francês; Instrução Moral e Cívica; Desenho.
2º ANO: Português; Aritmética; Geografia (Corografia do Brasil); História Universal; Francês; Inglês ou Alemão; Latim; Desenho.
3º ANO: Português; Álgebra; História Universal; Francês; Inglês ou Alemão; Latim; Desenho.
4º ANO: Português; Geometria e Trigonometria; Latim; História do Brasil; Física; Química; História Natural; Desenho.
5º ANO: Português; Cosmografia; Física; Química; História Natural; Filosofia; Desenho.
6º ANO: Literatura Brasileira; Literatura das Línguas Latinas; História da Filosofia; Sociologia.
- 2 Desde a criação do Imperial Colégio de Pedro II, na Cidade do Rio de Janeiro, e sua conseqüente tra (...)
15Num dos atos de maior centralização presente nesta legislação, ficou estabelecido que a equiparação2 só seria concedida aos estabelecimentos oficialmente
mantidos pelos Estados (Art. 268); assim mesmo, somente para aqueles
que adotassem integralmente as regras previstas na reforma e, como
conseqüência disso, se submetessem à fiscalização de inspetores
federais, tivessem edifícios e instalações necessárias para o
funcionamento a contento do estabelecimento de ensino. Ainda deveriam
eles cumprir à risca o regimento interno do Colégio Pedro II, no que
dizia respeito à organização didática e administrativa.
16Este
último item adquire fundamental importância para este estudo, porque
impôs, mais uma vez, a uniformização de um currículo para todos os
estabelecimentos oficiais de ensino secundário existentes no país:
consequentemente, os conteúdos programáticos oficialmente estabelecidos
para o Colégio Pedro II tornaram-se obrigatórios em nível nacional.
17A
preocupação com uma educação voltada para a consolidação do
nacionalismo- patriótico começa a aflorar de forma mais nítida nesta
legislação. Em seu artigo 47 § 6º, preconiza a lei que:
No
ensino da língua materna, da literatura, da geographia e da história
nacionaes darão os professores como themas para trabalhos escriptos
assumptos relativos ao Brasil, para narrações, descripções e biographias
dos grandes homens em todos os ramos da actividade seleccionando, para
os trabalhos oraes, entre as producções literarias de autores nacionaes,
as que estiverem mais ao alcance ou mais possam interessar aos alumnos
para desenvolver-lhes os sentimentos de patriotismo e de civismo. ...
Serão excluidas, por seleção cuidadosa, as producções que, pelo estylo
ou doutrinamento incidente, diminuam ou não despertem os sentimentos
constitutivos dos caracteres bem formados.
18Evidentemente
que subjacente a tal parágrafo está a seleção intencional responsável
pela materialização de um currículo que atenda aos interesses dos
detentores do poder de Estado. Eis o motivo para a recomendação expressa
da seleção cuidadosa dos textos a serem trabalhados pelos professores
responsáveis pelas disciplinas eleitas para difundir a ideologia do
nacionalismo patriótico, que cada vez mais se faria presente em nossas
escolas.
19O
período, para a geografia escolar brasileira, é de extrema importância.
Nele ocorreria de forma mais acentuada a penetração da geografia
moderna nas salas de aulas, num claro processo de transformação
paradigmática sofrida por esta disciplina.
20Não
obstante a grande influência exercida ainda na maioria de nossas
escolas pela versão empobrecida da geografia clássica, já tínhamos a
presença de uma geografia escolar cuja orientação estava direcionada
pela moderna concepção de geografia, que seria finalmente oficializada
nos currículos escolares brasileiros.
21Nesse
processo teve papel destacado o professor Delgado de Carvalho, lente do
Colégio Pedro II e mentor principal do novo currículo prescrito para a
disciplina, aprovado pela congregação da instituição considerada como
estabelecimento de ensino padrão pelo governo brasileiro.
22Uma
rápida análise do pensamento deste geógrafo nos permite melhor
compreender o espírito da nova concepção de geografia escolar, que não
sem profundos choques, passaria a perpassar, a partir de então, o
discurso geográfico considerado digno e único de ser ensinado nas nossas
escolas durante várias décadas.
23O
professor Carlos Miguel Delgado de Carvalho nasceu e realizou seus
estudos integralmente na Europa. Ferraz (1995) sustenta a idéia de que a
formação deste autor em renomados estabelecimentos de ensino naquele
continente, permitiu-lhe contato com ideais liberais e democráticos tão
presentes entre os intelectuais europeus daquela época. Estas
influências o fizeram defensor da crença no espírito do progresso e da
liberdade do homem, elementos que vão perpassar toda a sua produção
teórica.
Este
talhe de ideal político era reforçado pela esperança depositada no
poder da ciência de libertar o homem dos atrasos e desigualdades
sociais, econômicas e culturais, graças às inovações tecnológicas e ao
rigor objetivo da verdade científica no desvendar os meios e segredos do
mundo (FERRAZ, 1995:67).
24Em
1920, retornou ele em definitivo para o Brasil, trazendo em sua bagagem
teórica o contato com geógrafos ingleses e norte-americanos, fato que o
diferenciava da maioria dos autores brasileiros, cujo embasamento
teórico se restringia aos geógrafos franceses e alemães.
25Ainda
em 1920, ingressou através de concurso no Colégio Pedro II, para ocupar
a cadeira de Inglês. Naquele estabelecimento também passou a ministrar
aulas de Geografia e, com a criação da cadeira de Sociologia, assumiu em
1927 a regência da nova disciplina.
26Em 1925, lançava este geógrafo o seu mais importante livro voltado para o ensino: Methodologia do Ensino Geographico (Introducção aos estudos de Geographia Moderna), no qual, desde o subtítulo escolhido, já não deixa dúvidas de suas intenções.
27Uma
análise desta obra, mesmo que breve, parece-nos fundamental para
entendermos o espírito da época em que os novos programas passaram a
vigorar.
28Delgado
de Carvalho, dentre outras coisas, critica o fato de a disciplina
geografia ficar restrita aos dois primeiros anos de ensino no currículo
do curso secundário brasileiro; deste modo, apenas os alunos
principiantes teriam que estudá-la, segundo a sua opinião, num momento
que nem maturidade para tal eles possuíam.
O
erro é antigo, é herdado de geração em geração: existe uma infundada
tradição que quer que sejam preparadas antes de tudo as materias faceis,
e a geographia é considerada como a mais facil de todas porque, na
opinião corrente, tradicional e errada, ainda é apenas questão de
memoria (CARVALHO, 1925:16).
29Delgado
de Carvalho critica o fato de a geografia ensinada no Brasil ser
meramente mnemotécnica. Afirma ele que aos alunos eram dados muitos
nomes para decorar a fim de que pelo menos alguns pudessem eles guardar
na memória. Quanto aos professores, estes são descritos como guardadores
de livros de geografia, só lhes cabendo “...
saber se a memoria do alumno foi fiel, e, para poder seguir – exigirá
apenas que a recitação seja feita de preferencia na ordem em que foi
commettida a materia no ‘completo’ compendio” (CARVALHO, 1925:19).
30Chamando
a atenção para o que nós podemos denominar de resultados da “tradição
seletiva” operada no ensino de geografia, afirma ele que os professores
que aprenderam esta disciplina com base na nomenclatura acabam por
acreditar que o que foi “bom” para eles quando estudantes serve
perfeitamente para seus atuais alunos. Lamenta ainda que as tentativas
de modificação dos programas de ensino com tais características seja
objeto de indignação dos pais de alunos, que chegam mesmo a intervir no
sentido de manter o que já era tradição. Para ele, na atitude destes
pais se encontra presente o principal motivo da manutenção do tipo de
ensino que caracteriza a geografia escolar.
- 3 Para este autor a geografia não se constituia numa ciência, sendo apenas um ramo científico. No seu (...)
31A verdadeira geografia teria como objeto de estudo a terra como habitat do homem. Afirma ele que, infelizmente, este ramo científico,3 nas escolas brasileiras nada mais seria do que “... uma das modalidades da imaginação humana, isto é, de sua faculdade de attribuir nomes, de chrismar areas geographicas” (CARVALHO,1925:04). Completa ainda seu raciocínio afirmando que:
Aqui,
quem não sabe nomenclatura não sabe geographia, e deste modo a poesia e
a geographia são productos directos da imaginação, apesar de fazerem
parte de cadeiras
differentes. Uma geographia é tida como mais ou menos completa, segundo
o numero de paginas que conta e a extensão das listas que a imaginação
confia á memoria das victimas; o ideal seria provavelmente um tratado
volumoso, incluindo a lista telephonica. Entrariamos assim no dominnio
pratico (CARVALHO, 1925:04).
32Defensor
inconteste da geografia moderna nas salas de aulas, este autor, ao
longo de sua obra, criticou severamente a ausência de rigor conceitual e
inocuidade das idéias presentes na geografia que se ensinava no Brasil.
33Contrapondo-se
ao que era regra, Delgado de Carvalho propôs um conhecimento mais
científico da geografia. Execrou a mera nomenclatura, defendendo um
estudo que partisse da geografia física elementar. No seu ponto de
vista, ninguém poderia de fato desenvolver um estudo sério de geografia
se não tivesse como ponto de partida a fisiografia. Afirmou também que
nas aulas referentes a geografia humana deveria se dar maior destaque à
antropogeografia, fato que já começava a se verificar em países
europeus.
34Chamou também atenção para o fato de ser uma das principais características da geografia moderna o uso do método comparativo. Diferenciando a geografia tradicional da moderna, afirmou ser aquela a que estuda “o universo e seus habitantes”, enquanto esta estudaria o “universo em relação aos seus habitantes”. As concepções eram diferentes sobretudo em função do método sobre a qual a segunda se assentava.
35Ferraz,
em seu estudo sobre a obra de Delgado de Carvalho, melhor nos explica o
método apontado por este autor como fundamental para uma efetiva
aprendizagem da geografia em bases modernas:
Este
método consistia em descrever a realidade estudada de forma objetiva,
empiricamente comprovada, racionalmente exata, de maneira a inviabilizar
dúvidas e contradições. Para tal, a indução, análise e síntese eram
elementos cruciais pois, ao se estudar a realidade como um todo,
dividir-se-ia este todo em partes, descrevendo suas características
principais após criteriosa observação, estabelecer-se-iam as relações
que cada parte tinha com a outra e, somar-se-iam estas várias partes
para se ter a noção do todo sistematizado. Eis, em rápidas palavras, o
método científico, de fundamentação positivista-funcionalista, que os
geógrafos brasileiros identificavam como o único capaz de resolver os
problemas da ciência e da sociedade brasileira (1995:55-56).
36Carvalho
propôs, também, que o meio em que vive o aluno se tornasse, em qualquer
tema abordado nas aulas de geografia, o assunto principal de estudo. As
noções sobre outras regiões deveriam ser somadas como informações a
mais, de caráter suplementar e comparativo.
37Defendeu
a posição de que a geografia pátria deveria ser a base e o ponto de
partida dos estudos sobre a fisiografia e a geologia do globo terrestre,
sugerindo aos professores que não se alongassem nas explanações sobre
assuntos sem aplicação ao Brasil.
...
deixemos o estudo mais detalhado das geleiras aos estudantes suissos e o
exame circumstanciado dos volcões aos japonezes e aos equatorianos.
Insistamos, em compensação, sobre climatologia tropical, sobre typos de formação littoranea, recifes, etc. (CARVALHO, 1925:7).
38Evidentemente,
as novas propostas que vinham à luz sobretudo pelas obras de Delgado de
Carvalho seriam objeto de descontentamentos, críticas e reações
adversas de toda a ordem. Cônscio de tais problemas, apresentou em seu
livro os obstáculos que a implantação de uma orientação moderna para o
ensino de geografia haveria de ter. Lembrou que num processo análogo
vivido pela Inglaterra, teriam sido necessários vinte anos para que a
reforma no ensino de geografia fosse melhor aceita pela comunidade
escolar. Demonstrando o quanto seria difícil no Brasil a penetração da
orientação moderna nas salas de aula, chamou atenção para os pontos que
se apresentavam como principais empecilhos para a efetivação da
renovação por ele desejada.
Um
movimento análogo entre nós terá que luctar com as seguintes
difficuldades: 1º – A falta de vulgarização dos modelos e typos do novo
curso geographico, cujo conhecimento é ainda restricto a meia duzia de
estudiosos. 2º – A difficuldade de alcançar e reunir os professores de
geographia. 3º – Caso seja possível alcançal-os, a difficuldade de
convencel-os de que o que estiveram ensinando até hoje poucas relações
tem com a verdadeira geographia. Um homem que conseguiu reter o nome de
todas as sub prefeituras francezas e das provincias italianas, etc., e
durante muitos annos tomou como guia o excellente mais archaico
Cortambert, difficilmente se convencerá de que isto tudo nada tem com a
geographia, e representa apenas a expressão geographica da administração
pública. (...) Por conseguinte, para a implantação da nova geographia
entre nós, não será sufficiente modificar o programma do estabelecimento
typo; não será sufficiente modificar o ensino em taes escolas que
possuem bons professores de geographia que almejam a reforma. Será
necessaria uma activa campamha de propaganda, pela diffusão e
vulgarização dos methodos, a explicação das theorias novas, dos systemas
didacticos modelos e alguns conselhos. Será necessario converter um a
um, todos os mestres que se incumbem de ensinar geographia a nossos
jovens patricios (CARVALHO, 1925:09).
39Tais
palavras deixam evidentes os conflitos que permearam a introdução desta
nova orientação teórico-metodológica nas salas de aulas brasileiras.
Devemos mesmo afirmar que tais conflitos foram, evidentemente, naturais,
haja vista que sendo a geografia escolar um construto sócio-histórico,
não é possível a realização de mudanças – sobretudo as substanciais –
sem embates, pressões e contradições. As resistências não foram poucas,
como podemos perceber no trecho dos Apontamentos Bibliográficos, editado pelo Boletim Geográfico citado por Ferraz:
O
combate que, ao início teve que sustentar contra a rotineira prática
então vigente – que consistia no ensino da geografia puramente
descritivo ou de mera nomenclatura ... Delgado de Carvalho apoiado em
fatos, indicando exemplos, fazendo emulação, colocando-se frente a
frente com seus opositores, conseguiu convencer a todos da justeza de
seus pontos de vista e da razão de ser da campanha metodológica que
empreendera (1995:85).
40No
que tange mais especificamente ao novo programa de ensino de geografia
adotado pelo Colégio Pedro II, Delgado de Carvalho aponta os Professores
Fernando Raja Gabaglia e Honório Silvestre como os grandes responsáveis
pela “inovação radical” presente nos conteúdos e metodologias.
Reconheceu ele que aqueles professores não esmoreceram perante a opinião
pública pedagógica e fizeram verdadeiramente tabula rasa
do ensino de geografia, começando do zero a nova orientação
programática, absorvendo o que de melhor estava sendo feito no
estrangeiro, “à luz dos interesses da educação nacional”.
41Já
em 1922, afirma Delgado que Raja Gabaglia encontrava-se francamente
empenhado em modificar a orientação até então dada ao ensino de
geografia. Segundo ele, o lente de geografia do Colégio Pedro II, graças
à sua formação na nova escola geográfica, bem como o seu conhecimento
acerca das melhores obras estrangeiras sobre a geografia, achava-se em
condições de efetivar a reforma que o ensino desta disciplina no curso
secundário estava a exigir. Já naquele momento, estaria ele “...francamente empenhado em modificar profundamente a orientação medieval que até hoje respeitou” (CARVALHO, 1925:08).
42Deixando
um pouco de lado a cortesia com que vinha tratando ao longo de seu
livro os professores de geografia, responsáveis pelo ensino tradicional
desta disciplina, passa então a desancá-los. Primeiramente, indaga em um
trecho de seu livro como foi possível, durante tanto tempo, não ter
sido cogitado entre os professores brasileiros ensinar alguma coisa útil
durante as aulas de geografia. Critica em seguida o fato de uma bem
decorada enumeração de vinte afluentes do rio Gurupi, por parte dos
alunos, ser considerada pelos professores tradicionais desta disciplina
como um excelente serviço prestado por eles à nação. Aplicando ainda uma
última advertência naqueles professores, pondera que:
Se
em vez de torturar a memoria de um alumno e tornar-lhe assim odiosa a
geographia com uma lista de nomes que nada tem com a verdadeira
geographia, o tempo empregado nisso tivesse sido consagrado a explicar
no mappa a questão da borracha, suas phases principaes e sua posição
actual, o mestre teria facilitado ao alumno o conhecimento de factos
uteis, bem geographicos e de facil lembrança (CARVALHO, 1925:25).
43Comemora
ele o fato de que no Colégio Pedro II vencera as grandes tendências do
moderno ensino de geografia, já que o novo programa aprovado tinha sido
orientado por esta concepção de geografia. Dessa forma saíra vencedora,
segundo ele, a preocupação de restituir aos fenômenos o seu quadro
natural, graças à escolha das regiões naturais como base dos estudos
fisiográficos; à preocupação de relacionar o máximo possível as questões
da “geografia pura” com as de geografia econômica “que dominam o mundo e contribuem a explica-lo”;
e finalmente, à resolução decidida de atualizar os assuntos, com a
correta manutenção ou adoção de pontos práticos e a supressão de outros
considerados menos necessários.
44As
inovações que Delgado de Carvalho buscou introduzir no ensino
brasileiro, a partir do próprio Colégio Pedro II, como já tivemos
oportunidade de afirmar, foram objeto de críticas e resistências, como
podemos perceber na fala de Ferraz:
Delgado
de Carvalho iniciou suas atividades docentes no colégio D. Pedro II na
primeira metade da década de 20 e tentou introduzir inovações
metodológicas nas disciplinas que ministrava, principalmente em
Geografia, a qual considerava ‘a mais deficiente’, gerando uma
insatisfação geral entre aqueles que se encontravm ‘acomodados’.
Passaram a caluniá-lo e ‘até de estrangeiro o acusaram’, visando assim
inviabilizar suas idéias de contribuir para a construção de uma nação
moderna através de um conhecimento científico moderno adaptado à
realidade brasileira (1995:41).
45Sintomática
dos conflitos que se sucederam em torno das mudanças no ensino de
geografia, é a fala vitoriosa de Delgado de Carvalho ao concluir seu
comentário sobre o novo programa adotado pela congregação do Colégio
Pedro II:
Em
França, ha trinta annos era ainda a geographia do velho e sympathico
Cortambert, por departamentos, que servia de eixo aos exames: Schrader e
Vidal de Lablache pregaram o novo credo e venceram. Chegou a nossa vez e
podemos felicitar os illustrados cathedraticos do Collegio Pedro II,
Professores Raja Gabaglia e Honorio Silvestre, por terem tomado a si a
nova orientação dos estudos de geographia secundaria em nosso paiz
(CARVALHO,1925:27).
46Acreditamos
que nossa exposição sobre as idéias de Delgado de Carvalho não ficaria
completa se não apresentássemos na íntegra o seu decálogo sobre o ensino
de geografia. Nele estão explicitados os princípios defendidos por este
geógrafo, que indubitavelmente foi um dos maiores responsáveis pela
renovação do ensino da geografia escolar brasileira.
- 4 Lembremos que Delgado de Carvalho, mais tarde se tornou um dos signatários do famoso “Manifesto dos (...)
DECÁLOGO4
Normas a seguir no curso de Geographia
1º – Terra ad ossa ima, sit nobis ratio prima.
Proceder
todo e qualquer estudo de geographia secundaria de uma solida base de
physiographia, permittindo assim, não sómente o conhecimento scientifico
das causas dos phenomenos, como tambem em todos os casos,
(posteriormente enumerados sob formas de nomes proprios), como tambem a
sua classificação no estudo geral, segundo os seus caracteres proprios. É
restituir aos factos a sua verdadeira significação.
Corollarios –
evitar enumerações fastidiosas insufficientemente salientadas por
explicações complementares. – enriquecer a memoria exclusivamente de
casos typicos, de uso frequente, indispensaveis á cultura geral do
individuo.
2º – Terrarum regiones in studio questiones.
Procurar
no estudo da geographia a ordem natural das coisas, demonstrando que,
não coincidindo os moldes da divisão administrativa com os da geographia
physica, humana, economica, etc., não pode a administração servir de
base: um ramo das sciencias physicas e naturaes não pode amoldar o seu
estudo ao quadro de uma sciencia social. Dahi a nova orientação da
geographia para o estudo das regioes naturaes.
Corollarios – as
divisões administrativas, cujo conhecimento é necessario, devem servir
de appendice ao assumpto geographico propriamente dito. – As regiões
naturaes, simples, complexas ou integraes estudadas não devem todavia
ser exclusivamente salientadas para não attenuar a nitidez das linhas
geraes do quadro geographico.
3º – Nihil in intellecta quod non prius in sensu.
O
compendio é o guia, em geographia, mas o atlas é o vehiculo
indispensavel dos conhecimentos. Nelle devem ser referidos todos os
factos e phenomenos estudados. É pelos sentidos que são apprehendidos os
conhecimentos mais seguros. Dahi a necessidade de multiplicar os meios
de documentação do estudo: cartas, gravuras, photographias,
estereogrammas, objectos diversos de interesse geographico, O
adiantamento do ensino está em razão directa dos progressos deste
methodo da exposição.
Corollario – como
contra-prova do que foi apprehendido pelos sentidos, devem ser feitos
exercicios de imitação: desenhos eschematicos, mappas coloridos,
modelagem, descripções explicativas de photographias, etc.
4º – Fabricando fit faber.
É
no exercicio de sua profissão que o geographo se aperfeiçôa. Dahi a
utilidade das dissertações geographicas, que, além de exigirem a
collecta dos dados, o aproveitamento dos conhecimentos, obrigam á
organização de planos de exposição, previamente traçados e uma prova
escripta. Não ha melhor exercicio pratico para pôr ordem nas idéas,
dosar os conhecimentos e enfrentar discussões sobre o assumpto.
Corollario
– Escrever dissertações, escrever discripções geographicas, escrever
narrações, escrever notas... mas nunca escrever o plano previo, claro,
curto, logico e submettido a severa critica.
5º – Scientiorum elementa sintque nobis incrementa.
Convém
salientar, em todas as occasiões, a complexidade das fontes de
informação que possue a geographia, afim de que o alumno se acostume a
haurir em outras disciplinas, especialmente nas sciencias physicas e
naturaes, na historia universal, os elementos necessarios a maiores desenvolvimentos nos seus estudos geographicos.
Nota – as digressões para o campo de sciencias alheias nunca devem levar a perder o ponto de vista geographico.
6º – De particularibus ad generalia.
Cada
assumpto de geographia abrangendo um certo numero de casos, mais ou
menos parecidos, não deve hesitar em aprofundar pelo menos um destes
casos, como por exemplo typico, como proto-typo. Serve assim de
paradigma para o exame de outros phenomenos do mesmo genero.
Corollarios
– a escolha dos proto-typos exige criterio e medida: o curso inteiro
não deve ser reduzido a uma serie de monographias successivas. O
proto-typo é uma illustração, um exemplo apenas. – na escolha dos
exemplos devem ter preferencia, quando se offerecem, os casos de
geographia do Brasil.
7º – In comparandis ratio mensurae datur.
Pensar
em formas, figuras, descrever, medir e comparar são as operações
principaes das quaes depende o estudo da geographia. Pensar em formas
consiste em ter no espirito uma visão clara e precisa das condições
morphologicas de um phenomeno geographico. É facil então descrevel-o,
com vocabulario simples. O geographo deve sempre medir, tendo
constantemente em vista as escalas normaes applicaveis a cada ordem de
phenomenos (distancias, alturas, populações, precipitações
atmosphericas, etc.). Senhor de suas medidas, passa a comparar com mais
segurança os phenomenos ou casos entre si.
Nota – Estuda-se geographia para saber geographia, não unicamente para passar nos exames.
8º – Sapientium itineraria proesepe instruunt.
Não
se deve hesitar em aproveitar os fins de aulas, os momentos vagos, as
opportunidades diversas com a leitura de trechos de viagem, de
descripções geographicas ou outros assumptos de igual alcance para
illustrar as lições de geographia.
Corollarios – é de preferencia
sobre o assumpto em estudo que devem ser escolhidas as leituras. – não
devem ser estas leituras trechos demasiadamente curtos e numerosos nem
monographias de centenas de paginas. – o mais aconselhavel é ser
apresentada a leitura geographica como uma recompensa aos alumnos, no
fim das aulas.
9º – Methodum disputandi ante oculos ponere.
Deve-se,
em regra, deixar discutir os casos concretos. Os elementos dados pelo
compendio, pelo atlas, explicados pelo professor, podem provocar, depois
de leituras, discussões entre alumnos, guiados pelo professor. A
documentação photographica e outra tambem deve ser submettida a
discussão. O resultado é mostrar que, em cada ponto, ha aspectos
differentes, prismas variados aos quaes póde ser submettido o seu
estudo.
10º – Homo, in terra rex, nobis iu studio lex.
Em todas as
circumstancias é essencial que seja sempre lembrado que o factor
principal do interesse em geographia, é o homem. Por conseguinte, é em
relação ao homem que devem ser estudados os differentes phenomenos,
mesmo quando a relação não é directa. É esta a finalidade do ensino
geographico moderno.
Corollarios – convém pois, em todos os estudos
geraes e regionaes, salientar sempre a parte anthropogeographica,
especialmente a parte dita economica, visando as applicações praticas. ë
o principal ponto de contacto da geographia com a vida de todo dia do
homem culto. – É da maior utilidade, neste ponto, se aprofundar
principalmente os interesses economicos do Brasil; localizal-os,
explical-os, comparal-os aos de outros paizes. O conhecimento adequado
do Brasil é o melhor resultado que póde trazer o estudo intelligente da
geographia geral.
47Com
base também nas idéias presentes neste decálogo, que bem sintetizam a
orientação moderna que nortearia oficialmente o ensino de geografia no
Brasil, podemos passar agora a analisar o novo programa desta
disciplina, implantado a partir da reforma educacional efetivada por
Luiz Alves e Rocha Vaz.
48Ao
longo de todo o novo programa destinado ao ensino de geografia no
Colégio Pedro II – e portanto para todo o Brasil já que a reforma Luiz
Alves adotou de forma incisiva medidas uniformizadoras para o ensino
secundário do país –, é marcante a orientação moderna de geografia
defendida por Delgado de Carvalho e outros entusiastas desta concepção.
49O
programa do primeiro ano continuava iniciando pelos estudos de
astronomia, tradição herdada da geografia clássica e reforçada pelas
idéias positivistas de Comte, que considerava esta uma das ciências a
constar do célebre currículo por ele proposto.
50O
estudo de temas ligados à astronomia, seria, pois, parte integrante da
chamada geografia matemática, ou melhor, a geografia matemática era
considerada um capítulo especial daquela ciência; sua função seria a de
estudar a forma da terra, bem como os movimentos do planeta, a fim de se
compreender as conseqüências destes para as variações físicas das
várias regiões. Outra importância atribuída à aprendizagem dos conteúdos
de astronomia, era o fato de se adquirir, graças ao estudo de
orientação e coordenadas geográficas, regras precisas para a confecção
de cartas geográficas.
51A
segunda parte do programa do primeiro ano, consistia no estudo de
fisiografia, já que tais estudos eram considerados como basilares para
uma verdadeira análise geográfica. A fisiografia permitiria um
conhecimento científico das causas dos fenômenos, bem como sua
classificação, fato que se diferenciava bastante da antiga prática da
nomenclatura estéril que os alunos deveriam decorar.
52A
terceira parte do programa era destinada ao que hoje denominamos de
geografia humana. A antropogeografia ratzeliana deveria dar a tônica das
análises, e os professores deveriam atribuir a devida importância ao
elemento humano nas suas explanações, já que, para a moderna geografia
era o homem o verdadeiro objeto do estudo geográfico. Uma sólida base de
antropogeografia permitiria mais tarde compreender a relação entre o
homem/mulher e os fenômenos físicos estudados, pois não podemos esquecer
que, para a geografia moderna, apesar de o homem/mulher constituir o
interesse principal dos estudos geográficos, o papel do meio físico não
pode ser secundarizado.
53A
geografia geral, quarta parte do programa, iniciar-se-ia pela
fisiografia, seguida pela antropogeografia. Outro grande avanço era o
fato de ter sido introduzida uma divisão regional em substituição ao
estudo assentado na divisão política do mundo. A divisão regional
adotada tinha como base as diferenças naturais que diferenciavam uma
área da superfície terrestre das demais. Consolidava-se, assim, o
conceito de região natural, tão caro à geografia moderna. A divisão
política continuaria presente nos estudos, mas apenas como apêndice.
54O
segundo ano do curso foi destinado aos estudos de Geografia do Brasil.
Tais estudos adquirem importância ímpar como instrumento do
nacionalismo.
Todas
as nações cuidam seriamente do ensino da geographia nacional. O fim
immediato é sempre o mesmo – a cultura do sentimento de patriotismo.
Cada uma, porém, visa um objectivo remoto, segundo o qual se faz a
orientação do ensino. Esta é porque tem as suas fronteiras ameaçadas,
aquella é porque pensa numa reivindicação, aquellóutra é porque sente
necessidade de expansão de seu território. (...) Nós tambem temos o
nosso ponto de vista. Paiz enorme como é o Brazil e sem facilidade de
communicações, as suas populações se desconhecem. O Norte não sabe o que
é o Sul e o Sul ignora o que é o centro. Além disto é grande, e por
toda parte, o numero de brasileiros novos, que não podem deixar de
soffrer a influencia dos pais para a continuação da propria
nacionalidade. A nossa obra, portanto, é de unificação do sentimento
nacional pelo conhecimento de todo o territorio e de todo o povo
brasileiro pelos brasileiro (PROENÇA, s/d:22).
55Perpassado
por tal interesse, o conteúdo programático deveria veicular um
conhecimento mais científico da geografia nacional. Na seqüência,
estudar-se-ia a fisiografia e a geologia do território brasileiro, com a
antropogeografia vindo em seguida (sobretudo a referente à economia),
tendo como objetivo analisar os interesses econômicos brasileiros.
56Ao
contrário da tradição iniciada pelos estudos corográficos de Aires de
Casal, a divisão político-administrativa do Brasil daria lugar a um
estudo regional, tendo como base a região natural. A divisão regional
levava em consideração os elementos naturais da paisagem; em
conseqüência, apareciam cinco regiões a serem estudadas: Brasil
Setentrional ou Amazônico; Brasil Norte-Oriental; Brasil Oriental;
Brasil Meridional; e Brasil Central. Isller (1973) nos informa que para a
nomenclatura dada a cada região foi adotado o critério de localização
cardeal a partir da posição geográfica que elas ocupavam no mapa do
Brasil.
57De
cada região brasileira procurou-se, além do estudo fisiográfico,
descrever os componentes principais do gênero humano nelas presentes,
sendo introduzido um estudo da economia local com base a
antropogeografia.
58No
quinto ano, quando os(as) alunos(as) já apresentavam a maturidade
necessária para um estudo científico, como recomendava Comte, voltava-se
a ensinar astronomia e cosmografia.
59Segundo
o novo programa prescrito para o ensino de geografia no Colégio Pedro
II, estes eram os conteúdos programáticos a serem trabalhados nas três
séries em que a disciplina se fazia presente (ver quadro abaixo).
QUADRO II
PROGRAMA DE GEOGRAFIA DO COLÉGIO PEDRO II APÓS A REFORMA LUIZ ALVES/ROCHA VAZ (1925)
PRIMEIRO ANO
PROLEGOMENOS (10 lições)
A Geographia – Definição e divisões. Sua utilidade.
A Terra – Forma, dimensões; movimentos.
O Systema solar – Planetas, satellites. A lua e suas phases. Dos systemas de Ptolomeu, Copernico.
O Universo – Estrellas. As constellações; o Cruzeiro do Sul.
Orientação – Pontos cardeaes. Rosa dos Ventos. A bussola.
Circulos da esphera terrestre – Coordenadas geographicas; a latitude e a longitude.
Obliquidade da ecliptica – Desigualdade dos dias e das noites. As estações.
Cartas geographicas – Escalas. Unidades de extensão linear e de superficie.
GEOGRAPHIA PHYSICA (6 lições)
Nomenclatura geographica – Denominação das formas da Terra. Elementos solido, liquido, gazoso.
Os
continentes e os Mares – Typos de relevo. Relações entre relevo e as
costas. Hidrographia: elementos de comparação. – Classificação dos mares
– Os oceanos – As correntes oceanicas, sua disposição geral. – Mar de
sargaço. – Estudo sumario do Atlantico. – O Gulf Stream.
A Atmosphera – Noções sobre a temperatura, os ventos, as chuvas. Climas.
Os
Continentes comparados entre si. – Analogias e contrastes, baseados na
geographia physica. Recursos mineraes do globo. – Flora. – Fauna.
GEOGRAPHIA POLITICA (6 lições)
Definições – O conceito da geographia humana, social, ou politica. A geographia economica.
Raças – Linguas. – Religiões. – Classificação e distribuição geographica.
Formas sociaes – Civilização: seus elementos, seus estágios evolucionarios. – Instituições sociaes: o Estado, suas modalidades.
Os grupos humanos – Migrações: causas e resultados. – A colonização. – Formação das cidades.
Actividade economica – Criação. – Agricultura. – Industria. – Transporte. – Commercio. – O “factor geographico”.
GEOGRAPHIA GERAL DOS CONTINENTES (18 lições)
Estudo
ou descripção geral de cada continente na ordem seguinte: Posição,
limites e dimensões. – Aspecto geral do relevo e do litoral. – Typos de
climas. – Hydrographia. – Vegetação e animaes caracteristicos. –
Populações. – Divisão politica. – Os recursos economicos.
GEOGRAPHIA GERAL (40 lições)
Estudo
ou descrição geral de cada região, na ordem seguinte: Situação,
limites, superficie. - Aspecto geral do relevo - Litoral - Clima -
Hydrographia - Vegetação - População e principaes cidades - Governo -
Recursos economicos.
REGIÕES NORTE-AMERICANAS
America do Norte (Regiões polares. Canadá, Estados Unidos)
Indias Occidentaes (Mexico, America Central, Antilhas).
REGIÕES SUL-AMERICANAS
Estados Septentrionais (Colombia, Venezuela, as Guianas)
Estados do Pacífico (Equador, Perú, Bolivia, Chile).
Estados do Prata (Argentina, Uruguai, Paraguai).
REGIÕES DA EUROPA
Europa Occidental (Grã Bretanha, França, Belgica, Hollanda).
Europa Meridional (Portugal, Espanha, Italia, os Balkans).
Europa Central (Allemanha, Austria, Suissa, Tchecoslovaquia, Hungria, Rumania).
Europa Occidental e Septentrional (Russia, Polonia, Estados Balticos, Finlandia, Suecia, Noruega, Dinamarca e Islandia).
REGIÕES DA ASIA
Asia Oriental (China e Japão).
Asia Meridional (Indo-China, Indostão e dependencias).
Asia Occidental (Persia, Arabia, Turquia, Syria, Palestina).
Asia Septentrional (Siberia e mais dominios da Russia).
Insulindia (Malasia, as Filippinas).
REGIÕES DA OCEANIA
Australasia (Australia e Tasmania, Nova Zelandia).
Terras Oceanicas (Melanesia e Micronesia).
REGIÕES DA AFRICA
Africa do Norte (Egypto e Sudão, Libia, Argelia e Tunisia, Marrocos).
Africa
Occidental e Equatorial (regiões francezas, espanholas, inglezas,
portuguesas e região belga; as ilhas oceanicas; Libéria).
Africa Oriental (Abissinia; regiões italianas, francezas, britannicas e portuguezas).
Africa do Sul (regiões portuguezas e britannicas). Ilhas africanas do Oceano Indico.
No
“estudo” ou “descripção geral”, o professor examinará os elementos
geographicos geraes aplicados à região considerada. Além disso, em cada
região, fará pelo menos um “estudo especial”, examinando um aspecto
interessante e proprio da região.
As aulas serão sempre dadas com o
auxilio de cartas, e numerosos deverão ser os exercicios de leitura das
mesmas e de esboço cartographicos e do mappa mudo, emprestando assim, ao
ensino um cunho pratico.
SEGUNDO ANO
PARTE GERAL (40 lições)
Situação
geographica – Aspecto geral. – Area e pontos extremos. – A posição do
Brasil no Continente Sul-Americano; dados comparativos.
Fronteiras
terrestres – Typos de fronteiras. Historico summario de sua formação.
Linhas convencionaes, demarcadas e a demarcar – Esboço geographico:
Uruguai, a lagoa Mirim; Argentina, o territorio das “Missões”; Paraguay;
Bolivia; o Acre; Perú; Colombia; Venezuela; as Guianas – os
arbitramentos; a obra de Rio Branco.
Relevo – Aspecto geologico. –
Classificação por systemas orographicos. – Massiço Atlantico (Serra do
Mar, Serra Geral, Mantiqueira). Massiço Central (Systema Goiano, Systema
Mattogrossense). – Massiço Nortista. – Massiço Guianense.
Estudo especial da Serra do Mar e da Mantiqueira – Formação, orientação, altitudes, gargantas e passos.
Planaltos e planicies – Relações geographicas e intercomunicações entre as bacias fluviaes.
Litoral
– Morphologia: aspectos e relações geographicas com o relevo. – Typos
de costas. – Mangues, recifes, barreiras, lagoas costeiras, dunas. –
Elevação do litoral; os sambaquis.
O Atlantico do Sul – Relevo. – Correntes, marés. – Ilhas Oceanicas.
Discripção
do litoral – Litoral septentrional: o archipelago amazonico. – Litoral
oriental: a Bahia. – Litoral meridional: bahias de Guanabara, Paranaguá:
cabos e ilhas. – A costa do Rio Grande do Sul.
Clima – Posição
astronomica do Brasil. – Latitude e altitude. – Distribuição das
temperaturas, dos ventos e das chuvas. – Typos de climas: super-humido,
semi-árido e semi-humido; de planicie e de altitude. – Exemplos
especiaes: Pará, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.
Salubridade e colonização – Importancia dos serviços meteorologicos para a agricultura.
Hydrografia
– Os grandes centros de dispersão de aguas. – Vertentes – Rios do
planalto e de planicie. – Dados comparativos. – Os lagos e regiões
lacustres.
Bacias Hydrographicas: Amazonas, regimen, curso e delta. –
Rios temporarios do Nordeste. – Vertente oriental dos planaltos, estudo
especial do São Francisco. – O Parahiba e seus afluentes. – Rios
meridionais.
Recursos naturaes – Mineração: ouro, ferro, manganez, carvão, pedras preciosas. – Distribuição geographica.
Vegetação – Zonas principaes. – Mattas e campos, caatingas, pantanaes.
Producções do reino animal.
População
– Esboço ethnographico. – Grupos indigenas antigos e actuaes. – Linguas
e religiões. – O elemento europeu na população. – Recenseamento do
Brasil. – Os grandes centros urbanos.
Os Estados: Limites, área, população e cidades principaes.
Divisão administrativa da Republica – O Governo. – Instrucção pública. – O Districto Federal.
Economia
Nacional – Condições geraes. – As terras e a prosperidade. –
Agricultura, productos tropicaes: café, cacáo, algodão, assucar. – Os
cereaes: milho, trigo, arroz. – Zonas de producção. – Criação de gado;
frigoríficos. – Industrias extrativas: mineração, borracha, madeira,
mate, carnaúba, castanha. – Industria manufactureira. – Fabricas do
Brasil. – Exposições.
Apparelhamento economico – Viação, navegação e portos. – Telegrapho. – Finanças. – Os grandes troncos ferroviarios.
Commercio exterior – O seu desenvolvimento. Artigos de exportação.
PARTE REGIONAL (40 lições)
As
regiões naturaes do Brasil – Divisão Regional do paiz – Bases
geographicas racionais desta divisão – Distribuição dos Estados.
I. BRASIL SEPTENTRIONAL OU AMAZONICO (Estados do Pará e Amazonas, territorio do Acre)
Descripção geral: Posição, extensão, aspecto physico, hydrographia. – Vegetação e recursos naturaes. – Cidades principaes.
Descripção
especial: o rio Amazonas como rede de viação e caminho de penetração. –
A pesca fluvial e recursos economicos da Amazônia. – A questão da
borracha. – Os campos de criação. – Os portos de Manáos e Belém.
II. BRASIL NORTE-ORIENTAL (Estados do Maranhão, Piauhi, Rio Grande do Norte, Parahiba, Pernambuco e Alagoas).
Descripção geral: Posição, extensão, aspecto physico, litoral. – A zona semi-arida. – Recursos naturaes. – Cidade.
Descripção
especial: O nordeste, primeira colonização, dominios estrangeiros,
formação das unidades politicas. – Zonas de criação e zonas agricolas. –
A lucta contra as seccas; grandes açudes. – O Maranhão, como região de
transição entre a Amazonia e o Nordeste. – A emigração cearense. – As
salinas do Rio Grande do Norte. – O porto de Recife.
III. BRASIL ORIENTAL (Estados de Sergipe, Bahia, Minas, Espirito Santo e Rio de Janeiro; o Districto Federal).
Descripção
geral: Posição, extensão, sub-regiões naturaes: litoral, serra e
planalto. – Climas. – Rios. – Os recursos economicos. – Cidades.
Descripção
especial: Bahia, a antiga metropole e os bandeirantes bahianos. – O
caminho das minas. – Historia do Rio de Janeiro. – Minas Geraes,
provincia e Estado. – Os periodos economicos: periodo da mineração,
periodo cafeeiro; a evolução actual para a polycultura. – Os climas:
typos de climas de montanhas, cidades de verão e cidades d’agua. – A
Bahia: café, cacáo, couros, fumo, borracha. – Minas: reservas de ferro,
manganez e pedras: o gado. – O porto do Rio de Janeiro. – A Capital da
Republica centro economico, social, politico e intellectual.
IV. BRASIL MERIDIONAL (Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catharina, Rio Grande do Sul).
Descripção
geral: Posição, extensão, sub-regiões naturaes: litoral, serra,
planalto e planicie rio-grandense. Climas, rios, recursos naturaes,
população, cidades.
Descripção especial: S. Paulo, centro historico
da colonização sul. – Historia do Rio Grande do Sul. – A terra roxa e o
café: colonização, os Estados do Sul e a evolução para a polycultura. – A
criação do gado e os frigoríficos. – Industria manufatureira em
S.Paulo. – As mattas do Paraná. – O matte e os mercados sul-americanos. –
O Rio Grande: a região serrana, colonial e agricola; a região da
campanha, criadora. – Rêdes ferroviarias do sul e portos. – Santos,
emporio mundial do café. – Os mercados estrangeiros, a importação
americana. – A barra do Rio Grande. – O Porto das Torres.
V. BRASIL CENTRAL (Estados de Matto Grosso e Goiaz)
Descripção
geral e especial: O Relevo. – A hydrographia. – A penetração do
interior; fundação de Goiaz – O acesso de Matto Grosso por via fluvial e
por via ferrea: a “Noroeste”. – Principaes centros e recursos
economicos.
Durante o anno, o professor fará exercicios de esboços cartographicos e de mappa mudo.
A
descripção “especial” consta de themas que servirão de assumpto às
prelecções do professor, procurando este apontar os aspectos mais
interessantes e próprios de cada região do Brasil.
QUINTO ANO
Introducção
– Revisão das principaes noções de geographia astronomica elementar, já
ministradas no curso no curso de geographia (1º anno) e indispensaveis
para a comprehensão da materia cujo estudo se vae iniciar.
Objetivo e definição da Astronomia e da Cosmografia, suas divisões.
Céo, esphera celeste. Universo e mundo. Astros, sua classificação summaria. Distancias angulares e diametro apparente.
Movimento diurno apparente dos astros, suas leis.
Pontos, linhas e circulos da esphera celeste.
Coordenadas astronomicas: horizonte, equatoriaes e eclipticas. Theodolito. Luneta meridiana. Relogio sideral.
Estrellas e constellações.
O Sol: constituição, movimentos.
Systemas planetarios, systema solar.
Leis de Kepler, Newton e Bode.
Estudo summario dos planetas e de seus satelites.
Cometas.
Estudo particular da Terra: forma, posição no espaço, dimensões.
Pontos, linhas, circulos e zonas da Terra.
Pontos do horizonte. Orientação. Bussola.
Coordenadas geographicas.
Principaes movimentos da Terra.
Consequência dos movimentos da Terra e da inclinação do eixo.
Meteoros cosmicos.
Lua: Forma, constituição, movimentos, phases.
Eclipses, occultações, passagens.
Marés.
Medida de tempo. Calendarios. Cómputo ecclesiastico.
Methodos de observação astronomica. Revisão dos principaes instrumentos. Observatorios, annuarios, ephemerides.
Correcções na observação astronomica: depressão, refracção, parallaxe, semi-diametro.
Cartas e globos terrestres e celestes. Projecções e desenvolvimento.
Problemas
fundamentaes da astronomia: indicação dos methodos para determinação
das coordenadas terrestres de um logar, da posição dos astros e da hora.
Noções de historia da astronomia.
Principaes hypoteses cosmogônicas.
- 5 Lembremos que Delgado de Carvalho, mais tarde se tornou um dos signatários do famoso “Manifesto dos (...)
60Como
podemos perceber, com o novo programa oficial vinha a baixo a velha
orientação clássica que até então se mantinha como único modelo de
geografia escolar a ser ensinado em nossas escolas. A identificação do
grupo de Delgado de Carvalho com os intelectuais inseridos no contexto
do otimismo pedagógico e do entusiamo pela educação5 foi fundamental para que a nova concepção de geografia defendida alcançasse o status de modelo oficial a ser seguido, no nascente sistema educacional brasileiro.
61Evidentemente que a nova orientação adotada para o ensino de geografia, mesmo tendo adquirido o status
de modelo oficial, não levou ao desaparecimento da concepção clássica
de geografia escolar, marcada pela prática meramente descritiva,
mnemônica, enciclopédica e distante da realidade dos sujeitos sociais
envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. De concreto, pode-se
afirmar que com as propostas apresentadas por Delgado de Carvalho e seus
seguidores a geografia escolar brasileira tornou-se efetivamente objeto
de questionamentos, não só no que diz respeito aos seus métodos, mas também em relação aos conteúdos de ensino adotados por seus(suas) professores(as).
62Podemos
afirmar que juntamente com a proposta apresentada por Ruy Barbosa em
seus pareceres sobre a instrução pública (ROCHA,1999), escritos nas
últimas décadas do século XIX, a proposta de Delgado de Carvalho
corroborou o surgimento de uma nova tradição seletiva na organização
curricular dos conhecimentos geográficos voltados para as escolas de
ensino primário e secundários no Brasil.