À
Mechtild Rössler, pelo dossiê dos arquivos que ela compôs (Londres,
Washington, Berkeley) para nosso livro coletivo sobre a história dos
congressos internacionais de geografia e da UGI, e que foram depositados
com a equipe E.H.G.O. (Paris).
Aos autores do livro coletivo
Géographes face au Monde, principalmente à Béatrice Collignon e à
Dominique Volle, das quais eu retomei numerosas análises e dados.
À Luisa Simões por sua preciosa colaboração. E a Breno Viotto Pedrosa pela tradução do artigo, e por sua generosidade.
1O
estudo da espacialidade dos saberes tornou-se desde a década de 1990
uma das grandes pistas heurísticas investigadas pela história das
ciências. Os historiadores da geografia anglófona, particularmente David
Livingstone, estiveram entre os primeiros a explorar as geografias da
ciência e os “espaços do saber” (Livingstone, 1995 e 2003; Livingstone,
Withers, 2011; Withers, 2007). Na França uma importante série de
história dos saberes foi consagrada nos Lieux de savoir, sendo o
primeiro volume dedicado ao tema “Espaço e comunidades” (Jacob, 2007).
Quanto à história da geografia, seja na Renascença, na época do
Iluminismo ou no período contemporâneo, a fecundidade da análise
espacial ou geográfica não precisa mais para ser demonstrada, como
testemunham os trabalhos de outros pesquisadores anglófonos ou
francófonos (Besse, 2004). A geografia da geografia constitui um dos
quadros da organização de manuais recentes, tal como o dirigido por John
A. Agnew e David N. Livingstone, Geographical Knowledge (2011).
- 1 Esse artigo retoma os estudos já publicados sobre o tema da espacialidade dos saberes, notadamente (...)
- 2 O estudo se apoia sobre as pesquisas anteriores relativas aos congressos internacionais de geografi (...)
- 3 Cf. os propósitos dos estudiosos alemães (anos 1890), citados por Wolf Feuerhahn e Pascale Rabault- (...)
2Nós mobilizaremos essa abordagem de inscrição espacial dos saberes geográficos1 aplicando-a ao estudo dos congressos internacionais de geografia2.
A historiografia da geografia privilegia ainda os quadros nacionais, em
uma tradição de história das ciências que é sensível à consistência das
escolas nacionais e dos quadros institucionais, intelectuais e
ideológicos que constituem os Estados ou os impérios. Ora, os congressos
internacionais formam, desde meados do século XIX, um quadro novo,
muito geral e muito institucionalizado de fabricação das ciências. Eles
participam de uma mudança de escala que deve, para alguns, colocar essa
produção no nível da grande indústria3.
3Para
além dos conflitos (interculturais e geopolíticos) que os animaram
continuamente, esses são os lugares e as organizações onde foram
firmadas as preocupações com uma certa universalidade do
conhecimento (Rasmussen, 1995; Feuerhahn, Rabault-Feuerhahn, 2010).
Certamente, para os estudiosos e as escolas existentes, os congressos
são talvez menos os lugares de criação intelectual do que os lugares
“para trocar e para existir” individualmente, coletivamente,
internacionalmente (Prochasson, 1989, p. 6). Mas este
“internacionalismo” científico (que começa pela metereologia) visa seja
ela qual for a disciplina “coordenar e harmonizar as observações locais”
(Desrosières, 2000, p. 126) e desdobra-se em uma tensão constante entre
o papel político (no sentido amplo) de toda ciência e uma visão do
conhecimento “objetiva e neutra” (Ibid.).
4Para
a geografia, desde um século e meio atrás (o primeiro congresso
internacional ocorre em Anvers, em 1871), esse é um dos lugares
privilegiados senão de produção, ao menos de negociação, de
padronização, de circulação e as vezes de contestação – finalmente da
coprodução dos saberes geográficos.
5Nesse contexto internacional, se tratará aqui de explorar alguns ‘efeitos do lugar’ e as espacialidades que puderam conformar o desenvolvimento da geografia. Seguiremos principalmente as sugestões de Jean-Marc Besse para tal análise:
“[...]
deve-se interrogar sobre as espacialidades, materiais e simbólicas, são
trabalhadas e implementadas na produção, na difusão e na recepção das
idéias científicas, que em geral na atividade científica são
consideradas do ponto de vista social e também do ponto lógico e
metodológico” (Besse, 2004, p. 404-405).
6Mais precisamente trabalharemos as três direções de pesquisa que ele propõe:
“ –
a organização dos espaços do saber geográfico; – os percursos efetuados
concretamente pela informação geográfica no seio desses espaços; – as
representações espaciais ou mais exatamente os esquemas espaciais
constitutivos do saber geográfico” (Ibid.)
- 4 Trabalharemos aqui sobretudo o período de 1871-1996 e, para a questão da tropicalidade, sobre o per (...)
7Longe
de estudar tudo o que se poderia examinar em matéria de fabricação dos
conhecimentos, nos concentraremos em alguns aspectos das espacialidades
dos congressos: a questão da universalidade do espaço delimitado pelos
congressos internacionais e as relações entre os centros e periferias
que o constituem; entre os espaços colocados em jogo, a questão dos
trópicos. Essa categoria do discurso ocidental que constitui uma versão
ambientalista do orientalismo (Arnold, 1996) também participa, desde a
Antiguidade, dos esquemas geográficos. Os geógrafos, e notadamente os
geógrafos franceses, mobilizaram o esquema zonal, desde 1945 até os anos
1970-80, como fundamento de um ramo especial de sua disciplina, a
“geografia tropical”. Como o espaço tropical, espaço físico mas também
mental, imaginado, simbólico, cognitivo, – segundo a terminologia
utilizada por diversos autores contemporâneos – foi apreendido ou
mobilizado, configurado e reconfigurado, no passar dos congressos
internacionais de geografia? Esses congressos, que são a priori os
lugares de especialização geográfica, são os lugares matriciais para as
representações mutantes dos trópicos? Existem os lugares privilegiados
dessas reconfigurações de esquema na série dos congressos4?
“[...]
a geografia receberá uma impulsão nova, se os esforços isolados feitos
há alguns anos em diferentes países poderem se concentrar para assegurar
a solução das questões que interessam há muito tempo todos os povos
civilizados, tanto em suas aspirações acerca do desenvolvimento marítimo
e comercial, quanto nos seus desejos de chegar a um conhecimento mais
completo do mundo que nós habitamos”
(Atas, Anvers, 1872)
- 5 Trabalhando sobre o período moderno (séculos XVI e XVIII), compreende-se a astronomia, a cartografi (...)
8A geografia se destaca do grupo de ciências que S. Harris (1998) chama as “big sciences” no
sentido em que, diferente de uma ciência de laboratório, ela é uma
atividade de pesquisa que cobre um vasto espaço, a terra inteira, e
necessita de um grande número de viajantes ou de observadores dispersos,
capazes de mobilizar até os centros ou os lugares de concentração o
conjunto de informações locais necessárias para construir um saber geral
confiável5.
A amplitude dessa escala espacial implica que a cobertura do espaço de
trabalho abrangido seja tanto quanto possível exaustivo e que o controle
das condições de coleta e de transporte de informação coletada em
locais distantes seja perfeita. S. Harris é portanto um dos autores que
insistiram muito na circulação dos saberes e na natureza das “redes
longas” [long-distance networks]
nas quais sua construção se baseia e que ele tratou a partir do exemplo
das grandes organizações do domínio planetário ou quase planetário com
uma estrutura mais ou menos centralizada, que foram as grandes
companhias de comércio (Índias orientais ou ocidentais) e a Companhia de
Jesus.
9Os
congressos internacionais de geografia constituem as super-organizações
no sentido que elas coordenam as organizações de nível inferior, as
sociedades de geografia primeiramente, depois os “comitês nacionais” que
compõem a União geográfica internacional (UGI) criada em 1922.
Tratando-se de uma estrutura nascida no final de um século de
nacionalismos, trata-se de reunir as entidades organizadas
individualmente ou tomar uma primeira iniciativa dentro de um plano
nacional.
10Cada
uma dessas entidades tem a ambição de constituir um centro de reunião e
de difusão de conhecimentos. As primeiras sociedades geográficas
nascidas nos anos 1820-1830 orientaram sua atividade para a exploração
da terra, organizando de maneira mais ou menos estimulada e controlada a
exploração daquilo que permanecia desconhecido: o interior dos
continentes, os polos, a alta montanha (Heffernan, 2011), cotejando e
fabricando mapas sintéticos e redistribuindo essa informação para suas
publicações. A partir dos anos 1860 e sobretudo 1870, a explosão de
sociedades de geografia “comerciais” ou “coloniais” manifesta a
preocupação mais pragmática dos meios portuários ou industriais de
dominar os recursos do globo (para eles, a preocupação nacionalista não é
tão importante quanto se diz geralmente). No mesmo momento, os grandes
Estados criam por sua vez a ciência universitária útil, a sua potência
econômica e política e ao seu prestígio nacional; e, desigualmente,
segundo cada país, o novo sistema de estudos profissionalizados suplanta
progressivamente as sociedades de estudiosos na sua tarefa de conhecer a
terra.
- 6 “Mundializar”, “mundialista” apareceriam nos anos 1930, “mundialização” e “globalização” nos anos 1 (...)
11Mas
o horizonte de todas essas organizações é planetário, pois desde os
anos 1860 é a escala global que se impõe aos políticos e aos
industriais. As exposições “universais” e os congressos “internacionais”
participam de um mesmo mundo concebido como horizonte de ação, mesmo se
a consciência de uma certa mundialização só se concretize no final do
século XIX, como atesta a aparição dos termos “mundial”, “mundo
globalizado” [globe-wide world], ou ainda “globe-trotter”6 (Arrault, 2007).
12Reunidos
na iniciativa das sociedades de geografia e depois através dos convites
dos comitês nacionais da UGI, o congresso internacional tem como
objetivo colocar em um lugar comum os questionamentos e expectativas
para construir as prioridades de pesquisa. Esse objetivo toma forma em
uma lista comum de questões submetidas à discussão e à lista de votos
emitida pelo congresso. A realização desses dois momentos prova que as
partes envolvidas visam produzir um certo consenso. O congresso
constitui portanto um dos “centros de concentração” depois de
“dispersão” dos saberes para outros estudiosos, para os informantes,
para público e também para os Estados. Formulando as questões
importantes, o congresso diz o que é bom e útil conhecer e, em seguida,
concluindo entre as diversas opções através de resoluções ou por moções,
como em uma assembléia política, ele homogeneiza os interesses e os
saberes de procedência diversa.
13Como
exprime a citação colocada no começo dessa parte, a primeira circular
pública expondo o projeto de um “congresso internacional para o
progresso das ciências geográficas, cosmográficas e comerciais”
justifica a ação na esperança de “chegar a um conhecimento mais completo
do mundo que nós habitamos”.
14A
ação dos congressos internacionais visa primeiramente, de fato, os
governos ou outras associações internacionais, pedindo-lhes para agir;
eles fazem o lobbying para que os Estados encorajem as pesquisas em
hidrologia marinha e em geofísica ou para que a neutralidade do canal de
Suez seja assegurada, como ocorreu, por exemplo, em Anvers (1871).
15Em
um segundo momento, e como em todas as associações internacionais da
época, o grande negócio é a padronização: a adoção de um meridiano de
referência, a unificação das medidas do tempo e do espaço, a
harmonização das nomenclaturas e dos códigos cartográficos... Em suma, o
congresso tende a estabelecer uma linguagem única da geografia ao criar
um sistema unificado de equivalências, permitindo a todos traduzir o
dado local da mesma maneira e criar em suma, um espaço de trabalho
homogêneo. O exemplo mais flagrante dessa coprodução é o projeto do mapa
mundo ao milionésimo, adotado em 1891 em Berna pela proposição do
geógrafo alemão Albrecht Penck, que constituiria o espaço de
representação ideal, universal, pois representa de maneira uniforme a
totalidade da terra depois de uma elaboração coletiva de todas as
convenções cartográficas necessárias.
16Em
um terceiro momento, a partir dos anos 1890 e sobretudo depois da
primeira guerra mundial, é pelos programas de pesquisa coletiva e pelas
discussões de ordem epistemológica que o congresso implantou sua
atividade de “super-centro”. A organização de “seções”, depois de
“comissões” especialidades engajam a discussão de questões científicas,
de métodos, da terminologia e dos espaços geográficos concernidos como
resultado. Por exemplo, a comissão de hábitat rural, criada no Cairo em
1925, toma como objetivo a verificação da diversidade desse hábitat no
mundo inteiro; uma outra comissão toma como espaço de trabalho as duas
bordas do Atlântico; uma comissão das “regiões tropicais úmidas” nasceu
no Rio de Janeiro (1956) – cf. 2.
17Essa
visão científica atribuída ao congresso não foi adquirida
imediatamente. Ela foi tornada possível por uma produção social de
normas, pelas limitações dadas aos questionários ou aos modos de
discussão: surge um tipo de polícia de fronteira entre as questões
científicas e políticas, que foi necessária desde as primeiras reuniões.
Assim, desde o encontro em Anvers, os temas propostos para a discussão
foram invalidados porque foram julgados de ordem política; a seção de
“Navegação”, por exemplo, foi rapidamente recomendada aos congressistas
ao distinguir entre as facetas técnicas e políticas das questões
coloniais:
“a nota tendo sido feita que as questões coloniais tocam
frequentemente a política nos Países Baixos, todos os esclarecimentos
necessários são dados para assegurar a seção que a questão será
examinada sob o ponto de vista puramente técnico” (grifo no texto das Atas de Anvers).
18Essa
proibição sobre as questões que colocam em jogo os interesses dos
estudiosos provenientes dos países concorrentes deve ter sido repetida
veementemente durante os momentos de tensão internacional.
19Para
os geógrafos, o final do século XIX, é um momento importante pois eles
possuem o sentimento de que o conhecimento exaustivo da terra está
praticamente adquirido. Muitos autores demonstram sua convicção que o
espaço terrestre material está, de agora em diante, conquistado pelo
homem e estimulam que se deve aprofundar o seu domínio intelectual para
possuir um conhecimento intenso. Muitos dentre eles destacam que essa
exaustão é a condição para se fazer uma obra científica. Essa
preocupação se traduz no trabalho de alguns pela publicação de mapas que
avaliam o estado do conhecimento dos lugares e dos fenômenos, tal como
Emmanuel de Martonne, que fez figurar no início dos capítulos de seu Tratado de geografia física (1909), os mapas-mundi apresentando a qualidade do reconhecimento metereológico, morfológico, etc., do planeta.
20O
desafio dos congressos internacionais é assegurar a exaustão espacial
que é o requisito de uma ciência ‘madura’. Ao constituir as reuniões de
geógrafos face à face, essa meta-rede permite primeiramente reunir os
estudiosos geralmente dispersos e que conhecem a terra de maneira
desigual, pois eles têm suas terra natais, suas próprias áreas de
estudo: sua “Gebiet”, segundo a expressão alemã. Contraditoriamente, a
escolha dos lugares diferentes para o congresso permite aumentar o
espaço conhecido e, portanto, produzir as observações sobre o mundo.
- 7 Essas exposições ou a visita dos museus etnográficos são também essenciais nos primeiros congressos (...)
21O
trabalho coletivo (no lugar e durante os interstícios dos congressos)
constrói os espaços de representação comuns, e, pelos programas de
pesquisa específicos, desenha as estruturações dos espaços particulares;
estes são muitas vezes clássicos (como o Mediterrâneo), outros são
inéditos ou ainda à circunscrever (como os trópicos úmidos). O conjunto
desses mapas constitui os espaços de pesquisa e de interpretação
coconstruídos. Entre as especificidades da geografia, os congressos
internacionais dão visibilidade também aos espaços materiais
importantes: as exposições. Elas reúnem, mapas, livros, espécimes,
material de observação ou dados tratados, vindos de toda a parte e os
congressos comportam muitas vezes exposições consagradas ao país sede. O
conjunto reúne sob os olhos dos visitantes as informações julgadas
pertinentes sobre a geografia do mundo7. No início da série dos congressos, os salões de exposição são alvo de representações muito cuidadosas, e os Resumos [Comptes rendus]
reproduzem suas imagens, como no caso do primeiro congresso. Os salões
consagrados aos SIG tem por um lado substituído esses “museus
geográficos” e essas “bibliografias da geografia” do século XIX e do
início do século XX.
22Misturando
convívio, diversão e trabalho, as excursões de trabalho de campo formam
um outro espaço material particular nos congressos de geografia. Elas
dão acesso ao objeto espacial mostrando, in situ, suas
particularidades. São os geógrafos alemães que pela primeira vez
propuseram as excursões, então no congresso de Berlim (1899), e sua
tradição recebeu fundamento. Em 1904 o congresso por conta própria foi
feito de maneira itinerante, indo de Washington até Saint-Louis do
Mississipi (que abrigou na ocasião uma exposição universal com uma
enorme quantidade de congressos), para isso tendo que propor uma
excursão transcontinental juntando Saint-Louis ao canyon do Colorado e
ao México (ela durou 20 dias e percorreu 10.000 km).
23Muitos
dos participantes expressaram aquilo que foi a experiência marcante do
congresso de 1904: a descoberta do Novo Mundo, não somente de suas
dimensões, mas a originalidade do complexo humano, intelectual e
político que os Franceses chamam, na época, de “americanismo”. A
frequentação dos lugares e dos homens produziu um verdadeiro choque
entre os Europeus, pois muitos davam seus primeiros passos do outro lado
do Atlântico. Esse é o caso, por exemplo, de Paul Vidal de la Blache,
que lá chega convencido que uma “Escola da América” devia ser criada na
França, réplica modernista necessária às Escolas de Atenas e de Roma.
Ele ganhou consciência então tanto das concepções originais que os
Americanos tinham do espaço e do tempo, quanto das dimensões quase
prometeicas da experiência estadunidense. Disso resultou nele um tipo de
revolução mental. Foi também a ocasião para que ele aferisse a viva
quantidade de geógrafos americanos:
“No Club Cosmos, sem um jornal estrangeiro, mesmo inglês, poucas
revistas europeias [...] No domínio da geografia humana eles não
chegaram ao método comparativo: eles não se preocupam com os outros, nem
com o passado”, anotou ele na sua caderneta de viagem.
24Por
sua vez, De Martonne fez grande caso com os atritos das ideias e das
morfologias originais observadas durante essa excursão efetuada nos
“quatro pesados vagões Pullmann transformados na casa dos geógrafos
cosmopolitas” (Martonne, 1905, p. 9). Ele concluiu (ressaltando sua
preocupação da profissionalização da geografia), que
“para os geógrafos de profissão que seguiram, essa foi realmente a parte mais importante do congresso” (Ibid., p. 22).
25Como
dirigente da UGI (ele foi um ator maior desses encontros de 1922 a
1949, sendo secretário geral de 1931 até 1938 e presidente de 1938 a
1949), ele milita para fazer da prática científica do trabalho de campo
uma parte integrante dos congressos: seu objetivo era, segundo ele, não
somente descobrir o país sede, mas ainda estudar coletivamente afim de
confrontar as experiências e os pontos de vista.
26O
geógrafo do Quebec Louis Hamelin convocou prazerosamente o imperativo
do trabalho de campo em seu discurso de boas-vindas em Montreal, no ano
de 1972:
“Eu
me permito repetir a reflexão feita pelo presidente Emmanuel de
Martonne em Lisboa, no ano de 1949: ‘Nossos congressos internacionais de
geografia são antes de tudo a descoberta de um país, este é o chamado
que nos reúne.’ [...] Faz portanto como Ulisses, não vos apressais para
retornar para vossas respectivas Itacas” (Hamelin, 1979, p. 7).
- 8 Fonte: Arquivos americanos consultados por Mechtild Rössler (NAS).
27Em
outubro de 1946, no momento das discussões sobre a localização do
primeiro congresso depois da segunda guerra mundial, o responsável do
comitê americano da UGI, George B. Cressey8,
fizera entrar nos seus critérios de escolha do interesse das excursões
de campo, ao lado da data e da localização, os custos da viagem para os
participantes e os constrangimentos da geopolítica, altamente sensíveis
então, – antes de optar que “todos os quesitos são iguais” para Lisboa,
que havia sido designada no congresso precedente em 1938.
28Veremos
abaixo como o encontro, com trabalho de campo, no Brasil, então a
primeira incursão dos congressos da UGI no hemisfério sul, pôde ser uma
experiência coletiva decisiva.
29Sem
surpresa, a análise dos lugares de encontro, das origens dos
organizadores e dos participantes que formam o mapa dos congressos
internacionais de geografia, revelam regularidades: a polarização
europeia ou ocidental nos lugares de reunião e as tensões duráveis da
universalidade postulada; uma extensão irregular da inscrição espacial
dos encontros científicos e no total uma longa hegemonia europeia depois
estadunidense que está em vias de transformação no século XXI.
30Se
o ideal proclamado pelas instâncias dirigentes dos congressos é uma
cobertura total do mundo pela extensão da rede de geógrafos envolvidos,
os lamentos manifestados regularmente nas tribunas dos congressos provam
que a organização está longe de alcançar a exaustão espacial. Numerosos
países e regiões do mundo não estão representados na organização, nem
no congresso, com a falta de recursos para uma grande parte das regiões
da África, da América Latina e da Ásia. Assim, ainda recentemente, foi
feita no congresso de Glasgow (2004) a referência à organização das
redes permanentes para incentivar a atividade geográfica nas e sobre as
grandes regiões do mundo, tal como a Network on Latin America Studies
que se reuniu no referido congresso; em Colônia (2012) o presidente
exprimia lamento sobre as grandes lacunas no mapa, e sua satisfação por
ter ao menos um encontro especial onde 12 países da África estiveram
representados.
31Isso
envolve as potências que convidam os países para participar, a
localização dos congressos, a natureza dos dirigentes da organização
internacional, a origem dos participantes, as línguas utilizadas, a
centralidade de um espaço europeu e ocidental, e manifesta a longa
duração com as inflexões sobre a hegemonia estadunidense e mais
amplamente do mundo anglófono desenvolvida a partir do pós segunda
guerra mundial, e talvez atualmente em uma redistribuição atual das
forças a favor dos países ditos “emergentes”.
32O
mapa das cidades que receberam congressos resume sua concentração nas
metrópoles europeias (cf. Collignon, 1996b) [Fig. 1]. Entre 1871 e 1996,
dos 16 congressos, todas as cidades são europeias até 1949 (Lisboa, 16º
congresso), salvo o 7º congresso (Washington, em 1904) e o 11º (Cairo,
em 1925). Depois disso, as novas extensões fora da Europa envolvem
Washington (1952) depois Rio de Janeiro (1956), sendo este congresso do
Rio o primeiro no hemisfério sul. Mas ele é o único, depois do congresso
de Londres (1964), que faz uma extensão de localização em direção de
todos os continentes (salvo a África, tocada muito tardiamente), – com a
sucessão de Nova Deli (1968), Montreal (1972), Moscou (1976), Tokyo
(1980), Paris (1984), Sydney (1988), Washington (1992), Haia (1996),
depois Seul (2000), Glasgow (2004), Tunis (2008), Colônia (2012), os
quais sucederão Pequim, Istambul e a cidade do centenário da UGI (2022),
ainda desconhecida (?).
Figura
1 – As cidades hospedeiras dos congressos internacionais de geografia
de 1871 a 2020 (fora os congressos “regionais” da UGI)
Fonte: Boletins da União geográfica internacional
- 9 Da mesma forma o Conselho internacional de pesquisas, criado no fim da Primeira Guerra mundial sob (...)
33Criada
a iniciativa da sociedade de geografia, os congressos se inscrevem
primeiramente nas metrópoles comerciais e coloniais do final do século
XIX, antes de refletir a potência política e científica dos Estados. A
dominação progressiva que os estudiosos e professores universitários
adquirem nos congressos (em termos de participantes, é em Berna, no ano
de 1891, que a categoria de professor supera todas as outras: Dubois,
1972) não muda o registro espacial, pois a distribuição dos centros de
pesquisa e de ensino se calca sobre o sistema preexistente das
metrópoles urbanas. Enquanto, depois da primeira guerra mundial, a
organização passa por uma instituição internacional perene, a União
geográfica internacional, que constituiu os comitês nacionais centrados
em geral nas academias de ciência e nas universidades9,
instaura plenamente uma legitimidade propriamente estática e os lugares
do congresso refletem ainda as hierarquias urbanas nacionais.
34Tendo
em vista os países abrangidos na sua organização, a universalidade está
longe de ser alcançada, ainda que, segundo alguns observadores, a UGI
tenha sido mais aberta que outras organizações internacionais aos
pequenos países (Harris, Rössler, 1996). Podemos destacar, porém, a
extraordinária transformação do mapa dos países membros da UGI que se
produz irregularmente, depois da segunda guerra mundial (Volle, 1996a)
[fig. 2].
Figura 2 – Os países membros da União Geográfica Internacional em 1956
Fonte: Boletins da União geográfica internacional
35O
número de 30 países antes de 1939 efetivamente dobra de 1949 até 1964,
passando de 31 para 62. Essa duplicação demonstra primeiramente o
voluntarismo do presidente da União de 1949 a 1952, o americano G. B.
Cressey, em direção à América Latina e depois à África. Ele mostra
também a rápida reabilitação dos países vencidos, que se operaram nas
tensões da Guerra fria. Assim, temos a questão da Alemanha, onde a RFA
foi admitida em 1952, enquanto a RDA em 1960; A URSS entrou na UGI em
1956, no congresso do Rio de Janeiro. A questão da China foi muito
complicada, pois muitos países recusaram a entrada da China popular na
UGI, e ela mesma condicionava sua entrada à expulsão de Taiwan (que foi
admitida cedo e representada na UGI pela Chinese Academy of Sciences in
Taiwan); a solução foi encontrada pela fórmula de um “comitê para UGI”
em que o presidente Michael Wise propôs substituir o “comitê nacional”,
uma mudança de status votada em Paris, em 1984 (Harris, Rössler, 1996).
36A
duplicação dos anos 1950-1960 marca enfim, e sobretudo, a nova
geopolítica mundial que representa a decomposição dos impérios
coloniais. A participação dos novos Estados independentes não fora
portanto mais fácil: um estatuto de “membro associado” foi criado no Rio
de Janeiro, permitindo acolher os países sem grandes meios ou cuja
comunidade de geógrafos estava em curso de constituição. A África
ocidental francesa e muitas ex-colônias britânicas africanas entram
então na UGI (cf. ponto 2). Muitos desses países tiveram que se submeter
a sua cotização de uma tal maneira que a UGI os desassociou, o que
provocou nos anos oitenta uma severa queda das aderências – isso criou
vastas lacunas no mapa da União e conservou os grandes brancos onde os
países não possuíam nem comunidade importante de geógrafos, nem fundos
para poder pretender a adesão.
37Uma
maneira de contornar essas grandes lesões à universalidade almejada foi
a organização de “conferências regionais” menos custosas que os
congressos e mais próximas, pela sua localização, das comunidades de
geógrafos em constituição. A primeira ocorreu em Uganda (Kampala, 1955),
seguida por Tokyo (1957), depois de Kuala Lumpur (1962), México (1966),
Budapeste (1971), Palmerston (1974), Lagos (1978), etc. Esses
congressos ocorridos na periferia são finalmente múltiplos e tem o
objetivo de cobrir o planeta dos geógrafos com um evento-bis durante o
período entre os congressos (assim, a partir de 2002, de Durban,
Brisbane, Tel Aviv, Santiago do Chile e Kyoto em 2013).
38A
concentração espacial dos congressos internacionais de geografia em
favor dos países ocidentais e do hemisfério Norte acompanham uma
superrepresentação dos atores dominantes encarregados desses países (os
dirigentes da organização no nível da UGI ou dos comitês locais de
organização) e de uma superrepresentação dos participantes dos países
vizinhos do lugar dos congressos.
39Assim,
os dirigentes da organização, por exemplo, o comitê executivo da UGI,
que traduz o estado das correlações de forças, conduzem as escolhas de
presidentes, secretário geral, tesoureiro e vice-presidentes (Volle,
1996b, fig. 11a e 11b). Dos 18 períodos, entre a criação da UGI e 1996, a
França, o Reino Unido e os Estados Unidos concentraram com uma dezena
de mandatos do comitê executivo. A origem dos presidentes das comissões
de trabalho e da seleção mostra a mesma dominação de longa duração
(Collignon, 1996a) [fig. 3]. Entretanto, a partir do pós segunda guerra
mundial, a organização se abre para novos dirigentes da América e da
Ásia (assim em 1949-52 o Canadá, o Brasil e a Índia estão representados
no comitê executivo e se beneficiam cada um de 5 a 6 mandatos entre essa
época e 1996).
Figura 3 – Número de presidências das comissões da União Geográfica Internacional, por países (1949-1996)
Fonte: Boletins da União geográfica internacional
40Essa
representação mais exaustiva dos geógrafos do mundo acentua-se ainda
mais com as últimas eleições. Assim em Colônia, os novos eleitos incluem
uma presidência russa, uma primeira vice-presidência alemã, um
secretariado ocupado por um sul-africano e de vice-presidentes da China,
Finlândia, Índia, Israel, Itália, Japão, Países Baixos e EUA. Ao mesmo
tempo, uma hegemonia do mundo anglófono se exprime pelo fato que a
língua do congresso tornou-se quase exclusivamente o inglês. Em
contrapartida, a crítica reiterada da falta de visibilidade ou de
atratividade da UGI e seus congressos sobre os jovens geógrafos, e as
referências furtivas à atratividade dos congressos da Associação dos
geógrafos americanos podem fazer pensar que essa ampliação tem uma
significação ambivalente. Ela mostra o jogo de uma vontade real de
universalismo, a emergência de novas potências ‘geográficas’ até então
marginais e também pode ser o declínio desse gênero de organização
internacional, em concorrência com as organizações nacionais mais
eficientes em termos de legitimação dos geógrafos que participam dos
encontros internacionais, e por outros modos de sociabilidade
científica.
41A
concentração espacial a favor dos países ocidentais é reforçada pelo
efeito da lei de gravitação que faz com que a origem dos participantes
gire em torno da sua distância do lugar do congresso. Eles provêm
massivamente ou majoritariamente do país sede e das regiões vizinhas.
Assim, dos 21 primeiros congressos, o país sede forneceu o maior
contingente de participantes entre os grupos nacionais representados
(Kish, 1972). Trata-se nos 10 casos de 48% ou mais de congressistas, e
ao menos 30% dos participantes nos 20 casos. A exceção se encontra em
Estocolmo (1960), onde a representação mais forte foi de geógrafos
estrangeiros, vindos dos Estados Unidos, que chegou a 23% dos
participantes. A localização dos congressos influem em parte nas
intervenções dos ‘autóctones’, sob a orientação das questões ou dos
temas colocados em discussão e a língua utilizada (Pumain, 1972). É no
fim do século XIX e antes da primeira guerra mundial que as questões
locais em relação ao país sede estiveram mais presentes, mas a dimensão
internacional dos congressos provoca ‘respostas’ que estão confinadas
sobretudo aos autores autóctones.
42Os
tipos de problemas colocados, as inquietudes dos geógrafos, estão
ligadas à localização dos lugares de acontecimento da ciência
internacional. A estrutura centro-periferia dos congressos
internacionais de geografia tem uma consequência principal: o
etnocentrismo das questões e de seu tratamento, por onde os geógrafos
dominantes expressam seus próprios interesses, em algumas colaborações.
Mas, ao mesmo tempo os associados são concorrentes, pois seus interesses
materiais e simbólicos são diferentes, ou seja, contraditórios: daí a
necessidade de uma regulação dos debates e das produções que tendem a
exteriorizar os temas de controvérsia. Nas fases de conflitos entre o
centro e as margens, no momento das descolonizações em particular, o
etnocentrismo pode ser denunciado, posto em causa do interior ou do
exterior?
43Os
mapas de localização mostram: apesar da vontade de cobrir o mundo, os
geógrafos reunidos em congressos internacionais estão longe de
constituir uma rede universal de observação e de coleta de dados locais.
Munidos de suas ferramentas, eles pretendem poder representar o mundo
em sua universalidade? É isso que alguns grupos de trabalho pretenderam
como, o grande projeto emblemático do fim do século XIX, o mapa ao
milionésimo do mundo. Assim, confiante na cooperação científica entre
geógrafos e serviços cartográficos das potências, Vidal de la Blache,
afirmava:
“Teremos
assim, pela primeira vez, um instrumento de comparação e estudo que,
graças à adaptação das partes e às facilidades de reunião permitirá
abraçar o conjunto do globo em uma imagem harmônica e proporcional”
(Vidal de la Blache, 1910, p.5)
44Mas,
ele acrescenta que se deveria evitar todo “carimbo estrangeiro” e
preservar “a pegada de cada metrópole em suas colônias” (Vidal de la
Blache, 1910, p.9). Isso era admitir o território das metrópoles
imperiais e das zonas de influência sobre as partes do mundo.
Entretanto, os geógrafos americanos conduzidos por I. Bowman reservam,
por sua vez, o domínio de sua zona de influência, o Western Hemisphere,
um empreendimento sob a égide da American Geographical Society de New
York e em prol da realização de um mapa ao milionésimo da América
espanhola (Heffernan, 2011; Peaarson, Heffernan, 2009).
45Conveniências ocidentais e imperiais: quais são as relações dos congressos com o espaço dos trópicos?
- 10 “[...] we need to understand the tropics as a conceptual, and not just a physical space. [...] The (...)
“[...]
nós devemos compreender os trópicos como um espaço conceitual e não
somente físico. [...] Os trópicos só existiam por sua justaposição
mental com outra coisa – a normalidade percebida das terras temperadas10”
Arnold, 1996
46Em
um século de congressos, de Anvers a Montreal, não existem somente as
evoluções nos espaços materiais dos encontros internacionais entre
geógrafos, mas transformações consideráveis dos territórios do mundo,
com o desenvolvimento dos impérios depois sua desagregação sob o toque
das guerras de libertação. Centros e periferias se recompõem então. O
que são os espaços mentais ou simbólicos que assombram os congressistas,
e como eles se ajustam na sequência histórica dos congressos? Espaço
colonial e espaço tropical, tropicalidade e desenvolvimento se misturam,
se reconfiguram e se desfazem no congresso de Anvers (1871), de Londres
(1895), de Amsterdã (1938), do Rio de Janeiro (1956) e de Montreal
(1972)... Houveram os ‘efeitos de lugar’ particulares nas cidades dos
congressos?
47Evocamos
até agora os espaços materiais de atividade dos congressos
internacionais de geografia. Estudar a espacialidade da pesquisa
geográfica supõem também analisar os “espaços mentais” construídos e
manipulados pelos discursos e práticas da geografia. Pois,
“[...] os geógrafos fabricam por
assim dizer os espaços mentais que vêm duplicar e acompanhar os espaços
materiais [os quais ou sobre os quais eles trabalham]. Eles elaboram
suas concepções em meio aos espaços mentais que também são, eles mesmos,
espaços de trabalho, espaços que se inscrevem e se figuram no outro,
nos seus objetos, nas representações figurativas ou nos discursos
(esquemas, gráficos, mapas e descrições). [Essas são] as representações
ou os esquemas espaciais que subentendem o saber geográfico” (Besse,
2004, p. 416, os grifos são originais)
48Como
dissemos acima, para definir os temas e precisar os espaços de
aplicação dos temas de pesquisa, os congressistas estruturam o domínio
espacial do conhecimento que eles estimam importante e legítimo, e criam
um espaço do saber. Os congressos internacionais de geografia são,
portanto, os lugares de uso e de fabricação de tais espaços mentais.
Eles podem abranger os grandes conjuntos espaciais como as “colônias”, o
“mundo tropical”, os “países subdesenvolvidos”, ou ainda o “Terceiro
Mundo” e depois os “Suls”...
49As
grandes tramas de divisão do mundo figuram com efeito entre esses
espaços. Assim, a crítica cartográfica e geográfica destacou o ataque
ideológico da divisão do planeta por continentes. Edward Said (1978)
desconstruiu o esquema Oriente/Ocidente mostrando sua dimensão
propriamente política e cultural e não simplesmente referencial. Depois
dele, o historiador David Arnold (1996) estendeu a análise aos Trópicos
forjando a noção de “tropicality” como variante do
orientalismo, uma variante ambientalista edificada em um esquema
climático, onde o tropical é o Outro do temperado. Desde a Renascença,
no Ocidente, a literatura e outros práticas culturais construíram uma
representação de alteridade desvalorizando os “trópicos” como lugar de
vida e particularmente como lugar habitável para os Europeus,
compreendendo-os de maneira ambivalente como Éden e como lugar de
degenerescência (ver também Livingstone, 2000). Para Arnold, os trópicos
(ou os equivalentes, região equatorial ou zona tórrida) constituem “um
espaço conceitual e não somente físico”. A noção de tropicality inspirou
fortemente as pesquisas anglófonas pós coloniais (Drive, Yeoh, 2000;
Bowd, Clayton, 2005; Clayton, Bowd, 2006); nós propomos falar de
“tropicalismo” para se diferenciar da expressão orientalismo (Robic,
2008).
50Em
seguida, desde os primeiros congressos internacionais de geografia até o
início dos anos 1970, a formulação das questões, as discussões em
congresso e a eclosão de comissões de pesquisa especializadas,
estudaremos aqui o uso que os geógrafos fazem dos Trópicos e das
relações entre esse espaço simbólico e de outros espaços que eles
manipulam nos congressos. Espaço colonial, espaço tropical, espaço a
desenvolver: se observa as combinações, uma sucessão parcial, as
alternativas, as controvérsias...: para cada período reconhecido,
desenhamos primeiramente uma evolução de conjuntos de debates, depois
analisamos a conjuntura geopolítica e os efeitos do lugar típicos de
alguns congressos-chave.
51As
colônias constituem um ponto de discórdia entre metrópoles imperiais, e
os responsáveis pelos congressos compreenderam depois do primeiro
encontro internacional de Anvers que a colonização devia ser excluída
das questões debatidas.
52Para
um encontro entre os representantes de potências concorrentes a
sequência de questões colocadas em 1871 era muito explosiva:
“10. Examinar a utilidade das colônias e dos estabelecimentos coloniais,
de além-mar quanto à estabilidade do comércio e à tranquilidade
interior dos Estados”, “11. Examinar e discutir as razões que levaram
pouco a pouco a Inglaterra a modificar seu sistema colonial e dar a
algumas de suas colônias um governo particular”, “12: Pode-se concluir
por aí, como se fez outras vezes, que vale mais não ter colônias? Quais
são os princípios que se fazem valer contra o princípio de colonização?”
53O
espaço colonial é pouco evocado nos congressos seguidos. O espaço de
reflexão está de fato neutralizado, do ponto de vista do imperialismo
pela proibição política, ou diluído pela formulação de questões muito
gerais, tais como a organização de uma informação coletiva sobre os
recursos potenciais no mundo, sobre a formação intelectual através da
viagem ou sobre os fatos da migração. Somente a África, tipo de domínio
compartilhável, é objeto de questões diretas, notadamente em Londres
(1895):
“Em qual medida a África tropical está apta a ser desenvolvida pelas raças brancas ou sob sua direção?” [To what extent is tropical Africa suited for development by the White Races or under their Superintendence?]
54Nessa
questão relativa à valorização da África, o esquema tropical está
sobreposto ao esquema implícito da colonização e a questão da ação do
Branco sobre os Trópicos também é levantada implicitamente, dando lugar
aos afrontamentos interpessoais.
55Mas,
essas questões são, portanto, geralmente evitadas e as atividades de
padronização dominam em seguida a agenda dos congressos.
56A
referência aos Trópicos e a questão colonial se faz mais massiva
durante o entre guerras e culmina no congresso de Amsterdã, em 1938.
Primeiramente, em Paris (1931), duas questões de geografia humana e uma
questão de geografia física introduzem a categoria das “regiões
tropicais”. Quebrando as regras implícitas dos congressos anteriores, os
organizadores criam em Amsterdã uma seção de “geografia colonial”, um
programa que aparece em 1938 somente no congresso e que será prolongado
pela seção intitulada “geografia da colonização” em Lisboa, em 1949.
57A seção de geografia colonial de Amsterdã deve debater três questões:
-
“Possibilidades de colonização feitas pela raça branca na zona tropical”,
-
“A relação entre a densidade da população e o modo de utilização (ou exploração) do solo nas regiões coloniais”,
-
“A industrialização como condição
indispensável para manutenção do nível de prosperidade nas regiões
tropicais para populações muito densas”
58Essas
questões misturam três espaços de referência associando trópicos e
colonização (a zona tropical, as regiões coloniais e as regiões
tropicais), elas introduzem as noções de zona e de região, conjunto que
curiosamente interfere na sua associação à geografia colonial. Com um
apelo à questão do congresso de Londres, de 1899, eles alargam
singularmente a escala saindo da África; eles pontuam as intenções de
conhecimento fundamental e os programas de ação; precisam as modalidades
do desenvolvimento das regiões abrangidas (povoamento, valorização
agrícola, industrialização); propõem a análise das relações entre vários
aspectos das áreas evocadas; e insistem nas suas características
demográficas.
59Para tanto, se os espaços postos em jogo pelo questionário se interrelacionam, os debatedores geógrafos estão presos na armadilha das interferências entre os diversos espaços heterogêneos?
60Se
seguimos as atas do congresso, a amálgama colonial/tropical só é
colocada em debate excepcionalmente nas comunicações apresentadas pelos
congressistas. As discussões não parecem mais provocar polêmica. As
resoluções adotadas traduzem o poder de um jogo comum, uma vez que elas
consistem em três pontos: primeiramente o mantenimento da seção para o
período seguinte e contrariamente dois votos endereçados aos Estados
coloniais, com o objetivo que eles concorram na realização dos mapas
temáticos precisos de suas possessões e que eles incluam um ponto sobre a
erosão dos solos nos relatórios abrangendo as condições da agricultura
no seu domínio colonial.
61Porém,
os relatores de cada um dos temas destacaram, timidamente ao menos, a
pertinência da estruturação do questionário criticando o amálgama dos
espaços convocados e as causalidades bem fundamentadas sugeridas pela
formulação das questões. Nesse congresso de Amsterdã soberbamente
organizado e posto sob alta vigilância, as discussões foram preparadas
com relatórios anteriores distribuídos aos participantes na sua chegada,
e os relatores fizeram uma curta intervenção no início da sessão de
discussão. Na ocasião, para a seção colonial, existem três relatórios
redigidos por mulheres, que trazem uma apresentação dos problemas do
questionário, uma discussão de sua própria formulação, uma síntese das
contribuições escritas e uma proposição de votos.
62O
relatório relativo às “possibilidades de colonização pela raça branca
na zona tropical”, atribuído à E. F. Verkade-Cartier v. Diesel, é
particularmente notável pela sua lucidez sobre as problemáticas que ele
distingue: o “direito às colônias” afirmado pelas “potências
descontentes”, e o “desemprego” devido à crise [“colonist claim” dos “dissatisfed power’s” e “unemployment”]
(UGI, Relatórios, 1938, p. 123); pela sua persistência na necessidade
de excluir a política das discussões; pela sua preocupação em evitar
maus entendidos; pela sua exigência de cientificidade e em particular
pela sua vontade de clarificar o vocabulário, o que é segundo ela a
condição de um verdadeiro diálogo; pela honestidade de seu balanço, uma
vez que ela mostra as divergências entre autores de comunicações e sua
própria incapacidade de concluir. Suas recomendações mostram ser
necessário uma boa informação e melhores dados comparativos.
63Em
cada um dos relatórios, embora desigualmente, a pertinência das
questões do quadro de referência os quais são abordados, estão
claramente examinados.
64Assim, E. F. Verkade-Cartier v. Diesel nota a diferença semântica entre os termos relativos ao colonial (tal como o “Volkplanting” holandês e os termos de “colon” e “colonisation” no francês, Ibid., p. 125-126) e os desacordos entre os contribuidores sobre a noção de Branco e sobre a de tropical.
65O relator da questão 2 propõe como principal objeto de discussão uma questão de geografia comparada:
“A relação entre a densidade da população e a utilização dos solos é
diferente nas regiões coloniais e em outros lugares do mundo?” [Does
the relationship between denstity of population and land-utilization in
colonial regions differ from that elsewhere in the world?] (Ibid., p. 162).
66O
relator da questão 3 se mostra particularmente dúbio sobre as virtudes
do imbroglio espacial e desconstrói progressivamente o problema:
“O
caráter de ‘país colonizado’ tem uma influência sobre a possibilidade
de industrialização? O fato da situação nos trópicos tem influência
sobre essa possibilidade? Em consequência, a questão da industrialização
é diferente nos países como o Japão, a China ou em outros países
tropicais colonizados?” [Has
the chatacter of ‘colonial countries’ any influence on the possibility
of industrialization? Has the fact of the situation in the tropics any
influence thereupon? Is therefore the question on industrialization
another in countries such as Japan and China and another in tropical
colonial countries?] (Ibid., p. 180).
67Mas, como nós dissemos acima, os congressistas são insensíveis a essas críticas.
- 11 Cf., por exemplo, Livingstone, 1992, capítulo 7, sobre a saliência no mundo anglófono dessa “econom (...)
68Todas
as questões colocadas em destaque no debate fazem sentido para os
geógrafos dos países ocidentais. Primeiramente, a associação entre
trópicos e colonização é justificada na visão da distribuição geográfica
dos impérios e em particular das colônias holandesas. Quanto à questão
demográfica, ela não é nova, uma vez que foi introduzida desde o
congresso de Paris (1931) e desenvolvida em Varsóvia (1934), e ela
acompanha durante esses anos as síndromes europeias de superpovoamento,
os receios do “perigo amarelo” e as reivindicações territoriais dos
regimes fascistas e nazistas. Com o ‘problema’ da aclimatação dos
Brancos em países tropicais, que é o pano de fundo da questão nº 1 no
qual se debruça uma grande quantidade de geógrafos, de administradores
das colônias e especialistas de medicina tropical, os Trópicos declinam,
segundo a visão ocidental clássica, como um espaço deletério ao físico e
ao moral, o lugar de degenerescência das raças e em particular da raça
branca, e é o lugar ‘natural’ das raças inferiores11.
O paradigma racista está subentendido nos debates, até mesmo na
condução das distinções entre Brancos no norte e no sul da Europa
(Leclerc, 1989). De Londres a Amsterdã, de um século a outro, os
estereótipos higienistas, racistas e morais do século XIX se impõem de
maneira idêntica, com o medo da degenerescência da raça branca nos
Trópicos e a essencialização dos indígenas considerados como incapazes e
indolentes. O tropicalismo típico da dominação ocidental, material e
simbólica está sempre presente.
- 12 Eles são particularmente numerosos nesse congresso: se existem 32 delegados holandeses de 179 deleg (...)
- 13 Os Franceses, os Britânicos e os Estadunidenses estão bastante subrepresentados nessa seção relativ (...)
69Nos
anos trinta emerge a ideia, no congresso de Paris, que o espaço do
mundo estava “fechado” ou que era “finito”, assim devido provavelmente
aos pesquisadores coletivos trazidos sob a impulsão de Bowman (1931,
1934), a questão das frentes pioneiras era colocada na ordem do dia
(Robic, 2006 e 2009). Em 1938, a crise econômica, o espectro do
desemprego nas metrópoles e os riscos de concorrência nas colônias
constituem para alguns dos participantes o novo dado do laço colonial.
Sua afluência na seção testemunha a força desse problema. Em particular,
os Holandeses obtiveram um apoio governamental para as pesquisas sobre
as possibilidades de povoamento nos Trópicos, e intervêm massivamente na
seção colonial muito além da superrepresentação do grupo nacional
observado em cada congresso12. Para os alemães, a extensão do seu Lebensraum constitui
a questão primordial: a Alemanha tem tanto comunicações na seção
colonial quanto delegados oficiais no congresso. Para todos os
participantes13,
o contexto geopolítico é extremamente tenso e concorrencial, isso pode
explicar a emergência efetiva do espaço colonial no congresso
internacional de geografia, a inexatidão de noções utilizadas para
atingir a nova atualidade desse campo de expansão e a violência das
propostas.
70Tropical-colonial:
esta é a associação espacial característica do espaço simbólico
significativo no congresso de Amsterdã. Contraditoriamente, a conjunção
dos dois termos pertence ao léxico da economia política holandesa da
primeira metade do século vinte, em um curso intitulado “tropisch-koloniale”
que existia na universidade de Leyde desde 1929; o comitê de
organização do congresso se manteve no Instituto colonial de Amsterdã;
no pós guerra, esse estabelecimento se chamará Instituto dos trópicos
(Leclerc, 1989).
“[Os]
resumos das excursões que formataram o Congresso [...] fornecem um
quadro do conjunto dos problemas que deve encarar a geografia
brasileira. Eles contém uma notável contribuição ao estudo da geografia
tropical. Eles conseguem enfim precisar o caráter próprio desse
Congresso. Pela primeira vez desde a origem da União, a geografia zonal
foi colocado no primeiro plano, o mundo tropical considerado como uma
grande entidade geográfica em que todas as características se encadeiam”
Maximilien Sorre, 1957
71O
período do pós segunda guerra mundial constitui uma ruptura com o
esquema difuso, depois cristalizado, que foi precedido de um lado pela
referência colonial que desaparecia nos congressos e por outro de um
“espaço tropical” mais ou menos banalizado que foi introduzido no lugar
do Rio de Janeiro, em 1956, funcionando como catalizador da inscrição
desse espaço simbólico nos mapas mentais dos geógrafos.
- 14 O relatório foi lido por Robert Perret. Dresch não podia participar do congresso em Washington, poi (...)
72Com
efeito, ainda em Lisboa (1949), seguindo o voto de 1938, uma seção de
“geografia da colonização” persiste, mas ela não é reconduzida. Em
Washington (1952), a manutenção de um simpósio sobre a África tropical
evoca a antiga singularização desse espaço. A novidade reside no teor
das comunicações que são apresentadas, a maior parte muito longa, e que
constituem verdadeiros relatórios sobre as pesquisas empreendidas sobre
esse tema pelos geógrafos e os novos organismos europeus. É o caso do
relatório dos Franceses (o documento foi assinado por Charles Robequain e
Jean Dresch14),
cujo léxico dominante é mais centrado nos termos de “além-mar” e da
“África” que sobre o “tropical” (segundo as formulações dos escritórios
desenvolvidos na metrópole e em Dakar desde o fim dos anos trinta). Da
mesma maneira Robert W. Steel descreve longamente os progressos da
pesquisa dos geógrafos britânicos, engajados desde o fim dos anos vinte
mas sobretudo durante e após a guerra; o autor privilegia ao contrário o
léxico tropical. O “desenvolvimento”, transmitido para a agenda
política de vários países e às grandes organizações internacionais
ligadas à ONU sustentam muitas intervenções. Pouco tempo depois surgem
as conferências regionais nos países periféricos, primeiramente reunidos
em Uganda, em 1955, sobre o tema “Recursos naturais, Alimentação e
População na África intertropical” [Natural Resources, Food and
Population in Intertropical Africa].
- 15 Eu agradeço muito Luisa Simões pela sua ajuda e suas traduções dos textos do congresso do Rio de Ja (...)
73Os
discursos do congresso do Rio de Janeiro (1956) estão embebidos na
referência tropical, mesmo nos resumos publicados após o congresso, tal
como o publicado por M. Sorre, posto em destaque neste ponto. O discurso
inaugural do presidente do comitê organizador, Jurandyr Pires Ferreira15 institui um programa científico tropicalizante:
“Somos
um país onde predominam as condições naturais e de ocupação humana
peculiares às áreas tropicais. País, onde imperam, portanto, condições
diferentes das encontradas nas regiões de maior desenvolvimento do
conhecimento geográfico. [...] A ciência geográfica espera importante
contribuição brasileira para o conhecimento das regiões tropicais”
(Atas, 1959, p. 139).
- 16 Segundo esse artigo, a UNESCO organizou uma conferência em Candy (Ceilão) em março de 1956 para def (...)
74Esse
congresso inova criando a “comissão dos trópicos úmidos”. Ela forma uma
das duas comissões especiais criadas nesse décimo oitavo congresso; a
outra se intitula “Elaboração de um mapa mundial da população”. Alguns
anos antes foi criado uma “comissão de zonas áridas”, o que explica a
escolha de uma formatação mais restritiva para o relato na zona
tropical. Nos três casos a UNESCO interveio para constituir os grupos de
pesquisa internacionais e interdisciplinares, antes da UGI e da chamada
aos países recém independentes, como a Índia, no caso das zonas áridas.
Para delimitar precisamente os trópicos úmidos os dois organizadores
tentam conjuntamente cartografar precisamente o espaço abrangido
mobilizando os botânicos e os geógrafos climatólogos (Fosberg et al.,
1961)16.
75Muitos
simpósios relativos ao espaço tropical ocorrem durante o congresso,
abordando a geografia física pura (savanas e campos) ou sobre a
“contribuição da geografia na planificação regional dos países
tropicais”. Esses simpósios geram numerosas intervenções dos geógrafos
britânicos, alemães, franceses e brasileiros, centrados sobre o tema da
geografia aplicada.
- 17 T. Hills dirige, entretanto, uma bibliografia coletiva sobre o tema em 1960.
76Contrariamente,
quatro anos mais tarde, nos países escandinavos, os trabalhos da
comissão dos trópicos úmidos estão bastante atônitos17.
O congresso de Londres (1964) não lhe confere um brilho particular.
Para o 20º congresso, o evento ocorre em outro lugar: em Liverpool, onde
um simpósio intitulado “Geography in the tropics”
, ocorre durante uma semana, atraindo uma massa de participantes.
Paradoxalmente, o tropical não é central no evento, ou a questão em
debate é a da possibilidade de desenvolvimento nos
países tropicais. Nesse sentido, o tema de Liverpool está em harmonia
com a temática do conjunto do congresso que o presidente da UGI, Carl
Troll, expõe em seu discurso presidencial: “Sociedades plurais dos
países em desenvolvimento. Aspectos da geografia social” [Plural Societies of developing countries. Aspects of social geography]. Sobretudo, na sua introdução da obra coletiva que ele corredige, Geography and the Tropics: Liverpool Essays, R. W. Steel invalida a pertinência do espaço tropical como quadro da pesquisa particular:
“não existe ramo especial para o tema para ser identificado como ‘geografia tropical’” [there is no special branch of the subject to be recognized as ‘tropical geography’] (Steel, 1964, p. 2).
77No
entanto, em Nova Deli (1968), a reunião da comissão dos trópicos úmidos
gera 14 proposições de intervenção, sendo muitas Indianas, e dois
relatórios sobre as pesquisas realizadas na França pelas universidades e
pela ORSTOM (Escritório de pesquisa científica e técnica de Além-mar,
que foi criado sobre o nome de Escritório de pesquisa científica
colonial – ORSC – em 1943). As duas comissões zonais são ainda
renovadas, e uma comissão da Ásia das Moções foi criada.
78Mas,
o congresso seguinte, em Montreal (1972), indica o fim da comissão dos
trópicos úmidos e a das regiões áridas. É verdade que os participantes
assim como os contribuidores, nas reuniões dessas comissões, manifestam
um esvaziamento do tema frente às questões emergentes que concernem
notadamente o meio-ambiente e os riscos naturais – então, em ligação com
programa “O Homem e a Biosfera” da UNESCO. Somente os “grupos de
trabalho” de menor reconhecimento oficial podem continuar a pesquisa
consagrada aos espaços tropicais.
79O congresso de Montreal (1972) figura como um tipo de fim de um ciclo do espaço tropical/climático.
80Esse
ciclo de estabelecimento e depois de contestação do espaço tropical ‘em
si’ liberou-o de sua conotação colonial, baseado no contexto
geopolítico do pós segunda guerra mundial. No entanto, a emergência
desses neo-Trópicos que formam um espaço simbólico gestado nas
deliberações dos congresso internacionais do pós guerra resulta do
entrecruzamento de vários processos. A queda dos impérios foi certamente
um fator maior de transformação, deslegitimando o termo colonial que
foi substituído, por exemplo, por “ultramarino” (overseas), que eufemiza a colonização pelo uso de uma figuração espacial, ou de “territórios dependentes”
forjado pela administração dos Estados Unidos desde antes do fim da
guerra. Os novos equilíbrios mundiais do pós guerra, com a aparição da
potência americana e muito rapidamente a Guerra Fria e a concorrência
dos Blocos comunista e liberal reconfiguram também o espaço planetário. A
afirmação dos países resultantes da descolonização e dos países “não
alinhados” constitui uma terceira dimensão dos reequilíbrios do pós
segunda guerra mundial. Para a disciplina, as evoluções são muito mais
complicadas e mais conflituosas que algumas apresentações sumárias de
história da geografia o fazem crer (na França particularmente), que
fazem suceder as geografias colonial, tropical e do desenvolvimento (cf.
Bruneau, 1989). Entretanto, os grupos nacionais de geógrafos e os
indivíduos adotaram posturas diferentes diante da descolonização, e seus
programas de geografia mudaram, com o tempo.
81No
total, durante os anos oitenta, o “tropical” é objeto de tensões, o
espaço tropical sendo despedaçado entre os esforços de eufemização da
dominação colonial ou o distanciamento da relação colonial, no Centro,
enquanto, nas colônias, os militantes realizam uma luta radical de
descolonização acompanhando a reapropriação de sua história e de seu
espaço que podia também passar por uma classificação de Trópicos.
Podemos distinguir de quatro a cinco reconfigurações de espaço tropical
que resultam desse aggiornamento.
82Uma primeira reconfiguração consiste na apreensão do espaço tropical como espaço especial,
que autoriza a promoção de um ramo particular da geografia. A promoção
da “geografia tropical” na disciplina se efetuou imediatamente depois da
guerra, com o sucesso internacional do livro de Pierre Gourou (1947), Os países tropicais. Integrando as duas partes principais da geografia, o autor singulariza os trópicos úmidos desde as primeiras linhas:
“Os países quentes e chuvosos tem sua própria geografia física e sua geografia humana original” (Gourou, 1947, p. 1)
83Gourou,
então professor de geografia colonial em Bordeaux ascendia no mesmo ano
à cadeira do Collège de France intitulada “Estudo do mundo tropical
(geografia física e humana)”. Esse ramo da geografia tropical iria se
tornar um dos pilares da geografia francesa dos anos 1950 aos 1970-80.
84Traduzido para o inglês sobre o título de The Tropical World (1953), a obra teve uma grande influência em todo mundo: ela teria dado impulso no mundo anglófono aos estudos consagrados à “tropical geography”
(Driver e Yeoh, 2000, p. 2). O caso das revistas de geografia
desenvolvidas nas ex-colônias britânicas na península da Malásia é um
efeito típico dessa difusão, seja na semelhança do domínio científico
seja do rótulo (Power, Sidaway, 2004): criado em 1953, a nova revista é
intitulada primeiramente Malayan Journal of Tropical Geography (1953-57) depois, postas algumas transformações, ela se cinde em duas em 1980, e surge o Malaysian Journal of Tropical Geography em Cingapura. É aqui, depois de um número de 2000, que a crítica pós colonial da tropicality e da obra de Pierre Gourou em particular, se desenvolvem.
85No entanto, podemos normalizar o
espaço tropical? A estruturação do espaço tropical foi de fato
atrapalhada, no pensamento de alguns geógrafos, em relação ao que ela
era no tempo de sua associação intrínseca com o colonial. Assim, com a
promoção programática de uma geografia zonal (De Martonne,
1946), há efetivamente a ‘des-excepcionalização‘ dos Trópicos que foi
produzida, na geografia francesa notadamente, pela sua inscrição
explícita em um esquema planetário zonal. Então, o espaço tropical passa
de uma ontologia singular, ou em todo caso construída em uma relação
hierárquica com o espaço temperado, a uma ontologia banal, porque está
referenciada em um espaço planetário em seu conjunto. Assim, o “espaço
temperado” perde seu privilégio, ele perde o papel de norma que ele teve
até então.
86Essa
normalização do espaço tropical é sensível em um texto que Emmanuel de
Martonne publicou em 1946 sobre o título “Geografia zonal. A geografia
tropical”. Nesse texto, o autor concede cidadania à geografia zonal no
pensamento ocidental; e ele apadrinha essa legitimação científica do
esquema pela mobilização do tropical. A novidade da representação que De
Martonne coloca em destaque, aparece claramente se comparamos sua
proposta com um texto que ele publicou trinta anos antes: nesse artigo
intitulado “O clima, fator do relevo” (1913), o mundo tropical era
qualificado de “exótico”, de “especial”, e era depreciado sendo
“excessivo”; ora esses três termos desaparecem do léxico em 1946. Se De
Martonne taxa ainda o mundo tropical de “original”, ele o constrói como
plenamente relevante para a “economia geral de nosso planeta” e como
fonte dos fenômenos climáticos na escala da terra. Certamente, De
Martonne trata sobretudo a geografia física, – seu domínio de predileção
e onde a expressão chave “erosão normal”, que era de fato indexada no
países temperados, encontrava sua relevância –; mas, ele não separa seu
raciocínio da geografia humana, que poderia portanto, ela também, se
construir fora da normalidade temperada.
87Entretanto,
muitos documentos arquivados manifestam que o etnocentrismo europeu
perde sua legitimidade no período imediatamente posterior à guerra.
Assim, encontramos uma troca epistolar entre De Martonne e Jean Gottmann
no início de 1946, onde De Martonne critica abertamente o etnocentrismo
e os apóstolos da normalidade temperada:
“Você tem razão de perguntar ‘O que é o normal?’ Mas, se deveria
responder ‘O normal é o que o homem que pergunta está acostumado a ver’.
E por que é difícil ‘sustentar hoje’ que a Europa é a normalidade.
Também era difícil ontem e mesmo é certo que a Ásia era mais populosa
que a Europa na Idade Média [...] Huntington...? Taylor ?... [...] Eu
jamais pude levar Huntington a sério” (Arquivos Gottmann)
88Essa
provocação remete ao tropicalismo: o autor visado é Ellsworth
Huntington, o geógrafo americano que, desde suas primeiras publicações
nos anos 1910 até os anos 1950, explicou que o valor da civilização
dependia do clima, atribuindo à variabilidade do tempo na “zona
ciclônica” o desenvolvimento dos povos superiores. Como mostram seus
mapas, a zona ciclônica, que determina sua “energia”, é essencialmente a
zona temperada do hemisfério norte: portanto, uma variante do
tropicalismo, acompanhado de racismo.
- 18 Ver o número de Hérodote, 1978, consagrado a Jean Dresh.
- 19 Testemunho de Pierre Gourou (1977) na sua notícia biobliográfica sobre Weulersse, p. 109.
89Desde os anos trinta os geógrafos tais como Jean Dresch18 foram militantes anticolonialistas; outros evocaram a inversão do olhar que do que foi a relação colonial: assim Jacques Weulersse afirmava em 194619:
“Muito frequentemente... nós vemos a colonização através dos olhos
metropolitanos... Nós deveríamos fazer o inverso... [...] Nós devemos
nos aproximar com os olhos de Deli ou de Dakar ou mesmo com os da aldeia
na floresta, das plantações... das fábricas... Essa reversão de
perspectiva reflete... a mudança do fenômeno colonial em si. Hoje a
iniciativa passou do colonizador ao colonial”
90Enfim, entre as representações dos Trópicos no Centro houve sua banalização como lugar de desenvolvimento. Isso
nada mais é que integrá-lo na diferenciação dos meio naturais e
biológicos subsumido pelo esquema zonal, mas dentro do esquema de um
espaço econômico, o da modernização, que institui um espaço homogêneo ao
plano planetário. Na política mundial estadunidense do pós guerra, o
desenvolvimento tornou-se a palavra de ordem para um intervenção global e
em particular para os programas de ajuda técnica e econômica aos
“territórios dependentes”. Formulados pelo presidente Truman e por seus
conselheiros, eles foram sustentados notadamente pelos geógrafos tais
como Bowman e os especialistas, como Lawrence Martin, reunidos no
interior do Office of Strategic Service (OSS) durante a guerra (Smith,
2003).
91Vimos
que o número de participantes nos congresso de geografia do pós guerra
assinala o horizonte de ação que se integra bem, inclusive, na geografia
aplicada para a qual eles militavam na época: desde o congresso de
Washington, seus relatórios sobre a geografia nos trópicos estão
repletos de programas patrocinados pelas organizações nacionais que
foram montadas durante essa nova guerra mundial (alguns foram criados a
partir dos anos trinta mas eles vegetaram, tendo os geógrafos
contribuído pouco para essas pesquisas aplicadas, comparativamente a
outros cientistas, como os naturalistas, cf. Bonneuil, 2000).
92Entre
eles existe o geógrafo britânico Steel que, no congresso, se distanciou
várias vezes do viés tropicalista, embora se refira ao mundo Tropical
de forma durável. Ele destacava, por exemplo, em Lisboa, que os
problemas que ele estudava e os que os administradores coloniais
encontravam, eram em grande parte problemas universais, como o da
urbanização, por exemplo. Mas, em 1964, ao lado de sua crítica à
geografia tropical de Gourou (visando-a explicitamente), ele afirma a
existência de uma escola que compreende todos os autores reunidos em seu
livro e que alinha o espaço tropical sobre o resto do mundo:
“‘a
geografia tropical’ nada mais é que o estudo das áreas tropicais pelos
geógrafos, segundo as aproximações e os métodos geralmente similares aos
utilizados para o estudo de qualquer outra parte do mundo” [‘the
geography of the tropics’ implies no more – that the study by
geographers of tropical area, adopting, in general, similar approaches
and methods to those used in the studies of any part of the world]
(Steel, 1964, p.2)
93Esse autores reunidos em Geography and the tropics são
essencialmente do departamento de geografia de Liverpool, onde Steel
implantou há muito tempo atrás os estudos sobre o desenvolvimento dos
países do Império britânico e depois do mundo inteiro. É portanto nessa
antiga metrópole imperial típica que Steel marca seu engajamento nessa
disciplina modernizadora, a geografia do desenvolvimento, que Marcus
Power e James D. Sidaway (2004) apresentam como um deslocamento, muito
tardio (próximo do fim dos anos 1960), da geografia tropical (os
geógrafos britânicos radicais como Keith Buchanan se orientam como eles
pois utilizam a noção de Terceiro Mundo desenvolvida na França e as
teorias da dependência).
94A
tropicalidade foi também “militante”, segundo a expressão de Daniel
Clayton (2012): os povos colonizados por sua parte reconfiguraram o
espaço tropical pela ação (a guerra, o levante revolucionário) ou pela
voz de militantes anticolonialistas. Em um artigo consagrado à luta
subversiva das vítimas da colonização (os próprios “tropicalizados”) ele
destaca que a tropicality não é um assunto apenas da crítica
pós colonial: os trópicos foram reconfigurados entre os anos 1940 e 1970
pelos discursos e as práticas contra-hegemônicas, em particular pela
mobilização material e simbólica do terreno tropical na guerrilha. Na
América Latina, no Vietnã, a montanha tropical ou a floresta tornavam-se
recurso.
95Tratando-se
do domínio cultural, D. Clayton destaca em particular o papel do poeta
surrealista Aimé Césaire, que é emblema de uma luta contra a
estigmatização e a despossessão dos colonizados. Sua revista Tropiques, que
ele criou na Martinica em 1941, foi uma plataforma contra a alienação
colonial e um chamado à construção de uma identidade própria pela
subversão dos valores associados a um espaço de fato desnaturalizado
pelo discurso colonial. No seu Discurso sobre o colonialismo (1955),
como militante político, ele denunciava radicalmente o tropicalismo
difuso dos autores franceses, sejam eles escritores, filósofos ou
especialistas de ciências humanas e sociais, que eram, segundo ele, com
sua eventual boa fé, os “cães de guarda do colonialismo” (Césaire, 1955,
p. 39); – e citava entre eles, particularmente, Gourou:
“De Gourou, seu livro: Os países tropicais,
onde, entre as análise justas, a tese fundamental se expressa parcial e
inadmissível, que não existiu jamais a grande civilização tropical, o
germe da civilização vem e só pode vir de outro lugar extra-tropical e
que sobre os países tropicais pesa, omitindo ao menos a maldição
biológica das raças, mas com as mesmas consequências, uma não menos
eficaz maldição geográfica” (Césaire, 1955, p. 39-40)
96Nas
variadas reconfigurações e muitas vezes contraditórias dos trópicos na
geografia dos anos quarenta-sessenta, as cidades de congresso como o Rio
de Janeiro e Londres/Liverpool são os lugares privilegiados, lugares de emergência para o Rio (1956) e de dissolução para Liverpool (1964).
97Para
o congresso ocorrido no Brasil, o qual nos concentraremos aqui,
esboçaremos três aspectos das espacialidades desse encontro
internacional de geógrafos: as virtudes do encontro coletivo in situ; a
constituição do país sede em um espaço complexo constituído pelos
espaços plenos de sentido para todos os participantes, porém
heterogêneos; o empréstimo ao país de representações variadas (tropical e
desenvolvimento), e talvez de representações senão do tropical
contra-hegemônico ao menos de representações autóctones da
tropicalidade.
98Mas,
essas hipóteses deveriam ser aprofundadas por uma pesquisa mais
exaustiva sobre os documentos publicados, nos arquivos dos congressos e
sobre as reações pessoais dos participantes.
- 20 Sob a presidência de Kubitschek (que honrou o congresso com sua presença), Brasília estava anunciad (...)
- 21 A escolha dessa localização foi discuta imediatamente ao pós guerra, pois tratava-se de reatar os c (...)
99A frequentação comum dos lugares (Rio de Janeiro, a capital20,
e sua Escola naval, sede do congresso; o Brasil inteiro, pois uma
dezena de excursões foram propostas antes ou depois do congresso),
autoriza sem nenhuma dúvida a homologação de um espaço tropical pela
comunidade internacional dos geógrafos que se reuniram em 1956 [fig. 4].
Estar no lugar, face à face, in situ com
os autóctones, é uma condição de possibilidade da reconfiguração dos
espaços que se produzem ali. O encontro nesse lugar supõe com efeito o
reconhecimento da legitimidade dos colegas organizadores, que foram
admitidos em 1952 no aceite oficial do convite feito pelos Brasileiros
para o próximo congresso21, e a afluência ratifica a legitimidade dessa escolha, enquanto a discussão in situ
e a prática de excursões sob a direção dos geógrafos do país supõe a
divisão da atenção entre um espaço e uma mudança confiante de
diagnósticos. Presentes nos discursos oficiais de abertura e
encerramento do congresso, todas essas ideias figuram também em
filigrana nos diversos resumos publicados após o congresso e nos
preparativos diplomáticos da reunião.
Figura 4 – Capa das atas e logotipo do congresso internacional de geografia do Rio de Janeiro (1956)
100Como
exprimem as propostas de Maximilien Sorre colocas em destaque nessa
parte, a visão coletiva do território brasileiro serviu como um
certificado de autenticidade de sua própria geografia. Com efeito, o
geógrafo francês retoma, para usar a fórmula clássica em que Vidal de la
Blache, o uso do conceito de conectividade geográfica: o encadeamento dos
fenômenos em um lugar. Se seguirmos o texto de Sorre, o congresso
normalizou os trópicos adotando “o mundo tropical como uma grande
entidade geográfica em que todas as características se encadeiam”: ele o
insere aqui no esquema zonal e, o fazendo, Sorre encontra o discurso de
De Martonne.
101A expressão da paridade que o espaço brasileiro adquiriu com os outros espaços planetários pela sua frequentação de visu e in situ (“in the field”, “on the ground”, dizem os resumos dos anglófonos), se encontra nos discursos oficiais.
102É
em particular no caso dos discursos brasileiros, impregnados de
comtismo, que recapitulam todas as questões dos congressos
internacionais de geógrafos antes de especificar o que o Brasil traz de
novo. O presidente do comitê de organização, Jurandyr Pires Ferreira,
evoca assim em seu discurso de boas-vindas como as mudanças culturais
possíveis através desses encontros são benéficas à ciência; ele coloca
que um outro exame comum dos problemas geográficos próprios à cada
região do mundo é uma condição necessária para a produção de um
conhecimento geográfico universal, e ele felicita a UGI por sua ação. É
então que ele especifica o aporte do Brasil, sua tropicalidade, e é
aqui, desde o primeiro discurso, que o conteúdo tropical é dado ao
congresso.
103Na
tribuna, o presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira
retoma esses diferentes temas e insiste no fato que o encontro
internacional é um reconhecimento da maturidade alcançada pela ciência
geográfica brasileira. Enfim, fazendo eco ao programa ‘tropicalizante‘
anunciado precedentemente, ele articula a vitalidade da geografia
(disciplina) brasileira com a geografia (qualidade dos lugares) do
Brasil:
“Nossa geografia por si mesma explicaria o nosso vivo interêsse pelos
estudos geográficos, se êstes não constituíssem um dos grandes ramos
hodiernos no saber universal” (Atas, 1959, p. 155).
104Na
conclusão do congresso, o secretário geral do comitê de organização,
O’Reilly Sternberg, celebra a afluência do congresso que foi centrado
sobre “os problemas dessa grande entidade geográfica, o mundo dos
trópicos” [the problems of that great geographical entity, the world of the tropics] (Atas, 1959, p. 168).
105No
fim do congresso, os discursos conclusivos dos membros oficiais da UGI
insistem na excelência da comunidade geográfica do Brasil encarnada no
seu Comitê nacional e pelo seu comitê de organização, e tudo acontece
como se, por uma metonímia, a legitimidade de uns (os geógrafos
brasileiros) desembocassem na legitimidade do outro (o território
brasileiro).
106Mas
a configuração das representações espaciais que os congressistas têm do
Brasil no momento do congresso merece análise. O presidente da UGI,
Dudley Stamp, felicita assim os organizadores pelo total sucesso do
congresso que ele toma sob o signo de ‘primeiro’
“Esse é o primeiro Congresso internacional de geografia que ocorre no
Hemisfério Sul, o primeiro nos trópicos, o primeiro na América Latina, e
o primeiro no Brasil” [this is the first Internacional Geographical
Congress to be held in the Southern Hemispher, the first in the
tropics, the first in Latin America and the first in Brazil] (Atas, 1959, p. 156).
107Para o secretário geral do Comitê de organização, o Brasil é
“o mais significante transplante em baixa latitude daquilo que se chama civilização ocidental” [The most significant low latitude transplant of what is know as western civilization] (Atas, 1959, p. 168).
- 22 Assim, entre os geógrafos americanos consultados em 1946, Preston James teria optado pelo Rio, send (...)
- 23 Fonte: Arquivos privados de H. Sternberg, M. Rössler, 1991, Berkeley.
108Os geógrafos estadunidenses situam o Brasil em seu próprio domínio, o Western Hemispher22. Enfim,
segundo a imprensa, os Soviéticos (presentes pela primeira vez) estimam
que “O Brasil pode e deve ser o precursor da ciência tropical” (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 Set. de 195623).
- 24 Gilberto Freyre será citado também devido suas visão sobre o lusotropicalismo pelo presidente da UG (...)
109O
Brasil é portanto, para a maior parte dos grupos participantes,
“pertencente ao seu próprio mundo”, sendo cada um desses mundos
diferentes de seus vizinhos, mas ainda assim ocidental (e independente
há bastante tempo, o que não é dito). Ele é admitido em um espaço comum.
Os geógrafos reunidos no Rio constroem o Brasil como um espaço-quimera,
composto de espaços legítimos e heterogêneos. Eles também são
autenticados no lugar de seu conteúdo “tropical” reivindicado localmente
pelos geógrafos e pelas mais altas autoridades do Brasil. Talvez
deva-se olhar a coalescência do papel dos intelectuais brasileiros, como
o sociólogo Gilberto Freyre, bem conhecido internacionalmente na época24 e que David Arnold (1996, p. 161-162) cita notadamente seu livro de 1959, New World in the tropics: the Culture of Modern Brazil, ressaltou a forte contribuição na defesa de uma tropicalidade positiva.
110Destacando
os vários espaços mentais legítimos, o Brasil pôde constituir um
catalizador, – um espaço suficientemente híbrido para servir de lugar de
uma coprodução desse espaço simbólico “espaço tropical” simplesmente
que é a marca desse congresso.
111Nesse
contexto integrador, senão normalizador, vários países novos entram na
UGI em 1956, muitas ex-colônias e territórios africanos ainda
dependentes que estão inscritos no novo estatuto de “membros associados”
criado no Rio: a África ocidental francesa, o Quênia, a Nigéria e o
Sudão.
112Tentamos
mobilizar em torno da atividade dos congressos internacionais de
geografia as ferramentas de análise espacial das ciências, observando
essa organização que foi desenvolvida a partir o fim do século XIX como
uma das quais os geógrafos se propuseram, para além do quadro
nacional/imperial, constituir uma representação coletiva do mundo
contemporâneo. Nos perguntamos como é efetuada, nesse quadro, com os
meios de observação e de transporte das informações mutáveis, a
construção de uma rede de análise em escala planetária e a mobilização
de dados locais. Entre as direções da pesquisa sugeridas pelos autores
que foram pioneiros nesse campo, insistimos na detecção dos lugares, em
diferentes escalas, onde se fazia o trabalho de produção internacional
do saber geográfico. Nos espaços de trabalho que constituem os
diferentes lugares de encontros internacionais (as cidades e os países
de congresso), compreendendo os países de origem dos congressistas e dos
membros oficiais da organização. Entre os espaços de escala superior
evocamos o papel de alguns dos espaços específicos da coleta e da
produção de saberes geográficos, e particularmente o campo, o
qual contribui para organização itinerante dos congressos, que abre aos
geógrafos uma prática ‘sobre o tema‘ de seu material de pesquisa e em
que as excursões oferecem a experiência de uma observação coletiva.
113Insistimos
nas várias formas de espaços mentais que foram mobilizadas e
coconstruídas ao longo dos congressos internacionais. O caso dos
Trópicos é emblemático na imbricação de diversos gêneros de espaços
mentais que nutrem de fato a produção do saber geográfico.
Alternadamente o “outro” no esquema colonial, o “normalizado” no esquema
zonal, o “invalidado” no espaços homogêneo da modernização econômica e o
espaço tropical sob o qual trabalham os geógrafos reunidos nos
congressos internacionais está inscrito nos espaços mentais de diversas
ordens. Eles estão primeiramente inscritos no meta-espaço terrestre (o
“todo terrestre” de alguns geógrafos e da geografia geral), das
representações da terra que configuram o projeto dos geógrafos: o espaço
totalmente explorado ou “finito” dos anos 1870, o “mundial” da virada
dos séculos XIX e XX, o “transbordar” dos anos trinta e enfim o
“sistema-mundo” contemporâneo. As escalas maiores também são ressaltadas
pelos esquemas propriamente geográficos como o esquema zonal ou
climático, ou mesmo o esquema continental, ou ainda o esquema
hemisférico que podem (como o todo terrestre) ser o resultado de uma
construção do saber. Mas, esses espaços mentais resultam também de
representações ideológicas mais comuns, induzidas fortemente, durante o
período considerado, pelo colonialismo ou pelo imperialismo.
114Na
situação de colaboração internacional, as representações comuns são em
parte compartilhadas, em parte antagônicas, de acordo com o momento.
Também os espaços de trabalho dos congressos são regulados – espaço
mundial e assim idealmente despolitizado, tecnificado ou padronizado. As
vezes, as regulações explodem sob o golpe da realidade geopolítica. Os
lugares de congresso se parecem: eles constituem os espaços de trabalho
comparáveis em duração (regidos notadamente pelas leis espaciais como a
lei da gravidade e pelas relações centro-periferia duráveis), que
evoluíram no tempo, sendo que alguns lugares dos congressos tiveram uma
virtude própria de favorecer a condensação e emergência dos novos
saberes. Eles ganham, então, outros formatos pela interferência dos
espaços mentais que foram ativados. Não que o gênio dos lugares seja
compreendido livremente, como por magia. Mas porque os espaços materiais
e mentais que são conjugados fazem sentido não apenas para os
participantes do congresso, pois produziram uma emergência dentro de
algumas conjunturas espaço-temporais de legitimidade e de confiança
entre os indivíduos e grupos presentes ou representados, que puderam
significar uma normalização ou uma exclusão divulgada para os outros.