- 1 A Historiografia cartográfica reconhece dois gêneros cartográficos medievais: o Orbis Terrarum (OT)(...)
- 2 David Woodword, 1987, op.cit.
- 3 Inventários desta produção vêm ocorrendo desde o século XIX. Em termos da produção como um todo o m (...)
1O gênero cartográfico Portulano, entendido pela Historia da Cartografia como sendo medieval,1
desenvolveu-se durante os séculos XIII / XV ao redor da bacia
mediterrânea e é considerado base do desenvolvimento técnico necessário
para a Cartografia científica renascentista.2 A maioria dos exemplares remanescentes3 não apresenta datação ou identificação de autoria, estando, portanto, sua origem e autoria estabelecidas a partir da comparação entre esses exemplares e da reconstrução histórica do contexto da produção,
através de documentação existente em arquivos. Identificação essa que,
por seu caráter interpretativo de documentos históricos, pode aparecer
em diferentes versões. Algumas características comuns a estes exemplares
embasam hipóteses da existência de um padrão reproduzido durante os
séculos XIII ao XVI, com duas tendências de estilo, a italiana e a
maiorquina.
2De maneira geral, o padrão denominado Portulano é descrito como uma representação gráfica em escala e de maneira realista da
bacia Mediterrânea, feita sobre uma superfície plana (geralmente
pergaminho) cruzada por uma rede de linhas construídas a partir das
direções dos ventos, sendo sua finalidade facilitar a navegação e
determinar com precisão a localização dos portos existentes em torno
desta bacia a partir da utilização de bússola e compasso como
instrumentos de navegação. Essa definição parte do pressuposto de que o
objetivo principal destas representações seria o de instruir marinheiros
que não possuíssem conhecimento necessário para se orientarem pelas
tábuas astronômicas e geográficas em suas travessias, por não conhecerem
os segredos de seus instrumentos de leitura, como o astrolábio e o
gnomon, que permitem a identificação dos pontos celestes e sua
correspondência terrestre normalmente utilizado para o estabelecimento
de roteiros para travessias, tanto marítimas como terrestres,
potencializadas durante o período do intenso comercio mediterrâneo após
os séculos X e XI.
3A
rede de linhas que o caracteriza tem sua representação materializada na
Rosa dos Ventos com 32 direções, empregada pela primeira vez no
Mapa-múndi representado no MS. Espagnol 30, provavelmente produzido em
Maiorca pelo judeu Cresques Abraham no ano de 1375, mais popularmente
conhecido como “Atlas Catalão”, atualmente sob a custódia da Biblioteca
Nacional da França (BNF). Existem outros exemplares bastante conhecidos
como as representações de Pietro Vesconte ou de Gabriel Vallseca.
4Além
da rede de direções, outra característica comum é a utilização do
pescoço do pergaminho (fig.01) voltado para a esquerda (oeste) e a Flor
de Lis que encima a Rosa dos Ventos, indicando o norte. Em alguns deles
encontra-se também ou referência ao Monte Sinai, onde Deus teria dado a
Lei a Moises, fato relacionado à história do povo hebraico ou uma cruz,
indicando o leste, em menção à Terra Sagrada para as três civilizações
que haviam produzido o conhecimento necessário para a construção das
Cartas Portulano. Quanto à Flor de Lis, alguns a entendem como sendo uma
homenagem aos Bourbon, que a utilizam em seu escudo de armas, outros a
entendem como um símbolo hebraico constante do Pentateuco.
Figura 01 – Carta Pisana (Ca.1275)
BNF - GE B 1118 Res. Pergaminho. 48 cm x 103cm. Destaca-se o “pescoço” da pele orientada para o oeste
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b52503226n
5O
gênero cartográfico Portulano também terá um papel inovador no plano da
linguagem cartográfica, pois nele serão introduzidos símbolos procurando
universalizar sua leitura como, por exemplo, padrão de escala, linhas
de rios esboçados suavemente em azul, nomes dos principais portos e
cidades em vermelho, perpendicular à costa, nome dos mares dentro de
moldura colorida, desenhos padronizados de cadeias de montanhas, rotas,
vilas e cidades indicadas por signos e bandeiras retratando suas
soberanias, indicativa do caráter político dessas representações.
Confirmando as hipóteses de que auxiliavam na navegação, trazem sinais
indicativos de bancos de areias e outros acidentes geográficos assim
como podem indicar povos e hábitos que facilitem o contacto dos
comerciantes.
6Questão comum aos estudos medievais a identificação das possíveis fontes
utilizadas por seus produtores, tanto para a Cosmologia que acompanha
alguns exemplares de mapa-múndi Portulano como para o estabelecimento da
construção geométrica Portulano, torna-se bastante complexa devido ao
fenômeno da proliferação de cópias de textos conceituados e produção de
novas análises ocorridos no período, sugerindo aos estudiosos um
processo de generalização destas fontes, como a citação de Isidoro,
fonte genérica de período e tendência de pensamento.
- 4 PUJADES I BATALLER, R.J. (2007): Les cartes portolanes. La representació medieval d´una mar solcada(...)
7Entre
os estudiosos atuais deste gênero cartográfico, sem dúvidas o nome e a
obra de Pujades I Bataller destacam-se, não só pela investigação apurada
e exaustiva de documentos e estudos sobre o tema, como pela riqueza e
cuidado na reprodução dos exemplares remanescentes. Em sua obra maior, Les cartes portolanes. La representació medieval d’um mar solcada4
realiza precioso inventário das diversas leituras que o tema
possibilita, preocupando-se em relacionar essa produção cartográfica com
o desenvolvimento da produção escrita do período, estabelecendo fatos a
partir da evolução escrita das toponímias, que foram sendo traduzidas
ou acrescentadas ao Padrão Portulano no decorrer da implantação e
desenvolvimento do comércio mediterrâneo que, na visão deste estudioso,
encontra-se na base da produção de Mercator e da ciência cartográfica
moderna.
8Neste
artigo procura-se focar a leitura feita por Pujades e as fontes por ele
apontadas como estando na origem dessa produção cartográfica ou,
segundo suas palavras, o como uma representação cartográfica a escala
pode surgir em um ambiente que entendia e representava o mundo de
maneira esquemática e ideológica, como a do Orbis Terrarum e quem teria
dado esse passo tão fundamental para o desenvolvimento do conhecimento
geográfico. Seguiremos o caminho por ele realizado para responder essas
questões e, em seguida, refletir sobre suas fontes e sobre como fontes
podem induzir análises. Comecemos pelo quando e onde que nos parece o
menos polêmico e mais consensual entre os estudiosos.
- 5 Denominava-se Consulado aos entrepostos estabelecidos ao longo das vias de comercio com o objetivo (...)
9Pujades
I Bataller, estabelece uma conexão espaço temporal entre a Igreja
Católica, o comercio, a divulgação do conhecimento escriturário e a
representação espacial e a entende como sendo fruto da substituição das
soberanias islâmicas pelas católicas, ocorrida durante os séculos
XI-XIII em torno da bacia mediterrânea. Como argumento desta relação
entre comercio marítimo e soberanias católicas apresenta o grande número
de Consulados5
comerciais estabelecidos pelos soberanos católicos ao longo da costa
mediterrânea incluindo o Mar Negro, o Mar Vermelho e o Oriente Próximo.
- 6 Carta Pisana: BNF. GE B 1118 RES. http://gallica.bnf.fr/ark. Cortona: Londres, British Library, Cot (...)
10Outros
argumentos significativos encontram-se na evolução da escrita, na
quantidade de toponímias e no aperfeiçoamento do desenho do perfil
mediterrâneo, que observa através da comparação entre as Cartas Pisana,
Cortona, a de Pietro Vesconte e a de Angelino Dulcetti6,
relacionadas a centros produtores existentes nas cidades de Pisa,
Genova, Veneza e Maiorca, nesta sequência temporal de deslocamento dos
centros de produção tanto escriturária como cartográfica ocorrida neste
período.
11Desta
maneira, o quando e onde do surgimento deste gênero cartográfico
estaria relacionado ao comércio, à expansão do poder papal e monárquico,
tendo ocorrido no arco mediterrâneo que compreende as bacias oriental e
ocidental da Península Itálica, entre os séculos XI-XIV, estendendo-se,
em sua segunda fase, entre os séculos XIV-XV, até as Ilhas Baleares,
Maiorca, coincidindo com os centros produtores deste gênero
cartográfico, incluindo o Atlântico, conforme indicam os exemplares
remanescentes.
- 7 PUJADES I BATALLER, R.J. (2007) op.cit., p.303.
12Considerando
que o conhecimento escrito é um privilegio do mundo eclesiástico, que
filtra este conhecimento de acordo com seus interesses, entende que será
produzido de dentro dos mosteiros um novo conhecimento, agora vinculado
à nova realidade exigida pelo comercio nascente. Nas palavras de
Pujades “de dentro do mundo eclesiástico surge uma cartografia mais
realista, vinculada à burguesia cidadã comercial marítimo internacional
que outorga ao mar um papel protagonista, ignorando tudo o que não é mar
ou o litoral que o delimita”.7
13Definido o quando e onde
do padrão Portulano, por ele entendido como Carta náutica Medieval,
Pujades volta nossa atenção para a questão das bases técnicas desta
construção, ou seja, o como e o quem. Como base
técnica contrapõe duas leituras correntes na literatura a respeito: a
possibilidade de ter sido construída baseando-se em uma projeção e a
possibilidade desta construção ter ocorrido utilizando-se do desvio do
eixo magnético, posição defendida por Pujades em resposta ao como
colocado, sendo esta a prova do uso da bussola e ampulheta na
construção e utilização da carta de navegação marítima medieval. Desta
maneira, sugerindo que a primeira questão é descartada pela segunda, não
desenvolve leituras sobre possibilidades de projeção e desenvolve sua
argumentação a partir de variantes da hipótese defendida.
- 8 REY PASTOR, J. e GARCIA CAMARERA, E. (1960): La cartografía Mallorquina. Madrid:CSIC. LANMAN, J.T ( (...)
14A questão do desvio do eixo magnético como método de construção do Padrão Portulano foi proposta em Rey Pastor e Lanman8,
que afirmam que em todas as cartas estudadas anteriores ao século XVII
sempre se podia perceber um desvio do eixo magnético entre 80 e 100
o que, por um lado, demonstraria que os cálculos de latitude não
tiveram importância para a construção e, por outro, que esse desvio é
coincidente com a declinação magnética media da região, revelada pelos
estudos paleomagnéticos realizados para o período, sendo isto prova
determinante do uso da bussola no processo de acumulação de dados,
registrados em livros portulanos e utilizados para a
construção do desenho do mundo conhecido que aparece na cartografia
náutica medieval, argumento também defendido por Pujades.
- 9 NORDENSKOLD, A.E. (1897): Periplus. An Essay of the early history of charts and sailing-directions. (...)
15Outras leituras, como a Woodward (1987), entendem o desvio como um giro voluntário provocado pelos cartógrafos com a intenção de enquadrar no mesmo retângulo de pergaminho Flandres e Inglaterra. Nordenskold9, por outro lado, defende a não necessidade da bussola porque o mesmo resultado poderia ser obtido com a triangulação.
16Ambas as hipóteses são refutadas por Pujades (2007), pois,
muitos anos após a implantação
das cartas graduadas e dos primeiros planisférios com o desvio
corrigido, as cartas Náuticas medievais continuam mantendo o ângulo de
desvio de suas direções, baseadas no uso das bussolas, sendo corrigida
apenas em 1586 por Antonio Millo, após estudos paleomagnéticos
demonstrarem que a declinação magnética havia diminuído 50%.
17Em seu trabalho, no capítulo IV, Pujades relaciona exemplares de cartas parciais nos quais detecta esse desvio aproximado de 40 de latitude no mesmo hemisfério, transformado em 80 ou 100 se transportados para o globo, como o faz Pastor Rey e Lanman.
- 10 JANNI, P. (1984): La mappa e il periplo. Cartografia antica e spazio odologico. Roma: Giorgio Brets (...)
18Pujades
teve o cuidado de apresentar outras leituras, procurando completar as
referências desta produção, começando pelas que retomam suas origens nas
raízes clássicas grego-romanas, apontadas por estudiosos como herança
significativa para a formação do novo padrão, posição vista por Pujades
como certo preconceito em relação à produção ocidental medieval tida
como inferior à da antiguidade clássica. Baseado em estudos como o de
Pietro Janni10,
considera esta contribuição insignificante, pois não restaram
exemplares gráficos dos Itinerários narrativos, base das construções
geográficas de então, que usavam como medidas expressões vagas como dias
de viagem, pés, côvados..., “preferindo a palavra à imagem”, reflexo da
visão do espaço como um “espaço caminho” a ser trilhado no cotidiano de
suas viagens, “um campo de forças com pontos e direções privilegiados”,
que o dilatam ou contraem. O exemplo clássico da produção grego-romana,
a Tábua Peutinger, será por ele usada como argumento para desconsiderar
esta contribuição: roteiros lineares terrestres, que privilegiam pontos
interiores não podem ser apontados como base da cartografia náutica que
o Portulano representa, com sua preocupação central voltada para os
roteiros marítimos, segundo Pujades. Janni (1984) ainda ressalta que
essa cartografia descritiva estaria mais relacionada ao desenho dos
planos territoriais e não a uma visão do que chama de “cartografia
geral”, isto é, uma visão do todo, como a proposta pelo gênero
Portulano.
- 11 In Pujades I Bataller (2007) p.308, apresentando estudos de Kelley, J. E. (1977) que mostra alguns (...)
19Com
argumentos semelhantes, refuta teorias de que esse padrão teria surgido
como uma “colcha de retalhos”, isto é, a partir da sobreposição dos
planos terrestres construídos ao longo da dominação romana sobre e além
do Mar Mediterrâneo. Esta teoria esbarraria em observações simples como o
fato de que essas cartas não podem simplesmente ser sobrepostas, pois
foram construídas com escalas e medidas de suportes diferentes e também
devido à quase inexistência de vestígios deste material, admitindo-se
apenas que possa ter havido incorporações posteriores de esquemas da
região do Mar Morto à região do Mediterrâneo11
e a posterior construção do Atlântico, à medida que o conhecimento vai
se realizando. Para Pujades, estes argumentos só confirmam a teoria de
que o desenho inicial do Mediterrâneo foi feito em uma só peça e que as
zonas periféricas foram adicionadas em momentos posteriores, enquanto se
consolidavam as rotas marítimas.
- 12 PUJADES (2007). op.cit.p.300.
20Refutada
a transmissão direta da herança grego romana sobre a produção
Portulano, outra vertente bastante explorada, a transmissão da herança
alexandrina, materializada nas obras de Ptolomeu que, através das
intervenções bizantinas e islâmicas, adentram o Ocidente a partir do
século IX pelas mãos árabes, também será refutada por Pujades, usando
como argumento principal a ausência de exemplares cartográficos
originais escritos em árabe, ainda que considere inegável que esta
transmissão tenha ocorrido. O mais antigo exemplar conhecido assinado
por mãos árabes é do ano de 1413, portanto bem posterior à Carta Pisana
(ca.1275). Comparando exemplares cuja autoria poderia ser atribuída às
mãos árabes, como a Carta Magrebina, através das toponímias e evolução
das linhas costeiras do mediterrâneo, vai pontuando e demonstrando uma
anterioridade de vocábulos e desenhos pré-existente nas cartas de
“padrão cristão”.12.
21Outro
argumento usado foi a noticia de que, em 1484, os sarracenos magrebinos
possuíam muitas cartas de navegar maiorquinas e venezianas compradas
desses centros produtores e
se em datas tão tardias os
muçulmanos do norte da África ainda compram muitas cartas latinas, é
difícil aceitar que nos portos do norte da África alguém tenha
desenvolvido uma cartografia náutica comparável com a produzida no norte
cristão. (p.300)
22Refuta
a produção de Al- Idrisi, o cartógrafo árabe erudito, considerando que
sua produção apresenta uma distancia abismal das Cartas Pisana e de
Cortona, não só do ponto de vista da aparência, mas também conceitual
materializada na questão do desvio latitudinal do eixo mediterrâneo.
Completando sua linha de raciocínio quanto à participação árabe nesta
produção, conclui que
- 13 PUJADES (2007). Op.cit.p..301.
por essa razão não se
encontram cartas náuticas anteriores ao século XII, somente após,
justamente quando o Mediterrâneo deixa, definitivamente, de ser um mar
muçulmano e passa, progressivamente a estar sob o domínio cristão. 13
23A
contribuição árabe exaltada, na área da Matemática, será o número zero,
os números arábicos e a base decimal usada na construção da escala em
milhas, característica das Cartas Portulano, fato este também usado como
argumento afirmativo das origens eclesiástica e espaciais das Cartas
náuticas Medievais, pois, Pujades aponta Leonardo Fibonacci e seu Liber Abacci,
dedicado a W. Scott, como responsáveis pela simplificação e divulgação
da importante evolução matemática ocorrida no período. Leonardo
Fibonacci foi filho de um escrivão pisano que se desloca para Bugia,
para iniciar o filho na arte da matemática, com certeza atento às
mudanças na área mediterrânea, particularmente na região Toscana. O
desenvolvimento da Geometria, facilitado pelos números arábicos, teria
permitido o aperfeiçoamento da divisão da esfera em 32 ventos.
- 14 Londres, British Library, Cotton ms. Tiberius BV, f. 56v in PUJADES (2007):.303.
24Retomando, então, a linha do “como”
o padrão Portulano teria surgido no Ocidente cristão, recupera a ideia
de que o conhecimento escrito passava pelo filtro de uma Igreja que não
tinha entre suas preocupações centrais a cartografia realista,
contentando-se e exaltando a tradição orosiana e macrobiana de produção
Orbis Terrarum, em sua maioria, simples esquemas geométricos, baseados
em Etimologias de Isidoro, considerando as três porções de
terra conhecidas como heranças de Noé e, em alguns, as zonas climáticas.
Como uma proposta um pouco mais elaborada deste esquema, ainda que “sem
ser um mapa verdadeiro, por não possuir escala” aponta o mapa
anglo-saxão (s. X) 14,
por seus autores conseguirem uma representação mais detalhada da
geomorfologia litoral dos diferentes territórios incluídos,
constituindo-se este o legado cartográfico produzido na Europa ocidental
até o século XI. Seria este mapa a materialização da junção da herança
latina simbolizada na figura de Isidoro e as referências bíblicas na
partilha da Terra, com o roteiro terrestre romano e a proposta de
visualização do Todo, da universalização cristã, no caso dos Orbis
Terrarum.
25E, de dentro destas referências,
dentro das esferas do saber
eclesiástico, trancado por trás dos muros das grandes instituições
religiosas e transmitidas indefectivelmente em uma versão mais ou menos
corrompida da língua dos textos divinos, já se encontram as primeiras
evidências da existência de outra cartografia, incomparavelmente mais
realista.15
26movimentando-se
em razão de um “novo ambiente, ambiente laico em sua natureza,
econômico em sua finalidade e vulgar em seu linguajar, o ambiente da
burguesia cidadã, novamente alfabetizada, vinculada ao comércio marítimo
internacional e a cristandade”.
27Por
isso, a nova cartografia passa a valorizar o mar como espaço
prioritário para a mobilidade comercial, definindo o litoral que o
delimita. Nessa mobilidade, as bases da cartografia náutica medieval,
pois, “entre a segunda metade do século X e o primeiro terço do século
XI”, ocorreram encontros entre estes protagonistas, em diferentes zonas
da Europa Ocidental cristã, tornando-se o norte da Itália ponto de
inflexão desta tendência sócio econômico secular que vai se
aperfeiçoando a partir de “combinações de fatores facilitadores e
estimuladores do nascimento da cartografia náutica medieval” (idem).
28Como
não foi encontrada documentação que comprove o uso de instrumentos
astronômicos, como o quadrante ou outros pelos patrões e piloto das
embarcações, estando apenas registrados inúmeros usos de pequenas
ampulhetas de meia hora de tempo e bussolas para determinar localização
espacial dos navios, para Pujades, não restam dúvidas que essa foi a
técnica base da construção Portulano, sendo, portanto, as cartas
náuticas resultado direto do uso da agulha imantada na navegação
ocidental medieval, produzindo, a partir do refinamento das distâncias e
direções, aperfeiçoamento na localização dos pontos geográficos, melhor
definição da linha costeira com seus acidentes geográficos e culturais.
A repetição continua das viagens e das marcações de tempo produziram
uma quantidade de dados bastante confiáveis, mas que necessitavam da
correção das bussolas para manter-se na mesma direção, motivo do
constante aperfeiçoamento das Rosas dos Ventos, manifesto na precisão
das 32 direções, possibilitando substituir os retos angulares das
triangulações pelos detalhes específicos do litoral desenhado, anulando
os argumentos de Nordenskold.
29Pujades
I Bataller conclui então que, a combinação dos dois princípios básicos
do Portulano, ou seja, escala e o sistema preciso de orientação por
direções, mesmo sem o conhecimento das coordenadas geográficas locais
determinadas por cálculos astronômicos, permitiria realizar, apenas com o
uso da bussola e do tempo da ampulheta um desenho realista de uma
extensa área que não é perceptível de maneira global e direta pelos
nossos sentidos.
- 16 NOGUEIRA. M.G. (20013) op. Cit. O Manuscrito Espagnol 30 e a Família do judeu Cresques Abraham.
30Aqui
cabe uma explicação quanto à terminologia utilizada e os dois conceitos
que correm paralelos na discussão proposta por Pujades. A junção da Carta Náutica,
baseada em rumos, com a precisão na escrituração dos dados relativos
aos deslocamentos, como tempo e direção, são a base do que Pujades
denomina de Carta Náutica Medieval e outros entendem como gênero
cartográfico Portulano. Essa denominação do gênero decorre da
denominação dada aos livros em que os dados eram registrados, os Livros de Bordo, normalmente conhecidos como Portulanos, ou Livros de Derrota,
pois neles eram assinalados todos os acidentes da viagem, de porto a
porto, com referências que procuram a universalidade de uma linguagem
para que dimensões, distâncias e localizações sejam entendidas por
todos. Pujades trabalha com o conceito Carta náutica Medieval como sendo
a Carta produzida como resultado dos ajustes geográficos possíveis a
partir do tipo de escrituração feita nestes livros. Outros autores
preferem a denominação de Carta Portulano, afirmando a existência de um
gênero cartográfico medieval, o Portulano, usado em cartas simples ou
Mapas-múndi.16
31Chegamos
às fontes do estudo de Pujades. Estes livros portulanos não teriam sido
construídos de uma hora para outra pelos marinheiros. Segundo Pujades
foram feitos por eruditos que sabiam manejar instrumentos de medições
astronômicas e tinham habilidades e conhecimentos suficientes para
registra-los de maneira coerente e limpa em superfícies de pergaminho ou
papel de panos, durante as constantes viagens que acompanhavam pelo
Mediterrâneo. Dessa maneira, a questão passa a ser quem e como teria
transformado os dados observados e organizados em um desenho da Terra
conhecida com alto grau de credibilidade científica, ou seja, o que
entendemos por padrão cartográfico Portulano.
- 17 Liber Existencia Rivierum Nostre Mediterrânea. Londres, British Library, Cotton Domitianus XIII. f. (...)
- 18 Estudado por Motzo, B.R. (1947) Campbell discorda da validade destes dados, pois não são completos (...)
32São dois os Livros Portulano a que Pujades se referencia em seus estudos: o Liber Existencia Rivierum Nostre Mediterrânea,17 datado entre fins do XII e começo do XIII, principal base de suas conclusões e o Compasso de Navegar,18 outro famoso livro portulano da metade do século XIII, a respeito do qual Lenman defende que apenas com seus dados se poderiam construir um protótipo no mesmo estilo da Carta Pisana.
- 19 Pujades (2007) op.cit. pg.310
33O
tempo que separa um Livro Portulano do outro é em torno de meio século e
mais meio século para o surgimento do que é considerado o exemplar
cartográfico Portulano mais antigo, a Carta Pisana. O Liber, que informa em seu prólogo que portava um mapa-múndi, hoje perdido, considerado por Gautier Dalché19
como o primeiro esboço cartográfico Portulano, foi organizado em forma
de índice, que começa e termina no estreito de Gibraltar, dividindo as
costas do Mediterrâneo por setores ou rios, descrevendo o litoral com
detalhes e acidentes geográficos e, em outra lista, uma sucessão de
portos com distância em milhas. O Compasso de Navegare, com uma organização parecida, após explorar o Mediterrâneo, expressa a intenção de explorar o Mar Negro, denominado Mare Maiore de Romania.
- 20 “S’hi mostren raonablement la longitud, l’amplària i l’estreta distancia entre les dues bandes de l (...)
34A
partir destas fontes e sempre se referenciando à grafia das toponímias,
Pujades vai indicando evoluções no desenho da Terra, que confirmariam
sua hipótese de que o desenho do Mediterrâneo foi feito de uma só vez,
que o Mar Negro e o Atlântico foram sendo acrescentado na medida em que a
cristandade avança em seu controle sobre o comercio e que o desenho do
litoral e dos acidentes geográficos foram sendo aperfeiçoados na medida
em que foram sendo intensificadas as viagens marítimas. Sem dúvidas, as
reproduções que apresenta destes quatro exemplares, torna evidente o
aperfeiçoamento realizado no desenho do mundo, principalmente se
comparados os dois primeiros exemplares com o último, produzido em
Maiorca e entregue à comunidade judaica local para sua reprodução,
conforme Pujades, que com isso reafirma sua hipótese de construção do
Mapa-múndi Portulano de uma só vez, dentro de um ambiente eclesiástico,
pois o Liber foi construído com a supervisão de um cônego, no arco norte
italiano (Toscana) e aperfeiçoado ao longo das viagens por eruditos e
indica em seu prólogo a nova técnica de se orientar por direções e
quartos de vento.20
35Ainda
que se apresente de maneira bastante coerente, a teoria de Pujades a
respeito de uma evolução do Padrão Portulano a partir da constatação de
uma evolução toponímica e das anotações e correções feitas com a
utilização da bussola e compasso durante as inúmeras viagens marítimas
mediterrâneas, o processo de transformação destes dados em uma
cartografia de base precisa da bacia mediterrânea não nos parece
evidente se nos ativermos apenas à questão do desvio magnético, pois
esta teoria, ainda que revele coerência quanto ao aperfeiçoamento do
desenho litoral não explica o como se daria o enquadramento da esfera
terrestre dentro da esfera geométrica de 3600, que a
construção matemática da representação Portulano indica, uma vez que não
se pode considerar a existência formal de uma projeção científica. Ao
refutar o enquadramento ptolomaico da Terra, pois apresenta grandes
diferenças em relação ao Portulano, não desenvolve alternativas para
esta questão tão fundamental para a Cartografia.
36Neste
sentido, para se aprofundar na questão da construção da carta base
Portulano torna-se necessário um aprofundar-se na questão do
conhecimento técnico científico necessário para tanto, o que será feito a
partir das fontes encontradas entre os produtores destes exemplares na
cidade de Maiorca. A produção deste gênero cartográfico em Maiorca,
ainda que pequena em exemplares remanescentes, pelo conjunto da
documentação encontrada em relação a seus produtores, tornou-se
extremamente significativa dentro do contexto da discussão de origens e
fontes deste gênero cartográfico. A partir do exemplar conhecido como
Manuscrito Espagnol 30 (ou Atlas Catalão), que por sua beleza e riqueza
de materiais tem sido considerado como carro chefe da produção
maiorquina, pode-se reconstruir o ambiente de produção ocorrido na Ilha e
encontrou-se uma comunidade produtora atuante em vários ramos do
conhecimento, sugerindo novos dados a análise apresentada por Pujades.
37A
Ilha de Maiorca, devido a sua localização geográfica, sempre teve
importância para o comercio e deslocamento mediterrâneo e passou por
sucessivas soberanias ao longo da História. Durante os séculos VIII e X,
desfrutou de certa independência política e administrativa, sob a
proteção dos francos, até o ano 903 quando ocorre sua incorporação ao
mundo islâmico, após uma rápida conquista que somente encontrou
resistência de poucos nativos ao redor de alguns castelos. A partir de
então, o arquipélago passa a ser conhecido como “ilhas orientais do
Al-Andalus”. Depois de uma etapa de esplendor, a soberania islâmica
entra em crise desmembrando-se em pequenos reinos e taifas. Entre os
séculos X e XIII, Medina Mayûrca torna-se centro do intercâmbio
entre Oriente e Ocidente, entre os mundos islâmico e cristão, com um
importante centro de estudos da legislação islâmica, com forte
intercâmbio cultural com Valência e Córdoba. Está documentada, desde o
século X, a existência de uma antiga comunidade judaica, parceira dos
francos, que continua atuante durante os governos islâmicos e torna-se
parceira na expansão da aliança catalã aragonesa.
38Aragão,
desde finais do século XII, na figura do rei Afonso, ambiciona
participar da expansão comercial que vem ocorrendo, estabelecer
Consulados e conquistar territórios. Aliando-se ao Condado da Catalunha
(Barcelona), continua processo para fortalecimento e expansão militar,
conquistando ao longo dos séculos XIII, as cidades de Sicília, Valência,
Ilhas Baleares, cidades além Pirineus como Montpellier, Roussillon,
Cerdanha, Provença avançando em direção à Sardenha (1321), travando
guerra por Genova (1327/27) e envolvendo-se em conflitos por Granada e
Marrocos e chegando às Canárias.
- 21 FALL Y.K. (1982): L`Afrique à la naissance de la cartographie moderne. Les cartes majorquines: XIV- (...)
39Cresques
Abraham, apontado pelos documentos como o autor do Ms.Espagnol 30
(Atlas Catalão), consta como pertencente ao grupo judaico expulso da
França no começo do século XIV e, em deslocamentos sucessivos, de Paris
teriam ido à Perpignam, de lá para Provença e Maiorca, sempre
relacionados à escriturária, iluminuras e comercio de material
escriturário. Seu filho Jafuda é apresentado como matemático, pai e tios
estão relacionados a Sinagogas, são rabinos, secretários, comerciantes
além de familiares reais. Têm como vizinhos latoeiros, produtores de
couro, de pigmentos, de panos, comerciantes de livros, papeis,
pergaminhos e copistas de textos, além de físicos, matemáticos,
astrônomos e juristas. A família de Cresques Abraham é tida também como
ilustradores de bussolas que seriam produzidas na Ilha. Segundo Fall21,
a lei de Aragão, impondo a obrigatoriedade de todos os navios
carregarem duas Cartas Portulano, foi uma forma de retribuição ao
auxilio recebido desta comunidade para sua expansão. Pujades detecta a
produção de mais de dois mil “kits” de navegação, com duas Cartas
Portulano, bussola e compasso de navegar, para que os marinheiros se
orientassem pelos rumos, marcando as distâncias percorridas.
- 22 Boletín de la Sociedad Arqueológica Luliana, (BSAL) X pp. 80-91, 106-112, 140-151 y 196bis. Reprodu (...)
40A pesquisa sobre a Família de Cresques Abraham revelou precioso Inventário22
com mais de 60 títulos de livros, de Leon Mosconis, comerciante oriundo
de Okrida, na Turquia e que chegou à cidade de Maiorca mais ou menos na
mesma época que Angelino Dulcetti teria levado para lá o protótipo da
Carta Portulano. Além deste fato, este inventário revela que, nas
décadas de 1330/40 havia um grupo de pensadores relendo, copiando e
produzindo novas teorias sobre textos de pensadores dos séculos XII e
XIII que discutiam, entre outros assuntos, as inovações científicas
alcançadas neste período nas áreas de Geometria, Trigonometria,
Astronomias, Matemática e Geografia.
41Entre
os livros correntes na comunidade judaica relacionados no Inventário,
encontram-se Tratados sobre Astronomia e Astrolábio de Ezra, Tratado do
Calendário e Tratado sobre a forma da Terra de Abraham bar Hyya, além do
Almagesto de Ptolomeu e outros nesta linha de conhecimento técnico
científico medieval, não constando nenhum escritor que pudesse,
diretamente, estar relacionado à Patrística ou ao mundo da Igreja, ainda
que possa haver coincidência de textos entre estes autores e autores
relacionados à Patrística, pois alguns destes autores judeus do século
XII aparecem como tradutores ou co-tradutores dos textos que adentraram
na Europa Ocidental, traduções muitas vezes feitas em conjunto com
pensadores cristãos e islâmicos. Como compradores do Tratado de
Astronomia e Astrolábio de Ibn Ezra e o Tratado sobre a Forma da Terra
de Abraham bar Hyya, aparecem Cresques Abraham e seu filho Jafuda
Cresques.
- 23 MILLAS VALLICROSA, J.M. (1947) El Libro de los Fundamentos de las Tablas Astronómicas de R.Abraham (...)
42Pode-se
inferir, a partir dos textos encontrados em poder da comunidade
produtora dos exemplares Portulano em Maiorca, que a produção do
“protótipo” base extrapolou os muros eclesiásticos e abarcou, além dos
estudiosos cristãos, todo o esforço de uma comunidade de sábios
envolvidos com o “verdadeiro conhecimento sobre a criação” e que os
instrumentos astronômicos como o Astrolábio e o quadrante tiveram tanta
ou mais importância do que a bussola e o compasso para a construção do
padrão Portulano, aqui entendido como a forma de localização da esfera
terrestre a partir de referenciais celestes. Dado o caráter restrito
deste artigo, examinaremos apenas a produção de Ibn Ezra23, O Tratado de Astronomia, em poder de Cresques Abraham para reforçar nossa teoria.
43O
mais interessante no texto de Ibn Ezra parece-nos ser a busca de
referenciais comuns que possibilitem o diálogo entre os diversos
personagens envolvidos na busca da representação do todo, pois o texto
se constitui em uma longa comparação de dados obtidos ao longo dos
séculos por pesquisadores e se desdobra em comparações entre os métodos
conhecidos para a divisão da esfera, desde os hindus passando pelos
egípcios, gregos e chegando à Casa da Sabedoria de Bagdá, onde os
mestres em geometria procuram estabelecer regras matemáticas para esse
conhecimento. E, como a maioria dos estudiosos deste período (s.XII),
entende que a existência de relações entre as esferas que compõem o
todo, ou seja, a relação ente as esferas celestes e terrestres passam,
necessariamente, por um conhecimento sobre a Astronomia, a Matemática e a
Geografia e, neste sentido, sua busca de síntese inicia-se pelas
principais questões levantadas pela Astronomia, que por sua vez, são as
questões necessárias para a Geografia estabelecer a localização do plano
no globo terrestre: o caminho do Sol, da Lua, dos Planetas e das
diversas relações que esses movimentos permitem aferir como os ventos,
climas, mares, plantações, calendários, animais e condições de vida para
os humanos, o que, de certa maneira, questiona o caráter puramente
náutico da representação Portulano.
- 24 SAMSÓ MOYA, J. (2008) “Una concepción de l’Univers”. GIRALTS I RADIGALES, J. (diretor editorial) (2 (...)
44Em
seu texto, no qual relaciona e descreve as funções de vários
personagens envolvidos neste processo, Ibn Ezra chama aos mestres árabes
de mestres probationorum (que aparecem também como autores sarracenos),
aqueles que comprovam que os dados obtidos abstratamente, pelas
reduções matemáticas, tem referencias na realidade, sendo necessário que
se confiram as Tábuas Astronômicas que foram sendo construídas ao longo
deste o antigo Egito e que torna-se prática indispensável ao redor da
bacia mediterrânea ao longo dos séculos X-XV. Na verdade o que buscam,
além do realismo na representação cartográfica é a determinação da
latitude e longitude a partir dos cálculos matemáticos e a sua
facilitação para leitura dos leigos na trama de linhas criada sobre a
Carta Portulano. Para tanto, Ibn Ezra confere todos os dados recebidos
desde a Antiguidade e conclui que, sendo o objeto estudado (a
Criação) um todo único, diferenças de leituras e medidas só podem ser
frutos de referenciais diversos e instrumentos imperfeitos, apontando
como necessidade para um bom desenho da Terra a uniformização destes
dados e o aperfeiçoamento dos meios de mensuração. Aponta esses erros e
necessidades, mas não refuta a metodologia ptolomaica de se apoiar no
referencial da eclíptica para a localização terrestre. O instrumento
mencionado como fundamental no texto de Ibn Ezra será o Astrolábio e o
texto Tratado de Planificação de Ptolomeu. Samsó Moya24 aponta o Astrolábio como base para a construção do Calendário Lunisolar constante do Manuscrito Espagnol 30 (Atlas Catalão).
45Ibn Ezra menciona ainda os Magistri Imagynun, relacionados aos antigos caldeus, aqueles que, a partir das verificações feitas pelos mestres probationorum, teriam a função de localizar os
pontos observados na quadrícula ptolomaica e que, segundo Ibn Ezra,
teriam apontado a eclíptica para o Mediterrâneo como a melhor forma de
localização para os pontos terrestres. O texto de Ezra se prolonga
discutindo as diferenças de medidas quanto aos principais acidentes
astronômicos, como posição do auge solar, movimentos dos planetas, das
estrelas fixas, do valor da equação solar, lunar e outras questões que,
segundo eles permitiriam aperfeiçoar a planificação da esfera terrestre.
46Dessa
maneira, o Inventário encontrado em Maiorca, pelas fontes que apresenta
em poder da comunidade maiorquina, de certa maneira, revela que, ainda
que o padrão cartográfico Portulano possa ter sido aperfeiçoado ao longo
dos séculos, a produção de seu protótipo, que Pujades aponta como sendo
produzida de uma só vez, não pode ser respondido apenas pelo processo
de aperfeiçoamento.
47Ainda
que a verificação dos pontos geográficos possa ter sido aperfeiçoada, o
estabelecimento da localização da terra conhecida, com medidas de
longitude estabelecidas pela escala (que implica numa medida da Terra,
algumas vezes estabelecidas na Cosmologia constante dos Atlas
Portulano), a “Cartografia Geral”, como aponta Janni (1984), dentro de
uma esfera de 3600, exige conhecimentos que extrapolam a
simples observação e implicam em fontes relacionadas à discussão da
projeção ou construção matemática deste padrão, que aqui entendida como
Fontes Técnicas, pois, teoricamente uma Carta Geográfica Técnica é
construída a partir de três referencias de localização, basicamente
empregando a técnica topográfica. Para este tipo de construção é
fundamental partir-se de uma cobertura exaustiva do plano considerado.
Como a preocupação central de uma representação cartográfica é responder
a questão da localização exata do ponto a ser representado, este pode
ser conseguido determinando cada ponto sucessivamente, a partir de um
ponto de origem conhecido ou determinando seu lugar numa rede coerente
de coordenadas.
48A
preocupação com a forma exata da Terra, de certa maneira, esteve ausente
do Ocidente durante o longo período de afirmação da teologia católica
em relação, primeiro à teologia judaica e, posteriormente à teologia
islâmica, ficando famosa a frase de Santo Ambrósio: “As discussões sobre
a natureza e a posição da Terra não nos ajudam a esperar a vida futura”
e a defesa dos OTs. como representação da cosmologia cristã.
49A representação Portulano surgiu durante o século XIII, em um momento que a matematização das
relações passa a ocupar o cotidiano da Europa Ocidental. Se pensarmos o
Portulano como uma construção matemática, com o emprego de dados
topográficos numa rede coerente de referências, pode-se considerar longa
a lista de conhecimentos e instrumentos possuídos por seus
construtores. Provavelmente, todas as indicações de fontes apontadas por
seus estudiosos são compatíveis com o resultado obtido. Tinham em suas
mãos os antigos registros de estrelas e estudos babilônicos e egípcios a
respeito das coordenadas celestes e suas projeções sobre a Terra, os
estudos de Euclides a respeito da esfera e de sua geometria; os estudos
de Anaximandro, de Mileto que, no século VI a.C, construiu quadrículas
universais de referência, divididas em estádios (medida grega) para
transposição dos pontos celestes conhecidos, herdados de Homero, quando
de suas viagens orientais; Dicearco, que no século IV A.C., constrói um
mapa apoiado em dois eixos, um dos quais, o “diafragma” estendido de
leste à oeste, de Rodes à Coluna de Hercules (Estreito de Gibraltar) e o
outro, perpendicular, o Meridiano central, que também passava por
Rodes, seu provável ponto de observação. No século III a.C., Erastótenes
aperfeiçoa o sistema acrescentando aos dois eixos de Dicearco outras
linhas perpendiculares que formavam uma rede retangular passando por
lugares conhecidos. No século II a.C, Hiparco, também em Rodes,
defendendo a esfericidade da Terra, une a geometria com a geografia,
cobrindo uma circunferência de 360 graus com uma rede de paralelos e
meridianos equidistantes, criando a primeira quadrícula para mapas
planos em coordenadas retangulares, trabalhando com noções de latitudes e
longitudes a partir de observações astronômicas, estabelecendo um
sistema geográfico para determinação de pontos.
50No
século II d.C., o alexandrino Ptolomeu, cujos textos chegam ao ocidente
com a expansão islâmica, condensa, organiza e aperfeiçoa o sistema de
coordenadas terrestres, alertando para a necessidade de medidas mais
rigorosas para o estabelecimento dos pontos geográficos, pois se “um
grau não faz diferença nas medidas celestes, pode ser fatal em relação à
Terra”. Além de sua famosa Geografia, em oito volumes nos
quais ensina os princípios da Cartografia matemática, das projeções e
métodos de observação, Ptolomeu, que questiona os métodos de conversão
empregados por Marino que reduz dias de caminhada por léguas, propõe o
cálculo das distâncias e tempo através de ângulos e graus obtidos com
medições astronômicas que ensina em seus tratados de construção e
utilização de astrolábios e na confecção de tábuas astronômicas com
dados atualizados de latitudes e longitudes dos pontos terrestres
observados desde os antigos babilônicos.
51Uma
construção deste tipo, baseada na lógica matemática, relacionando as
casas zodiacais com zonas climáticas e transferências de ângulos e graus
obtidos pela triangulação proposta pela trigonometria esférica, por
mais exata que esteja construída, matematicamente falando, dependem da
exatidão na determinação de latitudes e longitudes da multiplicidade de
pontos levantados a partir de observações astronômicas. Para isso são
necessários instrumentos mais precisos, muitas viagens e uma grande
evolução nas formulas e cálculos matemáticos para que se tornasse viável
a conversão de graus em distância e tempo terrestre de maneira prática e
rápida, sendo útil em viagens, tornando possível, mesmo em noites
escuras, localizar-se no espaço, se souber realizar essa conversão.
52O
Tratado de Planificação do Astrolábio Celeste, de Ptolomeu, será um dos
títulos mais editados na Idade Média, pois oferece uma metodologia para a
projeção das coordenadas terrestres a partir das coordenadas celestes.
Nele Ptolomeu atualizou e registrou mais de mil astros, todas com suas
coordenadas correspondentes celestes e terrestres, procurando
uniformizar medidas como dias de viagem, passos e outras referências
usuais ao corpo humano. Por isso propõe a planificação do astrolábio,
para trabalhar medidas terrestres com ângulos e graus e fugir da
subjetividade das medidas de então.
53Ptolomeu
desenhou uma linha da eclíptica solar com a qual, observando de
Alexandria, propõe o desenho de um mapa-múndi, localizando os pontos
conhecidos na grade de latitude e longitude estabelecida a partir das
observações que permitiram a construção da linha eclíptica, base para a
localização dos pontos geográficos. Essa proposta de construção
cartográfica de Ptolomeu só chegou à Idade Média através de textos e um
desenho, realizado por Idrisi, a partir de suas instruções, quando de
seu trabalho em Sicilia para o Rei Roger II. Idrisi, apesar de
desconsiderado como base pelos estudiosos do gênero Portulano, tem papel
de destaque na História da Cartografia por, em sua Geografia, desenhar
um mapa-múndi a partir das coordenadas e tábuas de lugares herdados de
Ptolomeu. Nos desenhos de Idrisi temos uma representação do Mediterrâneo
estudada e apresentada por Ibn Kaldun em seus Prolegômenos (início
século XIV), no qual apresenta a visão cosmológica dos islâmicos e
reproduz os mapas de Idrisi, aperfeiçoando-os com os conhecimentos de
então. Não podemos esquecer que, se Idrisi estava na Sicilia sob tutela
dos islâmicos, aliados a Roger II, Ibn Kaldum encontra-se na mesma
Sicilia, agora sob comando de Aragão. A Cartografia de Idrisi,
acompanhando os dados de Ptolomeu, apresenta um Mediterrâneo mais
imperfeito do que o desenhado no Portulano, como aponta Pujades e os
estudiosos que refutam a influência árabe neste processo, mas esta já
apresenta uma visão do todo construída pela Matemática e sua área de
conhecimentos, que apontam para a importância da localização mais
precisa do plano terrestre dentro da esfera celeste, construída
justamente pela divulgação de antigos textos técnicos na Europa
Ocidental, valorizando a função da Eclíptica neste processo.
54Mas,
como essas informações entraram no Ocidente e se transformaram no
Portulano, sendo que no Ocidente essas observações práticas foram
subestimadas em função de uma ordem ideológica maiorɁ
55Sem
dúvidas, as respostas serão encontradas no longo processo de
transmissão de conhecimentos ocorrido com a expansão islâmica aliada ao
processo de definições teológicas e litúrgicas ocorrido entre cristãos e
hebreus, desde a antiga Bizâncio romana. Os conflitos religiosos
ocorridos durante os séculos V e VI, o fim da Academia Platônica de
Atenas, em 529, por determinação de Justiniano, onde estudiosos se
preocupavam em interpretar o Gênesis a partir dos novos olhares técnicos
trazidos pelos textos platônicos, principalmente o Timeu, interrompem a
leitura conjunta, ocasionando o êxodo de estudiosos para a Pérsia, em
Jundishapur, importante centro de tradução de textos gregos clássicos,
tanto para o persa, como para o hebreu e o árabe, aproximados após os
conflitos com os cristãos. Como todo centro de tradução, em Jundishapur
também desenvolve um centro produtor de materiais escriturários,
observações cósmicas e produção de instrumentos de leitura celeste.
56Sob a tutela do Califa Al Mamum (786-833), também soberano em Córdoba, desenvolveu-se, em Bagdá, a Casa da Sabedoria,
com o objetivo de buscar novos textos antigos e sua tradução para o
árabe, com um observatório para atualização dos dados trazidos por
Ptolomeu. Os estudiosos de várias partes para lá se dirigiram. Os textos
traduzidos em Jundishapur foram comentados e novas teorias acrescidas.
Sendo uma boa parte destes textos relativos à Astronomia e suas
aplicações, árabes e judeus trabalharam na atualização dos dados
recebidos e no aperfeiçoamento técnico dos instrumentos necessários para
essas atualizações a partir de observações reais, precisando os dados
médios recebidos de Ptolomeu e seus seguidores.
57Em
seu Livro sobre as Origens das Nações, o Cadi Sa’id, de Toledo, conta
que, em 772, Al Mansur recebe em seu palácio um homem vindo da Índia,
trazendo manuscritos das teorias de Sin Hind, importante astrônomo
hindu, um Tratado relativo ao Movimento das Estrelas, traduzido ao árabe
por Al-Fazari, com o nome de Al-Sindhind al- Kabir, acrescentando ao
conhecimento árabe os números hindus e a base decimal. Essa será base da
teoria desenvolvida por Al Zwarizmi, que resume e acrescenta dados à
Astronomia persa e hindu referente à declinação dos planetas iniciando
uma serie de Tábuas construídas para estabelecer uma nova eclíptica,
pois os erros da ptolomaica tinham que ser superados. Na mesma época,
Abu Ma’shar recalcula os movimentos de aproximação e afastamento do Sol
em relação a Terra, estabelecendo uma nova eclíptica sobre a faixa do
Mediterrâneo.
58Procurando
aplicar esse viés na tentativa de entender o padrão Portulano, ou seja,
o estabelecimento da eclíptica como base para a localização de pontos
no plano desenhado, no caso, o Mediterrâneo e seu em torno, procurou-se
observar esse processo a partir de alguns exemplares medievais que,
ainda que não possam ser considerados Portulano, apresentam uma
preocupação com as medidas desta representação e sua equivalência com o
real, destoando da divisão tripartite até então proposta, destacando
aqui o Liber Floridus.
- 25 COENE, K.; MAYER, P., REU, M. (2011). Liber Floridus 1121: The World in a Book. Ghent City Museum. (...)
59Em 1121, o monge Lambert, em um mosteiro na Irlanda, produziu o Liber Floridus25,
no qual, além de reproduzir textos antigos sobre a cosmovisão cristã,
apresenta uma nova proposta de construção cartográfica, baseada em uma
nova linha da eclíptica sobre a faixa mediterrânea. A eclíptica é uma
linha que se pode construir a partir da observação dos eclipses entre
Lua e Sol no decorrer do ano solar. A história da construção dessa linha
se confunde com a história da astronomia, da geometria e da geografia
que evoluem na mesma medida em que evolui o conhecimento humano sobre o
espaço que ocupa e o espaço ocupado pela Terra.
60De
inicio incerto entre babilônicos, hindus e egípcios, sua evolução está
relacionado à evolução do gnomom, uma vara fincada na Terra e as marcas
que a sombra do Sol produz, ao longo de seu deslocamento do ponto onde
se mostra ao observador pela primeira vez no dia até o momento em que
desaparece na direção oposto ao seu surgimento. Esse movimento diário e
as observações realizadas a partir dele são base do mapeamento celeste,
pois, considerando estes pontos de sombra terrestres se inicia uma
organização dos astros celestes em casas construídas pelo movimento
solar, permitindo o estabelecimento de noções temporais, como ano solar,
dia, estações, enquanto que a observação do luzeiro menor, a Lua,
também revela uma dinâmica mensurável, permitindo noções de semanas e
meses e noções espaciais na medida em que se estabelecem relações
geométricas entre as duas esferas. Não se pode esquecer a noção
aristotélica que baseia essa leitura: Terra redonda, fixa no centro de
um Cosmos também finito e esférico.
61O
que nos interessa de imediato é a relação entre a localização das
coordenadas celestes e suas correspondentes terrestres estabelecidas
como uma projeção dos pontos celestes, permitindo a evolução da
trigonometria e da astronomia de localização. Ainda que a tradição da
observação e registros dos dados tenha se iniciado na porção mais
oriental da Terra, sua transformação em dados abstratos aplicáveis a
qualquer situação ocorre entre os gregos, que, ao abstraírem a Terra
real e instituírem um modelo esférico dentro da medida 3600
graus, facilita divisões astronômicas, fruto de complicados cálculos,
como encaixar o ano solar em divisões exatas de dias e meses. Problema
que terá diferentes soluções apresentadas pelos povos envolvidos no
processo, como a fixação das datas comemorativas em dias fixos da semana
ou a manutenção da comemoração conforme o ano solar, encaixar um dia a
mais a cada 04 anos ou criar meses com mais dias, por exemplo. No
Universo medieval, as possibilidades de soluções surgidas para resolver
os problemas que o Movimento dos Astros em relação ao ano solar,
planetas e plano terrestre se multiplica na proporção em que os antigos
textos persas, gregos, alexandrinos, árabes, hebreus e poderíamos
remontar inclusive aos egípcios e babilônicos vão sendo copiados,
comentados e corrigidos pelos sábios na Europa Ocidental.
62Mas,
voltando à eclíptica, a disseminação da medida graus e o
estabelecimento do padrão 360 graus para o espaço ocupado pelo Homem, às
vezes entendido como o Cosmos, às vezes como o planeta e às vezes como o
plano desenhado, irá facilitar os cálculos quando do estabelecimento
dos critérios para a projeção das coordenadas celestes na esfera
terrestre.
63A
ideia aristotélica, tão adotada por toda Idade Média, de sua fixidez no
centro de um universo finito, contribui para a compreensão do esquema
que movimentava o Cosmos e suas implicações nos movimentos da Terra e,
ao mesmo tempo, revela sua limitação. O meridiano do observador, daquele
que constrói a carta, é o que ira determinar o Norte. A partir do
exercício de observação do gnomo e da altura da sombra formada ao longo
do movimento diário do Sol, forma-se uma linha, quase um semicírculo,
construído com o eixo do compasso no local do gnomo e seu raio na marca
da primeira sombra do dia, o ponto A, formando um circulo e, como final
da linha de sombra, no fim do dia, o ponto B, desenhando no circulo, a
linha do horizonte a partir do local observado.
64Como
essa linha na verdade é desenhada de cima para baixo, pois seu executor
esta na esfera celeste, o ponto do observador está colocado no zênite,
oposto ao ponto de eixo do gnomom, obtido cruzando o raio formado pela
linha de sombras sobre a extensão da linha do gnomo. É a construção
geométrica a partir do movimento dos astros que permite ter-se a
sensação da vista aérea sobre o plano desenhado, característico do
Portulano, estabelecendo o Equador Celeste e com ele equinócios e
solstícios, as marcas extremas do movimento solar em sua relação com a
Terra.
65Os
cálculos de ângulos se iniciam, opondo medidas de zênite e plano, que
vão sendo cruzadas à medida que novas leituras realizadas em locais
diferentes vão sendo propostas, como as diferentes linhas das evoluções
dos planetas, as constelações e os signos zodiacais, suas casas, linhas
diferentes de horizontes, de eclípticas, latitudes e longitudes dos
locais observados e o estabelecimento de tábuas de localização
astronômicas e geográficas com medidas o mais exata que o momento
permitir.
66O
desenho da linha mediterrânea cruzando com a eclíptica no Liber
Floridus, em1121, permite pensar a transferência nesta nova eclíptica
traçada sobre o Mediterrâneo dos pontos corrigidos a partir das listas
de Ptolomeu e sua tradição. A base de Ptolomeu era considerada, a grade
de latitude e longitude recebia a linha da eclíptica e a partir de seus
contatos com a esfera celestes, desenhavam-se as direções, ou ventos na
linguagem de Ptolomeu, que permitiam pensar no clima e no povo do espaço
desenhado dentro do círculo estabelecido pela eclíptica do local. As
diversas tábuas atualizadas em Toledo, Sevilha, Barcelona, Perpignan e
outras documentadas ao redor da bacia mediterrânea serão aplicadas sobre
as antigas e o desenho do Mediterrâneo se aperfeiçoa, aperfeiçoando
todo seu em torno. Pode-se considerar que, neste longo trabalho de novos
cálculos e medições dos movimentos Planetários, realizados basicamente
entre os séculos IX e XIV, foram utilizadas as diversas formas de
registros cartográficos ocorridos em terra e mar, durante o longo
período entre os registros ptolomaicos e medievais.
67Concluindo
nossas observações, parece-nos que a consideração de fontes
diferenciadas permite a ampliação da compreensão deste processo que, com
certeza, é fruto de importante momento de intercâmbio de conhecimentos,
que extrapolam os muros eclesiásticos e a cristandade e que, fruto da
conjuntura, a participação judaica mostra-se extremamente importante,
não só pelos aspectos técnicos da construção de astrolábios e bussolas,
mas, principalmente, como estudiosos e divulgadores da tradição
ptolomaica na representação terrestre. As inúmeras viagens marítimas, a
bussola e a ampulheta com certeza favoreceram o aperfeiçoamento da
“carta base” Portulano, porém sua construção é fruto da antiga tradição
ptolomaica, baseada no desenvolvimento da Astronomia, da Matemática e da
Geometria e de sua aplicação no aperfeiçoamento de instrumentos para
observações dos movimentos naturais dos astros e para a projeção das
coordenadas celestes para a delimitação do plano terrestre.