1O
BNDES é um banco estatal brasileiro que figura atualmente como uma das
maiores agências de fomento do mundo. Criado durante o segundo governo
de Getulio Vargas, o BNDE (ainda sem o Social) é instituição
importante para entendermos os diferentes projetos de governo desde sua
criação. Inicialmente os investimentos foram direcionados para a geração
de infraestrutura, e aos poucos o banco passou a investir mais na
iniciativa privada e na indústria. Na década de 1960 o setor
agropecuário e as pequenas e médias empresas passaram a se beneficiar
com linhas de financiamento do BNDE.
2Em
1971 o BNDE tornou-se uma empresa pública de capital e direitos
privados. Com isso o banco passou a ter maior liberdade nas operações de
captação e aplicação de seus recursos. Os setores de bens de capital e
insumos básicos passaram a receber mais investimentos nos anos 1970 - o
que levou à formação do mais completo parque industrial da América
Latina, em uma política de substituição de importações, e contribuiu
para inserção do Brasil em um novo posto da Divisão Internacional do
Trabalho. Em 1982 três subsidiárias do BNDE criadas em 1974 para atuar
no mercado de capitais se fundiram e formaram a BNDESpar, de modo a
ampliar as formas de capitalização das empresas brasileiras. Naquele ano
o banco passou a chamar-se Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES). Nos anos 1990, o BNDES teve papel importante na
privatização das grandes estatais brasileiras, sendo o órgão responsável
pelo suporte financeiro, administrativo e técnico do Programa Nacional
de Desestatização, iniciado em 1991. Este breve histórico ajuda-nos a
conhecer um pouco dessa complexa empresa estatal brasileira. Contudo,
esta pesquisa deve procurar entender o BNDES que temos atualmente,
frente às recentes transformações na governança pública brasileira, e de
que maneira essas mudanças foram impressas na atuação do banco. Estas
são questões que pretendemos abordar ao longo deste trabalho.
3É
importante ressaltar que a base teórico-conceitual será apresentada ao
longo do artigo, na medida em que isto se fizer necessário. Inicialmente
contextualizamos o leitor no que diz respeito ao cenário em que o Banco
atua.Nesse cenário, damos destaque à atuação do BNDES junto à IIRSA. Em
seguida, discorremos sobre as fontes de recursos do banco e sobre como
este atua utilizando recursos públicos brasileiros, de modo a justificar
como entendemos que o conceito de desenvolvimento deve ser visto e
quais são os principais sujeitos a serem priorizados para que esse
desenvolvimento seja alcançado. Por último, serão apresentadas as
reflexões finais.
4Para
prosseguirmos na apresentação desta pesquisa, é necessário situarmos o
leitor quanto ao contexto de algumas particularidades do sistema
socioeconômico hegemônico (mas não homogêneo) em que estamos envolvidos.
Este é o cenário principal, resultado de forças que competem e
(re/des)organizam continuamente os territórios.
- 1 Produção entendida no seu sentido social, uma vez que vai muito além da materialidade, sendo uma pr (...)
5É
necessário percebemos o capitalismo como articulador de uma pluralidade
de unidades econômicas reciprocamente relacionadas. A base desse
inter-relacionamento no nível do processo de elaboração são as condições
gerais de produção (CGP 1)
do sistema capitalista. A "organização do sistema geral de ensino", "a
extensão da medicina à generalidade da população", "medicina preventiva e
vacinação", "esgotos e novas condições urbanas" etc (Vitte, 1979:
23-36) são exemplos de CGP. Estas "ultrapassam os limites de cada
empresa particular e constituem uma vasta teia, sem a qual essas
empresas e o próprio capitalismo não poderiam existir" (idem, 1979: 36).
Um tipo específico de CGP que desperta mais nossa atenção nesta
pesquisa diz respeito às condições gerais de existência física das
empresas. Entre outras coisas, aqui se insere o que geralmente é
considerado infraestrutura, como, por exemplo, as redes de produção, de
distribuição de energia e de transportes (Bernardo, 1985).
6A
retórica estatal tem qualificado as obras de infraestrutura vinculadas à
IIRSA (e ao Programa de Aceleração do Crescimento, no Brasil) como
propulsoras do desenvolvimento sul-americano. Tal iniciativa teve suas
origens na I Reunião de Presidentes da América do Sul, realizada em
Brasília em agosto do ano 2000. Os líderes presentes à reunião acordaram
em promover ações conjuntas em prol de um avanço nos processos de
integração física, política, social e econômica da América do Sul.
Tiveram destaque nos planos para essa integração a modernização da
infraestrutura regional e outras medidas de caráter mais específico para
promoção da integração e do desenvolvimento de regiões mais afastadas e
isoladas (IIRSA, 2009a), segundo a retórica dos líderes políticos
envolvidos nos projetos.
7Contudo,
muitos desses projetos têm sido duramente questionados por inúmeros
sujeitos que declaram que tais obras de infraestrutura, da maneira como
foram planejadas, vão dar continuidade ao processo de espoliação sofrido
durante anos pelo continente sul–americano, tendo em vista o impacto
territorial local e as ações ou sujeitos que serão beneficiados com a
execução e conclusão das obras. Esse processo de espoliação seria um
indício dos interesses do Estado Amplo, que se caracteriza como “tão
lato quanto as próprias classes dominantes” e tem suas funções
executadas pela classe gestora (ibidem, p. 92) - legitimado pelas ações
do Estado Restrito. O BNDES vem atuando no âmbito da IIRSA fomentando
grandes obras de infraestrutura nas quais, preferencialmente, grandes
empreiteiras brasileiras estão envolvidas. Este é um sinal de que, como
se pode ler na página do Banco na internet, o BNDES tem promovido a
internacionalização de empresas brasileiras. Mais adiante veremos que as
condições desses empréstimos e financiamentos não são necessariamente
positivas para as contas públicas brasileiras, e que os eixos de
interligação das obras de infraestrutura promovem a facilitação do
escoamento da produção majoritariamente de matérias-primas.
8
Figura 1 : Eixos de integração e desenvolvimento (EID) da IIRSA

Fonte: Ministério das Relações Exteriores
9As
empresas são elementos constitutivos do Estado Amplo. Em sentido
estritamente político, as empresas dizem respeito aos órgãos do Estado
Amplo, e este se refere ao funcionamento das empresas como aparelho de
poder. O capitalismo tem-se organizado em nível mundial em modalidades
do Estado Restrito com o Estado Amplo. O Estado Restrito é, por
definição, nacional, enquanto a concentração do capital
transnacionalizou o Estado Amplo. Assim, os Estados Restritos já não têm
qualquer possibilidade de se contraporem ao Estado Amplo, que
conquistou uma indisputada margem de manobra (Bernardo, 1998:42-5).
10As
obras de infraestrutura previstas pela IIRSA, relacionadas com os
corredores de exportação, foram definidas para as áreas de maior
incidência de recursos estratégicos, e parece não se proporem,
necessariamente, a favorecer as populações locais. Segundo os acordos da
IIRSA, os governos financiarão 62,3% dos projetos, a iniciativa privada
bancará 20,9%, enquanto o restante virá de instituições financeiras,
como o BID, a Corporação Andina de Fomento (CAF) e o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ou seja, há o risco de a
dívida externa dos países sul-americanos crescer. Não esqueçamos que a
dívida, mais que uma questão meramente financeira, é um instrumento
político, pois garante a implementação dos interesses das instituições
financeiras multilaterais, das grandes corporações, e de empresas
transnacionais, à custa do endividamento público.
11A
primeira etapa da IIRSA consiste em um conjunto de 31 projetos
estratégicos que causam impacto na integração física sul-americana. Esse
conjunto de projetos foi aprovado pelo Comitê de Direção Executiva da
IIRSA em 2004 (IIRSA, 2009a)., Tendo recebido atenção especial dos
governos, essa primeira etapa de projetos teve um custo estimado em US$
10 bilhões e já se encontra em 14.023 bilhões. Em sua totalidade a IIRSA
prevê 510 projetos, a um custo de US$ 74,5 bilhões (IIRSA, 2009c).
12Grandes
empresas privadas brasileiras estão espraiando sua atuação por diversos
países graças à atuação conjunta com o BNDES, que fomenta grande parte
das obras de infraestrutura, do projeto supracitado e de outros
projetos. Essa ação conjunta pode ser um indício de como este banco
público se coloca a serviço de interesses de grupos econômicos privados
brasileiros fora das fronteiras nacionais (Carrion & Paim, 2006).
- 2 Secretário de Programas Regionais Integrados do Ministério da Integração Nacional em 2001.
13
A uma visão pragmática, as empresas brasileiras desfrutam da vantagem
de contar com o apoio do BNDES, e esse apoio as beneficia nas licitações
para implementação dos projetos da IIRSA. Para Antônio José Cerqueira
Antunes, 2ações
empresariais brasileiras em outros países são de interesse nacional
porque contribuem positivamente para o desenvolvimento econômico e para o
fortalecimento da posição geopolítica do Brasil” (Antunes, 2007 :
13-14).
14Contudo,
a transnacionalização do capital de empresas privadas brasileiras com o
apoio estatal é um indício das políticas neoliberais governamentais.
Além disso, a terra, o ar, as florestas e a água são ativos confiados ao
Estado pelas pessoas a quem ele representa. Apossar-se desses ativos,
privatizá-los, vendê-los ou facilitar a sua espoliação como se fossem
parte do estoque de uma empresa privada constitui um processo de
despossessão bárbara (Harvey, 2003 :133), que parece estar sendo
financiado pelo Estado brasileiro. Esta afirmação se justifica pelo fato
de que os 10 eixos da IIRSA visam à exploração do território e à
facilitação da escoação para exportação. Isto, em vários casos, está
subvertendo a ordem de muitos locais, que passam a ser explorados de
acordo com as perspectivas do mercado internacional e das grandes
corporações. Seria esse processo de espoliação (seja de quem for,
beneficie quem quer que seja) a moeda de troca para o que alguns chamam
de desenvolvimento econômico e para o fortalecimento da posição
geopolítica do Brasil?
15Procurando
ter maior segurança ao discutirmos a problemática desta pesquisa, é
importante deixarmos claro o modo como entendemos alguns conceitos
adotados e também as categorias de análise empregadas. Optamos por fazer
tais definições ao longo da exposição acerca do tema de pesquisa, de
forma a contextualizar os conceitos em nossa análise, facilitando a
compreensão do leitor.
16Esta
pesquisa partirá do recorte espacial sul-americano, para entendermos o
papel do BNDES na expansão dos interesses do Estado brasileiro para fora
de suas fronteiras. É importante destacarmos que, ao nos referirmos ao
Estado brasileiro, estamos considerando todos os poderes envolvidos, de
acordo com a análise de João Bernardo (1996 e 1991) sobre os conceitos
de Estado Amplo e Estado Restrito, citados anteriormente.
17Em
estreita relação com o modo como as pessoas usam a terra, como elas se
organizam no espaço e como elas dão sentido ao lugar, estudaremos a
territorialidade considerando também sua mudança de caráter em relação
ao tempo (Sack, 1986). Essas relações mudam justamente pelo caráter
constante de totalização do espaço geográfico (Santos, 1996).
18Entendemos
territorialidade como a tentativa – por diferentes sujeitos -- “de
afetar, influenciar ou controlar pessoas, fenômenos e relações, através
da delimitação e da afirmação de controle sobre uma área geográfica”
(Sack, 1986 :32), sendo o território a área em questão.
19A
expansão de redes de infraestrutura de acordo com a lógica hegemônica
parece ser um indício da territorialidade do Estado Amplo na América do
Sul, através da IIRSA.
20Segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo, entre os anos de 2002 e 2009 o valor liberado pelo BNDES para investimentos na América Latina foi multiplicado por 3.000%:
Com a crescente
internacionalização das empresas brasileiras e o aumento da concorrência
com os asiáticos nos países vizinhos, a linha do programa BNDES-Exim
para o setor saltou de US$ 42 milhões em 2002 para uma estimativa de US$
1,26 bilhão neste ano, dos quais US$ 957 milhões já foram liberados até
o mês passado. [...] Segundo levantamento da consultoria Valora, o
Brasil exportou US$ 5,673 bilhões em serviços de engenharia para os
países latino-americanos em 2008, que representam uma participação de
50% a 60% do mercado regional. A presença brasileira ocorre
principalmente nas obras de infraestrutura de geração de energia,
transportes e saneamento (FSP, 27/9/2009, Caderno Dinheiro, B6).
21Segundo
a RedeBrasil, o BNDES estabeleceu relações estratégicas com a
Corporación Andina de Fomento (CAF), que objetiva apoiar o
desenvolvimento e a integração física dos países membros da IIRSA. O
BNDES e a CAF assinaram em 2005 um memorando de atuação conjunta para
co-financiar projetos em 17 países da América do Sul e do Caribe. Esta
parceria se revela estratégica para alavancar projetos de infraestrutura
(energia, transportes, hidrovias) no âmbito da IIRSA (ver
www.rbrasil.org.br).
22Nas
últimas décadas tem aumentado a demanda por terras para o agronegócio.
Contudo, a efetiva diminuição dos preços dos produtos agrícolas deu-se
pela expansão do latifúndio, capital intensive, e pela anulação
da renda diferencial por localização, possibilitada pela expansão das
redes de transportes e pelos avanços da logística ( Porto-Gonçalves,
2006). Assim, a incorporação de grandes extensões de terras,
principalmente para a produção de grãos, é fundamental para as grandes
empresas de agronegócio.
23A
melhoria e a expansão da infraestrutura previstas na IIRSA são de
interesse do Estado brasileiro. Tais obras possibilitam a consolidação
de um novo mercado para as construtoras brasileiras, além de as grandes
empresas passarem a contar com os mercados dos países sul-americanos
para escoamento de seus produtos industriais, energéticos e do
agronegócio e, em contrapartida, permitirem aos demais países acesso ao
significativo mercado brasileiro (cf. Antunes, 2007:27-28).
24Alguns
exemplos de projetos da IIRSA executados por empreiteiras brasileiras
são as obras da Usina Hidrelétrica Porce III, a 147 km da cidade de
Medellín, na Colômbia, realizadas pela empresa Construções e Comércio
Camargo Corrêa, ao valor estimado, em 2005, de US$ 450 milhões.
Concluída em dezembro de 2010, a obra teve um custo total de US$ 900
milhões. Segundo dados de 2005, a Camargo Corrêa atuava no exterior sob
contratos que somam cerca de US$ 900 milhões, o mesmo valor que custou
apenas uma de suas obras, após reajustes nos custos, em 2010. No Peru,
em 2004, a empresa firmou contrato para recuperação de um trecho de 60
km da estrada que liga Chiclayo a Chongoyape, no norte do país. Outra
obra em execução é a construção de um trecho da estrada
Inambari-Azangaro, com 305 km de extensão. Essa estrada faz parte da
ligação oceânica entre Brasil e Peru. No mesmo ano a empresa assinou, na
Bolívia, contrato para construção da rodovia Roboré-El Carmen, de 140
km, parte de um corredor interoceânico que permitirá a saída da Bolívia
para o Pacífico e ligará as cidades Santa Cruz de la Sierra e Puerto
Suarez. O Corredor Viário Interoceânico Sul – Peru/Brasil,
entre Peru, Bolívia e Brasil, é dividido em cinco trechos: três são
construídos pela Odebrecht com sócios peruanos; um é executado pela
peruana Hidalgo e Hidalgo SAC; e o quarto trecho é feito pela Intersur
Concesiones SAC, formada pelas brasileiras Camargo Correa, Andrade
Gutiérrez e Queiroz Galvão. O preço da obra, orçado inicialmente em US$
527 milhões, subiu para US$ 890 milhões após a Intersur Concesiones SAC
ter sido aprovada. Durante a construção do trecho 4 da rodovia, que
interliga Inambari (Madre de Dios) e Azangaro (Puno), inúmeras foram as
denúncias de irregularidades no que diz respeito ao cuidado técnico e
humano e de proteção ao patrimônio arqueológico (Ugaz, 2009).
25O
apoio do BNDES à exportação dos serviços de engenharia é uma operação de
dimensão estratégica. Segundo alguns autores, esses projetos geram
empregos “ao longo de uma diversificada cadeia produtiva nacional,
intensiva em tecnologia e em conhecimento, sobretudo por integrarem tais
cadeias em escala regional” (SANTOS, F. 2006:6). Para Santos (2006), o
modelo institucional de garantias mútuas viabiliza empreendimentos de
alta complexidade e alto valor agregado, como são também os casos de
diversas operações de empréstimo do BNDES.
26Assim,
com o apoio do BNDES o governo brasileiro procura ter uma política de
exportação integrada, incorporando o setor de serviços de maneira mais
agressiva e procurando ter uma atuação competitiva em um cenário de
tentativas crescentes de regulamentação do comércio mundial e de
crescimento das exportações das commodities.
27Contudo,
diversas organizações da sociedade civil pressionam por maior
interlocução com o Banco, pressionando por maior transparência nas ações
e pelo uso dos recursos com enfoque social.
É comum ouvirmos a crítica de
que o S do BNDES é figurativo, já que está longe de chegar a 10% do
desembolso total do Banco. Só que a dimensão social do BNDES precisa
extrapolar a área destinada à realização de projetos sociais e necessita
estar presente em cada projeto de investimento, como estratégia para
induzir a diminuição das desigualdades de toda ordem. Por entendermos
que o alcance e o impacto dos empréstimos do BNDES vão além de seus
beneficiários diretos, atingindo positiva e negativamente a sociedade
como um todo, acreditamos que a construção de espaços institucionais de
interlocução entre a sociedade civil e o Banco, para se discutirem as
prioridades e diretrizes, é fundamental. Somente um diálogo franco e
público com essas organizações da sociedade civil, que expresse o avanço
político da sociedade brasileira nas últimas décadas, poderá levar o S
da sigla do Banco a verdadeiramente traduzir a dimensão social que
precisam ter quaisquer financiamentos de empresas públicas no século 21.
Não faltam oportunidades e razões para esse diálogo. Se até hoje o
Banco relacionou-se apenas com o setor produtivo, cabe agora um repensar
a sua atuação e reconhecer que o desenvolvimento só tem sentido caso
sirva para radicalizar a cidadania e distribuir, entre todos os cidadãos
e cidadãs, as benesses do desenvolvimento
(cf.www.ibase.br/conteudos/por_que_fazer.htm, 2008).
- 3 Grupo significativo de organizações e movimentos populares que se reuniu no ano de 2007 para formar (...)
28Assim,
a sociedade civil também busca estratégias para democratização do
acesso e da participação nas decisões do Banco. Outro exemplo é a
Plataforma BNDES3,
que atua de modo a pressionar pela democratização do maior instrumento
de desenvolvimento do Brasil, o BNDES. Em agosto de 2011, a Plataforma
BNDES protocolou uma carta de apoio às populações do território indígena
e parque nacional Isiboro Sécure – Tipnis, Bolívia. A carta foi
endereçada ao presidente do Banco, Luciano Coutinho, e pede imediata
suspensão do financiamento do projeto de construção de uma estrada que
pretende ligar as localidades de Villa Tunari e San Ignacio de Moxos, na
Bolívia. "Entendemos que esse financiamento, concedido no âmbito do
contrato de cooperação financeira celebrado entre o BNDES e o governo da
Bolívia, viola inúmeros direitos dos bolivianos e compromete a
convivência harmoniosa entre os povos do Brasil e da Bolívia."
29Existem
territorialidades conflitantes e esses conflitos parecem estar se
acirrando em função de obras de infraestrutura conduzidas com apoio do
BNDES – que nitidamente se posiciona de acordo com a lógica hegemônica
do capitalismo, pela conquista de mercados e pela internacionalização de
grandes empresas brasileiras.
30No
que diz respeito ao grau de internacionalização, os grupos econômicos
brasileiros mais significativos são: Gerdau, Construtora Norberto
Odebrecht, CVRD, Petrobras, Marcopolo, Sabó, Aracruz, Klabin, Sadia,
Perdigão, Embraer, Natura, Votorantim e Andrade Gutierrez. (Vitte,
2009 :8). Estes grupos têm interesses na ampliação da
infraestrutura na América do Sul e em melhorias no escoamento de seus
produtos para os portos do Atlântico e do Pacífico. A Odebrecht, a
Camargo Correa e a Andrade Gutierrez se constituíram como holdings e diversificaram seus negócios.
Além da área de engenharia, a
Odebrecht é o maior grupo petroquímico da América ao controlar a empresa
Braskem, e prevê investimentos bilionários nos próximos anos em sua
subsidiária ETH Bioenergia, voltada para a produção de etanol da
cana-de-açúcar. Já a Camargo Correa tem sua própria fábrica de cimento e
controla a Alpargatas Calçados (Havaianas, Rainha, Topper, Timberland e
Mizuno), é acionista da Siderúrgica Usiminas, da concessionária de
energia do estado de São Paulo CPFL Energia e ainda da Companhia de
Concessões Rodoviárias (CCR), controladora da Dutra (RJ-SP) e no Paraná,
totalizando 1.452 km em concessões rodoviárias. A Andrade Gutierrez não
fica atrás: também é acionista da concessionária CCR; da prestadora de
serviços de energia Light; controla a empresa de telecomunicações
Telemar (que engloba também a OI celulares) e terá a concessão do
aeroporto de Quito, no Equador, ainda em construção. Expor esses
extensos dados é fundamental para que os atores sociais brasileiros
tenham dimensão do poder econômico dessas empresas transnacionais de
base brasileira [...]. Essa configuração altamente concentradora de
capital permite a esses grupos pautar políticas públicas e competir
internacionalmente a custos mais baixos no que concerne às grandes
obras, em que o repasse de recursos públicos é por vezes burocrático e
tardio (Couto, 2008: 82-83).
31Sobre
os conflitos entre os agentes em vários dos eixos da IIRSA, não é a
logística o maior problema para manter a expansão da produção do cultivo
da soja (e de outros produtos). O conflito central reside na questão
sociopolítica e territorial. O território é um espaço definido e
delimitado por e a partir de relações de poder. O poder, por sua vez,
não se restringe ao Estado e não se confunde com violência e dominação
(Souza, 2001). Partindo deste pressuposto, o conceito de território
abarca mais que o território dos Estados-Nação; engloba também as
correlações de poder, por mais desiguais que sejam, e estas devem ser
estudadas para que se alcancemas necessidades dos diferentes sujeitos
que (trans)formam as porções do espaço geográfico em questão. No caminho
dos eixos previstos pela IIRSA (e também pelo PAC, no Brasil) existem
espaços-tempos diferentes e em disputa. O espaço-tempo das corporações
consiste na associação da logística com a geopolítica, expandindo
velozmente a produção e as redes de controle e escoamento, realizando
alianças com governos e outras empresas para atingirem seus objetivos.
Já o espaço-tempo dos produtores familiares, dos indígenas e de
populações tradicionais não conta com meios técnicos e financeiros;
realiza-se com uma temporalidade diferente, incorpora de forma mais
lenta as mudanças, e esses grupos almejam manter suas terras e sua
identidade. São, assim, territorialidades que conflitam.
32Para
entendermos o impacto territorial de que trata a pesquisa, devemos
antes nos perguntar: de qual desenvolvimento estamos falando? Nossa base
é a perspectiva de que crescimento e modernização devem valer como
indicadores de desenvolvimento se forem acompanhados de distribuição da
riqueza socialmente produzida e atendimento de necessidades materiais e
imateriais elementares (Souza, 1996 :7). Assim, parece-nos
importante não dissociarmos razão, emoção, afetividade, e outros
elementos que compõem toda a complexidade que nos cerca. A ciência
moderna possibilitou que as tomadas de decisões do Estado se realizassem
a partir de uma retórica legitimadora, dita "racional". O princípio da
verdade proporcionado por esta ciência da racionalidade foi a base para
que muitas das tomadas de decisões fossem interpretadas automaticamente
como corretas, uma vez que o entendido como verdadeiro conduzia ao bem
(como se a verdade fosse algo unidimensional e não passível de
interpretações).
33Pelo
fato de a racionalidade ter se tornado há muito tempo sinônimo de
"racionalidade científica", e o conhecimento, sinônimo de "conhecimento
científico", outras formas de conhecimento e outros recursos para a
racionalidade e conhecimento prático da agricultura, da medicina ou de
artesanato foram considerados de segunda classe, e desconsiderados
(Funtowicz e de Marchi, 2000 apud Porto-Gonçalves, 2002 : 218).
34Assim,
para discutirmos desenvolvimento, temos que observar os paradigmas em
questão. Inúmeros são os casos de conflitos resultantes dos impactos
territoriais surgidos a partir do planejamento (ou apoio) estatal
embasado em paradigmas reducionistas, que se confrontam com as
necessidades reais das populações atingidas. É importante, pois,
considerarmos os diferentes paradigmas, as diferentes éticas e as
diferentes motivações dos sujeitos envolvidos. Esta é uma possibilidade
que “mostra-nos um mundo muito mais diverso do que faz crer o olhar
colonial eurocêntrico ou que vê mais a lógica do capital do que as
lógicas dos que a ele resistem” (Porto-Gonçalves, 2002 :220). As
racionalidades tecidas a partir de diferentes modos de sentir, agir,
pensar e interpretar têm destaque nesta pesquisa devido à emergência da
necessidade de se (re)interpretar e (des)orientar os atuais ordenamentos
territoriais que, da maneira como têm sido planejados e executados,
parecem resultar em conhecidos problemas que prejudicaram o
desenvolvimento: o processo de acumulação por espoliação - em alguns
(não raros) casos financiado e orquestrado pelo próprio Estado.
35Ao
investir em modelos causadores de desigualdades, em vez de estimular a
diversificação e a integração produtiva entre os países sul-americanos, o
BNDES, através da IIRSA, parece propor um modelo de atuação que agrava o
processo de reprimarização das economias voltado para a produção e
exportação de commodities. Esse modelo beneficia grandes corporações, aprofunda a histórica espoliação
sofrida pelos povos sul-americanos, e coloca em risco o meio ambiente e
as populações atingidas (especialmente suas camadas menos
privilegiadas). Assim procedendo, o BNDES parece posicionar-se a favor
da inclusão no sistema de espoliação e acumulação capitalista das áreas
da América do Sul ainda não englobadas e organizadas por tal lógica
hegemônica de (des)organização de territórios, atuando também em nome da
ampliação da atuação de empresas brasileiras no exterior e da
facilitação do acesso dos mercados consumidores de outros países aos
bens manufaturados do Brasil.
36Entendemos
que um banco que se utiliza de recursos públicos deve priorizar a
população e ser democrático no que diz respeito aos seus processos
decisórios. O que se observa atualmente é que o BNDES não é um banco
democrático, se observarmos que se trata de uma instituição pública que
não possui um meio de consulta franqueado à sociedade e não permite que
esta tenha voz em suas decisões. Na página do Banco na internet está
posto que, “na condição de empresa pública, o BNDES adota o princípio da
ampla transparência como um dos pilares de seu relacionamento com os
atores externos”, e que “a fim de manter aberto seu canal de comunicação
com a sociedade, o Banco fornece à mídia, regularmente, notícias a
respeito de suas atividades, por meio da divulgação de press-releases
sobre operações de financiamento, política e prática de crédito” Vê-se,
assim, que a sua retórica vai na direção da transparência e da
comunicação.
37Contudo,
entendemos que uma empresa pública que recorre aos fundos públicos deve
manter uma comunicação eficiente com os cidadãos, pela qual a sociedade
tenha voz e seja ouvida – o que, na verdade, não acontece. A sociedade
civil, mesmo se organizando em movimentos sociais, não consegue
estabelecer um diálogo aberto e constante com o Banco. Ao que tudo
indica, porém, as grandes empresas brasileiras conseguem dialogar e
influir nas tomadas de decisões não só do BNDES, mas do Governo
brasileiro. A partir da análise desses pontos fundamentais, entendemos
que o papel que o BNDES desempenha nas políticas de desenvolvimento e
Integração Regional é de facilitador da concentração de capital, através
do financiamento de obras que atendem aos interesses das grandes
empresas de capital privado brasileiro, mesmo que isso implique um
impacto drástico na escala local para povos que acabam tendo seus
territórios desorganizados, em um processo de despossessão bárbaro.