Existe um slogan do Partido que concerne ao controle do passado”, disse, “Repita, por favor”. “Quem
controla o passado controla o presente, quem controla o passado
controla o futuro”, repetiu Winston submisso. “Quem controla o presente
controla o passado”, disse O’Brien com um lento aceno de cabeça em
aprovação. “Você acredita mesmo, Winston, que o passado tenha uma
existência real? O passado é ‘atualizado dia a dia’ e o controle do
passado depende de uma espécie de educação da memória. Verificar que
todos os documentos escritos concordem com a ortodoxia do momento só
constitui um ato automático da inteligência. Mas também é preciso, ao
mesmo tempo, lembrar que os fatos ocorreram daquela determinada maneira.
E se é necessário corrigir a própria memória, e reajustá-la com
documentos escritos, é preciso que depois nos esqueçamos de tê-lo
feito.”
George Orwell
1A citação do brilhante 1984
de George Orwell poderia ser replicada em muitos dos trabalhos que
abordam a sempre atual discussão a respeito do propósito de se escrever a
história, ou seguindo a linha atual da supressão do singular, as
histórias da geografia.
2Legitimação
do presente, refundação do passado, ressurreição dos mortos, enterros
de velhos cânones, apagamento de práticas passadas, inclusão dos
outsiders, ou ainda chave de compreensão do estado da arte atual...
Poderiam ser esses alguns dos motivos que nos mobilizam a escrever as
histórias das idéias geográficas? É o passado uma invenção arquitetada
para justificar o presente? O passado importa porque explica o presente?
É o passado tangível o suficiente para propiciar algum entendimento do
presente que se crê real? É o passado intangível o suficiente para que
dele se possam “descobrir” novos fatos, personagens e histórias?
3É na
direção de questionamentos como esses que caminha o presente artigo. O
sentido da história sustenta seus propósitos, que por sua vez, alinham
seus métodos. O como construir narrativas depende invariavelmente do por
que construí-las. Assunto inesgotável, ressalte-se, tendo em vista a
necessidade de se manter em constante exame a utilidade das histórias e,
por conseguinte, os usos que delas se faz.
4Há
dezoito anos um estimulante debate intitulado Rethinking the History of
Geography acontecia durante a Conferência Anual do Institute of British
Geographers (IBG) em Londres. Sentados à mesa, cinco expoentes da
geografia britânica, interessados na construção de narrativas do
conhecimento geográfico, debruçados sobre o tema das tradições
geográficas. David Matless, Felix Driver, Gillian Rose, Clives Barnett e
David Livingstone. Na berlinda, o livro The Geographical Tradition
(1992) de David Livingstone, o último a apresentar suas idéias no
debate.
5Assim
como este, os debates sobre a historiografia levados a cabo nos
extertores do século XX apontaram ao que poderia se chamar a virada
histórica. Momento no qual afloram os chamados estudos culturais, as
abordagens pós colonialistas, os science studies e outras perspectivas
que se aventuram na compreensão dos paradigmas, das imagens da ciência,
das tradições de pesquisa, dos estilos de pensamento ou o termo que se
disponha a usar para designar os processos de construção do conhecimento
humano. Tais ferramentas começam a ser adotadas na construção das
histórias do conhecimento geográfico e a perspectiva crítica dessa
adoção não se pode perder de vista.
6Naquele
mesmo ano de 1995, o debate ganha as páginas da revista do IBG,
Transactions of The Institute of British Geographers, tornando-se um
conjunto de cinco artigos que nunca deixou de merecer leitura e que,
curiosamente, segue um tanto desconhecido entre nós. O que move este
artigo é, portanto, o interesse em compartilhar alguns muito importantes
tópicos a respeito dos propósitos e modos da escrita das histórias de
geografia que foram tratados nesses artigos e que não perderam sua
validade. Muito pelo contrário, para os interessados pelas histórias das
idéias geográficas, pelas histórias da disciplina, pelas histórias dos
geógrafos e tantas outras possíveis histórias, questões como o papel e a
importância da genealogia, as questões de gênero, a discussão sobre
herança e descendência, a prática enciclopédica, entre outras,
permanecem latentes na condução de nossas inquietações e investigações.
7Isso
posto, este artigo divide-se em três seções. Na primeira é traçado um
breve panorama geral das condições e contingências do debate em torno da
obra de David Livingstone. Na segunda seção são apresentados de forma
mais detalhada aspectos de cada um dos artigos que qualifico como
inquietações para um geógrafo ocupado nas histórias da disciplina. Na
última seção, são alinhavados alguns pontos principais que apontam a
possíveis caminhos metodológicos para as pesquisas na área.
8A
sessão de debates realizada não pretendeu ser, nas palavras de Felix
Driver (1995) que assina o editorial, uma resposta orquestrada ao livro The Geographical Tradition, de Livingstone (1992). De
fato, o propósito era propiciar uma discussão mais aberta sobre
possibilidades e limites que se colocam a respeito do tema das tradições
na investigação geográfica. Em pauta estariam os diferentes modos de se
escrever a história da disciplina e, principalmente, os propósitos que
comandam essa empreitada.
9Orientando
o debate, questões sobre os modos de construção das chamadas tradições,
sobre as possibilidades de outros modos de escrita da história da
disciplina e sobre a existência de uma “política” historiográfica.
10O
momento de uma sensível virada histórica, em curso à época, apontava o
claro enfraquecimento da estrutura dualista que se fez presente em boa
parte dos debates sobre as histórias da geografia. Nessa estrutura
contrapunha-se de um lado uma perspectiva percebida como conservadora,
evolucionista, e de outro lado uma abordagem contextual radical. Tal
estrutura foi posta em questão justamente por meio da chegada de
abordagens alternativas como os estudos culturais, pós-coloniais, da
perspectiva feminista e dos science studies. Os artigos que compõem o
debate, realizados em um momento de resgate da discussão historiográfica
e revigoramento das pesquisas históricas na disciplina, em grande
medida, sugerem questões que desconstróem a todo instante essa caduca
bipolaridade.
11Por
tratar de temas tão caros para a historiografia da disciplina, o debate
segue atual, especialmente entre nós, geógrafos latino americanos,
acostumados com a importação e adoção dos modos de se fazer e escrever a
história da disciplina e muitas vezes descuidados em relação às suas
razões de ser ou mesmo em relação às suas chances de adaptação. Em
discussão está, de fato, o próprio conceito de história, o projeto das
histórias da disciplina e os deveres daqueles que se propõem a
escrevê-las.
12A estrutura dessa seção segue a sequência dos artigos publicados na Transactions, que por sua vez, segue a sequência das apresentações no debate. A
decisão de apresentar ao menos duas ideias centrais extraídas e
discutidas de cada artigo respeitando a sequência da publicação se dá em
função da necessidade de apresentar de modo o mais coerente possível a
linha de argumentação de cada autor. Ressalte-se que os artigos seguem
uma estrutura textual similar, iniciando com algumas críticas
endereçadas aos modelos tradicionais de construção da história apontando
suas incoerências, passando por uma discussão dos desafios que se
apresentam no campo e finalizado com proposições para uma nova agenda.
13Quem assina o primeiro artigo, intitulado Effects of History é o geógrafo britânico David Matless, professor da Universidade de Nottingham na Inglaterra. Matless
tem uma série de publicações sobre a noção de paisagem e da história da
música a partir de uma perspectiva geográfica. Boa parte de suas
pesquisas atuais enquadram-se na abordagem dos chamados estudos
culturais.
14O
artigo de Matless (1995) traz duas grandes contribuições ao debate sobre
propósitos e métodos da história que merecem uma análise mais detida. A
primeira delas é a defesa que Matless faz da potencialidade do método
da genealogia, a partir da perspectiva apontada por Foucault, na
construção de uma história ‘efetiva’ e a discussão a respeito do papel
da história para e na investigação geográfica do presente.
15Segundo
Matless (1995, 405) os limites do conhecimento geográfico não estão de
forma alguma circunscritos ao domínio do que se convencionou chamar de
geografia. Assim, mais importante do que procurar por novas definições,
seria reconhecer que a disciplina é mais um dentre os muitos gêneros do
conhecimento geográfico, e nesse caso, uma parte crucial da história
desses conhecimentos é a demarcação das fronteiras de conteúdo e
contingência da disciplina.
16Matless
faz uma crítica à escolha de Livingstone em The Geographical Tradition
ao usar metáforas evolucionistas para tratar a geografia histórica. O
problema no uso de tais metáforas, segundo Matless (1995, 405), seria a
manutenção de um sentido de coerência na história que de fato não existe
ou seria impossível sustentar.
17A
metáfora evolucionista considera transformações, mutações, adaptações em
uma espécie mutante, ainda assim, pressupõe a permanência da unidade
dessa espécie. E nesse ponto é que reside o problema. Como solução
possível, Matless sugere os caminhos abertos pela genealogia e pela
história efetiva de Foucault.
18Para
Matless o propósito das histórias, preocupação central no artigo, pode
ser bem desenvolvido a partir da reflexão que faz Foucault (1986 apud
Matless, 1995), a respeito da genealogia e da chamada ‘história
efetiva’. A genealogia seria a solução pois a ela não importa a questão
da trascendência do objeto, no caso da ‘espécime’ geografia. A
genealogia não busca uma identidade inviolável que estaria na origem
histórica das coisas, pelo contrário, a ela o que interessa é dissensão.
19Sendo
assim, a genealogia surge como uma forma de se fazer a história que
pode conter os conhecimentos, os discursos, os domínios dos objetos sem
necessariamante referenciar-se ao problema da suposta uniformidade ou
transcendência do objeto. Ao invés de manter tal preocupação, segundo
Matless (1995, 406), ocupa-se a genealogia com o papel e o fazer do
geógrafo. Esse sim é quem vai sugerir quais diferentes formas de
racionalidade estarão qualificadas como eminentemente geográficas.
20Para
explorar as estratégias e propósitos da genealogia Matless usa um
engenhoso exemplo. Convidado a compor um verbete sobre uma ilustre,
ainda que bastante controversa, personagem da Royal Geographical Society
– o explorador imperialista britânico Sir Francis Younghusband –
Matless se viu na delicada posição de ter de escolher quais caminhos
seguiria para compor uma história de Younghusband que pudesse contemplar
os desejos dos editores do Novo Dicionário da Biografia Nacional sem
abrir mão de sua autoria na produção de um documento histórico.
21Segundo
Matless (1995, 406), a genealogia de Foucault baseada numa estratégia
dupla de apreensão do fenômeno era o caminho adequado. De um lado, o
trabalho documental meticuloso e paciente do historiador – que em grande
medida alimenta nosso imaginário a respeito dessa figura. De outro
lado, assume-se o emaranhado confuso da construção das idéias que revela
a “performatividade da história” exigindo assim a adoção de um estilo
de narrativa.
22Tal
posição, que assume a tensão produtiva da dupla estratégia de Foucault,
possibilita pensar numa outra metáfora que não sugere uma matriz
seminal na evolução de uma espécie e sim semeia um rizoma mundial. Nas
palavras de Matless “a genealogia, ao desencaminhar e reencaminhar
linhas principais, apresenta a história de um rizoma ao invés da
história de uma espécie” (1995, 407).
23O
uso da história como um poderoso elemento de legitimação é um tópico
atual e efetivamente importante ao se considerar os propósitos da
escrita da história e os deveres daqueles que as escrevem. Nesse ponto,
Matless recorre mais uma vez à genealogia como uma eficiente estratégia
para suprimir – e não resolver, ressalta-se – o velho dilema de escrever
a história em termos de uma legitimação ou deslegitimação. Daqui se
depreende uma questão crucial, e que, como será visto, atravessa todos
os artigos que compuseram o debate da Transactions: a história da
geografia deve servir para ampliar o sentido da disciplina hoje, ou
ainda, o sentido da geografia no futuro?
24Um
ponto fundamental da reflexão de Matless nos propicia pensar se a
história deve ser convocada para decidir combates contemporâneos para
que novos objetos da investigação geográfica sejam legitimados. A
reflexão, de fato, lança luz ao debate dos propósitos da história. Esse
sim precisa ser feito com frequência nos fóruns adequados.
25Para essa questão, recorro as sentenças finais de Matless:
A
genealogia deve resistir ao oferecer novas histórias para novas
naturezas de geografia, resistir a qualquer uso da história como uma
válvula hartshorniana controlando o fluxo do passado que influencia a
condição presente. Dada a reconfiguração contemporânea da
geografia, uma genealogia da geografia pode de modo útil atuar contra
qualquer tendência em prol de um novo fundamento geográfico para
solidificar em territórios distintos apoiados em novas tradições
encontradas. A genealogia oferece diferentes e menos sólidos efeitos da
história (1995, 408).
26Felix Driver, professor da Royal Hollaway da Universidade de Londres, assina o segundo artigo intitulado Submerged Identity. Driver
dedicou-se longamente ao estudo da chamada geografia do império,
interessando-se pelas culturas de exploração. Atualmente tem seu foco
nas pesquisas sobre artes visuais e geografia e ainda outros temas
relacionados à historiografia da disciplina.
27Com
o propósito de refletir sobre a noção de tradição geográfica, Driver
(1995) aborda o processo de fusão do Institute of British Geographers
(IBG) com a Royal Geographical Society (RGS) que teve início em 1992 e
foi formalizado no início de 1995. O processo de fusão fomentou uma
série de debates e artigos de cunho histórico sobre as duas instituições
britânicas. Discutindo o uso de metáforas familiares, utilizadas por um
antigo presidente da RGS para descrever a nova relação entre as duas
sociedades, Driver procura pensar os propósitos de se escrever histórias
fazendo uso de noções de parentesco, linhagem e descendência.
28Segundo
Driver, o modo como a fusão foi retratada em termos familiares impediu
que uma reflexão frutífera sobre a forma como a história vive no
presente pudesse acontecer na academia. A crítica de Driver recai sobre o
uso do que seria uma abordagem familiar na construção da história da
geografia, expressa na noção de tradição geográfica. Segundo Driver
(1995, 410) a prática de retratar a tradição geográfica num modelo de
árvore genealógica de idéias encobre a heterogeneidade dos conhecimentos
geográficos.
29A
metáfora familiar usada no tratamento do processo de fusão revela,
segundo Driver, um sistema de castas que prevaleceu no chamado
establishment geográfico britânico. O objetivo de Driver nesse ponto é
refletir sobre as supostas noções de linhagem e descendência utilizadas
por muito tempo na construção da história da disciplina como forma de
ilustrar um campo do conhecimento geográfico inquestionável posto
legítimo.
30A
partir de um interessante e breve relato do ano de 1872 na vida de três
reconhecidos personagens do período imperial da RBG, Driver (1995)
procura demonstrar, retratando as inúmeras diferenças nas visões de
mundo e nas práticas dos personagens, a extraordinária heterogeneirade
do conhecimento geográfico associado à RBG. Conforme suas palavras,
qualquer
tentativa de reconstruir a tradição geográfica (mesmo uma, como aqui,
que confina seu foco ao coração institucional da geografia britânica
durante a era do império) deve reconhecer seu caráter imensamente
diverso e fraturado (Driver, 1995, 413).
31Driver
conduz ao final de sua intervenção no debate sugerindo que na
constituição de tradições geográficas cruzam-se conhecimento científico e
popular, ortodoxia e transgressão, mentes e corpos. Nesse caso, indaga Driver sobre a possibilidade de se escrever uma genealogia dessas tradições em termos não familiares.
32Gillian Rose assina Tradition and Paternity: same difference?. A
autora é atualmente uma das maiores referências da chamada geografia
feminista, tendo publicado importantes trabalhos sobre o tema na
perspectiva da produção do conhecimento geográfico. Rose (1995) no
artigo em questão leva o tema da tradição em termos semelhantes ao de
Driver (1995), pondo em xeque o velho hábito das analogias familiares
baseadas em um modelo paternal no tratamento das idéias geográficas,
especialmente na determinação das tradições disciplinares. O ponto de
incisão da autora é a invisibilidade renitente da prática das mulheres
na construção dos conhecimentos geográficos.
33Rose
(1995) faz coro a respeito da necessidade de se repensar os propósitos
da prática de escrever histórias. Seu interesse recai sobre os modos
pelos quais a construção das tradições geográficas são, ao mesmo tempo, a
construção da semelhança e da diferença.
34Rose
sustenta que o processo de construção das tradições, entendidas como
“as representações de um passado e o aspecto específico desse complexo
processo de representação” (1995, 414), revela uma prática constante de
inclusão e exclusão.
35A
partir da exclusão das mulheres viajantes do período vitoriano na
escrita dessas histórias, Rose (1995) discute duas práticas
complementares, a prática da exclusão, quando há a ocultação de fatos e
personagens – que Rose vai identificar como os outsiders, e a prática do
‘apagamento’ quando a prática anterior, da exclusão é devidamente
‘esquecida’.
36Segundo
Rose tal prática está em ação em histórias recentes da geografia,
incluindo aquelas que rejeitaram enfaticamente narrativas puramente
disciplinárias ou mesmo evolucionistas. Entretanto, como ressalva Rose
(1995, 415), mesmo que construindo histórias desarticuladas ou embebidas
em seu contexto, a invisível prática da exclusão ainda opera.
37Uma
ideia muito importante presente no texto merece uma atenção especial,
ao comentar a reiterada prática da exclusão na escrita das histórias da
geografia Rose sentencia:
A
geografia tantas vezes se definiu contra o que se insiste que não é, que
escrever suas histórias sem considerar o que tem sido construído como
não geografia é contar apenas metade da história (1995, 415).
38O
próprio fato de na construção das histórias da disciplina estarem
presentes apenas os conhecimentos ditos geográficos seria uma clara
replicação da prática do apagamento da geografia dos outros. O
que sabemos hoje e que compõe o que entendemos por tradições dentro da
geografia seria, então, resultado de práticas de exclusão sucessivas.
39A
íntima relação entre o que se sabe e o que se pode saber, que revela a
dimensão do poder na construção das narrativas históricas é um
importante tópico que Rose (1995) discute e que reconhecidamente já faz
parte das reflexões mais atuais a respeito da prática historiográfica.
Por meio dessa discussão é possível colocar em pauta a questão do gênero
na construção das histórias da disciplina. Como bem aponta Rose (1995,
416), mesmo relativizando o que sabemos a respeito do passado, em função
do reconhecimento da permanência da prática do apagamento, uma idéia
segue implacável: a geografia é feita por homens, em sua maioria,
brancos e ocidentais.
40Para
Rose (1995), a construção das tradições geográficas reiteradamente
baseia-se numa abordagem de descendência paterna, revelada, por exemplo,
na eterna busca pelos pais da disciplina e consequente seleção de
herdeiros. Rose (1995) chama atenção para os tipos de masculinidade
produzidas nesse processo. Existiria, de um lado, o filho pródigo da
masculinidade acadêmica, aspirante a grande homem, que bem utiliza uma
tradição paternal como forma de legitimar sua maturidade intelectual. Do
outro lado, o filho rebelde, que renega a linha ascendente paterna para
criar a sua própria e gerar assim seus descendentes. O propósito de
Rose (1995) ao fazer uso de tais representações familiares é sugerir que
há mais em jogo na disputa pela linha de sucessão das tradições que a
busca pelo refinamento teórico e pelos lugares privilegiados na
academia. Rose (1995) aponta para a existência, e por vezes
preponderância, de dinâmicas complexas que envolvem as questões de
gênero, classe e raça. Mas segundo a autora, apesar das complexidades o
que segue imutável é o modo como o feminino é manifestamente excluído.
41Considerando
então a invisibilidade da mulher o papel da geógrafa feminista se torna
crucial para produzir uma resposta à tradição geográfica paternal. Uma
das grandes contribuições de Rose (1995) ao debate das tradições é o
entendimento que dá à noção de tradição dentro de um espaço analítico
delimitado pelas práticas de inclusão, exclusão e apagamento. Esse
espaço formaria por assim dizer um território que seria “um espaço
transparente no qual a história dos conhecimentos geográficos (e seu
contexto) se tornam visíveis para os historiadores como auto evidentes
(Rose, 1995, 416)”.
42Ao
avaliar The Geographical Tradition (Livingstone, 1992), Rose (1995)
sentencia-o como mais um trabalho que opera na lógica da
territorialização transparente que aniquila a ação dos outsiders. A
história contextual ofertada por Livingstone (1992), na perspectiva de
Rose, não reflete a respeito de sua localização específica de
historiador – o que, em grande medida, possibilitaria alguma discussão
mais profunda a respeito de seus horizontes e limites de visão. Ainda
assim, a contextualização serviria como uma máscara da transparência
histórica que impede ao leitor enxergar as exclusões e posteriores
apagamentos a que foi submetida, de tal modo que tudo o que não está lá
ou não existiu ou é irrelevante.
43Segundo
Rose (1995) a resposta a ser dada pelas abordagens alternativas, onde
se incluem as feministas, é a de substituição dessa espacialização
transparente. A mulher não deve ser inserida nessa estrutura, este seria
um dilema crítico como Rose identifica. A estratégia de inserção não
produz a diferença e sim a semelhança com o que já existe na tradição.
Uma estratégia alternativa seria a explicitação da condição de outsider
da mulher, celebrando-se nesse caso sua diferença. Nesse ponto, Rose
(1995) faz uma interessante ponderação sobre essa estratégia
demonstrando o problema que nela se encerra. Ao celebrar a alteridade
corre-se o risco de se sair em defesa de uma definição essencialista e
por isso mesmo bastante problemática da condição feminina como oposta à
condição masculina.
44Para
Rose (1995) a tarefa da geografia feminista é refletir sobre as
fronteiras da territorialização da tradição nas quais a diferença é
definida. Quem define, por que define e como se define esse espaço
transparente da tradição são questões cujas respostas condicionam as
ações alternativas que possibilitariam a criação de um espaço múltiplo
de análise que articule fronteiras, distinções e disjunções ao invés de
apagá-las. Como conclui a autora, que seja possível pensar e criar
um
espaço que possa reconhecer a exclusão como intrínseca ao processo de
inclusão, um espaço através do qual a diferença que o gênero tem na
produção dos conhecimentos geográficos possa ser reconhecida (Rose,
1995, 416).
45Dentre todos os artigos, sem dúvida o assinado por Clive Barnett (1995) é o mais contundente. Barnett
é professor da Open University na Inglaterra. Apesar de focar seus
estudos atuais em temas como espaço público, democracia e urbanização,
Barnett tem diversas publicações resultantes de estudos sobre temas
característicos da abordagem poscolonialista. No conjunto de artigos
publicado na Transactions, com o provocativo título Awakening the dead:
who needs the history of geography? que já sugere sua questão central
sobre a necessidade mesma de uma história da disciplina, Barnett (1995)
vai um pouco mais além na crítica desenvolvida pelos demais autores que
compõem o conjunto, pois contesta a adoção de novas perspectivas de
análise abertas pela incorporação dos estudos culturais e pós
colonialistas.
46No
artigo, Barnett (1995) inicia declarando que sua intenção é questionar o
argumento segundo o qual a importância dos estudos da história da
disciplina está assentada na idéia de ser o passado chave para
entendimento do presente. Barnett (1995) comenta o fato de que em seu
livro The Geographical Tradition – obra proclamada como exemplo de uma
abordagem contextual da história – Livingstone (1992), após seu relato
do que foi a geografia quantitativa, afirma ser impossível discutir as
críticas subseqüentes pois ainda seria muito cedo para tentar
elucidações contextuais de eventos tão recentes. Para Barnett (1995), a
posição de Livingstone cristaliza uma idéia que ele vai chamar de
metafísica do contexto, que seria um relutante reconhecimento de que a
abordagem contextualista não dá conta de se dirigir de maneira crítica e
evidente ao único contexto que realmente interessa, o contemporâneo.
Essa posição indica que a contextualização só funciona em algo que já
não muda mais de forma e que pode, portanto, ser apreendido como um
objeto do conhecimento. É como se a noção de contexto representasse algo
que o pesquisador não estaria, de forma alguma, fazendo parte. Barnett
(1995) vai além em sua crítica e afirma que a contextualização dá
suporte a um modo de juízo crítico que pressupõe uma posição
necessariamente externa ao contexto que está sendo examinado. Tal modo
de juízo garantiria uma distância segura a partir da qual o historiador
poderia decidir quais foram os elementos catalisadores que mobilizaram
os atores envolvidos na produção do conhecimento.
47Seguindo
esse argumento de Barnett (1995), entende-se que o contexto acabaria
por desqualificar e não legitimar qualquer tipo de intervenção
transformadora e genuinamente radical na configuração contemporânea da
disciplina. Tal constatação faz cair por terra a idéia de ser o passado
chave de entendimento do presente (podendo portanto levar a sua própria
transformação). Barnett expõe o que seria uma conclusão lógica bem
simples: “porque a ciência espacial e a geografia pós positivista ainda
não estão mortas, resistem a contextualização” (1995:417). Ou seja, só
se critica o que não mais está em voga. Portanto, posicionar-se
criticamente em relação a uma abordagem atual é uma decisão parcial, na
medida em que ainda se está imerso no mesmo contexto.
48Muito
embora haja certo radicalismo nos termos que que usa para avaliar o
modo como se comportam os historiadores da geografia, fundamentados nas
abordagens contextuais e críticas, a posição que Barnett assume é
interessante pois é capaz de suscitar uma discussão adiada sobre a
maneira de se ver e de se construir a história da disciplina. Obviamente
não existe mais o apelo a uma história da disciplina, ou melhor à
história da disciplina. O artigo definido caducou há tempos e o
indefinido só faz sentido se empregado no plural. Não há uma e sim
muitas histórias da geografia. O ponto é que esse posicionamento só
representará de fato um avanço se o próprio sentido de história for
questionado, o que, como deseja argumentar Barnett (1995), não acontece
de fato.
49Para
Barnett (1995, 417), os geógrafos já saberiam desqualificar o
empiricismo que caracterizava as antigas histórias de um objeto aceito
como verdadeiro chamado geografia. Mas esse empiricismo do objeto
persistiria no que tange à própria noção de história e é isso que
Barnett se dispõe a discutir. Conforme suas palavras seria uma heresia
questionar o aparentemente inquestionável papel da perspectiva histórica
(Barnett, 1995, 417), mesmo, e talvez principalmente, a partir do
momento em que ela assume uma posição crítica, renovada e contextual. E
com isso, não se coloca em questão, por exemplo, a natureza da histórica
relação de noções como discurso geográfico e conhecimento geográfico. É
como se os historiadores da geografia atuassem com um entendimento a
priori de que toda a geografia feita no passado é o passado da geografia
corrente.
50Sendo
assim, Barnett aponta que é somente por meio do reconhecimento que
muito daquela história é hoje simplesmente redundante que se é capaz de
identificar quais porções da geografia do passado permanecem vivas e
ativas como o passado da geografia hoje. Essa idéia de Barnett é a mais
valiosa. E por isso, a mais útil aqui. Pois coloca em questão o modo
como se posicionar diante do passado e questionar quais porções dele
devem ficar para compor o que é o passado do hoje. Por mais ‘metafísica’
que possa parecer essa questão, ela lança luz sobre um velho problema
da história, ao colocar em evidência a arbitrariedade que conduz o
trabalho daquele que se propõe a contar determinada história, pois cabe a
ele escolher quais seções do passado da disciplina podem e devem ser
acolhidas. E esse velho problema, já é mais que sabido, independe de
qual história se deseja contar, seja oficial ou oficiosa, convencional
ou contextual.
51Ainda
seguindo a argumentação desenvolvida por Barnett, a lacuna nas
discussões sobre esse e outros problemas da história, se relaciona a uma
inabilidade dos trabalhos em história da geografia para produzirem um
relato de maneira convincente de suas próprias condições de emergência.
Quando a nova historiografia da disciplina produz seu discurso de
legitimação o faz por meio de um apelo a uma série de narrativas épicas
das últimas duas ou três décadas da geografia. Nesse sentido, para
Barnett não há novidade alguma na nova historiografia da disciplina, que
tem desde sempre procurado fornecer certas auto-representações da
vocação profissional, relatos sobre o que os geógrafos devem fazer.
Segundo Barnett, isso sempre foi feito, no entanto ele reconhece uma
diferença fundamental no modo pelo qual o passado é ressuscitado em prol
de posicionamentos contemporâneos. O ressurgimento da história da
geografia como tal indica uma tendência, renovada entre os geógrafos
críticos, de exumar cadáveres apodrecidos para revelar sua astúcia e
assim enterrá-los novamente. Nomes do passado não são mais venerados,
porém ainda são utilizados para que ganhem um novo significado no
passado da disciplina. Este recurso a tais narrativas de legitimação
demonstra, na verdade, a insistente ausência de uma análise dos papéis
jogados pelos atores produtores do conhecimento nos novos campos de
estudo, análise que poderia avaliar as possibilidades e limites de tais
novos campos.
52Para
Barnett, o motivo pela qual os geógrafos precisam de uma história não é
por conta do incontestável apelo de entender o passado da disciplina
como se esse passado necessariamente ainda sustentasse o presente. O
motivo é o fato de o passado poder ser facilmente usado para servir como
um campo de discussão conveniente no qual se pode praticar diferentes
tipos de teorias. Neste ponto, Barnett não economiza ironias ao se
referir a nova onda de aportes analíticos da crítica literária, dos
novos estudos culturais e sociais e dos pós coloniais. Em suas
conclusões (e na melhor seção de seu texto), Barnett comenta que os
geógrafos estão bastante ocupados em agarrar seu bocado de culpa
colonial justamente para não perder seu bocado nos despojos do mais
excitante e inovador campo da teoria contemporânea. E é aqui que o
argumento do passado como chave de leitura do presente cai por terra,
porque os geógrafos estariam mais interessados em seguir essa tendência
(que hoje corresponde a principal forma de comunicação interdisciplinar
que tem a sua disciplina) para atender a pressões por novas formas de
filiação profissional que propriamente em procurar no passado da
disciplina traços e repercussões que existem na geografia do presente.
53Após
ver diversos aspectos de sua obra serem esquadrinhados, criticados e,
em algumas instâncias, veementemente rejeitados, coube a Livingstone a
tarefa de fechar o ciclo de debates com sua contribuição ao tema das
tradições geográficas. Livingstone leciona na Universidade de
Belfast na Irlanda do Norte. Suas pesquisas atualmente, versam sobre o
papel do lugar na produção do conhecimento científico apontando para um
possível novo campo da geografia da ciência. Um bom caminho para
conhecer esse trabalho do autor é o livro Putting Science in It’s Place,
publicado em 2003, pela Chicago University Press. O projeto mais
recente de Livingstone, que diga-se vem ganhando espaço e notoriedade
entre os estudiosos dos chamados science studies, dos quais se destacam
Bruno Latour, Steven Shapin entre outros, trata da difusão e apropriação
da teoria darwinista, a partir de uma perspectiva eminentemente
geográfica com ênfase no papel do espaço e do lugar no processo.
54O
problema dos vícios do enciclopedismo, dos excessos da análise
contextualista, que seria justamente uma exaustão do sentido do texto na
redução do contexto e a defesa pela história das tradições são os
aspectos centrais da argumentação que Livingstone (1995) desenvolve em
Geographical Traditions, o artigo que fecha o debate na Transactions. O
artigo é pequeno, pouco menos que quatro páginas para responder, ou ao
menos reencaminhar, muitas questões suscitadas nas falas anteriores, e
ao fazê-lo, Livingstone é assertivo em defender a necessidade de uma
análise que leve em conta a reciprocidade do texto e do contexto.
55Para
começar, Livingstone (1995) assim como Barnett (1995) faz em seu
artigo, atesta a expurgação prevalecente à época do artigo definido no
discurso acadêmico. A esse movimento, Livingstone dá o sugestivo nome de
“pluralização pós moderna imperativa”. Sua intenção é, então, analisar
as motivações que encaminharam para as mudanças na historiografia da
geografia, ao menos na Inglaterra. O impulso pós colonial seria a
motivação principal para que se repensem as tradições geográficas, e que
se lance luz àquelas que ficaram escondidas da visão acadêmica
ocidental.
56O
argumento central de Livingstone é que continua sendo válido manter a
noção de tradição geográfica, uma vez que esta revela a ideia de
pertencimento dos geógrafos a uma tradição de pesquisa, independente das
diferenças internas e debates que nela aconteçam. A ideia é que essa
tradição de pesquisa tem uma narrativa, e esse atributo garante sua
historicidade.
57
Livingstone (1995) acredita que é preciso levar a sério a ideia de
tradição para que assim seja possível avaliar suas incoerências, por
isso, seu objetivo é demonstrar que a tradição geográfica é uma tradição
de investigação situada socialmente, historicamente e intelectualmente e
possui uma posição metodológica característica.
58Para
ilustrar tal proposição Livingstone (1995) procura colocar em contraste
o método de pesquisa histórica característica do historiador das
tradições com duas posições historiográficas distintas: o
encicplopedismo, com origem no pensamento iluminista que possui adeptos
até os dias atuais e o método genealógico, cuja origem estaria na
genealogia da moral de Nietzsche, tendo sido posteriormente desenvolvido
por Foucault e que encontra largo esteio na perspectiva contextualista
da história.
59O
enciclopedismo é, nas palavras de Livinsgtone (1995, 420), a
quintessência da estratégia iluminista de tratamento da história. A
confiança depositada na racionalidade iluminista baseada no progresso
moral e social da civilização humana tornou os enciclopedistas arautos
do progresso inexorável e semeadores da ideia segundo a qual o
conhecimento se tomado a partir de padrões, critérios e métodos
universais seria o produto convincente, transcendental e neutro da
investigação científica.
60Pois
bem, essa representação quase caricatural sobre o enciclopedismo para
Livingstone continua a informar uma boa dose da prática acadêmica do
presente. A história do conhecimento geográfico do século XX tem sua
ênfase no progresso cumulativo, nos grandes nomes da história e na
catalogação de feitos, pessoas e publicações referenciais. Tal posição
torna uma possível mirada metodológica em direção ao papel das
circunstâncias sociais, intelectuais e morais pouquíssimo relevante.
Livingstone comenta que considerando a proliferação de dicionários e
outros trabalhos de referências o enciclopedismo possui ainda bastante
adeptos entre os interessados pelas histórias da disciplina.
61A
segunda modalidade de investigação histórica tem seu ponto de partida na
genealogia da moral de Nietzsche, tendo sido posteriormente
desenvolvida nos escritos de Foucault. A genealogia em Nietzsche se
configura como um exercício desmascarador por revelar que toda discussão
em torno da moral e da verdade era, de fato, vontade de poder. Nesse
caso e voltando-se ao método enciclopedista, as pressuposições a
respeito dos padrões, critérios e métodos estavam, na verdade, em
disputa. Ao posicionar, a partir de um resgate etimológico, a noção de
moral na instância do real, imersa nas condições históricas
contingenciais, Nietzsche comete o abandono da idéia da transcendência
alinhavando origem e sentido no mesmo patamar. Ao apresentar tal
movimento na filosofia nietzscheana, Livingstone (1995) pretende
demonstrar que a genealogia se torna então numa estratégia histórica
anti-essencialista antípoda ao enciclopedismo.
62Nesse
ponto percebe-se a convergência dos argumentos de Livinsgtone (1995)
com os de Matless (1995) a respeito do método genealógico que defende em
seu artigo. A estratégia basilar da genealogia é a da subversão
asseverando o fim da transcedência. Todos os elementos se encontram no
mundano campo do historicamente contingente. Portanto tudo o que nele se
afirma, se afirma desde um ponto de vista particular. Conforme comenta
sabidamente Livingstone (1995) as implicações dessas idéias têm
proporções épicas para as ciências humanas vistas sob a perspectiva
genealógica.
63Mas
Livingstone vê problemas, e não são poucos, na adoção da perspectiva da
genealogia na construção das histórias da geografia. O impulso
genealógico teria causado um impacto considerável em certos setores da
comunidade geográfica, especialmente aqueles que adotaram de forma
radical o desenvolvimento de Foucault.
64Livingstone
sugere que o engajamento ao método genealógico, ainda que tenha
possibilitado uma abertura a novas frentes de pesquisa ocupadas com a
relação entre conhecimento e poder por exemplo, produziu uma franca
corrida para que se revelassem os verdadeiros desígnios da geografia, em
ações mais temerárias que sistemáticas e substanciais.
65E
quanto aos historiadores da tradição, qual lugar metodológico ocupam
nessa história? Se para Livingstone (1995, 421) os enciclopedistas
assumem uma racionalidade desengajada e o genealogista negocia sua
história em total contingência e descontinuidade, o historiador da
tradição trabalha com a ideia segundo a qual as tradições, quando
vitais, encarnam continuidades de conflito. Livingstone é categórico ao
afirmar que a tradição de pesquisa é um argumento historicamente situado
e socialmente encarnado. Ao historiador da tradição é preciso tomar de
forma séria as continuidades de conflito mantendo a possibilidade de um
progresso racional dentro das tradições. O que Livingstone argumenta é
que estar dentro de alguma tradição particular – que pelo visto todos
estamos mesmo não querendo admitir – é condição para se comprometer com a
formulação, justificação racional e crítica dos relatos de uma
racionalidade teórica e prática. Para Livingstone pensar a geografia
como uma tradição de pesquisa permite a possibilidade de escrever
narrativas que conformam circunstâncias historicamente contingentes nas
quais certas práticas e princípios puderam se desenvolver, sem incorrer
no risco de reduzir inteiramente o conhecimento produzido às
contingências temporais e espaciais.
66O
que se depreende da análise dos argumentos de Livingstone é a ideia que
de fato importa o período, importa o lugar no qual o conhecimento foi
produzido, assim como importam os grupos que detinham os instrumentos
para essa produção, entretanto, crer que não se pode afirmar a
existência de uma, ou mais de uma, tradição de pesquisa que conseguiu
ultrapassar barreiras de tempo e espaço é reduzir imensamente as chances
de estabelecer uma crítica coerente dessas mesmas tradições.
67E
este seria o furo do enciclopedismo e da genealogia. Ambas perspectivas
se encontram em um dilema auto referencial que desestabiliza qualquer
afirmação que façam dentro de suas próprias narrativas (Livingstone,
1995:422). Isso porque para que seja possível manter coerentes suas
afirmações tanto o enciclopedista quanto o genealogista precisam isentar
suas próprias declarações do tratamento ao qual submeteram todas as
demais afirmações. O enciclopedista precisa do contexto e o genealogista
precisa da transcendência.
68Esse
é o ponto chave do artigo de Livingstone, é a resposta vigorosa que dá
em defesa das histórias da tradição. Concordando, ao final, com Rose
(1995) e Driver (1995) ao defenderem a necessidade de uma subversão
interna, Livingstone acredita que “conceber a geografia como uma
tradição de pesquisa (...) possibilita na não apenas uma nova, mas uma
melhor relação entre conhecimento e poder para ser atingida”
(Livingstone, 1995, 422).
69O conjunto de cinco artigos reunidos sob o título Geographical Traditions: rethinking the history of geography,
como visto, foram motivados pelo entusiasmo por uma nova historiografia
da disciplina, reflexo do renovado interesse com a história da
geografia associado à conjunção de diferentes movimentos, dentre os
quais a chegada de novo aparato metodológico com base nos estudos
culturais, na perspectiva feminista e nas contribuições dos science studies. Novas
proposições dentro da historiografia conduzem os geógrafos a uma
reflexão sobre as diversas formas que o conhecimento geográfico adquire
em discursos da geografia que necessariamente possuem uma história
bastante complexa.
70A
funcionalidade do método genealógico; a pertinência ou não de sustentar a
existência de tradições de pesquisa; o questionamento da busca por uma
identidade inviolável da geografia no passado; a inconveniência do uso
de termos familiares; a necessidade de se expor a prática da exclusão e
do apagamento na escrita da história foram alguns dos tópicos presentes
no debate e analisados aqui. Conforme exposto ao início do texto, a
motivação foi compartilhar tais idéias. O anseio é que elas possam ecoar
mais profundamente nas pesquisas que realizamos e que envolvem o
passado da disciplina.
71O
que se retém, finalmente, da análise dos artigos são duas constatações. A
fragilidade da perspectiva tradicional da história cumulativa
universalizadora e o esgotamento da perspectiva contextualista apontou
para a necessária revisão de métodos e propósitos da escrita da história
da disciplina. Tal revisão, por sua vez, abriu caminho para a adoção
das chamadas perspectivas pós-positivistas (o recurso a essa
nomenclatura se justifica pois é dessa forma que se referem os autores
em questão) pelos pesquisadores interessados na história da disciplina
segue como um tema a ser discutido.
72De
fato, justamente por possuírem a capacidade de contestar as histórias
oficiais do conhecimento, criando obstáculos para as narrativas
‘ajustadas’ que parecem inevitáveis, do progresso e da realização, tais
abordagens alternativas se mostram bastante úteis no esforço daqueles
que se propõem o estudo da história da disciplina. A alusão à
caixa-preta da ciência, por exemplo encontrada na obra de Bruno Latour
(1999), é bastante oportuna para quem pretende denunciar narrativas de
trunfos teóricos e práticas ideais constituintes de uma evolução do
conhecimento tida como inexorável, pois sustenta que a possibilidade de
realização da ciência se dá, precisamente, por força dos imperativos
sociais, dos interesses locais, dos jogos de poder que a circunscrevem.
73Entretanto
a adoção de novas abordagens não pode ser feita sem que faça dela um
exame crítico efetivo e constante. Os geógrafos devem questionar a
chegada desses novos aportes na geografia, avaliando sua extensão, sua
plausibilidade nas investigações empreendidas e, principalmente avaliar
os ganhos que de fato essa chegada representa. Somente essa posição
crítica possibilitará que a geografia não incorra no fatal erro de
adotar apenas um vocabulário atual para tratar suas velhas questões.