1O
presente artigo tem por objetivo analisar as relações entre o curso de
Geografia e História da Universidade do Brasil e o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE). Havia estreita colaboração
entre professores, alunos do curso e técnicos do Instituto. Vários
professores trabalhavam no órgão realizando consultorias e organizando
expedições; os alunos participavam de pesquisas de campo; e os técnicos,
que possuíam outras formações que não a de Geografia, graduavam-se na
universidade. Examinar esta aproximação mútua é essencial para esmiuçar
de que maneira determinadas resoluções tomadas no âmbito do Instituto
influenciavam no curso universitário.
2Dentre
as resoluções do IBGE que diziam respeito ao curso de História e
Geografia, as que tiveram maior importância estavam relacionadas aos
apelos pela separação das referidas carreiras na década de 1940. Nesta
época o Instituto adquiria grande importância nacional, principalmente
devido aos levantamentos que forneciam o suporte necessário às políticas
territoriais do Estado (Almeida, 2000, pp. 87-88). Com o aumento de sua
influência, cresciam também as reivindicações dos funcionários, os
profissionais desejavam que o curso de Geografia não somente estivesse
em consonância com as atividades desenvolvidas no IBGE, mas que também
formasse geógrafos especializados para as funções que desenvolveriam em
seu ofício.
3Apesar
de, na prática, haver algum nível de especialização, pois, comumente,
os alunos que se interessavam por Geografia se aproximavam dos
professores da área, a graduação conjunta com a de História era motivo
de grande insatisfação dos geógrafos ligados ao Instituto. Isto
acontecia porque o currículo universitário do curso era dividido
equitativamente, fazendo com que a formação dos profissionais em
geografia fosse repleta de disciplinas da área de História e vice-versa
(Machado, 2009, p. 110).
- 1 Capanema foi ministro da Educação e Saúde Pública entre os anos de 1934 e 1945.
4Por
conseguinte, o desagrado dos profissionais com o curso originou uma
série de resoluções do Conselho Nacional de Geografia, cartas dirigidas
ao ministro Gustavo Capanema,1
além de artigos e palestras que tratavam do problema. A avaliação
desses documentos nos permite inferir as reivindicações dos geógrafos em
relação ao curso universitário, bem como identificar as pressões que
levaram à separação dos cursos, já na década de 1950.
- 2 O artigo 1o do referido decreto diz: O Instituto Nacional de Estatística passa a denominar-se Insti (...)
5O IBGE foi criado em janeiro de 1938 por meio do Decreto-Lei no 218. Sua estrutura, no entanto, consistiu na união de dois órgãos que já existiam formalmente,2
o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Conselho Nacional de
Geografia (CNG) ao Serviço Nacional de Recenseamento (Almeida, 2000, p.
36).
6A
criação dos Ministérios do Trabalho, Indústria e Comércio e da Educação e
Saúde Pública, ainda no começo do governo de Getúlio Vargas, deu início
a diversas modificações no aparelho administrativo do novo governo. A
partir de então, foram aceleradas as gestões para a criação de um
sistema centralizado de informações e estatísticas capaz de subsidiar as
ações do governo federal (Nogueira, 2013, pp. 67-68).
7Deste
modo, as atividades desenvolvidas pelo IBGE em seus anos iniciais
visavam a construção de saberes técnicos e científicos que fornecessem
suporte às ações governamentais. O governo central passava a dispor,
assim, de uma agência técnica responsável pela orientação das políticas
referentes à gestão do território nacional (Adas, 2006, pp. 36-38).
8Em
última análise, o material produzido pelos profissionais do Instituto,
na forma de tabelas, mapas e censos, foi utilizado amplamente pelo
governo com o propósito de organizar o território brasileiro e intervir
na ordem social e política do país, numa perspectiva centralizadora.
9No
interior da estrutura administrativa do IBGE, o CNG estabeleceu-se como
órgão especializado em efetivar o conhecimento minucioso e sistemático
do país, coordenando diversas iniciativas, como excursões de estudo,
levantamentos territoriais e regionalizações, entre outras. O
conhecimento geográfico do território nacional era um tema recorrente
tanto nas falas dos políticos quanto dos geógrafos (Almeida, 2000, p.
37; Almeida & Abrantes, 2004, pp. 418-419).
10No
que tange especificamente à geografia, destaco que o campo se
desenvolvia paralelamente na Universidade e no IBGE. Juntas, as duas
instituições assumiam o papel de profissionalização das primeiras
gerações de geógrafos. As faculdades formavam os professores de
Geografia; o IBGE treinava e formava os geógrafos especializados. Havia,
portanto, certo nível de colaboração.
11A
Universidade do Brasil fez parte de um projeto de educação do governo
federal que tinha por objetivo estabelecer um novo padrão de ensino
superior no país. Ela foi criada pela pasta de Gustavo Capanema
em 1937, com a pretensão de formar intelectualmente as elites
brasileiras para cargos profissionais nos setores público e privado.
Contudo, na cidade do Rio de Janeiro já havia outra universidade, de
âmbito municipal, a Universidade do Distrito Federal. Compreender as
ligações entre as duas instituições ajuda a esclarecer os caminhos
percorridos pela própria geografia universitária brasileira.
12A Universidade do Distrito Federal (UDF) foi fundada no ano de 1935. A situação desta instituição era sui generis,
pois, à época, a cidade do Rio de Janeiro era a então sede do governo
federal, fato que imprimia nesta universidade a missão de definir o
padrão cultural a ser disseminado no restante do país. Ela fazia parte
de um programa de instrução capitaneado por Anísio Teixeira, diretor de
Instrução Pública do Distrito Federal (1931-1934) e logo depois
Secretário de Educação e Cultura (1935). Desde seu nascimento, a
Universidade atrai para si grandes professores brasileiros, entre eles
Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre, Cândido Portinari e Heitor
Villa-Lobos; além da particularmente destacada missão francesa,
que contava com professores de renome lecionando nas áreas de História,
Geografia e Letras e Literatura (Ferreira, 2013; Machado, 2009, pp.
55-64).
13O
curso de Geografia na UDF era desenvolvido separadamente do curso de
História, fato bastante peculiar quando levamos em consideração que em
outras instituições de ensino superior, como a Universidade de São
Paulo, por exemplo, o curso funcionava de maneira conjunta. Este foi o
formato institucional até o fim do ano de 1937, quando os cursos foram
reorganizados e houve a fusão entre as graduações de história e
geografia (Machado, 2009, pp. 65- 69).
- 3 O Decreto no 19851, de 11 de abril de 1931, regula o ensino superior brasileiro através da constitu (...)
14Contudo, a UDF já nascia indo de encontro ao Estatuto das Universidades Brasileiras de 1931,3
que subordinava as mesmas ao Ministério da Educação e, por
consequência, ao governo federal. Em tais condições, seu próprio decreto
de fundação contrariava a orientação do Estado, pois a UDF estava
vinculada ao poder municipal da cidade do Rio de Janeiro. Além disso, a
existência dessa instituição também contradizia o projeto de criação da
Universidade Brasil defendido pelo governo federal, através da figura do
ministro Gustavo Capanema.
- 4 Por meio do Decreto-Lei no 1063, de 20 de janeiro de 1939, Getúlio Vargas conclui a dissolução da U (...)
15Principalmente
a partir do golpe de Estado que garantiu a permanência de Vargas no
poder, a proposta da UDF sofre uma série de reveses. Inicialmente, isto
se fez sentir com a remodelação de seu currículo pioneiro; em seguida,
por meio de sua completa extinção no ano de 1939,
quando seus quadros passam a integrar a Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras da Universidade do Brasil (UB).4
Apesar de haver outras modificações na transição da estrutura da UDF do
governo municipal para o federal, bem como na sua incorporação à
Faculdade Nacional de Filosofia da UB, a que destaco neste artigo é o
funcionamento conjunto dos cursos de História e Geografia. No último ano
de existência da UDF as graduações já estavam unidas e depois, com a
UB, houve a consolidação deste modelo, que vigorou até o ano de 1956,
quando houve a separação dos cursos.
- 5 A França e a Alemanha eram os principais expoentes da produção geográfica no começo do século XX, m (...)
- 6 Este foi o caso do canadense Pierre Dansereau, especialista em botânica, que lecionou biogeografia (...)
16A constituição da geografia universitária, no caso brasileiro, esteve ligada à opção pelo modelo disciplinar francês,5 materializado através da contratação de professores desta nacionalidade (ou pelo menos francófonos6) para lecionar no nascente curso universitário. O grupo representava a chamada Escola Geográfica Francesa,
difundida em diversos países a partir de sua matriz original. No
entanto, é conveniente destacar que a escolha do modelo francês não
ficou restrita à Geografia. No caso da História, marcadamente, também
foram contratados mestres franceses.
17É
notória a existência de professores e produção didática na área da
geografia no Brasil antes da vinda dos professores estrangeiros. Bons
exemplos disso são Aroldo de Azevedo e João Dias da Silveira, em São
Paulo, e Delgado de Carvalho e Fernando Raja Gabaglia, no Rio de
Janeiro. No entanto, esses estudiosos não eram formados em Geografia, à
qual chegaram por diferentes caminhos. Aroldo de Azevedo, por exemplo,
era bacharel em Direito, mas escreveu livros didáticos de Geografia e
foi professor da disciplina no ensino secundário, tendo se graduado
apenas quando da criação do curso na USP. Delgado de Carvalho era
formado em Ciências Políticas, embora tenha feito carreira docente e
escrito compêndios de Geografia, História e Sociologia. O campo
disciplinar estava ainda em processo de constituição no país, por isso
não havia tantos geógrafos para ministrar aulas nos cursos
universitários, e muito menos um padrão profissional para a disciplina.
- 7 Pierre Deffontaines nasceu em Limoges em 1894 e morreu e 1978, aos 84 anos, em Paris, tendo dedicad (...)
18A Escola Geográfica Francesa teve em Pierre Deffontaines7
seu primeiro representante universitário no Brasil. O geógrafo foi
contratado primeiramente pela USP, no ano de 1934, e logo depois pela
UDF, entre 1936 e 1938. É interessante atentar para o fato de que
Deffontaines não lecionava apenas, mas estava comprometido com a criação
de institutos, revistas e associações que fornecessem suporte e
divulgação à pesquisa científica. O geógrafo propôs a fundação da
Associação dos Geógrafos Brasileiros, existente até os dias de hoje, e
manteve-se próximo do movimento que daria origem ao CNG. Dentro deste
órgão, exerceu funções de palestrante, conferencista e colaborador
assíduo da Revista Brasileira de Geografia. Além disso, foi grande
incentivador da adesão brasileira à União Geográfica Internacional.
19Um
dos principais legados de Deffontaines reside exatamente nesta
circulação nos ambientes onde era produzido o saber geográfico no
Brasil. O geógrafo contribuiu decisivamente para a colaboração entre a
dita “ala acadêmica” da disciplina institucionalizada (relacionada à
Universidade) e a “ala técnico-administrativa” (representada pelo IBGE).
Havia uma significativa articulação entre a Universidade e o IBGE. Os
professores orientavam seus alunos não só para a futura docência, mas
também para o trabalho de campo (Lefebvre, 1999), enquanto o IBGE
promovia encontros e proporcionava estágio a alunos do curso da UDF
(Evangelista, 2006).
- 8 Francis Ruellan nasceu em 1894 e faleceu aos 71 anos. Trabalhou no Rio de Janeiro por dezesseis ano (...)
20No começo dos anos 1940, no Rio de Janeiro, havia outro representante da Escola Francesa: Francis Ruellan.8
O professor lecionava na antiga Faculdade Nacional de Filosofia da
Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro
(Ferreira, 2006, pp. 152-153) e, assim como os demais geógrafos
franceses, também atuava em outro ambiente de produção do saber
geográfico, o IBGE, onde era consultor técnico do CNG. Sua função era
não somente a pesquisa, mas, sobretudo o treinamento de pesquisadores,
formando quadros profissionais para o Conselho através de suas
atividades em campo.
21A
respeito de Ruellan, é interessante destacar que, por ter atuado em duas
frentes da pesquisa geográfica – ensino universitário e administração
pública federal – o geógrafo acabou por estabelecer um elo entre a
Faculdade de Filosofia e o CNG. Ao realizar pesquisas sobre o território
nacional, abriu espaço para o reconhecimento do ofício de geógrafo.
Seus trabalhos de campo aportavam conhecimentos empíricos sobre a
formação geológica do território brasileiro e sua ocupação humana,
aspectos cruciais para a constituição profissional do nascente grupo de
geógrafos do Rio de Janeiro, bem como para a construção de um pensamento
geográfico sobre o Brasil.
22O
geógrafo destacou-se por suas pesquisas e expedições ao interior do
território nacional. Em 1946, o então presidente Dutra nomeou a Comissão
de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil, sob a chefia
do general Djalma Poli Coelho, que realizou trabalhos de gabinete e de
campo no desempenho de suas atribuições. No interior desta Comissão,
havia uma subcomissão especialmente ativa – a de Estudos Geográficos –
que organizou dois minuciosos trabalhos de campo ao Planalto Central. A
primeira dessas iniciativas foi chefiada por Ruellan e envolveu mais de
40 pessoas, entre técnicos e alunos da Faculdade Nacional de Filosofia. O
objetivo da viagem era definir possíveis locais para a construção da
futura capital (Pereira, 2010, pp. 51-74). Sua realização possibilitou a
confecção de um retrato detalhado da região: clima, altitude,
mineralogia, possíveis áreas que se destinariam à agricultura, rios que
abastecem a região, culturas a serem implantadas, entre outros aspectos
que seriam descritos, posteriormente, em uma comunicação à Associação de
Geógrafos Franceses (Ruellan, 1948).
23A
importância das atividades profissionais desses professores franceses
relaciona-se justamente à articulação entre os diferentes espaços
destinados à produção do saber geográfico: eles auxiliaram na sua
criação, trabalhavam em suas atividades e formavam ainda discípulos que
continuariam a obra iniciada.
24Além
disso, o exame dessa cooperação entre professores universitários,
alunos e técnicos do IBGE nos permite uma visão do processo que não
privilegie somente o conhecimento construído na Universidade, mas que
compreenda todas as instâncias envolvidas na constituição do campo da
Geografia no Brasil.
25Podemos
perceber melhor o fenômeno descrito quando consideramos uma
particularidade da institucionalização da disciplina no Brasil: o saber
acadêmico era desenvolvido concomitantemente ao de gestão territorial. O
pensamento geográfico brasileiro estava intimamente ligado ao
conhecimento do território nacional, à realização de levantamentos e
trabalhos cartográficos. A geografia era dotada de um sentido de missão,
colocando-se a serviço da integração e desenvolvimento do país.
26Nos
os anos de 1944 e 1945 foram aprovadas pelo Conselho Nacional de
Geografia duas resoluções que tinham por objetivo ajustar a formação dos
geógrafos. Elas estabeleciam a maneira como deveriam ser
conduzidos os cursos universitários, apontando para diferentes aspectos,
como a especialização da formação em Geografia e sua consequente
separação do curso de História, o equilíbrio entre teoria e prática
durante a graduação e a regulamentação da profissão de geógrafo.
- 9 A versão completa do documento pode ser consultada no anexo n. 1 do presente artigo.
27Na resolução número 156, de 14 de abril de 1944 (IBGE-CNG, 1945a)9
o Conselho faz um apelo ao ministro Capanema. Em todos os artigos que
compõem o documento há formulações que refletem as demandas do IBGE
quanto à profissionalização da Geografia. O primeiro deles trata
especificamente sobre a separação do curso de História, conforme pode
ser verificado a seguir:
Art. 1o
– O Conselho Nacional de Geografia formula encarecido apelo ao senhor
Ministro da Educação e Saúde no sentido de ser estabelecida, na reforma
do ensino superior em preparo, a separação dos cursos de Geografia e de
História nas faculdades de filosofia, de modo a se possibilitar a
formação de geógrafos habilitados convenientemente nos trabalhos
especializados, de gabinete e de campo, de que tanto carece a Geografia
nacional, no seu aparelhamento atual (p. 1657).
28Entre
1942 e 1946 foram aprovadas diversas “Leis Orgânicas do Ensino” pelo
ministro Gustavo Capanema, no que, em seu conjunto, ficou conhecido como
Reforma Capanema. Ao contrário do que pode parecer após a
leitura do fragmento acima, as leis orgânicas estabeleceram referências
de funcionamento principalmente para os ensinos industrial, comercial e
secundário, demonstrando a intenção do governo de estruturar o ensino
profissionalizante destinado às camadas populares da sociedade (Palma
Filho, 2005, pp. 71-73).
29A
estratégia dos profissionais do IBGE era aproveitar essas tentativas de
reforma do ensino brasileiro e deixar clara sua insatisfação com o
modelo que vigorava no curso de Geografia. Empenhavam-se por uma maior
especialização profissional já durante a graduação.
30Outro
ponto interessante da resolução 156 aborda a necessidade de maior
equilíbrio na quantidade de disciplinas teóricas e práticas no curso de
geografia:
Art. 2o
– O Conselho encarece também a conveniência de se estabelecer, na
medida do possível, uniformidade dos currículos nos cursos de Geografia
das faculdades de filosofia do país, de maneira que, mediante
equilibrado conjunto de estudos teóricos e práticos, melhor e mais
extensamente se atendam as necessidades dos meios técnicos (p. 1657).
31O IBGE era um dos principais ambientes de trabalho dos geógrafos formados pela Universidade do Brasil. Além
disso, vários profissionais que exerciam funções no Instituto sem haver
cursado Geografia, procuravam adquirir formação na área, que lhes
parecia promissora. Assim, percebemos que as reivindicações em tela
estavam em consonância com a tentativa de fortalecer a identidade e a
autonomia da Geografia frente a outros campos do conhecimento. Para
tanto, buscava-se uma integração entre as alas ditas “técnica” e
“acadêmica” da disciplina. Os técnicos e profissionais que integravam os
quadros do Instituto mantinham relações bastante próximas com a
Universidade.
32Esta valorização da técnica nas atividades desenvolvidas pelo IBGE fica ainda mais clara quando observamos os artigos 3o e 4o da resolução:
Art. 3o
– Igualmente, salienta o Conselho a necessidade de ser restabelecido
nas escolas de engenharia o curso de geógrafo, em virtude da falta
desses técnicos no país, a criar-lhe embaraços no desenvolvimento dos
trabalhos geográficos e sugere dar-se ao diplomado nesse curso o título
de “engenheiro geodesista”.
Art. 4o – Por fim, o
Conselho ressalta a absoluta necessidade de ser dado cunho prático aos
cursos superiores de Geografia, por forma que os geógrafos formados
pelas faculdades de filosofia e pelas escolas de engenharia sejam
profissionais aptos e em condições de aproveitamento imediato e efetivo
(pp.1657-1658).
33O teor do artigo 3o é particularmente interessante, pois reafirma a conexão entre a engenharia e a geografia. Ora,
antes da existência do curso universitário de Geografia havia diversas
expedições de reconhecimento territorial e de mapeamento levadas a cabo
por engenheiros, que realizavam trabalhos essencialmente geográficos.
Alguns dos primeiros alunos do curso universitário de Geografia eram
engenheiros. Um bom exemplo é Christovam Leite de Castro,
secretário-geral do CNG, com formação em engenharia civil e aluno da
primeira turma do curso implementado na Universidade do Distrito
Federal.
34No
último artigo podemos depreender que a reivindicação pela maior
proximidade entre geografia e engenharia dava-se pelo caráter acadêmico e
pouco prático do novo curso. Os alunos que desejavam ter uma formação
compatível com o exercício de atividades de campo se aproximavam dos
professores que as realizavam no IBGE, como era o caso de Ruellan, que
capitaneava as expedições citadas anteriormente.
- 10 A versão completa do documento pode ser consultada no anexo n. 2 do presente artigo.
35As
determinações que buscavam uma formação mais condizente com as
atividades profissionais do geógrafo ganharam continuidade na resolução
183, de 26 de março de 1945 (IBGE-CNG, 1945b).10 Esta tinha por objetivo regulamentar a profissão de geógrafo e criar uma faculdade de Geografia e Cartografia:
Art. 1o
– Fica constituída uma Comissão Especial para o fim de estudar as
questões relativas à regulamentação do exercício da profissão de
geógrafo e à criação da Faculdade de Geografia e Cartografia, na
conformidade das indicações nesse sentido aprovadas pelo X Congresso
Brasileiro de Geografia e encaminhadas à consideração deste Conselho (p.
337).
- 11 Através da Lei no 6664 que disciplina a profissão de geógrafo.
36A regulamentação só viria, no entanto, no ano de 197911
e, não à toa, o órgão que regula o exercício da profissão de geógrafo
no país é o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia
(CREA). No interior deste órgão, a geografia situa-se na chamada Câmara de Agrimensura, juntamente com a engenharia cartográfica.
37Por
conseguinte, destaco que as resoluções do Conselho CNG em relação à
Universidade estavam centradas na busca pela autonomia do curso de
Geografia e o estabelecimento da profissão de geógrafo. Com as
atividades em geografia ganhando importância, principalmente através das
pesquisas do IBGE, eram cada vez mais numerosas as gestões em favor da
criação de um curso separado da história. Além das resoluções do
Conselho, o tema iria permear também os discursos dos geógrafos,
conforme pode ser constatado a seguir.
- 12 José Veríssimo da Costa Pereira foi um dos geógrafos brasileiros que mais se preocupou com a histór (...)
- 13 A versão completa do documento pode ser consultada no anexo n. 3 do presente artigo.
38Dentre os artigos de geógrafos produzidos na época chamo a atenção para o de José Veríssimo da Costa Pereira (1944),12 que, poucos dias depois da aprovação da resolução 156 do Conselho, proferiu uma palestra na Rádio Nacional intitulada A geografia na universidade do Ar13cujo tema central era o curso de geografia através do rádio.
39A
Universidade do Ar foi criada no ano de 1941 sob supervisão da Divisão
de Ensino Secundário do Ministério da Educação e Saúde Pública e tinha
por objetivo oferecer novas metodologias de ensino aos professores
secundaristas. Por meio da Rádio Nacional, à época a maior emissora de
rádio do país, eram oferecidos cursos de Português, Matemática, Latim,
Geografia, História, entre outros (Pimentel, 1999, pp. 35-37). É
interessante destacar que neste modelo de ensino os cursos de História e
Geografia eram separados, assim como no ensino secundário.
40Em
seu discurso, o autor deixa clara a importância do desenvolvimento da
ciência geográfica para o Estado brasileiro, principalmente no contexto
do Estado Novo, aproveitando o ensejo dado pelo próprio presidente -
quando este faz de improviso um discurso enaltecendo a geografia
nacional na ocasião da criação dos Territórios Nacionais, em janeiro de
1944 - para reforçar as reivindicações em favor do curso universitário,
baseado na argumentação da geografia como campo exclusivo:
A Geografia do Brasil enfeita-se, este ano, para grandes comemorações. Realmente,
1944 será o ano geográfico do Brasil. Três memoráveis assembleias vão
se reunir em nosso país. Em agosto, a II Reunião Pan-Americana de
consulta sobre Geografia e Cartografia patrocinada pelo Conselho
Nacional de Geografia. Depois, a Assembleia Nacional do mesmo Conselho
e, finalmente, em setembro, o X Congresso Brasileiro de Geografia, em
Belém, no Estado do Pará.
Como a completar a característica
geográfica para o Brasil do ano de 1944, salienta-se ainda o
reconhecimento oficial – por S. Excia., o Sr. Presidente da República –
do valor da Geografia para o conhecimento seguro dos povos em suas
relações com o meio físico. Fê-lo S. Excia. quando em Guaíra, falou de
improviso, a 27 de janeiro do corrente ano. A revista Cultura Política
divulgou, em seu número de abril, o discurso até então inédito, no qual
há conceitos de grande oportunidade, não somente para todos em geral,
como para os trabalhadores da Geografia, em particular.
Focalizando a
finalidade da criação dos Territórios Nacionais, teve S. Excia. ocasião
de proferir palavras de muita importância, com efeito, para todos os
que labutam em nosso setor geográfico. Ao afirmar, por exemplo, que “A História dos povos está ligada à sua Geografia”,
certamente não disse S. Excia. Uma novidade mas, ao fazê-lo, quis sem
dúvida frisar a importância que a ciência geográfica possui; tanto mais
que houve por bem acrescentar: “Segundo a distinção dos sociólogos a
Geografia estuda a organização dos povos em sua forma estática e a
geopolítica é a forma dinâmica de sua evolução. É o destino dos povos
ligados à terra e plasmado pela energia criadora do homem”.
Atribuindo
ao homem um valor criador, colocou-se claramente, S. Excia. dentro dos
postulados da escola geográfica francesa que, como sabemos, admite –
como diria Vidal de La Blache – o homem como verdadeiro agente
geográfico, mais ator do que espectador em face da natureza.
Mas
desta ou daquela maneira, S. Excia. – na qualidade de Presidente da
República – dando um justo destaque à obra da Geografia no destino dos
povos ligados à Terra, trouxe a todos nós, professores de Geografia e
geógrafos do Brasil, um incentivo, uma palavra de ânimo e, outrossim, um
reconhecimento público, de que sabe apreciar e avaliar a obra dos que
sinceramente se empenham no conhecimento certo e metódico da terra
brasileira (Pereira, 1944, pp. 127).
41Ao
interpretar este fragmento é necessário ter em mente que o governo de
Vargas foi o primeiro a instaurar um sistema de gerenciamento do Estado
que tinha por base o controle pormenorizado do território. A
criação do IBGE não foi um fato isolado, antes fazia parte de um plano
de expansão do poder central calcado em uma base territorial, para a
qual era fundamental o conhecimento geográfico.
42Nas
décadas de 1930 e 1940 os profissionais de geografia participaram
ativamente de planos de gerenciamento, redivisão das unidades estaduais e
criação dos territórios federais. A criação dos territórios estava
relacionada principalmente com a soberania nacional sobre as regiões de
fronteira. Estes integravam as tentativas de colonização do interior do
Brasil, na chamada “Marcha para o Oeste”, um esforço do governo federal
para aumentar sua presença em regiões fronteiriças de baixa densidade
demográfica e rede urbana precária. Com a entrada do país
na Segunda Grande Guerra, em 1942, governo desmembrou áreas
estaduais situadas em regiões estratégicas nas fronteiras do país ou no
Atlântico, passando a administrá-las diretamente como Territórios
Federais: Amapá, Rio Branco, Ponta Porã, Guaporé, Iguaçu e Fernando de
Noronha.
43Com
a associação cada vez mais forte entre o Estado getulista e o controle
do território nacional, a importância da geografia e dos geógrafos
aumentava de forma considerável. Em um contexto de gerenciamento
estratégico das fronteiras e da busca de equilíbrio no desenvolvimento
econômico nacional, os geógrafos eram os portadores do conhecimento que
viabilizaria os planos integradores da presidência.
44Assim,
a geografia na Universidade do Ar concentrava todas as características
de autonomia reivindicadas pelo Conselho, em contraposição ao curso
universitário presencial na UB e USP, por exemplo:
Todas
as rememorações que acabei de fazer, têm o mérito, antes de tudo, de
fortalecer e revigorar a esperança de que este, será também o ano
geográfico para a Universidade do Ar.
E tudo indica que assim venha a ser.
Em
primeiro lugar, considerando-se o número já volumoso de candidatos que
desejam matricular-se em seus cursos, entre os quais o de Geografia do
Brasil e o de Geografia Geral. (...)
Em terceiro lugar, a novidade que a Universidade do Ar
apresenta no presente ano letivo, qual seja a de dividi-lo em duas
partes distintas: uma totalmente consagrada à Geografia do Brasil, outra
dedicada apenas à Geografia Geral, o que traz a vantagem de permitir
que se possa estudar a matéria com maior intensidade, evitando, ainda, o
inconveniente de terem os colegas de esperar muitos dias para ouvir a
continuação de um assunto anteriormente explanado. Além do mais, é
preciso acrescentar que outra razão existe para se esperar um aumento
sempre crescente de estudiosos na Universidade do Ar. É que
sempre existiu, entre nós, um número vultuoso de apaixonados da
Geografia, tanto da boa quanto da má Geografia (pp. 127-128).
45A
temática dos cursos especializados em geografia retorna quando o autor
fala do “amparo e reconhecimento público do alto valor da geografia e do
Conselho” pelo presidente:
Por
que não esperar, pois, que aumente o número dos trabalhadores da boa,
útil e construtiva Geografia, se, hoje, além dos cursos e faculdades
especializadas, temos também já um ambiente favorável para as
convenientes pesquisas e trabalhosas observações? Por que não
esperar que o número aumente, se principiamos a encontrar no país, e
cada vez mais, a necessária e indispensável atmosfera moral e de amparo,
em nosso favor?
O coroamento desse ambiente propício, indispensável,
deu-nos S. Excia., o Sr. Presidente da República, não somente criando o
Conselho Nacional de Geografia, como prestigiando-o, e, finalmente,
reconhecendo, de público, o alto valor que a Geografia – e portanto,
seus trabalhadores – possuem em face da cultura e dos destinos do Brasil
(p. 128).
46Parecia
justo, ao conferencista, que tal reconhecimento se traduzisse em ações
institucionais em prol da autonomização acadêmica da disciplina. Embora elaborado, seu discurso era também bastante comunicativo, procurando causar impacto nos ouvintes:
Que trabalhem os mestres de ofício nas oficinas e o químico ou físico, dentro das quatro paredes de seu laboratório. Nós,
não! porque a nossa ciência possui um laboratório maior e mais
expressivo – o laboratório da natureza, como já se tem dito (p. 129).
47É
interessante salientar que, neste discurso, a exploração tinha um papel
muito maior que o trabalho de gabinete para os geógrafos, cuja função
consistiria em organizar o material reunido nas expedições, ganhando
relevo apenas quando vinculado e subordinado às atividades de campo.
48Esta
valorização da exploração territorial era utilizada pelo autor como um
recurso retórico, um chamamento aos brasileiros para que se tornassem
protagonistas da produção do conhecimento geográfico sobre o seu próprio
país, apesar das dificuldades envolvidas na tarefa:
O Brasil ainda não possui um número suficiente de técnicos, especialmente contratados, para realizar pesquisas de campo. Não
dispõe, também, de recursos financeiros fartos, não só para
remunerá-los bem – como devem ser remunerados – como para atender às
exigências de seu vasto território, infelizmente ainda muito mal
conhecido e estudado.
Por que não há o colega [o profissional
brasileiro de geografia] de facilitar essa tarefa tão grandiosa, qual
seja a do melhor conhecimento geográfico de nosso país, estudando, aí
mesmo, onde vive, a pequena porção da terra brasileira que lhe dá o pão
nosso de cada dia? Ou será preciso que esperemos pelos estrangeiros afim
de que possamos ter conhecimentos de segunda mão? (p. 129).
49Para o autor, a função do curso de Geografia era a de formar profissionais comprometidos com a exploração de seu país. O curso não seria apenas meio de receber um diploma, mas uma base orientadora para as atividades do futuro geógrafo.
50Os
argumentos do autor, evidentemente, iam ao encontro das resoluções
aprovadas pelo Conselho. Assim, questões como a defesa da autonomia a
partir da diferenciação entre a geografia e outras ciências, bem como o
possível desdobramento do currículo de geografia em uma parte geral e
outra referente ao Brasil, aparecem no conjunto das preocupações.
51Veríssimo
Pereira advoga em favor da exploração territorial, realizada por
geógrafos brasileiros, os quais deveriam receber a melhor formação
possível. Definindo esta atividade como a mais importante a ser
desempenhada pelos geógrafos, o autor defende ainda a delimitação clara
de um campo de trabalho para uma profissão a ser formalmente
estabelecida, com atividades bem delimitadas e um modelar ambiente
institucional de trabalho: o Conselho Nacional de Geografia, abrigado no
IBGE.
52A
partir da análise das resoluções do Conselho Nacional de Geografia e do
discurso de José Veríssimo da Costa Pereira, podemos perceber que havia
uma estratégia em curso para a luta pela autonomia da geografia tanto
no campo científico quanto no profissional. Os geógrafos ligados
ao IBGE não reivindicavam apenas a separação dos cursos de Geografia e
História, mas um modelo de formação que fornecesse o suporte necessário
às atividades de levantamento e exploração territorial. Ademais, a
crescente importância da geografia nas iniciativas de gestão territorial
do Estado brasileiro só fazia aumentar a insatisfação dos geógrafos com
sua formação universitária.
53Aliado
a esses dois fatores, há ainda a questão da circulação dos professores,
técnicos e alunos entre a universidade e o IBGE, o que contribuía
decisivamente para a defesa de um modelo de formação que conjugasse o
papel da universidade ao trabalho de campo, viabilizado somente nos
marcos institucionais do IBGE. Desta forma, a mobilização pela separação
do curso de História integrava um conjunto de reivindicações que tinha
como objetivo maior tornar a universidade um local de treinamento
profissional dos geógrafos para as explorações. Neste sentido, ela
deveria estar alinhada às atividades profissionais que seriam exercidas
pelos estudantes.
54A
avaliação dos documentos produzidos pelos geógrafos à época nos
possibilita discutir como foi conduzida a argumentação que levou à
separação dos cursos e à regulamentação da profissão de geógrafo. É
interessante perceber ainda que, mesmo com o passar dos anos, o debate
em torno da autonomia e da profissionalização continua mobilizando a
atenção dos profissionais, tanto da História quanto da Geografia. Quem
sabe o estudo desses debates nos anos 1940 forneça elementos que
auxiliem a compreensão da recorrência de tais discussões na atualidade.